Avantasia faz show de quase três horas e Tobias Sammet celebra André Matos em noite memorável

texto de Paulo Pontes
fotos de Giuliana Peramezza

Se considerarmos que a Avantasia esteve no Brasil menos de sete meses atrás, no Bangers Open Air, sem falar na quantidade imensa de shows que rolaram (e ainda vão rolar) no segundo semestre de 2025, não chega a ser surpresa que a noite do dia 17 de novembro, no Vibra São Paulo, não tenha sido sold out. Os ingressos, como já virou tradição nesta época do ano, entraram nas promoções de Black November e, mesmo assim, a casa estava longe de estar vazia. Pelo contrário: os fãs fiéis da banda, capitaneada pelo carismático Tobias Sammet, encheram o Vibra para o último show do Avantasia em 2025 – e saíram dali com a sensação de ter participado de algo muito maior do que um simples concerto.

Steel Tormentor

O aquecimento da noite começou do lado de fora, no Bar da Vibra, que fica colado à casa de shows. Quem chegou cedo pôde curtir o Steel Tormentor, banda cover do Helloween – “os pais da porra toda”, como ressaltou o vocalista –, que colocou todo mundo no clima certo. O sol ainda brilhava, mas os riffs pesados e os gritos dos fãs transformaram a tarde em uma espécie de prelúdio para a energia que estava por vir. O bar, normalmente ponto de encontro de quem chegava cedo, virou um mini-palco de celebração do metal, e dava para ver, nos rostos das pessoas, a expectativa de que aquela noite seria inesquecível.

Dentro do Vibra, o clima era uma mistura de ansiedade e expectativa. Enquanto o segundo tempo da final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras rolava no telão, o público se acomodava pro que estava por vir. E, pouco depois das 21h, Tobias Sammet e os músicos que o acompanharam nesta perna da turnê subiram ao palco para iniciar o espetáculo.

O palco, desta vez, era simples – nada comparável à grandiosidade do Bangers, que tinha pilares e portões simulando a entrada de uma mansão abandonada –, mas não precisava de nada extravagante para impressionar. Belíssimas imagens no telão criavam cenários fantásticos que, combinados com luzes e efeitos visuais, transformavam o palco em um espaço épico e envolvente. A simplicidade física era mais do que compensada pela riqueza audiovisual, e cada música parecia ganhar vida própria na tela atrás da banda.

O show abriu com a força de “Creepshow”, e foi impressionante ver a plateia cantar cada palavra, ainda que seja uma das novas músicas da banda. Tobias, sempre sorridente, parecia beber da energia do público. Entre uma música e outra, ele soltava comentários bem-humorados, explicava a origem das canções, reconhecia a resistência natural de alguns fãs a músicas novas do álbum “Here Be Dragons” – lançado em fevereiro –, mas deixava claro que confiava completamente na plateia: “Mesmo antes de subir no palco, eu sabia que podia confiar e contar com vocês para uma noite memorável, São Paulo”.

Os vocalistas que acompanharam Tobias nesta perna da turnê formavam uma combinação perfeita entre experiência e sangue novo, característica essencial do projeto Avantasia. Ronnie Atkins, lenda viva da música pesada, comandava cada faixa com autoridade e presença, mostrando por que é referência para qualquer vocalista ali no palco. Kenny Leckremo, jovem e cheio de energia, incendiava o público com seu vocal avassalador e atitude contagiante, lembrando a todos que talento e paixão podem se renovar a cada nova geração. Tommy Karevik trazia técnica e intensidade emocional, Herbie Langhans ocupava o palco com firmeza e segurança, Adrienne Cowan acrescentava camadas de intensidade e harmonias marcantes, enquanto Chiara Tricarico completava o conjunto com sensibilidade e potência vocal. Essa mistura equilibrada transformava cada música em um diálogo entre tradição e novidade, veterania e frescor, criando uma experiência única e coesa.

O setlist de quase três horas foi uma mistura perfeita de clássicos e faixas novas, organizadas de forma a nunca deixar a plateia esfriar. A primeira parte do show foi marcada, em sua maior parte, por músicas do novo disco, enquanto a segunda metade transformou o palco em uma arena épica, com músicas clássicas, como “Avantasia” (essa fazia um tempo que não entrava no setlist da banda e foi recebida com uma empolgação ímpar pelo público), “The Toy Master”, “Twisted Mind” e “The Scarecrow” (outra que levou a galera à loucura). A resposta do público foi instantânea: cantos uníssonos, braços erguidos, pulos e vibração a cada acorde. O Vibra parecia um organismo vivo, pulsando junto com a música.

Mas foi na reta final que o show se tornou algo mais do que um espetáculo musical: se tornou um momento de homenagem, memória e emoção compartilhada. Antes de tocar “No Return”, Tobias iniciou um discurso pra falar sobre a importância de um vocalista em especial, recebeu da plateia uma camiseta com a foto da lenda Andre Matos, parceiro e amigo pessoal de Tobi, que segurou a camiseta diante do público, visivelmente comovido. A plateia, sentindo a intensidade do momento, iniciou o coro: “Olê, olê, olê, olê, Andre, Andre!”, enquanto outros cantavam brevemente “Inside”, em homenagem ao legado do cantor.

Tobias dedicou palavras sinceras e emocionantes: “O melhor cantor que já surgiu na América Latina, um dos melhores cantores em todo o Universo, um dos melhores de todos os tempos e um amigo, jamais esquecido. Ele é um de vocês, Andre Matos. Deus abençoe sua alma.” Houve reverência, seguida de aplausos. Foi um momento de união e lembrança de um cara que deixou um legado incomparável na música pesada nacional.

O encore foi a coroação da noite. “Sign of the Cross” (com o refrão de “The Seven Angels”, momento em que todos os músicos subiram ao palco) fechou o espetáculo com chave de ouro. O público, inebriado, cantava, pulava e se emocionava junto. Tobias Sammet, ao lado de Ronnie Atkins, Kenny Leckremo, Tommy Karevik, Herbie Langhans, Adrienne Cowan e Chiara Tricarico, provou mais uma vez que, quando talento, carisma e público se encontram, a magia acontece – e permanece, mesmo depois do último acorde.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.

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