entrevista de Danilo Souza
O Kintsugi, uma arte japonesa que, explicando de forma simples, é sobre consertar algo que foi quebrado e tornar ainda mais bonito do que era antes, define não só “Estação Liberdade” (2025), sétimo disco de inéditas do Vanguart, mas também a nova fase da banda, que após dois discos de inéditas na pandemia [“Intervenção Lunar”, de 2021, e “Oceano Rubi”, de 2022], decidiu tirar 2023 para uma pausa e, mesmo voltando para shows em 2024 e 2025, não sabia se fazia “sentido seguir tocando ainda”, nas palavras de Hélio Flanders nesta entrevista. “Ficamos realmente sem saber o que seria da banda”, completa o parceiro Reginaldo Lincoln.
Reduzidos a uma dupla com a saída de Fernanda Kostchak em 2024, o Vanguart começou o processo de “Estação Liberdade” com um brainstorm que trouxe a arte do Kintsugi como uma das inspirações do novo trabalho: “O Reginaldo trouxe essa ideia (…) E isso explicou um pouco o nosso retorno de uma forma criativa”, diz Helio Flanders. “Tivemos esse cuidado com a banda e com essas canções para que tudo isso seja cada vez mais bonito e valioso. Por isso que tem essa ligação (com o Kintsugi)”, complementa Reginaldo Lincoln.
No estúdio, Hélio (voz, violão e guitarra) e Reginaldo (voz, baixo, guitarra e piano) contaram com o apoio de Arquétipo Rafa (bateria e percussão) e Rodrigo Tavares (teclas) mais um quarteto de cordas (nas canções “Noites de Domingo” e “Guaxinim”) e trio de metais em “O Mais Sincero”, entre outros. Porém, o nome que chama mais a atenção nos créditos é o de Rick Ferreira, fiel escudeiro e principal guitarrista da carreira de Raul Seixas, que participa de duas faixas tocando steel guitar: “Foi algo gigante, porque somos fanzaços dele”, assume Reginaldo. Abaixo, ele e Hélio falam mais sobre esse novo momento do Vanguart.
Ouça o álbum “Estação Liberdade” abaixo
Primeiro, a gente tem que contextualizar o período que veio antes do disco: a pandemia e o hiato que vocês tinham dado no Vanguart (em 2023). Como foi esse período de pausa? Vocês chegaram a duvidar se voltariam a gravar juntos?
Hélio Flanders: Acho que foi tudo isso. Tivemos todas as etapas desse processo. Foi uma pausa de uma banda que tem mais de vinte anos tocando juntos e que é uma relação que temos desde muito jovens mesmo. Acho que todo mundo passou por isso, de certa forma, com o susto da pandemia e o que estava acontecendo… daí veio o questionamento se fazia sentido para a gente seguir tocando ainda, tanto no sentido de ser viável, quanto no de ainda ter uma vontade genuína. Nós fizemos dois discos na pandemia [“Intervenção Lunar”, de 2021, e “Oceano Rubi”, de 2022] e nós gostamos muito deles, mas fazer um disco e não viajar com ele, não tocar… vimos o quão difícil é e acho que tudo isso complementou [para o hiato em 2023].
Reginaldo Lincoln: Foi muito isso. Passamos por várias fases dentro desse período de dúvidas e ficamos realmente sem saber o que seria da banda. A Fernanda [Kostchak] tinha começado o processo de saída [da banda] e, na verdade, não foi nada anunciado entre nós… essas distâncias físicas foram acontecendo. A pandemia acabou dificultando tudo, então não foi algo tipo “vou fazer isso e ficarei tanto tempo fora”, não teve isso, entendeu? Mas não teve nenhum desespero nesse sentido de preocupação com a banda, porque a gente realmente estava só vivendo, simples assim. E aí, quando conseguimos conversar sobre se encontrar, entendemos que valia a pena ver o que seria voltar pro palco e entender o que as pessoas estavam querendo da gente ou não. Foi muito bonito essa volta e nós nos enchemos de vontade de fazer tudo outra vez, de compor de novo, de fazer álbuns… e aqui estamos!
O disco faz uma comparação com à arte japonesa do Kintsugi, que tem sua filosofia baseada em valorizar as imperfeições para as transformar em algo belo. Como esse conceito entrou no álbum?
Reginaldo Lincoln: Escrevi essa palavra na minha mesa embaixo do teclado do meu computador quando vi alguma coisa sobre isso, acho que no Discovery Channel, talvez, não me lembro ao certo… mas falei: “Nossa, que coisa mais linda!”. E escrevi para não esquecer. E aí fui ver, pesquisei, entendi, e isso ficou escrito e guardado. Quando estávamos fazendo uma reunião sobre a história do disco, vi que isso tem muito a ver com a gente e sobre o que gostaríamos de fazer com o que já construímos até hoje. No Kintsugi tem aquela coisa do moldada a ouro, então tudo fica muito mais valioso e tal, e nós tivemos esse cuidado com a banda e com essas canções para que tudo isso seja cada vez mais bonito e valioso. Por isso que tem essa ligação.
Hélio Flanders: Foi bonito, porque o Reginaldo trouxe essa ideia num brainstorm que a gente estava tendo e eu falei: “Caramba! Tem ‘Estação Liberdade’, uma música que basicamente fala sobre isso”, sobre surpreender o fim, sobre um retorno, sobre você ir embora para poder voltar como uma outra pessoa, voltar melhor e voltar inteiro, sem os cacos quebrados, e sim com eles colados e ressignificados. Então, quando o Reginaldo trouxe isso, o disco explicou um pouco o nosso retorno de uma forma criativa.
O nome do álbum, “Estação Liberdade”, pensando nessa volta da banda, parece deixar aberto para ter várias interpretações, né? O que significa essa “estação” para vocês?
Reginaldo Lincoln: Falando da faixa que dá nome ao disco, ela já nasceu com um riff que é meio movimentado e a harmonia vai sempre crescendo. Já a letra saiu naturalmente. No estúdio, a gente teve a felicidade de achar um arranjo que também é para frente, porque essa é uma música que ela nunca volta, ela apenas pausa e respira, como se fosse essa coisa do trem mesmo.
Hélio Flanders: Acho que em “Estação Liberdade” tudo acaba fazendo sentido meio sem querer, porque a coisa da estação era apenas por conta do verso do casal que se encontra em uma, mas, de repente, traz ainda mais significado entender que é uma estação de partida. Então, é Estação Liberdade porque é isso que a gente sente agora… um total estado de espírito.

A sonoridade traz mesmo um pouco dessa ideia de uma estação, como se as canções fossem uma viagem de trem ou metrô, é legal… vocês estavam buscando isso quando estavam compondo e gravando ou aconteceu durante o processo?
Reginaldo Lincoln: É legal você falar isso, porque não tem como planejar. Nós não conseguimos compor pensando em como será o resultado final do álbum ou na junção das músicas, mas, assim que terminamos as gravações, obviamente pensamos em uma sequência para as canções para que realmente tenham um fluxo tanto de entendimento de letra quanto das nuances de colocar a pessoa num certo lugar poeticamente, mas também musicalmente. Foi assim que a gente chegou nessa sequência de canções. Nós gostamos muito disso de entender o álbum como um movimento contínuo, mas que também tem uma história para contar do começo ao fim.
Esse é um disco maduro em seus temas e letras. O que vocês acham que define essa fase do Vanguart?
Hélio Flanders: Acho que os dois discos da pandemia são mais maduros, mas no sentido “idoso”, tipo, gravei os vocais sentado. A gente sabia que não ia fazer shows quando essas músicas dos discos anteriores vieram ao mundo, então tinha quase como um fator ser uma energia mais baixa mesmo. Gosto desses discos por isso. O [álbum] “Beijo Estranho” [de 2017], por exemplo, é um disco muito nervoso, muito virulento, eu diria, e o “Estação Liberdade” é o equilíbrio dessas duas coisas. Acho que ele é maduro, mas também acho que tem muito vigor nele, aquele vigor de, sei lá, você com 40 anos se separa e é obrigado a viver de novo coisas que achou que não ia mais viver e sabe que não tem muito tempo. Então, acho que esse é um disco maduro, mas apressado no sentido de “vou viver tudo ao máximo, porque o trem está passando nessa estação e eu não sei quando ele vai passar de novo…”, é isso!
Falando em participações, não tem nenhum feat como intérprete, mas na ficha técnica aparece um nome icônico da música brasileira: Rick Ferreira, que foi parceiro de estúdio de Raul Seixas, e que tocou steel guitar em “A Vida É Um Trem Cheio de Gente Dizendo Tchau” e em “Rua do Passado”. Como foi isso?
Reginaldo: O Rick sempre foi uma referência, principalmente do steel guitar, e essa coisa dele ter gravado com Raul sempre foi muito grande pra nós. A gente já tinha namorado a possibilidade de tocar com a gente lá no [disco] “Muito Mais Que o Amor”, em 2013, e acabou que deixamos meio quieto. E aí agora, através do Rafael Ramos, que produziu o álbum conosco, tivemos contato direto com o Rick. O Rafael falou pra ele: “Tem umas coisas aqui do Vanguart, ouve aí, vê se você gosta e se está afim de fazer algo…”, e ele ficou feliz. Inclusive, na faixa “A Vida É Um Trem Cheio de Gente Dizendo Tchau”, me lembro do áudio que o Rick mandou super emocionado e feliz de gravar a canção, porque a letra bateu nele. Foi um acerto! Ele tocou nessa e em “Rua do Passado”. Iam ser três, mas acabaram sendo só essas duas. Foi algo gigante, porque somos fanzaços dele.
Depois de mais de vinte anos de carreira, e, principalmente, depois dessa pausa que marca um “recomeço”, o que vocês estão sentindo após lançar esse disco e o que esperam que virá a partir dele?
Hélio Flanders: Estásendo uma sensação que estamos sentindo ainda. Inclusive, estava aqui pensando “nossa, a gente precisa pensar numa abertura para esse show, tem que ter uma abertura foda!”, nós estamos realmente nesse turbilhão de emoções pós lançamento. Nós já passamos por todas as fases, chegamos a odiar o disco ali no final, porque estava todo mundo cansado e esgotado… agora já estamos muito bem, entendendo de novo e conseguindo ouvir satisfeitos. Passamos por todas as fases, que, inclusive, são importantes e a gente precisa. Tem coisas que precisamos ficar cansados mesmo e dar um tempo, pra depois, quando ouvir de novo em outro momento, ter a certeza de que é isso que queremos mesmo. Vamos fazer shows em São Paulo e no Rio esse ano e a partir de março do ano que vem vamos para as outras cidades. A nossa ideia é levar para o maior o maior número de lugares possíveis. Isso é possível, mas, como sempre, vai depender muito também da galera pedir e tudo mais, mas vai ser especial.
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/.