texto de Leandro Luz
É curioso que, para muitas pessoas, as experiências mais físicas com o (e a partir do) cinema sejam percebidas, em geral e de forma mais imediata, como notáveis ou fecundas. Talvez seja esse o apelo em torno da adoração a cineastas como Ruben Östlund, Yorgos Lanthimos e Gaspar Noé, para ficar em apenas três exemplos bastante populares nos últimos anos. O problema não está na tangibilidade (frequentemente bem-vinda) dos elementos fílmicos manipulados pelos cineastas, mas na noção equivocada de “experiência” como o objetivo central de todo e qualquer jogo entre a obra e o espectador.
“Sinta a explosão”, diz o cartaz brasileiro de “Sirāt” (2025), com o verbo no imperativo seguido de um substantivo de impacto (põe impacto nisso!). Sublinha-se aqui, neste pequeno e tosco exemplo publicitário, justamente essa necessidade aparvalhada que o mundo resolveu atribuir à ideia de “experiência”. Seja no cinema ou num festival de música, num roteiro turístico ou numa visita gastronômica, se há a devida “entrega” da “experiência” (urgh!), aceita-se qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo, inclusive um pastiche equivocado como esse, dirigido por Oliver Laxe.

“Estamos num campo minado”. A frase é enunciada por uma das personagens no auge da tensão de “Sirāt”, expressão máxima da dificuldade que o seu diretor e roteirista tem em estabelecer um diálogo franco com o espectador e com as contradições do próprio filme. O longa-metragem espanhol – em coprodução com a França – que ganhou o prêmio do júri no 78º Festival de Cannes conta a história de um pai que sai em uma jornada perigosa no deserto à procura de sua filha desaparecida. A quanto tempo e sob qual pretexto essa menina desapareceu, jamais saberemos, pois não interessa ao roteiro de Laxe e Santiago Fillol. Apenas vemos esse pai, com um filho pequeno em seus calcanhares, marchando de um lado para outro e distribuindo panfletos aos hippies em êxtase ao som do techno em uma grande rave armada no deserto do sul do Marrocos.
Oliver Laxe não sabe o que fazer com as imagens de cinema que evoca: Harrison Ford e o seu leap of faith em “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989); as travessias propostas por Herzog em “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982); e lógico, o procedimento rigoroso de William Friedkin em “O Comboio do Medo” (1977). Laxe e Fillol brincam com as suas referências do mesmo modo como manipulam as suas personagens – boa parte delas, senão todas, sem muita substância – em função do choque barato.
Em “Sirât”, acompanhamos por um longo tempo um interesse grande na ambientação, em situar aqueles corpos no espaço. Presenciamos as personagens se acostumando com a aspereza da viagem, enfrentando mil dificuldades no deserto. Tudo isso para, no terço final, as coisas serem filmadas como quem quer provocar emoções fáceis, tal como uma montanha-russa de um parque de diversões. Nada contra as emoções fáceis, diga-se de passagem, mas ao final da romaria, sobra aquele gosto amargo de um cinema europeu posado e inconsequente, que bebe de diversas fontes e se acha melhor e mais esperto do que todas elas.
Por si só, a violência e o choque não são bons, nem maus; faz-se necessário observar as implicações das ações. Para se defender de possíveis ataques, Laxe escolhe não mostrar diretamente a violência – as explosões “limpas”, os acidentes que ocorrem fora de campo e todo o design de som inquietantes são mais importantes, na régua do cineasta, do que as vísceras. O que o cineasta não percebe é que o problema não reside na quantidade de sangue que é revelada pela câmera (o cinema exploitation do mundo inteiro nunca teve dificuldades para lidar com isso, por exemplo), mas na maneira como conta os corpos, em contagem regressiva mesmo, tal como uma bomba relógio; prazer disfarçado de transcendência religiosa. O disfarce é o mais incômodo, pois é o que revela o apetite pelo sadismo.
Em última instância, “Sirât” abraça a culpa, um sentimento complexo e duro, difícil de ser encarado, assim, sem um pingo de irreverência, e expressa algo bastante grave: a afirmação de que, para se chegar ao paraíso, antes é preciso passar pelo inferno. A historinha da filha perdida, a paisagem desoladora do deserto, as caixas de som que estouram os nossos ouvidos com a música eletrônica das raves, os corpos que dançam no calor e na poeira, nada disso importa, na verdade. Nesse sentido, é muito estranho que Laxe cite, em entrevistas, cineastas como Bresson, Tarkovsky e Kiarostami para definir as suas grandes influências. Diante do exposto, “Sirât” se mostra ilógico e titubeante, uma obra que nasce de um cineasta perdido entre a urgência, a galhofa e a pose.
Leia mais sobre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.