por Herbert Moura
A Funmilayo Afrobeat Orquestra é uma banda brasileira de afrobeat formada em 2019 pela cantora e saxofonista Stela Nesrine e pela trompetista Larissa Oliveira. Provocadas pela ausência de mulheres negras no afrobeat, um gênero essencialmente negro, buscaram outres artistas para dar vida ao projeto, somando hoje 11 mulheres e 1 pessoa não binária. O primeiro single, “Negração”, saiu em 2019, e de lá pra cá o grupo lançou um álbum cheio (“Funmilayo”, 2022), gravou uma session com Seun, filho de Fela Kuti, e apresenta, agora, “De Ponta a Ponta” (2025), novo EP de três faixas.
“De Ponta a Ponta” expressa as experiências das integrantes com a cidade de São Paulo – território de contradições, desigualdades, encontros e possibilidades. Aqui, a Funmilayo amplia sua sonoridade com influências de rap, reggae, soul, jazz e música popular brasileira. A entrada da tecladista Anacruse e da baixista Keith Félix trouxe novas camadas eletrônicas e graves marcantes, sob direção musical de Marcos Maurício, que também assina arranjos, edição e mixagem.
O repertório abre com “A Cidade é um Espelho”, de Rosa Couto, inspirada na obra de Itamar Assumpção, para traduzir a relação de amor e estranhamento com São Paulo. Em seguida, “O Encanto e a Maquinaria” reflete sobre racismo ambiental e os ritmos sufocantes da metrópole, com letras que evocam símbolos afro-indígenas. A faixa-título, composta por Sthe Araujo, fecha o EP como celebração crítica da vida urbana, inspirada em suas vivências no extremo sul paulistano, transformando o “bonde” em metáfora do movimento contínuo da cidade.
A capa, assinada por BraNw, artista periférica paulistana, traduz a atmosfera onírica e caótica do EP em diálogo com a cidade, evocando a icônica “Bitches Brew”, de Miles Davis. “Queremos transmitir um pouco das vivências de cada integrante da banda no território cheio de conflitos, disputas e oportunidades que é a cidade de São Paulo. Como pessoas negras, perguntamos sempre: quais são nossos desafios? Como é ser de axé numa cidade de concreto? Essas questões atravessam nossa música e sustentam nossa resistência”, destacam.
Conheça o EP faixa a faixa abaixo:

01) A CIDADE É UM ESPELHO: Intensamente inspirada pela escuta do afrobeat e também pela obra de Itamar Assumpção, a cantora e compositora Rosa Couto tenta traduzir na música a sua relação de amor e ódio com São Paulo, cidade para a qual se mudou há 10 anos. Rosa estudou profundamente a obra de Itamar Assumpção e se inspirou no disco Sampa Midnight – Isso não vai ficar assim” (1983) para criar o clima soturno que predomina em sua composição. Além desse álbum, Rosa se inspira em outra letra de Itamar, “Persigo São Paulo” (presente no álbum “Pretobrás III – Devia Ser Proibido”, de 2010), que diz “São Paulo é outra coisa/ Não é exatamente amor/ É identificação absoluta/ Sou eu”, no intuito de expressar a experiência de uma pessoa vinda do interior de Minas Gerais, desbravando a capital paulista, fato que se reflete nos tensionamentos harmônicos, na rítmica, nos acontecimentos musicais que passam e nem sempre retornam e na letra curta e direta.
02) O ENCANTO E A MAQUINARIA: Essa surgiu durante o período de chuvas e alagamentos no início do ano de 2025, entremeado pelas discussões sobre o racismo ambiental e como os desastres atingem de forma desigual as diferentes classes sociais. Essa música é uma reflexão sobre o ritmo da cidade e a forma como ela atropela pensamentos e discussões importantes, sobre como o capitalismo sufoca a nossa saúde e a natureza. Na letra, Jasper Okan faz um jogo de palavras com diferentes tipos de fumaça. “Fundanga” é como se chama a pólvora que usam em terreiros para trabalho de descarrego pesado. Já a “Quiumba” é nome que se dá a um espírito de vibração baixa que faz mal às pessoas vivas e prejudica a vida de quem encosta. “Catimbó”, por sua vez, vem do Tupi e significa “fumaça de erva” ou “vapor de erva”, fazendo referência aos rituais de cura. Essa comparação visa ressaltar a importância dos terreiros de matriz africana e comunidade indígenas como referência na forma respeitosa e harmoniosa de conviver com a natureza.
03) PONTA A PONTA: Criada na zona sul de São Paulo, Sthe Araujo fala sobre os desafios de transitar numa cidade múltipla como a capital paulista, as diferenças de cada um dos seus cantos e as encruzilhadas que ela apresenta, repleta de desejos, sonhos, faltas e ausências. Cheia de esperança, essa música celebra de forma crítica as possibilidades que São Paulo abre a todos que nela transitam. A partir da figura poética do “bonde” e da expressão “peguei meu bonde andando”, a faixa se desenrola num movimento contínuo que reflete a própria lógica da cidade: rápida e lenta ao mesmo tempo, cheia de acontecimentos. Na letra, Sthe Araujo traz sua vivência como mulher negra que cresceu no extremo sul da cidade e circulou batalhando o sonho de se realizar como artista.