Entrevista: Harmada lança “Os Fugitivos”, disco sobre pessoas querendo se libertar da prisão da tecnologia

entrevista de Bruno Capelas e Marcelo Costa

14 anos: esse foi o tempo que a banda carioca Harmada precisou para fazer seu segundo disco. Lançado no final de outubro e inspirado no universo ficcional de Rubem Fonseca, “Os Fugitivos” é o sucessor de “Música Vulgar Para Corações Surdos”, de 2011. Mas Manoel Magalhães, vocalista e guitarrista do grupo, evita comparações com outros álbuns que demoraram a sair do forno. “Não é o ‘Chinese Democracy’ da Harmada, porque eu acho que saiu certo. Muita merda aconteceu, mas também faz sentido dar merda e se acertar, né?”, brinca ele.

No melhor espírito “a vida é o que acontece enquanto a gente faz outros planos”, o disco chega às plataformas digitais depois que a Harmada passou por uma pandemia, um golpe e uma porção de outros projetos. No caso de Magalhães, essa lista inclui um disco solo, documentários (os já lançados “Nada Pode Parar os Autoramas” e “Itaperuna Esporte Clube, A Águia do Noroeste”, além de outro sobre o rock oitentista brasileiro ainda a caminho), uma tese de doutorado em finalização e um livro no prelo.

Ao mesmo tempo, o mundo também mudou de 2011 para cá: mais do que nunca, a relação entre as pessoas é totalmente mediada pela tecnologia. E é justamente disso que a Harmada quer falar neste novo trabalho, fazendo um paralelo entre o cerceamento da liberdade na época da ditadura e uma certa prisão, talvez autoimposta, vivida nos dias de hoje. “Nos anos 1960 e 1970, as pessoas tinham dificuldade de serem sensíveis ou vivenciar certas realidades. Agora, as pessoas têm essa liberdade – ao mesmo tempo em que elas estão aprisionadas na questão da tecnologia”, explica o vocalista, que faz o alerta: “Não há separação entre o que está sendo composto e o que está sendo vivido.”

Concebido desde 2015, após a finalização dos shows de divulgação de “Música Vulgar”, o novo trabalho teve uma longa gestação, levando a Harmada a alcançar inclusive uma nova formação. Além de Manoel e do também fundador Brynner Buçard (guitarra), a banda agora tem em suas fileiras Pedro Henrique Lacerda (guitarra e backing vocals), bem como dois veteranos do indie carioca: o baixista Bernardo Corrêa (ex-Monotube e Fuzzcas) e o baterista Rodrigo Garcia (ex-Onno, Magical Lovers e Polar). “O indie carioca agora está todo na Harmada”, gaba-se Garcia. “A gente brinca que tem Harmada de 4, que é quando o Brynner não está, a Harmada de 5 e a Harmada de 8, com os metais”, diz Magalhães.

No último mês de agosto, a “Harmada de 4” veio a São Paulo para fazer um show na primeira edição na Bretta – festa do Scream & Yell com o Programa de Indie. Na manhã seguinte, o grupo concedeu essa entrevista em uma insuspeita sala de estar paulistana, com direito a um frigobar abarrotado de cervejas.

No papo, além de contar os bastidores da feitura de “Os Fugitivos” e a criação da nova formação da Harmada, Manoel e seus companheiros também dissecam, faixa a faixa, o novo trabalho – que, para o líder da banda, fermentou como uma boa garrafa de guarda. “As canções desse disco também fazem cada vez mais sentido. Se ‘Os Fugitivos’ tivesse saído em 2018, não seria exatamente a mesma coisa”, diz o vocalista, nascido em Itaperuna, interior fluminense, mas radicado no Rio há mais de duas décadas.

Os planos para o futuro – e para um novo disco, já em preparação – também estão na pauta, mesmo em tempos soturnos. “[Com a inteligência artificial], as pessoas estão querendo deixar de pensar para que as coisas possam pensar por elas”, afirma Magalhães. “Ao mesmo tempo, é preciso ter esperança de que a vida vai ser boa. Não dá para ficar pensando que as coisas não têm solução. Senão, a gente não faz música, não faz nada.”

Ouça “Os Fugitivos” na integra abaixo

Bruno Capelas: Começando pelo começo: o disco se chama “Os Fugitivos”. Do que vocês estão fugindo?
Manoel Magalhães: Acho que a gente está fugindo… de dar certo, né?

Bruno Capelas: Você diz isso porque o disco demorou pra sair?
Manoel Magalhães: Faz parte dessa linha de raciocínio. Se você pensar, estamos fazendo esse disco há oito anos. Ou 14, se contar o tempo desde o “Música Vulgar Para Corações Surdos”. Mas fazendo o disco são oito anos. É quase inexplicável.

Bruno Capelas: É o “Chinese Democracy” da Harmada?
Manoel Magalhães: É. Quer dizer: não é o “Chinese Democracy” porque eu acho que saiu certo. (risos) Mas é estranho. Muita merda aconteceu, mas também faz sentido dar merda e se acertar, né?

Marcelo Costa: Como surgiu esse clique de pegar os contos do Rubem Fonseca, do livro “Os Prisioneiros”, e desenvolver essa temática da fuga?
Manoel Magalhães: “Os Prisioneiros” é um livro que fala muito do Brasil dos anos 1960 – e também dos anos 1970, de maneira geral. As pessoas estavam presas num cotidiano muito travado, do tipo de vida que se leva numa ditadura. São contos que falam de pessoas que faziam as coisas escondidas, na surdina. Pessoas que queriam ter perversões sexuais, encontros amorosos fora do padrão, pessoas que estão aprisionadas num país, num contexto social, buscando ir além daquilo. Tem uma coisa nesses primeiros livros do Rubem Fonseca que é um conto que se repete. Ele sempre começa os livros com um personagem caminhando – e o protagonista costuma ser, ao mesmo tempo, um cara violento, mas que tem uma necessidade de viver. No “A Força Humana” [do livro “A Coleira do Cão”, de 1965], o personagem vive um contexto de academia de malhação, de ser forte, ao mesmo tempo que ele tem uma subjetividade que não consegue expressar, porque a violência está acima da sensibilidade. Ele não consegue ser sensível porque está aprisionado na violência. E nos anos 1960 e 1970, as pessoas tinham dificuldade de serem sensíveis ou vivenciar certas realidades. E nos anos 2000, as pessoas têm essa liberdade – ao mesmo tempo em que elas estão aprisionadas na questão da tecnologia. A ideia de “Os Fugitivos” é a de mostrar pessoas querendo se libertar dessa prisão da tecnologia. A internet padroniza muito a vida. Toda experiência que você vai vivenciar é padronizada. Você vai comer por um aplicativo, vai andar de carro por um aplicativo, vai se relacionar num aplicativo. É tudo muito igual. Não sei se vocês têm a sensação de que, às vezes, tem uma onda na internet e as pessoas só querem o que está dentro dessa onda. “Os Fugitivos” é a minha forma de pensar na narrativa de pessoas que querem fugir disso. “A Estrada”, por exemplo, é a história de um cara que um dia percebe que não tem nada na vida. Não tem relacionamento, não tem família. Ele pode ir para qualquer lugar. É uma coisa que sinto que as pessoas não pensam muito. Conheço gente que poderia fazer qualquer coisa da vida e não faz porque já vive dentro de uma ideia. Cada letra, se você for pensar, é a história de alguém que está levando a ideia de fugir ao extremo, de fazer uma coisa que não é o que todo mundo está fazendo.

Bruno Capelas: É muito doido pensar nisso. A internet surgiu com uma ideia de liberdade, do nicho poder ter espaço, das pessoas discutirem suas paixões e interesses mais específicos. A Harmada é uma banda que vem dessa experiência, dessa geração. Esse desconforto do disco está relacionado com essa expectativa inicial do que a tecnologia viria a ser?
Manoel Magalhães: Se você pensar, há um grande diálogo que acontece entre a banda e a existência das pessoas. O “Música Vulgar para Corações Surdos” surge numa época em que comecei a perceber que as pessoas não estavam mais ouvindo música. A música tinha virado um ruído de fundo, da internet. Hoje, você vai fazer alguma coisa e coloca música para ouvir, não tem mais aquela atenção. Se em 2011 já sentíamos isso, hoje em dia é algo totalmente consolidado. Até acho que essa questão da volta do vinil é uma espécie de resistência a isso. Porque o streaming é totalmente ruído de fundo. “Alexa, toca qualquer coisa”. Você está pedindo para ela fazer música de fundo. Mas o que tem a ver com o que você disse é que os temas são relativos a determinadas coisas que estão muito intrincadas com a banda; ao mesmo tempo, estamos falando das coisas que vivemos. Não há separação entre o que está sendo composto e o que está sendo vivido. É bem próximo, na verdade.

Bruno Capelas: Já que você deu esse gancho, conta um pouco de quando essas canções começaram a ser feitas. O “Música Vulgar” saiu em 2011. Essas músicas surgiram quando?
Manoel Magalhães: O “Música Vulgar” saiu em 2011. Em 2012 e 2013, ficamos tocando. Acho que começamos o novo disco entre 2014 e 2015, foi quando eu comecei a compor. Mas só começamos a ensaiar em 2017. Eu não saberia explicar porque demorou tanto de 2011 para 2017. Mas em 2017 sei que a gente ensaiou muito.

Bruno Capelas: Quem é “a gente” nessa época?
Manoel Magalhães: Em 2017, a [baixista] Eliza [Schinner] tinha ido morar fora do Brasil. No lugar dela, eu chamei o Bruno [Vouzella], que é um parceiro de vida. Já tivemos banda juntos, fazemos filmes juntos…

Bruno Capelas: É que nem a música da Letrux.
Manoel Magalhães: (risos) O Bruno é quase o meu Lucas (Vasconcellos). Ele entrou para compor e fazer músicas comigo. O Davi Lisboa estava tocando bateria com a gente na época também, bem como o Brynner, que sempre fez parte da Harmada. O Brynner quase nunca está presente porque ele é médico, tem que operar as pessoas – e entre a vida de alguém e a Harmada, a vida é mais importante. Mas o Brynner é do núcleo da banda desde sempre. Nós quatro ensaiamos “Os Fugitivos” em 2017. Começamos a gravar no final de 2017. E nesse processo, problemas aconteceram… crises, problemas internos das pessoas. E em 2018, lancei meu álbum solo.

Marcelo Costa: Lembro disso. Quando entrevistei você nessa época, a gente estava conversando antes de ligar o gravador e você me contou que o disco da Harmada ia sair…
Manoel Magalhães: Pois é, a gente estava fazendo. Só que meu disco entrou na frente em 2018, em 2019 fiz turnê e em 2020 veio a pandemia. Aí ferrou.

Marcelo Costa: Que é uma ótima desculpa.
Manoel Magalhães: É a desculpa que procuro. Era o que eu queria para poder enrolar. (risos). Mas o engraçado é que o disco andou na pandemia: o Bruno gravou uns baixos, eu editei algumas coisas. Até que, em 2023, eu e o Brynner decidimos terminar essa parada de qualquer jeito. Nós nunca estivemos separados. Quando começamos a banda, éramos eu, Brynner, Juliana [Goulart] e Filipi [Cavalcante]. O Filipi foi casar, priorizou o casamento e… acabou saindo. E a Juliana, nesse retorno de 2023, chegamos a conversar com ela para ela voltar. Mas não rolou. E aí que foi a parte legal da galera nova que entrou na banda, porque isso nos deu muito gás. Tenho um amigo que é o Sérgio Luz. Produzi um disco dele como Jimi Light. E ele tinha uma banda que era o Jimi Light and the Magical Lovers.

Marcelo Costa: Muito carioca esse nome.
Manoel Magalhães: E os Magical Lovers eram o Silvio Essinger no baixo e o Rodrigo Garcia na bateria. Poxa, eu e Brynner éramos dois guitarristas, precisávamos de baixo e bateria. Falei com o Garcia pra gente se juntar, ia ser uma pizza metade Harmada, metade Magical Lovers. Além disso, tem um ponto maravilhoso nessa história: o Garcia era da Polar (nota: primeira banda de Manoel). Assim, chamando ele para a banda, a Harmada ia ser metade Polar também. Qualquer banda que tivesse nós dois vai ter 50% Polar.

Marcelo Costa: Garcia, nessa época, o que você estava acompanhando da Harmada?
Rodrigo Garcia: Eu estava olhando de longe. Na época em que a Harmada começou, eu já tinha parado de tocar. Quando a Harmada parou, eu devia estar tocando com o Ginger House, que éramos eu, Silvio Essinger e o Luizinho [Alberto Moura], que era da Grand Prix. Aí o Sérgio me chamou para tocar na Jimi Light. Depois da pandemia, a gente tinha parado. A bateria estava encostada, com poeira e teia de aranha. Já achei que não ia mais tocar. Achei que a vida ia ser trabalho-casa, casa-trabalho, até que o Manoel me chamou. Falei “bora” de primeira.

Marcelo Costa: E você sabia de toda essa história do disco?
Rodrigo Garcia: Não, não sabia. Cheguei a ver o show solo do Manoel, mas não acompanhei mais nada. Eles estavam gravando, era tudo em off, não deu para acompanhar.

Manoel Magalhães: O Sérgio foi para Portugal na pandemia, então os Magical Lovers estavam abandonados. Ia ser perfeito.

Bruno Capelas: Eles estavam precisando amar. (risos)
Manoel Magalhães: Na sequência, fui falar com o Silvio, mas ele disse que tinha se aposentado. Ele disse que nem tinha mais baixo. Fiquei perguntando por aí, estava difícil, chegamos a falar com a Eliza, até que eu lembrei que o Bernardo tocava com o Mike [Vlček]. Antes de tudo, quando tudo começou, lá no Big Bang das bandas, existia a Onno, que foi uma banda que inspirou muito a gente. E a Onno era o Garcia, o Mike e a Eliza. Quando a Onno terminou, o Mike fez a Monotube, e nessa banda o Bernardo tocava baixo. O Bernardo toca guitarra melhor que todo mundo da banda.

Marcelo Costa: Geralmente os baixistas fazem isso.
Manoel Magalhães: O Bernardo é um baita guitarrista, ele tocou na Fuzzcas, sempre foi um grande guitarrista. A princípio, não é a pessoa que você lembra por tocar baixo. Só que o Mike é um cara chatíssimo, muito detalhista. Ele não ia colocar alguém mais ou menos. E ele é muito beatlemaníaco, então o baixo tem um lugar especial. Fiquei pensando no Bernardo, porque a gente também já foi muito próximo na época da Quem. É legal até registrar nessa entrevista que, na nossa geração, tinha uma galera que vinha de Vila Isabel. O Garcia é de Vila Isabel, o Bernardo é de Vila Isabel, o bairro tem uma galera que transitou entre todas as bandas. Se precisasse de alguém para tocar, você ia lá catar em Vila Isabel.

Bernardo Corrêa: Tinha a Carol [Lima, do Fuzzcas], o [Rodrigo] Cosenza, [da Gioconda e da Quem?!], o Rodrigo Rodriguez, [da Regra Zero]…

Rodrigo Garcia: O Felipe Moura [irmão do Bernardo, da banda Mais do Mesmo].

Manoel Magalhães: A Carol montou o Fuzzcas depois, tem a galera dos Filhos da Judith, que depois foram tocar com o Erasmo. Na época da Quem e da Polar, eu convivia muito com essa galera. E um dia, nessas coincidências, acho que o Bernardo refez o Instagram.

Bernardo Corrêa: Acho que eu não tinha você no Instagram. Sei que eu estava em casa com o Cosenza, escutando as músicas daquela época, de Columbia, de Polar. Aí adicionei o Manoel e do nada ele me mandou mensagem.

Manoel Magalhães: Lembro que falei pro Garcia na época: “pô, o que você acha do Bernardo?”. Ele respondeu: “Berna? Berna is a monster!”. (risos). Foi a melhor escolha possível. É uma pessoa maravilhosa de conviver. Às vezes até fico pensando que a banda não pode acabar porque quero conviver mais com o Bernardo. (risos).

Bernardo Corrêa: No final das contas, ficou 50% Polar, 50% Monotube também.

A formação 2025 da Harmada / Foto de Pedro Freitas

Bruno Capelas: O indie carioca virando aquela pizza que dá pra pedir três sabores de uma vez. (risos)
Manoel Magalhães: Mistura total. E tem 50% da Onno também, porque quando a Eliza saiu da Onno, eu toquei baixo na Onno. Era o Mike, o Garcia e eu.

Rodrigo Garcia: O indie carioca está todo na Harmada!

Marcelo Costa: O indie carioca está parecendo uma kitnet. Todo mundo toca em todo lugar, você abre a porta da cozinha e bate no cara que está saindo do banheiro…

Bruno Capelas: Você abre a porta do camarim e tem alguém transando… (risos)
Manoel Magalhães: É total isso. Transitamos por várias bandas. É uma coisa que aconteceu também em São Paulo, essa coisa do Charles Gavin trocar com o André Jung.

Marcelo Costa: Ou seja, com o Garcia e o Bernardo, você conseguiu montar a cozinha…
Manoel Magalhães: Exatamente. E o Brynner estava sempre comigo. Mas o que acontece: o Brynner é anestesista – e é um anestesista muito bom. O que acontece é que é difícil marcar um compromisso com ele. Ele até tenta se organizar, mas tudo tem que ser muito ajustado. Ele se esforça, não dá para desfazer esse elo, porque a banda sempre fomos nós dois. Independentemente de tudo o que aconteceu, estávamos sempre juntos. Se quebrar esse elo, desfaz a banda. Para complementar, naquele momento em que o Bernardo e o Garcia entraram, o Brynner ainda teve um filho. Foi muito complicado. Pensamos que nós precisávamos ter alguém para tocar quando o Brynner não pudesse. Queríamos alguém que viesse para acrescentar, que pudesse funcionar com e sem o Brynner. E aí o Pedrinho é muito meu amigo. Ele não era dessa cena, mas chamei o Pedrinho…

Bruno Capelas: E isso foi quando?
Pedro Lacerda: Foi entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024, porque começamos a ensaiar bem no início de 2024. Eu cheguei a falar para o Manoel, antes disso, que minhas guitarras estavam quase enferrujando.

Marcelo Costa: O Manoel tirando todo mundo da aposentadoria…
Pedro Lacerda: Foi! Eu estava quase vendendo minhas guitarras. Mas comentei que podia marcar de fazer um som com o Manoel e ele lembrou disso. Ele me convidou, fizemos um ensaio e desde então estamos aí.

Manoel Magalhães: Foi algo que casou super. O Pedrinho conseguiu tirar as coisas que o Brynner faz, de maneira que não descaracteriza o trabalho. O solo que ele fez no show ontem é um solo do Brynner no disco, que ele tirou perfeitamente. Mas, ao mesmo tempo, ele também trouxe as coisas dele – e ele ainda canta. Quando o Brynner está, fica bom com os dois também. Fica um paredão de guitarras. A gente brinca que tem Harmada de 4, Harmada de 5 e Harmada de 8, que é com os metais.

Pedro Lacerda: É muito legal porque lembro exatamente de quando ouvi a Harmada pela primeira vez. Um amigo meu me deu um CD de vocês na porta do Studio RJ. Lembro de ouvir o “Música Vulgar”, “Avenida Dropsie” e “Sufoco” eram as músicas que eu mais curtia. É muito doido para mim, tantos anos depois, estar no palco tocando essas músicas. Sou de Vassouras, no interior fluminense, e lá as bandas todas eram cover. Sempre quis tocar numa banda que tivesse as próprias músicas. É legal fazer só “fazer um som”, mas eu estava cansado disso.

Manoel Magalhães: Lá em Itaperuna também tinha essa crise de que todo mundo toca cover. Lá, as pessoas até me olham meio assim: “olha o cara que faz a música dele…”. É uma coisa meio amor-e-ódio.

“Música Vulgar para Corações Surdos”, disco de 2011 da Harmada

Marcelo Costa: Recentemente, o Manoel escreveu um texto falando sobre os 20 anos da Harmada. É um repertório que para ele já tem uma carga. Pedro e Bernardo, como vocês viram esse repertório que o Manoel já tinha composto? E como foi trabalhar essas canções?
Bernardo: Acho que foi tranquilo. Ele mostrou as músicas porque queria voltar a tocar. Primeiro, nós ensaiamos o disco antigo. Depois, o Manoel mandou algumas do disco novo. Fiquei impressionado quando ele mostrou o single, “Quando Você Chegar”. A verdade é que eu sou fã do Manoel há muito tempo, desde a época da Quem. Só voltei a tocar porque era ele. Eu estava parado desde 2013, quando meu filho nasceu – se não fosse o Manoel ou o Mike, eu nem sairia de casa.

Rodrigo Garcia: Conheço o Manolo há muito tempo e sempre vi muito conteúdo nas letras dele. Na Polar, especialmente, pude ver que as letras eram bem profundas.

Bernardo: Sempre me pergunto de onde vem isso, porque ele tem muita facilidade para compor. As letras dele me tocam muito. O repertório é lindo, as músicas todas. Para mim, foi muito fácil aceitar.

Bruno Capelas: O quanto tem de participação destes rapazes no disco, Manoel? E o que ficou das gravações de 2017?
Manoel Magalhães: Ao longo do processo, nós já tínhamos muita coisa gravada. O único que não participou do disco foi o Garcia, porque as baterias já estavam gravadas. Geralmente, quando você grava um disco, você grava as guias e depois as baterias. O Davi Lisboa já tinha gravado umas partes de bateria. E quando a gente resolveu voltar, para facilitar o processo, eu pedi para o [produtor] Gustavo Krebs fazer as baterias que faltavam. Foram vários os motivos. Ele sempre esteve com a gente nas produções. Ele foi o produtor do primeiro disco, e agora ele mixou e editou. O Gustavo, vale lembrar, era do Clarim Diário – que era a banda da Vivian Benford. Eles foram casados por um tempo também. Depois, ele tocou numa banda chamada Narjara, que até teve problemas com a [atriz] Narjara Turetta por conta do nome. Depois, o Gustavo virou produtor e engenheiro de som, trabalhou muito tempo na Biscoito Fino. Foi por causa dele que a gente conseguiu gravar o primeiro disco. Ele trabalhava na Biscoito Fino e a Harmada ia lá e invadia as madrugadas na Biscoito Fino. Aquele disco é todo bem produzido porque foi gravado num estúdio de ponta. Era Maria Bethânia de dia e Harmada à noite. Mas enfim, para resolver as baterias eu deixei o trabalho com o Gustavo, porque as baterias eram a parte mais chatinha do disco.

Marcelo Costa: Você fez as pazes com as baterias do disco?
Manoel Magalhães: É, fiz as pazes. É uma coisa meio Gilberto Gil, sabe? “Os pecados são todos meus”. O problema nunca é com a pessoa. É comigo. Eu tenho um som na cabeça e estou tentando buscar… e às vezes…

Bernardo Corrêa: Uma pessoa não vai entregar o que você quer.

Manoel Magalhães: Pode ser um descompasso, porque a pessoa pode pensar em outra coisa. Eu talvez tivesse de ter a maturidade de manejar. Mas o espaço de gravação é muito forte. Poucos espaços tiram uma coisa quase visceral, animal, das pessoas, como um estúdio de gravação. Eu já vi gente super gentil virar um leão lá dentro.

Bernardo Corrêa: É o problema do taxímetro ligado.

Manoel Magalhães: É um ambiente tenso. É difícil criar relações em que todo mundo fique de boa numa gravação. Demora, né? Acho que é até mais difícil do que achar um companheiro.

Marcelo Costa: Mas às vezes todo mundo se odeia e dá um grande resultado!
Manoel Magalhães: Quantas vezes a gente já não ouviu isso? Realmente acontece. Mas voltando: só o Garcia não participou desse processo. Já o Bernardo já chegou e gravou. O Bruno tinha feito uma parte dos baixos na pandemia, quando ele chegou a vir ao Brasil. Ele está morando em Barcelona. E numa dessas vindas, ele tentou tocar “Piscina de Crianças Universal”… e ele já não conseguia mais. E aí o Bernardo pegou e fez facilmente. No fim das contas, teve o melhor de dois mundos: o Bruno gravou os baixos que ele compôs lindamente, assim como o Bernardo também pegou e fez outros baixos. Casou de ter dois caras que eu adoro fazendo baixos muito legais. E o Pedrinho chegou a ponto de colocar alguns backing vocals e guitarras dele. Agora, quero muito é fazer um disco com essa formação.

“Os Fugitivos”, novo disco da Harmada

Bruno Capelas: Aproveitando que a gente está nesse momento detalhista, vamos fazer um faixa-a-faixa. Vamos falar de “Destino”.
Manoel Magalhães: A única coisa da qual você não pode fugir é o destino, né? (risos). Cada música desse disco é um capítulo, que resume alguma ideia. Achei que tinha de ter um capítulo no disco a respeito disso. E tem uma coisa interessante: as pessoas tendem a pensar no destino como algo que vem do futuro. O destino está traçado, as coisas vão acontecer. Mas eu comecei a pensar sobre a função do passado no destino. Se você vivenciou determinadas coisas, todas as outras vivências são marcadas pelo que você já viveu. Toda a letra vai nessa metáfora: “eu queria não ter vivido”, “eu queria não sofrer com isso”, mas é inevitável. É o destino. Criei a letra sobre essas vivências anteriores do protagonista e essa inviabilidade de apagá-las, que é a história do “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Tem muito disso no nosso imaginário. É uma música da qual sempre gostei, ela começa muito leve, tem uma base lenta e no final ela explode. Mas sempre pensei que ela precisava de uma outra voz. O destino está relacionado à vivência com outras pessoas. Fiquei pensando em quem eu poderia chamar. Quase chamei a Vivian [Benford], mas acho que ia ser uma repetição de coisas que já fizemos. Até que apareceu a 1LUM3, uma cantora de São Paulo, que chegou a cantar com o Baco Exu do Blues em alguns discos dele. Acompanhava o trabalho dela e ela sempre me disse que era fã da Polar e da Harmada. Fiquei muito feliz quando ela foi cantar com o Baco. Um dia, ela fez um tweet dizendo que o sonho dela era fazer uma música comigo. Resolvi chamá-la para cantar – e foi perfeito. Ela arrebentou.

Bernardo Corrêa: Ferrou o Pedrinho, né?

Manoel Magalhães: Pois é, ele tem que fazer a voz dela ao vivo. A música ganhou uma coisa que a gente não estava esperando. Não é a que eu mais gosto do disco, mas com certeza é a melhor realização. Ela consegue remeter à Harmada do primeiro disco, e ao mesmo tempo, soar completamente nova.

Marcelo Costa: Vou sair do faixa-a-faixa para saber: qual é a que você mais gosta?
Manoel Magalhães: Acho que é “Em Fuga”.

Bruno Capelas: Mas essa é a favorita da Renata [esposa de Manoel], como você disse no show ontem. Você está copiando ela.
Manoel Magalhães: Cara, mas aí que tá: não acho que estou, não.

Bernardo Corrêa: Vocês gostam de fazer as coisas escondidos? (risos)

Manoel Magalhães: Não, não. Gosto de “Em Fuga” porque é a mais esperançosa.

Bruno Capelas: “Quando Você Chegar” vem depois. Ela foi o primeiro single, também.
Manoel Magalhães: Essa é sobre alguém que está fugindo de um relacionamento para começar outro. Você está saindo de algo e esperando uma pessoa para construir uma coisa nova, mas essa pessoa já existe. “Quando Você Chegar” é o momento de consumar a fuga. Uma coisa que eu queria fazer era tornar as músicas um pouco mais complexas no sentido harmônico. A harmonia dela é toda mais estranha, mais difícil. Tem fá sustenido maior, tem sol com sétima maior.

Pedro Lacerda: São muitos acordes com tétrades.

Manoel Magalhães: Depois cai para um mi bemol menor. Você não vai achar muita música que tenha essa progressão harmônica. É doido: a Harmada é uma banda de rock, mas eu queria que ela tivesse umas baladas meio R&B.

Bruno Capelas: Ela tem um tom de rádio AM.
Manoel Magalhães: É. Ao mesmo tempo, os metais tornam a coisa mais natural. Ela vira uma balada, um baladão bonito. Acho que é uma das músicas mais esperançosas do disco, porque é uma fuga para construir algo novo.

Marcelo Costa: E como foi escolhê-la para ser o primeiro single?
Manoel Magalhães: O Bernardo é que pode falar bem.

Bernardo Corrêa: Não lembro exatamente não (risos). Lembro que você perguntou no grupo e falei direto: “Quando Você Chegar”. Porque quando ele me chamou para tocar, ele mostrou as músicas e eu fiquei impressionado. “Caralho, que música é essa?”. Eu não conseguia parar de escutar. E quando ele perguntou o que poderia ser single, disse que eu era suspeito.

Bruno Capelas: Ela tem nome de single, né? Ela antecipa o próximo disco.
Manoel Magalhães: É verdade. Mas também tem uma questão prática. Ela já estava mais pronta, ela demandou menos idas a Paquetá [onde mora Gustavo Krebs]. Mas é engraçado: hoje em dia, o single mais legal é “Destino”. Até mudei a ordem do disco na minha cabeça, porque inicialmente ele abriria com “Prisioneiro”. Ficamos realmente muito satisfeitos com o resultado dela.

Bruno Capelas: Agora vem a minha favorita, que é “Piscina de Crianças Universais”. Acho o título heterodoxo. Parece um título do Violins.
Manoel Magalhães: Esse título… ele já mudou várias vezes. Mas, desde o início, pensei em “Piscina de Crianças Universais”. Tinha a questão da piscina, de ser raso. O universal vem do sentido de que você não sai, de que você está preso naquele universo. Uma piscina de criança é muito confortável, você vai ser sempre bem recebido nesse espaço. É uma música que tem muito a ver com a internet, de como as pessoas ficam confortáveis em certos papéis. Quantas vezes a gente já pensou que uma questão existe só no Twitter? Na vida real as pessoas não estão nem falando disso.

Bruno Capelas: O famoso Instituto Banana Preta.
Manoel Magalhães: Exatamente. [Uma piscina de criança] é só para a criança brincar, porque, na verdade, aquilo não impacta em nada a vida de ninguém. Um tema que eu queria abordar no disco é que tem gente que fica muito confortável com o drama, mas o drama não é real. As pessoas criam dramas e não têm a atitude de sair deles, de viver suas vidas e seguirem em frente. É mais fácil não fazer as coisas porque você está preso num drama. Por isso, “Piscina de Crianças Universais”. Sempre achei que era um nome complicado de botar numa música. Mas acho que era o único título que dizia exatamente o que eu queria dizer.

Bruno Capelas: É engraçado porque, quando eu escutei, eu entendi que era uma música de um casal em crise – o que me remeteu a “Sufoco”, do “Música Vulgar”. “Sufoco” é uma daquelas músicas que, se faz sentido, é porque está na hora de terminar um relacionamento.
Manoel Magalhães: Entendo. Mas acho que a letra de “Piscina” não é tão literal. Ela tem imagens de gente afundando em determinadas situações – o fone de ouvido, o fundo do oceano. São imagens de alguém muito absorvido por uma parada. Muitas vezes, as pessoas não se conectam, não ficam bem, porque alguém está muito dentro da própria cabeça ou de uma determinada visão. O bom da música é que ela não se fecha numa só interpretação.

Bruno Capelas: Ok, vamos pra sua favorita agora: “Em Fuga”.
Manoel Magalhães: Acho que ela representa o auge do sonho. “Quero fugir com você” é uma coisa muito bonita de se dizer para alguém. E ela repete uma metáfora que aparece bastante no disco, que é a metáfora da piscina. Existe uma relação entre o sonho e a piscina, que você submerge no inconsciente. Querer ir com alguém para a piscina: eu gosto muito dessa ideia.

Bruno Capelas: Quantas vezes você foi a Inhotim (nota: há no museu mineiro uma obra de arte de Jorge Macchi que é uma piscina que pode ser usada pelos frequentadores)?
Manoel Magalhães: Eu nunca fui!

Bruno Capelas: E quantas vezes você viu “A Primeira Noite de Um Homem”?
Manoel Magalhães: Esse com certeza (risos)!

Marcelo Costa: Uma banda cinematográfica! (risos)
Manoel Magalhães: Mas não é lindo? Acho essa metáfora da piscina linda – e gosto da forma como ela aparece no disco duas vezes. Conseguir fazer esse diálogo é algo que acho bonito. Se pegar cada detalhe da letra de “Em Fuga”, fico muito feliz com essa música, ali deu tudo certo.

Bruno Capelas: “Prisioneiro”.
Manoel Magalhães: “Prisioneiro” era para falar do aspecto individual, pegando a metáfora de alguém que está preso, encarcerado, ou também preso dentro da própria cabeça.

Marcelo Costa: Como a personagem do conto do Rubem Fonseca, inclusive.
Manoel Magalhães: É por isso que ela é a única música do disco que tem sujeito singular. É “o prisioneiro”. Todas as outras músicas têm pessoas se relacionando, são os fugitivos. Sempre pensei em pessoas fugindo juntas, querendo fugir com outra pessoa, ou de outra pessoa, ou fugir das pessoas em geral – porque “A Estrada” é um cara fugindo do mundo. Mas queria que o disco tivesse uma música que fosse alguém buscando fugir da própria cabeça. A letra é ele falando para ele mesmo, “ele diz”, “ele quer”. A voz que está dizendo é uma voz “em off”, o “ele” da letra é “você”.

Bruno Capelas: Por isso ela tem esse arranjo mais tenso?
Pedro Lacerda: Tem muito semitom.

Manoel Magalhães: Tem muito semitom, muita tensão. A harmonia fica sempre indo e voltando – e ele quer fugir. A explosão da música é justamente nesse momento: “sonhando, ele vai fugir”. Quando ele sonha, ele consegue sair dessa prisão do inconsciente. O sonho é uma forma de fugir da realidade, tanto que a última música do disco é “Sonhar”.

Marcelo Costa: “A Estrada”.
Manoel Magalhães: Em “A Estrada”, pensei num velho que não tem família. Hoje, a gente discute muito como os idosos estão solitários. E é engraçado: sempre encarei a solidão como uma possibilidade. Se nada te prende, você pode fazer qualquer merda – ainda mais se você tem dinheiro. Para que você vai ficar em casa? Mas aí é que está: as pessoas não fazem as coisas por conta de um medo aprisionador. As pessoas estão presas no medo. Fugir é fugir do medo, é enfrentar a vida. Acontece muito comigo das pessoas conversarem e começarem a se abrir muito, quase como se fosse terapia. Evito intervir como terapeuta, mas sinto que as pessoas têm medo de tomar decisões, de fazer as coisas. E eu pensava nesse idoso, que um dia resolveu não ter medo: pegar o carro e ir embora da vida. Foi doido porque sonhei com esse personagem que fugia. E ele fugiu no meu sonho e fugiu na música também. No meu sonho, ele fugia de ônibus – e a primeira ideia era ter o motorista do ônibus também falando na música, de como conversar com esse cara impediu ele de se matar. Mas acabei achando que era viagem da minha cabeça.

Marcelo Costa: A minha conexão para essa música foi com aquela frase que dá nome ao disco da Lorena Foi Embora: “a coragem de fugir é o medo de ficar”.
Manoel Magalhães: Faz sentido. Tem a ver mesmo.

Bruno Capelas: Aí vem “Iluminar”.
Manoel Magalhães: “Iluminar” tem a ver com duas pessoas: Adriana Calcanhotto e Alice Sant’Anna. A Alice Sant’Anna tem um poema que chama “Quando Faltou Luz”. É uma coisa que eu nunca tinha pensado: o que as pessoas fazem quando falta luz? Eu amei o poema dela e fiquei pensando numa música com esse mote. Quando comecei a fazer a música, lembrei que o “Vambora”, da Adriana Calcanhotto, cita os livros de poesia. Tem o “Na Cinza das Horas”, [do Manuel Bandeira,] o “Dentro da Noite Veloz”, [do Ferreira Gullar]. E eu adoro Adriana Calcanhotto, é uma compositora que eu amo. E fiquei pensando nisso e pensei que poderia ter uma relação com a Alice Sant’Anna nessa parada. Por isso que a letra fala “dentro de um rabo de baleia”, por conta do livro dela. Dito isso, a letra é bem literal: é a história de alguém que está andando pela cidade, pensando na vida, chega em casa e falta a luz. E o bonito da letra é que tudo se ilumina de repente, porque é quando volta a luz.

Marcelo Costa: “Nunca Existiu”.
Manoel Magalhães: O primeiro disco da Harmada tem muita música triste. Neste aqui, se você pensar, as músicas não são tristes. Na verdade, acho que são muito esperançosas – porque a ideia de fuga é uma ideia de esperança. Só foge quem está achando que vai ficar melhor. Mas “Nunca Existiu” é a única música triste do disco. É uma outra abordagem para a fuga: a fuga de algo que foi bem ruim, que não se concretizou, que se vivenciou com a esperança de que ia ser bom, mas na verdade “nunca existiu”. Não é que não existiu: existiu, mas não chegou a ser algo que fosse importante. É uma conversa entre duas pessoas que dizem: “vamos combinar que isso não existiu, sabe?”. E para celebrar essa ideia, esse acordo, me surgiu esse solo de trombone, como se fosse uma comemoração tácita. Ao mesmo tempo, sempre fiquei encanado que havia uma repetição do solo de trombone. Achei que tinha de ter outra mensagem no final da música, porque tem uma ligação entre “Iluminar”, “Nunca Existiu” e “Sonhar”. Já havia uma ligação de “A Estrada” com “Iluminar” e precisava de algo para conectar, uma voz de fora. A música tem um texto bem direto e outra voz seria uma maneira bacana de ter outro texto, para entrar na questão do sonho. Eu queria que não fosse algo tão claro, não sendo em português, e comecei a pesquisar quem poderia ser. Acabei chegando no nome da Kleidi B, que por acaso é venezuelana, o que ficou ainda mais legal. Ela arrebentou, cantou muito. E tem um detalhe que eu amo, que é o “fujamos”, que rola no final, pouca gente percebe, e para mim é o principal ponto de ligação com “Sonhar”.

Marcelo Costa: É uma saída fácil. Foi algo que me remeteu, por exemplo, a Jesse e Celine [o casal de “Antes do Amanhecer”]. Imagina que no final do primeiro filme, os dois acham que a noite foi bacana mas decidem combinar que a noite nunca existiu. Era algo que resolveria a vida dos dois.
Manoel Magalhães: É isso. E é doido, essa sua abordagem é muito boa, porque quando você vê o último filme, ele é um filme para baixo demais. O primeiro filme traz a esperança de que aquilo vai ser a melhor coisa da sua vida, é a esperança da fuga. Eles querem fugir juntos. Só que quando aquilo de fato se concretiza, não necessariamente a prática é tão boa quanto a teoria, quanto a ideia. Lógico, o processo é muito legal, mas se eles tivessem decidido que nunca existiu, talvez fosse até melhor do que ter existido. Não sei.

Marcelo Costa: Para fechar, “Sonhar”.
Manoel Magalhães: “Sonhar” é a melhor fuga que a gente consegue ter – porque é uma fuga que não depende de você. O disco todo fala sobre fugas ativas, mas o sonho é uma fuga passiva. Acho muito foda esse mecanismo do inconsciente de jogar na cara as coisas que você não quer enfrentar.

Bruno Capelas: A minha interpretação é totalmente oposta. Numa teoria de que o disco fala de relacionamentos entre pessoas, o que significa sonhar com alguém quando você acha que já superou? Para mim, é um recado do inconsciente dizendo que não dá para fugir.
Bernardo Corrêa: Concordo com essa ideia.

Manoel Magalhães: Nossa, a leitura de vocês é mais legal que a minha!

Marcelo Costa: Será que você está se auto traindo? “Tô acreditando nisso”, mas vem o sonho e fala que não.

Bruno Capelas: “Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.
Manoel Magalhães: Eu tinha pensado que o inconsciente busca a pessoa, era algo mais esperançoso.

Marcelo Costa: Todos somos depressivos aqui. (risos)
Manoel Magalhães: A interpretação do Capelas é boa porque a pessoa que canta parece não saber o que isso quer dizer.

Bruno Capelas: É muito doido pensar nesse arco de canções e pensar que elas foram compostas em 2015, 2016, 2017. São canções de outro Brasil. Como foi chegar nessas músicas em 2023 e entender que elas ainda faziam sentido? Você poderia ter feito a formação nova da banda e esquecido essas músicas – e “Os Fugitivos” ia ser o “Smile” da Harmada.
Manoel Magalhães: Foi algo que não senti. Na verdade, acho que o “Música Vulgar” cada vez faz mais sentido, assim como as canções desse disco também fazem cada vez mais sentido. Se esse disco tivesse saído em 2018, não seria exatamente a mesma coisa. Nunca quis que as letras da banda fossem coisas banais. Queria que cada disco tratasse de coisas da nossa vivência. Não era só para fazer um disco. Cara, qual é o sentido de ter uma banda? Se você faz uma banda, você tem que conseguir, junto daquelas pessoas, expressar uma coisa muito relevante. Você tem que dizer alguma parada. Queria dizer coisas no primeiro disco e queria dizer essas coisas agora n’”Os Fugitivos”. Penso que de 2018 para cá, essas coisas foram confirmadas e era necessário fazer esse comentário.

Rodrigo Garcia: De lá para cá, muita coisa mudou. E fico pensando no que o Manoel vai trazer agora, porque é um mundo completamente pós-apocalíptico.

Bruno Capelas: É interessante, porque o Brasil é outro. “Outro endereço, outra vida”. Nessa época em que as canções foram feitas, eu trabalhava como repórter cobrindo tecnologia. Havia ali um certo otimismo com a inovação, mas hoje…
Manoel Magalhães: Chegamos num ponto bem complicado. As pessoas estão comprando a ideia de inteligência artificial como se o mundo fosse acabar. As pessoas estão querendo deixar de pensar para que as coisas possam pensar por elas. Talvez a gente caminhe para esse futuro. Ao mesmo tempo, sempre tive esperança. É preciso ter esperança de que a vida vai ser boa. Não dá para ficar pensando que as coisas não têm solução. Senão, a gente não faz música, não faz nada.

Marcelo Costa: Não me preocupo com essa questão de estar vivo. Mas esse ciclo de mudanças é uma questão latente. Eu estava ouvindo a nova versão de “Free As A Bird”, vendo os comentários da galera… e é muito doido porque há um choque de opiniões. Eu só postei o link nas redes sociais e veio tudo que é tipo de comentário. Teve gente comentando que agora a voz do John está limpa. Mas peraí: o quanto disso é a voz dele mesmo? O quanto dá para acreditar que isso é real? Desculpa: isso não é real. Você vai admirar uma pessoa que não existe.
Pedro Lacerda: Já tem gente ganhando dinheiro fazendo perfil de OnlyFans com modelos criadas por IA.

Cena de “Blade Runner 2049”, de Denis Villeneuve

Bruno Capelas: Nesses dias, vi um negócio mais bizarro ainda: você pode configurar uma inteligência artificial para conversar com você sobre os fetiches que você mais gosta.

Marcelo Costa: O último “Blade Runner” já tem um pouco disso. Mas aí já se cria o espaço para um novo disco… e vai ser com essa formação?
Manoel Magalhães: A formação está bem consolidada. A banda está azeitada demais, o que espero que resulte em algo que talvez não demore (risos). Tenho muito essas coisas de profecias realizáveis, de pensar em algo e a coisa acontecer. Já tem um tempo que a minha próxima profecia realizável é que o Kassin vai produzir esse disco.

Bernardo Corrêa: E com participação da Adriana Calcanhotto! (risos)

Marcelo Costa: Super vejo isso!
Manoel Magalhães: Vamos trabalhar para isso. E nesse disco, queria que as pessoas participassem não só tocando, mas compondo também. Já comecei a botar pilha no Bernardo e no Brynner, no Pedrinho. Quero criar junto!

Marcelo Costa: Vocês sabem o que é isso, né? Ele está querendo tirar o peso das costas dele, para ver se o processo acelera…
Bernardo Corrêa: Pior que nem é, porque o Manoel produz num volume muito alto mesmo. Ele está com um disco solo no forno, ele produz muita coisa. É mais sobre criar uma intimidade de banda mesmo.

Bruno Capelas: Na última entrevista do Manoel para o Scream & Yell, em 2019, ele fala que o disco da Harmada está no forno. Agora, vocês estão dizendo que o disco solo está no forno, né. Em 2030 a gente se encontra!
Manoel Magalhães: Mas o bom disso é que as coisas estão acelerando. Os discos estão saindo cada vez mais rápido.

Bruno Capelas: Para fechar, planos para esse disco? Tocar, tocar e… tocar?
Manoel Magalhães: E tocar mais um pouco. Está rolando, né. Já tocamos no Rio, tocamos em Itaperuna, vamos tocar em Curitiba, na Baratos da Ribeiro, queremos tocar outras vezes no Rio.

Marcelo Costa: Como foi ver o Manoel em Itaperuna?
Bernardo Corrêa: Foi muito legal, ele estava mostrando tudo! Desde a estrada, ele vinha indicando.

Rodrigo Garcia: Deixa eu te falar, Itaperuna tem história!

Manoel Magalhães: Mas é legal você levar seus amigos para a sua terra natal. E foi legal que o filho do Bernardo foi, ele adorou a ponte de ferro. Caraca, uma criança foi em Itaperuna e achou alguma coisa bonita! Mas a verdade é que eu tenho muita preguiça de tocar ao vivo. Era um problema na Polar…

Marcelo Costa: Garcia, era mesmo um problema na Polar?
Rodrigo Garcia: Cara, nunca percebi…

Bernardo Corrêa: O Manoel ama o estúdio!

Manoel Magalhães: Isso é verdade. Prefiro gravar a tocar. Mas inevitavelmente, o andar das coisas tem me levado a tocar mais. Está ficando cada vez mais legal, as pessoas gostam cada vez mais. E é uma banda que leva 14 anos de um disco para o outro, em um hiato muito grande, e as pessoas estão indo ver o show.

Marcelo Costa: Você esperava que isso ia acontecer ontem, com aqueles fãs alucinados na Festa Bretta?
Manoel Magalhães: Não esperava. A última vez que a Harmada tocou aqui foi em 2013, na República. E lá já tinha acontecido isso, tinha uma galera cantando. Mas o que achei mais legal não foi ter uma galera cantando. Foi o fato de que as pessoas chegaram cantando “Quando Você Chegar”, que é a música nova, exatamente como cantavam as antigas. Parece que tem algo acontecendo, é como se nunca tivesse parado. A Harmada não parou, ela tem uma continuidade mesmo, fiquei feliz. Mas ontem teve uma coisa engraçada também. O pai da Renata, meu sogro, foi no show. Eles viram o anúncio no Instagram e perguntaram se poderiam ir (risos). E teve um comentário dele que achei sensacional. Eu estava lá cantando e de repente o pai dela perguntou para ela: “mas essa música é de quem?”. “Ué, pai, é do Manoel!”. “E como é que as pessoas sabem cantar?”. (risos).

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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