texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota
Em tempos onde métricas de redes sociais e outras questões algorítmicas viram cada vez mais um critério de definição para curadoria musical de shows e festivais, sempre vale olhar para quem vai na contramão da lógica publicitária. É o caso da Maraty, produtora tocada por André Barcinski e Leandro Carbonato, ao juntar, em uma apresentação no meio da semana em SP, três nomes sem relação aparente entre suas propostas sonoras: Ema Stoned, Odair José e The Brian Jonestown Massacre – para alegria dos fãs de Anton Newcombe e associados, já saudosos da primeira passagem do conjunto pelo Brasil, em 2023. Embora sejam artistas conhecidos e conceituados dentro de seus nichos, é improvável que alguém, ao fazer o bingo de 2025, cravasse que o responsável pelo obscuro clássico “O Filho de José e Maria” (1977) e outros hits radiofônicos dividiria o palco com atrações mais contemporâneas e associadas a um som mais denso e alternativo.

Longe de causar estranheza, a mistura fora da curva e dos algoritmos funcionou logo de cara com Ema Stoned. Incumbidas de iniciar os trabalhos no Usine, Ale Duarte (guitarra), Elke Lamers (baixo) e Theo Charbel (bateria) prendiam a atenção de quem lá estava com a imersão cinemática que é habitual em seus shows. O público – que aos poucos vencia o inevitável trânsito paulistano e chegava na casa – era recebido com uma saudação de frequências que ia do drone mais suave até uma muralha de guitarras e bateria. Ao vivo, a Ema Stoned vai além do que está presente em discos de estúdio (como o mais recente “Devaneio”, de 2023) e estimula quem está assistindo a simultaneamente dançar e viajar, não só pelos arranjos do trio mas também pelos visuais etéreos projetados no telão.

O clima viajante e algo introspectivo da abertura mudaria pouco depois, com o rock n’ roll eufórico e sem cerimônias de Odair José. Apoiado por uma competente banda, o compositor mostrou vitalidade e peso cantando e tocando guitarra enquanto desfilava hits como “O Casamento”, “A Noite Mais Linda do Mundo (A Felicidade)” e a icônica “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, dedicada pelo próprio “a todas as putas do planeta”. Também funcionaram outras mais recentes e menos celebradas do repertório, como a roqueira “Carne Crua”. Para encerrar, outra clássica: “Cadê você”, numa pegada mais power pop do que a onipresente versão sertaneja de Leandro e Leonardo que marcou os anos 1990. Show simples, eficiente, e com a plateia cantando tudo. Odair merece isso e muito mais.

Mais um breve intervalo e a Usine, agora cheia, estava pronta para a segunda vinda dos The Brian Jonestown Massacre em terras brasileiras. Antes mesmo do grupo liderado por Anton Newcombe começar a tocar as primeiras notas de “Whoever You Are” em meio a microfonias e ruídos, a expectativa já estava nas alturas – e com o início oficial do show, o público se transformou em uma grande Igreja dos Devotos de Newcombe, aplaudindo igualmente sons de diversas eras como “#1 Lucky Kitty” (com uma levada contagiante), “Do Rainbows Have Ends” e “That Girl Suicide”. O som ressoava alto e pleno pela casa, com camadas de teclados, guitarras – e uma meia-lua sempre marcando presença – em meio a vocais que não eram gritados, mas se manifestavam quase como uma lembrança.

Nesse clima de congregação sonora, era divertido olhar para os presentes e ver cada um, à sua maneira, sentindo e apreciando as músicas, dançando sozinho ou acompanhado, balançando a cabeça timidamente, ou simplesmente conectado com o palco na mesma sintonia telepática de Anton Newcombe, vibrando a cada riff ou música surgida sem anúncio. Às vezes, a dinâmica no palco era um mistério: em alguns momentos entre as músicas, os integrantes ficavam parados como se decidissem qual seria o próximo passo ou como se o setlist fosse uma grande brincadeira decidida entre amigos. O clima era de jam, e isso se traduz perfeitamente em arranjos que mais parecem jornadas do que canções, a exemplo de “Don’t Let me Get in Your Way” e da envolvente “Anemone”, música citada pelo eterno Anthony Bourdain como favorita. E o final foi uma versão ruidosa e extensa de “Super-sonic”, que terminou de arrebatar os devotos ainda presentes em um grande abraço feito de distorção.

Em entrevista recente ao Scream & Yell, Newcombe rejeitou a idéia de rótulos ou convenções para as suas músicas: “Não é como se alguém fosse ouvi-las e pensar: isso parece música dos anos 80 ou música dos anos 90, do jeito que a música de outras pessoas pode ser interpretada. Nossa música não é baseada nisso. E é isso que eu amo na nossa música, sabe? É só música e é boa.” Essa noção da música como algo atemporal não é só algo que é comprovado ao assistí-lo ao vivo, mas vale igualmente para o restante do line-up escolhido para a noite: enquanto Ema Stoned cria sons que vão além dos limites do tempo (e das palavras), Odair José segue mantendo sua música viva e imune à ação do tempo. Cada um, à sua maneira, tem a sua forma de pensar, capturar ou parar o tempo através da arte.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/