texto de Leandro Luz
O grande vencedor do Leão de Ouro no 82º Festival de Cinema de Veneza protagonizou uma contenda que revela muito das tensões em torno das premiações de cinema nas últimas décadas. Será que existe sempre uma escolha certa quando tratamos de arte? A concorrência entre obras – por vezes tão distintas entre si – continua sendo uma proposta válida no mundo de hoje? O “nós contra eles”, intensificado pela forma como a sociedade se moldou diante da interação nas redes sociais, estaria minando o valor das obras em detrimento de uma apreciação mais livre e sincera?
Essas e outras perguntas invadem o raciocínio sempre que nos propomos a refletir a respeito de um filme que dividiu o público ou que, por uma razão ou por outra, foi julgado pela opinião pública como “impróprio” para receber determinada honraria. No caso de “Pai Mãe Irmã Irmão” (“Father Mother Sister Brother”, 2025), novo filme de Jim Jarmusch, um dos diretores independentes mais importantes para a história do cinema estadunidense recente, a polêmica girou em torno da necessidade de se premiar um filme com um discurso “mais urgente” – no caso, o longa-metragem em questão era “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, vencedor do segundo prêmio mais importante do festival e que denuncia o genocídio em Gaza -, o que teria gerado, segundo os tablóides, um racha no júri, com direito a desistência de um de seus integrantes. O boato foi veementemente negado por Alexander Payne, presidente do júri, que ressaltou a qualidade e a importância de ambos os filmes (vale lembrar que a nossa conterrânea Fernanda Torres também compunha a equipe do júri).
É evidente que prêmios são sempre um reflexo (e um sintoma) de uma determinada postura política por parte de quem os atribui. No entanto, cabe a nós, espectadores, assimilar todo o contexto e evitar a armadilha do olhar aprisionado. Precisamos, sempre que possível, encarar uma obra com a devida liberdade que ela merece, para que não a julguemos por parâmetros outros que não interessam. Afora decidir se o filme de Jarmusch mereceu ou não a láurea recebida, a conclusão que podemos chegar é a de que o artista está em plena forma, mantendo parte de seus interesses (políticos, estéticos, temáticos) em foco e depurando a sua artesania.

“Pai Mãe Irmã Irmão” é dividido em três segmentos: Em “Pai”, o paizão Tom Waits, músico sensacional e ator colaborador de longa data de Jarmusch, está impagável ao protagonizar uma comédia de timing perfeito, que também traz Adam Driver e uma inesperada Mayim Bialik (vocês a devem conhecer do elenco da comédia seriada “The Big Bang Theory”) na interpretação dos seus filhos que cruzam os Estado Unidos para visitá-lo em sua suposta pobre e solitária morada. “Mãe”, o segundo segmento, é estrelado por outro trio de peso e a comédia mais aberta dá lugar ao tragicômico: Charlotte Rampling interpreta a mãe das personagens de Cate Blanchett e Vicky Krieps; as três passam o ano inteiro afastadas – inclusive nas datas comemorativas como aniversários ou mesmo o Natal -, mas se encontram anualmente para uma tarde “agradável” de chá no coração de Dublin. “Irmã Irmão”, por fim, a parte mais terna de todas, acompanha outro núcleo familiar, dessa vez irmãos gêmeos, interpretados por Indya Moore e Luka Sabbat, que enfrentam o luto ao visitar o antigo apartamento dos pais em Paris.
Para costurar as três histórias que apresentam uma visão realista e agridoce das relações humanas – e familiares, lógico -, o diretor elege uma porção de motivos visuais, sonoros e temáticos que se repetem, cada um a seu modo, nas três histórias. Alguns são rapidamente identificáveis, como a atenção que o figurino concede às cores das roupas das personagens, a dúvida, enunciada frequentemente por várias pessoas, sobre brindar com água, café ou chá, e a contemplação do silêncio, elemento fundamental para as engrenagens do filme. A presença dos skatistas, filmados por Jarmusch com fascínio em cada um dos segmentos, também contribui para essa composição de unidade. O cineasta utiliza o recurso da câmera lenta para dilatar o tempo, colocando o espectador em sintonia com as personagens que abraçam essa dispersão por breves segundos. Não parece haver grandes enigmas na recorrência dos skatistas ou na maneira como todos esses elementos vão se repetindo de uma história para outra. Pelo contrário, o filme é muito simples em sua construção dramática, e absolutamente sofisticado na fabricação de seu estilo.
O processo criativo de Jim Jarmusch se dá pela coleta de pequenas ideias e inspirações até que elas se juntem em uma história coesa e um filme se forme. Segundo o próprio diretor, a fagulha que originou o projeto de “Pai Mãe Irmã Irmão” se deu com ele pensando em como seria legal fazer um filme com o Tom Waits sendo pai do Adam Driver. A partir dessa piração em prol da amizade – esta é a sexta colaboração com Waits e a terceira com Driver – incluindo-se ai “Sobre Café e Cigarros” e “Paterson” -, faz-se um filme.
Este é um cineasta reconhecido pela capacidade de criar histórias inusitadas, contadas pela via do minimalismo e adotando um tom contemplativo. Assim como em “Estranhos no Paraíso” (“Stranger Than Paradise”, 1984), marco do início de uma carreira singular, neste novo filme também vemos personagens um tanto estrangeiras às situações que estão vivenciando. As distâncias que se estabelecem entre os irmãos e entre os pais e os filhos nos dois primeiros episódios são de naturezas diversas, mas complementares. O diretor coloca a sua câmera de modo a valorizar a complexidade das situações. Monta, com a colaboração de Affonso Gonçalves – o mesmo montador de “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles -, valorizando os silêncios, os gestos, os olhares. Prefere deixar que o espectador tire as suas próprias conclusões dos diálogos por ora diáfanos, mundanos, mas que carregam uma profundidade muito maior do que somos capazes de assimilar imediatamente.
“Pai Mãe Irmã Irmão” é uma obra fundamentada em reflexões filosóficas muito particulares de um artista que insiste em caminhar devagar e de maneira contínua. O filme é de uma relevância política sorrateira, sem que se precise escancarar temas e conflitos por meio de malabarismos diletantes. Valoriza-se a generosidade dos atos, ainda que retribuídos por mentiras e disfarces. São de interesse do filme o cinismo (necessário, porém perigoso) diante da vida, a ironia e o prazer que conseguimos encontrar nos lugares mais inesperados.
Ao trazer essas relações familiares idiossincráticas, sobretudo as presentes nas duas primeiras partes, Jarmusch coloca no centro do debate uma discussão a respeito das diferenças, da necessidade de insistir em convivências nem sempre confortáveis, da importância de persistir em torno de afetos que nem sempre são afáveis. Um toque de mestre sutil de alguém cuja argúcia nem sempre é devidamente reconhecida.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.