texto de Davi Caro
fotos de Iris Alves / Live Nation
Qualquer um pode se surpreender ao perceber que já se vão mais de 10 anos desde a primeira passagem do Imagine Dragons pelo Brasil, na edição de 2014 do Lollapalooza Brasil. E muito mudou desde então – ou não: por um lado, a banda originada em Las Vegas era, então, um quarteto, escalado em uma noite onde os headliners eram Nine Inch Nails e Muse, divulgando seu primeiro disco, “Night Visions” (2012). A sonoridade apresentada no palco, por sua vez, era vista pela mídia especializada com interesse, ainda que com certa dose de ceticismo. Dan Reynolds (vocais), Wayne Sermon (guitarra), Ben McKee (baixo) e Daniel Platzman (bateria) mostraram empenho, dedicação e entrega, e começaram, ali, a solidificar um laço de afeto com o Brasil que só faria se estreitar.
Corta para 2025. Sete visitas depois, o grupo, que desembarcou no Brasil para uma série de shows em estádios em divulgação de seu sexto álbum, “Loom” (2024) – tendo passagens por Belo Horizonte, Brasília e São Paulo, após ter marcado presença no Rock In Rio do ano passado – e aterrissou no estádio do Morumbi na noite de Halloween, dia 31/10 (com outro show marcado para o mesmo local no dia seguinte), parecia determinado a mostrar mudanças, amadurecimento. De fato, a ausência de Platzman (que deixou a banda ainda antes das gravações do disco mais recente) certamente deve ter sido sentida pelos admiradores mais ardorosos. E, realmente, a proporção atingida pelo agora trio indica um crescimento vertiginoso em direção ao topo do mainstream: basta ligar o rádio hoje em dia, ou frequentar uma academia, para testemunhar o quão inescapáveis as canções da banda se tornaram, para o bem ou para o mal.
Após uma curta, porém correta e apaixonada apresentação da Lagum (que soltaram seu último disco, “As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo”, neste mesmo 2025), a apresentação dos headliners começou, pontualmente, às 21hs. Efeitos de luz, telões gigantes e animações extravagantes anteciparam a entrada dos membros – com o percussionista Andrew Tolman – frente a um estádio completamente lotado. Foi impressionante a devoção e a paixão dos fãs em relação aos músicos, e, em especial, ao frontman. Dan Reynolds, aliás, parece saber exatamente o que seus admiradores esperam, e não perde tempo em entregar: já na faixa de abertura, “Fire In These Hills”, o cantor percorre a passarela que o leva ao meio do público (lugar onde, aliás, ele passa a maior parte da apresentação) de shorts e sem camisa, exibindo o corpo musculoso que o transformou em sex symbol. E a participação do público é notável: já em “Thunder”, a segunda faixa, o coro da audiência pôde ser ouvido quase tão alto quanto os próprios instrumentos, senão mais.

Voltando ao quão inescapáveis as músicas do Imagine Dragons são: talvez ninguém seja tão bom em preparar canções ao mesmo tempo tão grudentas, e tão pouco memoráveis. Olhar o setlist de uma apresentação da banda pode não chamar a atenção simplesmente pelo nome das faixas. “Whatever It Takes”, por outro lado, é uma das primeiras vezes (de muitas) onde é evocada esta familiaridade que, por acaso ou de propósito, parece um pouco forçada. Igualmente forçada, aliás, é a perpetuação de determinados clichês que já se tornaram lugar comum: o curto set acústico que os quatro realizam no meio da apresentação, do centro da arena (na ponta da passarela que Reynolds tem como seu habitat natural) é pensado claramente com a intenção de gerar a sensação de proximidade do público. E mesmo assim, eles sentem a necessidade de ir além. Descendo do palco e caminhando em meio ao público mais de uma vez, o frontman parece precisar reafirmar constantemente sua humildade, seja agradecendo a Deus, ou repetindo exaustivamente seu amor pelos fãs. Neste último quesito, diga-se de passagem, a repetição de “I love you, Brazil” ou “I love you, São Paulo” é exaustiva a ponto de levar à dúvida. Mas os fãs, cativados pelo carisma do cantor e pela musicalidade competente, embora nada marcante, dos membros da banda, parecem pouco, ou nada, se importar.
O retorno ao set regular segue tão protocolar quanto a primeira parte: Ben McKee se limita a poucos backing vocals enquanto se atém a uma performance correta no baixo. Wayne Sermon se sobressai um pouco mais, alternando entre guitarras, teclados e violões ao mesmo tempo em que esbanja química com o vocalista (quando este último comete um erro durante a execução de “It’s Time”, durante o já citado set acústico). Embora não seja um membro oficial, Andrew Tolman sabe cumprir seu papel com êxito, principalmente em faixas mais “bombásticas”. “Bad Liar” e “Wake Up” dão sequência ao set, enquanto “Radioactive”, além de trazer de volta o sentimento de familiaridade forçada pela super-exposição radiofônica, também surpreende por incluir um duelo de baterias entre Tolman e Dan Reynolds, como se o ouvinte subitamente devesse se sentir transportado para um show do Genesis. Entretém, porém não deixa de ser estranho.

O trecho final do set de 23 canções alterna entre baladas confundíveis e singles radiofônicos compostos com a precisão de um míssil anti-aéreo. Reynolds retorna ao público com “Sharks”, e tenta evocar certo nível de intimidade em “Eyes Closed”. É claro que é um pouco complicado querer transmitir qualquer intimismo em um estádio completamente cheio, com telas gigantescas que exibem efeitos 3D e animações que devem envelhecer tão bem quanto vinho barato, mas nada disso importa para os admiradores do grupo. O que interessa, no fim das contas, é cantar a plenos pulmões junto com “Enemy” e “Birds”, até o esperado encerramento com “Believer” – uma canção feita sob medida para aqueles que querem praticar esteira, ou para coaches motivacionais que produzem conteúdo para redes sociais.
Longe de questionar o empenho do grupo em criar um espetáculo que entretém, diverte e emociona (algo alcançado com honras, a julgar pelos sorrisos vistos em meio à multidão que deixava o Morumbi na noite de sexta), a real indagação é outra: qual o impacto da música, esta forma de arte ao mesmo tempo tão necessária e tão maltratada, nesta conjuntura? E é aí que mora a grande verdade inconveniente que o Imagine Dragons transpira, talvez sem querer, ao longo das cerca de suas duas horas de show: não é sobre a música, e sim sobre uma experiência que pouco, ou nada, tem a ver com esta. É sobre grandes esferas infláveis jogadas sobre o público, sobre fogos de artifício que arrancam aplausos, sobre holofotes que apontam para o céu, e visuais de fazer inveja a grandes produções de Hollywood. É sobre poder se entregar a uma espécie de cinema ao ar livre, com a música como coadjuvante, por pouco mais de 120 minutos, apenas para poder se esquecer da experiência algumas horas depois. Não é possível, e nem cabível, culpar o Imagine Dragons, em uma apresentação feita para agradar a todos (e, neste sentido, bastante apolítica), sem ponderar a contrapartida desta proposta. Em uma super-produção onde o principal – a música – toma o papel de coadjuvante, despir esta de toda sua pompa e extravagância traz, inevitavelmente, o confronto com o vazio que a turba que lotou o Morumbi ao longo de dois dias quis, em sua maioria, esquecer. A ilusão, quase sempre, é uma benção. E a ignorância também.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
Lembro de um texto do intragável Álvaro Pereira Jr, sobre uma das primeiras vezes em que o Coldplay tocou no Brasil. Ele dizendo que toda a plateia no estádio estava amando, mas ele meio que forçou a namorada a ir embora com ele no meio do show porque “estava chato”. É uma pergunta inconveniente: essa leitura de que o show visto foi esquecível algumas horas depois e todas essas observações críticas a respeito do que vc viu (e que valem hoje para quase qualquer show, por óbvio), elas refletem exatamente o que foi a experiência para o público que vc mesmo afirmou estar amando aquilo tudo, ou algo puramente pessoal que não condiz efetivamente com o que foi o show para quase a totalidade absoluta do público? Me parece uma sensação de “pessoal, vcs estão equivocados, a experiência na verdade não é essa a de vcs amando tudo, a experiência real é a que estou dizendo aqui”. É uma sensação de onipotência essa, imagino.
É um questionamento complexo, e muito pertinente, mesmo. Acredito que seja uma questão de perspectiva, e de opinião, mas que com certeza não invalida a experiência de quem estava lá, e aproveitou a apresentação 😉
Não acho tão complexo. Na verdade, o Ismael tem dificuldade de entender crítica artística. Para ele, se o público está feliz, o show é bom, e a coisa não é tão simples assim, principalmente no universo pop, dominado por estratégias de marketing que, muitas vezes, suplantam o principal, que é a arte, num âmbito geral, e a música, em particular. É um tema que já foi objeto de teses aprofundadas, das mais diversas, e que precisa ser sempre colocado em perspectiva, principalmente desde que a indústria cultural virou algo estratosférico. Dai vale sempre a diferenciação entre “relato” (contar algo que viu sem juízo de valor) e crítica (olhar o objeto cultural de uma maneira analítica). Dai vale sempre lembrar que números, isolados, são apenas números, que milhões de pessoas votarem em Donald Trump, por exemplo, não significa necessariamente que ele seja bom. Tentar entender, tanto na arte quanto na política quanto na vida, o que movem esse números deveria ser uma obsessão para quem escreve, porque a coisa toda é muito mais complexa do que “o público amou o show” ou “o público escolheu o ‘melhor’ candidato”.
Minha sobrinha de 14 anos ama essa banda. Sabe as letras de cor e salteado. Me pediu pra leva-la, mas não tá fácil esse deslocamento Belém+sp. Mas imagino que o experienciar dela fosse completamente diferente do que qualquer um de nós três vivenciaria. Recentemente vi o teenage fanclub no se rasgum. Me emocionei em vários momentos, mas minha companheira, que não ama a banda, disse que o show foi um tanto entediante. E perguntou se eu tivesse conhecido a banda naquele show, o que eu diria. Tive que concordar que esqueceria o show duas horas depois. Mas como traz uma bagagem anterior em minha vida, talvez meu olhar tenha sido diferente. Mas a questão é que,.por exemplo, no mesmo festival, Sophia chablau fez uma apresentação que muitos conhecidos meus classificaram de constrangedora. Desafinos, músicas bobas, performance bem mais ou menos. Mas tinha uma galera da mesma faixa etária lá na frente (não eram muitos) que estava empolgada. Para mim, do alto de meus 59 anos, aquela artista não passou por um apuro, uma cancha. Hoje se pula rapidamente para os palcos principais (ver bala desejo). Então, no meu entendimento, sem curtir a imagine dragons, acredito que eles estejam no auge, no pique máximo de tesão e popularidade e nesse caso, as vezes esbarramos em nossas próprias percepções pré concebidas do que deve ser uma postura, uma performance. A cobrança feita ao que eles mostraram no palco no texto (bem escrito, por sinal, como todos do Davi caro) podia ser estendida a quase todo mundo da música pop, do rock hoje em dia. Talvez por isso a gente se impressione muito com wilco, Bruce Springsteen, pearl jam etc. Ainda assim esses mesmos seguem suas cartilhas. Hoje em dia sempre tenho essas ponderações sobre críticas porque tento também dissociar as idiossincrasias pessoais do que está ali se colocando a minha frente. Talvez o show não tenha sido feito para mim. E eu esteja cobrando justamente isso. Como se minha balança fosse a definidora. É um risco.
Ai é que está a diferença: a crítica parte do principio de ser definidora. É uma característica intrinseca a ela. Há risco? Lógico. Estamos lidando com palavras, estamos lidando com argumentos, muito vezes discordantes, sempre haverá risco. Porém, não existe isso do objeto analisado não ter sido feito pra você. Porque a crítica suplanta (ou deveria) o gosto pessoal! É você observar um objeto tentando entende-lo com as ferramentas que você tem. Não com as de uma garota de 14 anos – ainda que você possa fazer essa leitura para vislumbrar uma parcela do cenário, que será tão óbvia quanto levar uma pessoa que desconhece ou despreza esses signos buscando outro viés de análise (algo como jogar um metaleiro num show desses) -, mas com as da sua experiência, da sua bagagem, tentando sempre evitar as armadilhas (da idade, da própria experiência, dos pre-conceitos). Há possibilidade de erro? Muita. Mas a tentativa de entender o mundo que nos cerca através de signos culturais vale o risco. Sempre.
Não acho que aí que esteja a diferença nao. Meu ponto é o de uma certa arrogância (não é o caso aqui, nem o do Marcelo, fiquemos claro) de um sentimento superior sobre os outros. Vou dar um exemplo distante aqui mesmo. Teve um show do midnight oil em que a pessoa que escreveu ficou o tempo todo menosprezando o que ele classificava de tiozão que queria ouvir as músicas clássicas da banda e ele fazendo referências a músicas lado b que parecia só ele conhecer e aí vem todo um esboço de eu estou no topo da montanha e vcs não. É disso que se trata. E quando alguém escreve assim não está falando de arte. Está pondo seus preconceitos e ares superiores pra fora. Recentemente alguém passou metade do texto sobre o kamasi Washington reclamando que o público não se comportava da maneira que ele achava que deveria se comportar. Isso não é sobre arte. É sobre uma certa arrogância de se sentir superior sobre as outras pessoas que tem maneiras diferentes de reagir ao mesmo som e o outro fica de fiscal de público. Vou dar outro exemplo, dessa vez ao contrário. Eu dava aula de jornalismo, e uma das disciplinas que ministrei foi a de jornalismo cultural. Num desses semestres peguei o texto do Mac,sobre o filme as pontes de Madison e disse pra turma: esse é um exemplo de texto crítico sobre um filme que merece ser chamado assim. Aí uma aluna depois de ler disse: professor, dá vontade de ver o filme depois desse texto. E eu disse: é isso. É isso. Então, o que eu defendo, até por já ter passado por todas essas armadilhas textuais de achar que estava fazendo crítica, mas no fundo, apenas estar sendo arrogante, que hoje aceito muito menos passivamente esses tipos de análise de alguma obra em que a pessoa fica mais desovando seus ares superiores do que outra coisa mais profunda. Por que gosto de ler os textos do Marcelo tanto quanto gostava de ler Ana Maria bahiana? Porque fogem disso (as vezes o Mac escorrega, mas ainda assim, sempre vale a pena). É apenas isso. Até por ser mais velho, Marcelo, acompanhei muito as revistas ali do final dos anos 70 e início dos anos 80. E desde lá já dava pra perceber que para cada Ana Maria bahiana tinha um APJ. Mas é isso, tô me estendendo além da conta, mas é que acaba sendo bacana poder conversar sobre isso tbm.
Então, Ismael, a gente tem praticamente a mesma idade (tenho 55) e leu praticamente as mesmas revistas, mas observa as coisas de maneiras diferentes. Você se preocupa com o público enquanto eu me preocupo com o artista. Pra mim, a arte está no artista, e o público, a grande massa, é quase sempre massa de manobra consumindo marketing com rótulo de música pop. No caso do Midnight Oil, se bem me lembro, a questão do texto era mostrar como a banda havia sido absorvida pela indústria que ela tanto havia combatido, e para isso o autor elenca exemplos de um público que não soube se portar no evento; no caso do Kamasi, ainda mais delicado porque ele faz uma música que exige mais atenção, a conversação do público atrapalhou outras pessoas de absorverem o show. São dois casos que apoio veementemente quem escreveu, pois um show não acontece apenas no palco, ele acontece em um ambiente e sofre influencia desse ambiente. E tudo que influencia o show tem que estar no texto. Não a toa, não é apenas quando o público se porta de maneira errada que ele aparece nos textos. Você vai encontrar “o público cantou junto”, “se emocionou”, “fez coro” e etc… e tudo isso são respostas a um objeto cultural tanto quanto alguém gritar “gostosas” no show do Otoboke ou “gostoso” no show do Chico ou aplaudir o “Sem Anistia” no show do Gil e vaiar o “Fora Bolsonaro” no show do Roger Waters. Tudo precisa ser contextualizado porque, na maioria das vezes, que lê não estava no show. Ou não conhece o lado combativo dos primeiros anos do Midnight Oil, que foi deixado de lado para agradar determinado público. É uma conversa extensa, e cansativa, mas eu sempre vou defender o olhar crítico. O Scream & Yell nasceu com esse intuito lá em 1996 e eu me orgulho muito de, 30 anos depois, poder continuar mantendo uma liberdade editorial que me permite não agradar, se for o caso.
Bom, mas em nenhum momento eu digo que não é pra não manter liberdade. Apenas há textos que mesmo sob sua defesa (e é assim que tem de ser mesmo), são equivocados na essência por pairarem numa sim, suposta superioridade intelectual e cultural de quem escreve. E sim, vc deve defender quem escreve e como escreve, da mesma forma que tbm precisa aceitar que há visões opostas e não excludentes sobre esses mesmos textos. Há muitos deles nesse sentido que soam com o mesmo efeito que o Davi disse sobre o show. São esquecíveis trinta minutos depois porque soaram apenas juvenilmente arrogantes. E aqui nesse mesmo espaço há textos que sobrevivem anos e anos e anos porque fogem disso. Se tornam referências inclusive para pesquisa e aprendizado. Perdi a conta de quantas coisas absorvi aqui. E és testemunha de quanto tempo estou por aqui, enquanto vários e vários eu não vejo mais comentando nada aqui. Aliás, até comentar mesmo, tenho evitado. Mas penso que quem escreve poderia gostar de ter um outro olhar pra isso. O Davi escreveu sobre um filme e comentei que fiquei com muita vontade de ver pelo que escreveu. É isso que para mim vale no fim. Não alguém que quer me dizer como devo me comportar em um show ou como meu gosto por determinadas canções de uma banda são inferiores porque estou querendo ter como tiozão músicas “ultrapassadas”. É como açaí. Como paraense detesto a maneira como ele é consumido fora da Amazônia,e tentava impor isso dizendo que a maneira de uso com granola, banana etc era equivocado. Até um amigo me dizer que consome do jeito que quiser e pronto. E ele tá certo. Marcelo, meu querido, criticar a crítica não é deletério. É uma forma de tentar ajudar. Mas percebendo que é como dizer que um filho nosso é feio, vou me abster de doravante comentar os textos lidos. Sem problema. Abs, amigo