entrevista de Guilherme Lage
Tenho uma história com o Yo La Tengo. Em outubro de 2010, então com 18 anos, saí de Caratinga, no interior de Minas Gerais, acompanhado de um amigo para outra pequena cidade: Itu, São Paulo. Fomos para o agora defunto festival SWU, que durou apenas duas edições (relembre). Naquela, que seria a primeira (e mal organizada), o trio de Hoboken, Nova Jersey, subiu ao palco “Ar”, onde apresentou um set memorável, mas que não chegou a me atingir como deveria.
Veja bem, naquela época, com uma bagagem musical um tanto quanto pequena, aquela apresentação era algo extremamente novo pra mim, que estava ali em meio a cotoveladas e copos de cerveja atirados ao ar para ver o Queens Of The Stone Age e o Cavalera Conspiracy, aproveitando o show do Pixies sentado na grama, mastigando um cachorro-quente superfaturado.
É, assim como na vida, talvez na música algumas coisas não rolem mesmo no primeiro encontro. Mas fico feliz de ter visto a banda só deixar o palco após o guitarrista e vocalista Ira Kaplan arrebentar todas as cordas de sua Fender.
Falar sobre a importância do trio para a música alternativa e para o que se chama de Lo-Fi é tarefa mais adequada a um historiador do que a jornalistas enxeridos com música, afinal, é preciso algo mais do que especial para ganhar o título de “A Banda Mais Indie do Mundo”. Formado em 1984, o Yo La Tengo conta com, além de Kaplan, sua esposa Georgia Hubley e o baixista James McNew, e se sacramentou naquela década e na seguinte como heróis underground do rock alternativo.
Conhecidos pelos shows imprevisíveis e espotâneos, os músicos transformam apresentações ao vivo em verdadeiras celebrações, que contam com a participação ativa dos fãs. Atualmente a banda trabalha as faixas de seu mais recente o disco, o incrível “This Stupid World”, lançado em 2023.
Sobre o fatídico show em Itu, o baixista James McNew relembra: “sobrevivemos” aos risos, em entrevista ao Scream & Yell. O músico papeou o suficiente para falar sobre seu amor por música brasileira, seus curtos dias com o Ectoslavia, que pariu nomes como Pavement e The Silver Jews, e sobre como “This Stupid World” ainda é relevante: “hoje em dia as coisas estão terríveis”, confessa.
Para começar, já se passaram dois anos que o “This Stupid World” saiu, você acha que o álbum capturou bem a essência do que a banda era naquela época?
Sim, acho que capturou bem. Gosto de pensar que todos os nossos discos fazem isso de muitas maneiras, mas acho que as coisas era bem idiotas naquela época (risos). E agora elas são muito, muito mais idiotas (risos).
E ele foi produzido por vocês mesmos, certo? E como foi essa experiência pra vocês? Sem trabalhar com um produtor, fazendo tudo sozinhos.
Foi ótimo! Assim, não quero dizer que foi melhor do que trabalhar com Moutenot ou John McEntire, mas foi uma experiência fantástica. Mas também foi uma experiência que nasceu por causa da pandemia, precisou acontecer por causa do isolamento. Mas ao mesmo tempo, depender só de nós mesmos, resolver os problemas nós mesmos, solucionar as coisas, mesmo sem saber direito o que eu estava fazendo, foi uma coisa incrivelmente divertida, sabe? Eu não esperava que fosse ser uma coisa tão legal e tão divertida assim, mas eu realmente gostei muito. Foi uma coisa extremamente criativa e muito incomum ao mesmo tempo.
E pra você, como músico, qual a diferença de fazer música para o Yo La Tengo e para o seu projeto solo, o Dump? Você se coloca em processos mentais muito diferentes quando cria música para esses dois projetos? Como funciona pra você?
Acho que a essa altura as duas coisas são muito naturais pra mim, sabe? Hoje em dia acho que os processos são bem similares. É mais satisafatório pra mim fazer música em grupo, é o que eu percebi depois que fiquei mais velho. Muitas das coisas que eu faço sozinho parece que é mais ensaiado do que tentar descobrir coisas diferentes que eu posso fazer com o Yo La Tengo, principalmente quando se trata de gravações e dos próprios sons.
Vocês vêm dos anos 80 e 90 quando o Lo-Fi era algo até bem popular, mas hoje o mundo muda o tempo todo, o que inclui toda a cena DIY. É difícil de alguma forma se adaptar a um tipo de mercado que muda constantemente e nem sempre se importa tanto com música?
Acho que não sei, às vezes acho que a melhor resposta para essas questões é realmente não ter uma resposta, não pensar nisso, não nos preocupar com isso. Acho que o que devemos fazer é continuar a ser nós mesmos e continuar a fazer o que gostamos de fazer, sabe? Acho que o melhor jeito de lidar com isso, muitas vezes, é simplesmente não lidar com isso (risos).
Vocês estão vindo para São Paulo tocar dois shows. Um show tradicional (no Balaclava Fest) e outro acústico (no CIne Joia). Como é pra vocês fazer um show acústico? É uma experiência que pode ser um pouco intimidadora ou vocês já estão totalmente acostumados?
Já estamos bem acostumados, eu diria. Os shows acústicos, pra mim, são um pouco mais “soltos”. Acho que tem a ver com o fato de que há muito menos equipamento no palco (risos). Ficamos só com alguns instrumentos pra usar e isso meio que nos permite pensar em tocar músicas que não tocaríamos normalmente, ouvir pedidos da plateia ou ser mais espontâneos durante uma apresentação. Eu acho isso divertido demais.
Eu assisti a um show de vocês há uns 15 anos em um festival chamado SWU, que já nem existe mais. Você se lembra de alguma coisa daquele show? Porque me lembro de ficar bastante impressionado com a apresentação.
Esse foi um show meio que no interior? Um show com o Queens Of The Stone Age, talvez?
Isso! Foi um show em uma grande fazenda.
Sim, eu me lembro. Foi muito estranho (risos). Nós nos sentimos meio que deslocados ali, mas é uma lembrança estranha e uma história engraçada de contar para outras pessoas que não acreditam na gente quando contamos que tocamos lá, mas tocamos! (risos).
Alguma lembrança em particular? Por que se sentiram tão deslocados por lá?
Bom, parecia que era um dia mais voltado para o metal, com muitas bandas de metal e nós não fazemos esse tipo de som. Mas nós fomos lá, sobrevivemos, nós tocamos! Foi muito estranho (nota: no palco que o Yo La Tengo tocou, antes teve Alain Johannes e Crashdiet, e depois Avenged Sevenfold, Queens of the Stone Age e Linkin Park).
Eu me lembro que quando vimos nosso itinerário nós ficamos super empolgados: “ah, nós vamos pra São Paulo, mal podemos esperar pra voltar!” e chegamos em São Paulo, estávamos super felizes de estar lá de novo (nota: a banda já tinha tocado no Sesc Pompeia em 2001). E aí o motorista do transporte continuou dirigindo e dirigindo.
Nós vimos a cidade enquanto estávamos chegando, aí passamos da cidade, aí depois só conseguimos ver a cidade pelo retrovisor, e o transporte continuou na estrada e eu só ficava pensando “pra onde estamos indo??” (risos). E aí acaba que não estávamos mais em São Paulo, estávamos em outro lugar muito diferente e muito longe.
Então, com exceção do aeroporto, acabamos nem vendo a cidade naquela viagem, o que foi uma pena.
E vocês trabalharam com tantos artistas diferentes, como Yoko Ono e David Byrne. Como é pra vocês ter essa oportunidade e até esse alcance musical de trabalhar com artistas que são tão diferentes?
Eu acho que sorte é o fator principal, mas acho que é simplesmente quem nós somos, nós gostamos de várias coisas diferentes e encontramos significado em todos os tipos de música. E somos extremamente sortudos por ter tido a chance de trabalhar com as pessoas que trabalhamos. Nós somos fãs, sabe? Somos muito fãs de música e às vezes, até pra gente, parece meio impossível pensar que trabalhamos com tanta gente com quem já colaboramos.
E você tocou no Ectoslavia nos anos 80. Porque o Pavement nasceu daquela banda, assim como o Silver Jews, pode falar um pouquinho sobre como foi aquela época?
Foi um período bem curtinho pra mim, se não me engano eu toquei um show com a banda, e esse show foi na casa de alguém, então não foi um show de verdade, por assim dizer, e eu acho que talvez a gente tenha ensaiado uma vez também, e meio que foi isso. Foi mesmo um período bem curtinho, mas nós todos nos conhecíamos por morarmos todos na mesma cidade e também íamos à mesma universidade.
E como você é um grande fã de música, preciso te perguntar, você gosta de música brasileira? O que você curte da música do nosso país?
Sim, claro, sou um grande fã. Nós três da banda somos, muito! Eu não sei nem por onde começar, eu amei quando a música da Tropicália se tornou acessível de novo, foi ótimo ouvir tudo aquilo de novo.
Eu fiquei muito triste com o falecimento do Hermeto Pascoal. Puxa, cara, não sei nem dizer, a música brasileira é extremamente importante pra nós.
E como você disse que as coisas estão mais idiotas agora, você acha então que o “This Stupid World” ainda é um bom retrato do mundo como está agora?
Sim, eu acho que sim, acho que de um jeito um pouco deprimente o “This Stupid World” parece até meio que inocente atualmente (risos), porque as coisas agora estão muito, muito piores do que na época que elas era meramente idiotas, agora estão meio que terríveis mesmo.
E espero que vocês estejam empolgados para os shows!
Estamos sim, estou muito, muito, muito empolgado para ir, vai ser extremamente legal, mal posso esperar!
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele! Foto de cherryldunn