entrevista de Danilo Souza
Fernando Catatau é um nome emblemático da música brasileira do século 21. À frente do Cidadão Instigado, Catatau aproximou o rock e a psicodelia da música nordestina e do romântico brega sem desmerecer nenhum dos estilos. Como sideman, participou de discos (e turnês) importantes de Karina Buhr, Arnaldo Antunes, Otto (difícil imaginar o hoje clássico “Certa Noite Acordei de Sonhos Intranquilos” sem sua presença) e Juçara Marçal, entre tantos, até encerrar o capítulo Cidadão Instigado com o álbum “Fortaleza” (2015) e se lançar solo com “Fernando Catatau”, de 2022.
Entre 1998, quando lançou o EP de estreia do Cidadão Instigado, e esse 2025 em que o músico finaliza as canções de seu vindouro segundo disco solo, muita coisa aconteceu. E pensar que a proximidade de Catatau com a música se deu devido a “laudo de morte” errado: “Minha mãe me levou para um médico que me deu só mais três meses de vida”, relembra o artista cearense. Catatau, que já tinha tentado tocar, e desistido, e tinha virado bodyboarder, colocou a prancha de lado e se aproximou do violão. Para alívio geral, o laudo médico havia sido trocado, e cansado de Fortaleza, Fernando Catatau mudou-se para São Paulo iniciando a história do Cidadão Instigado em 1996.
Catatau voltou a passar uma temporada em Fortaleza como um cidadão comum e fez as pazes com a cidade. Ele elogia o vigor da cena local, com a qual se sente amplamente conectado, enquanto abre o coração para paixões musicais variadas que podem ir da rainha do forró Eliane e da rainha do sertanejo Marília Mendonça até Kali Uchis, Rihanna e Slipmami. Fixado novamente na capital paulista, ele revela que fez as pazes com a guitarra, que está pensando muito em dança e que seu novo disco está bem encaminhado: “Posso adiantar que é um disco que tem muitas parcerias. Tem Jadsa, Juçara Marçal, Mateus Fazeno Rock, Edson Van Gogh, uma galera…”. Leia a entrevista completa a seguir.
Fernando, você tem uma carreira de quase três décadas na música, isso pegando só a partir da sua banda, a Cidadão Instigado, que nasceu em 1996. Em que momento você se percebeu um artista e como decidiu dedicar sua vida à arte?
Quando teve o primeiro Rock in Rio (em 1985), que passou no Brasil inteiro e foi televisionado com várias e várias bandas, foi a primeira vez que eu tive contato com o rock e isso mexeu muito comigo, porque naquela época o rock era você ser rebelde. [No primeiro Rock In Rio] veio Ozzy Osbourne, Iron [Maiden], Queen… teve muita coisa de bandas que são até hoje os clássicos do rock, e quando eu vi aquilo, disse: “eu quero fazer isso!”. Foi um caminho que comecei a perseguir na minha vida quando eu era bem novinho. Minha mãe me deu uma guitarra e eu comecei a tentar tocar, cheguei a ter uma bandinha quando era bem novo mesmo, com uns 14 anos, que se chamava “Ultraleve”, mas, na realidade, não consegui aprender a tocar e eu era muito ruim. E desisti, parei de tocar e fui andar de skate. Depois virei bodyboarder e passei um ano surfando, eu até competia, passava o dia no mar. Teve uma época que comecei a tossir muito e minha mãe me levou para um médico e nessa ida recebi um exame que me deu só mais três meses de vida. Ela resolveu levar para outro médico, que percebeu que era um exame errado e de outra pessoa, eu era atleta e não fazia sentido morrer em três meses… mas aí parei de surfar e comecei a andar com a galera que era mais da música, peguei o violão e voltei a tocar enquanto estava de cama. Na minha cabeça, esse foi o começo da minha religação com a música.
Você vem de Fortaleza, uma cidade marcada por uma diversidade sonora. Tem reggae, forró, rock… como essa mistura de estilos, não só de Fortal, mas da região Nordeste como um todo, influenciou na sua forma de fazer música?
Cara, tudo que a gente vive influencia de alguma maneira. Eu era do forró, amo até hoje a Eliane, a rainha do forró, ela é uma das cantoras que mais amo na vida, sabe? Isso está na minha vida e na minha música até hoje. Tem rock pela minha escolha como roqueiro, mas pode botar reggae, música eletrônica, pode botar (qualquer) estilo aí, gosto de muita coisa, mas a minha raiz é de cancioneiro romântico, tipo Roberto Carlos, Bartô Galeno, essa é a minha parada. Acho que faz muito parte do meu passado. O próprio forró pé de serra, a galera do Pará também… era uma mistura muito louca. Nos anos 70, em Fortaleza, você escutava tudo que vinha do Pará, a guitarrada já fazia parte da nossa cultura. Passei muito tempo querendo ser roqueiro, essa é a realidade, e acho que encerrei isso no [disco] “Fortaleza” (do Cidadão Instigado), sabe? Hoje curto muito mais pop, escuto até grime e piro nesses rolês, e ao mesmo tempo gosto, sei lá, da [rapper] Slipmami, gosto de Marília Mendonça…
O Cidadão Instigado, inclusive, é um bom exemplo dessa fusão de diversos estilos. Vocês trazem a psicodelia, o rock e elementos da cultura nordestina, como a música romântica – ou “brega” – na sonoridade da banda. Como foi essa ideia de se unir com outros músicos e desenvolver o projeto?
Teve essa mudança na minha vida que foi muito importante e que me levou para a música. Sempre acho que foi um golpe do destino. Mesmo. Chegou esse “laudo de morte” para mim e, enfim, comecei a me dedicar à banda. Tive uma primeira banda, que era a Companhia Blue, que era formada por mim, Junior Boca, Régis Damasceno e Hamilton, baterista da época, e a gente ficou junto quatro anos nessa banda. Em 1994 entrei numas que queria ir embora para São Paulo. Fui de ônibus para morar no interior, em Tatuí, passei um mês, não aguentei e voltei (pra Fortaleza). Foi tipo uma derrota, sabe? Voltei supermal. Depois consegui convencer o Boca de nós dois irmos para São Paulo. Chegamos lá e não sabíamos nem onde é que íamos morar! Chegamos na rodoviária, abrimos um catálogo telefônico, escolhemos um lugar, uma pousada e nossa trajetória começou assim. Dois meses depois, o Boca voltou para Fortaleza e eu fiquei em São Paulo e foi aí que começou o Cidadão Instigado, já que quando ele foi embora, a nossa banda, que era o Companhia Blue, acabou e eu comecei a compor as músicas do Cidadão Instigado. O Cidadão nasce da minha saída de Fortal e com essas histórias de um cearense em São Paulo. E a partir daí começo a compor e fico em São Paulo, em 1994, no Rio, em 1995, e 1996 volto pra Fortaleza e monto a banda.
Em uma entrevista aqui para o Scream & Yell, no ano de lançamento do seu disco solo, você comentou que foi importante se reconectar à Fortaleza tanto para sua vida pessoal quanto para clarear as ideias desse álbum, trazendo até uma influência do samba e do reggae após voltar para Fortal. E como anda sua relação com a cidade hoje em dia?
Se você me perguntasse há uns 15 anos se eu voltaria para Fortaleza para viver lá, diria “Deus me livre, não quero mais voltar para lá nunca mais”. Essa era a minha resposta de sempre, porque não me conectava com as pessoas da cena musical. Saí de lá por causa de muitos embates que tive e com meus sonhos, porque queria também alcançar vários outros lugares. Essa minha volta para Fortaleza foi se tornando quase uma necessidade para mim e ela rolou muito depois, no período do [disco] “Uhuuu!” [lançado em 2009], e que pra mim foi um disco muito marcante porque era um momento que muitas coisas estavam loucas na minha vida. Comecei a me reconectar, a conhecer novas pessoas em Fortaleza, ir pra lá para passar férias… comecei a curtir mais estar lá, mas sempre com um pé atrás. De repente comecei a ver uma cena foda, os artistas com uma conexão muito maior do que eu acreditava e era uma galera mais nova. Pensei: “caramba, cara, quero estar perto dessa galera!”, porque já estava muito cansado em São Paulo, quase entrei num tilt morando lá, não estava feliz e fui me reconectando com Fortaleza. Aí a gente gravou o “Fortaleza” e lançamos em 2015.
Depois do disco, a gente fez um show de comemoração de 20 anos da banda e convidei o Felipe Hirsch, que é um diretor de teatro, para dirigir o show. Ele ouviu todos os nossos discos e chegou para nossa primeira reunião falando sobre o que ele tinha pensado: “cara, a história já está contada do primeiro até o último álbum”. Aí foi a primeira vez que eu consegui visualizar o que tinha feito do começo até chegar ao “Fortaleza”, sabe? Encerrei o meu rolê e o que eu tinha para falar como Cidadão Instigado. Começou com o [disco] “Ciclo Da Dê.Cadência”, quando eu saí de Fortaleza e eu passei todas essas coisas, tipo, 20 anos, contando histórias muito pessoais minhas com os meus amigos e com toda a minha galera, e quando chegou no “Fortaleza” percebi que não tenho mais nada para falar sobre essas coisas.
Como você enxerga a recepção do público e da crítica em relação ao seu trabalho solo? Você sente que as pessoas conseguiram “separar” o Catatau do Cidadão Instigado?
Acho que as minhas expectativas eram grandes com o meu disco solo, que não chegou em tantos cantos por todo o cenário… lancei ele logo depois da pandemia e as coisas ainda estavam se construindo de novo e se reconectando ali. Foi um pouco frustrante, mas ao mesmo tempo foi muito bom, fez parte mesmo do destino do disco, sei lá. Talvez foi da minha parte também que não divulguei tanto. A pandemia, para mim, foi muito pesada e fiquei pirado da cabeça com medo de tudo, acho que tive medo até de me colocar como artista novamente, no caso um artista solo. Fiquei sem saber se eu ia usar Fernando Catatau ou Catatau, se ia usar meu nome… entrei numa crise existencial mesmo e por isso que voltei para Fortal. Esse disco é uma retomada da minha essência e da minha existência mesmo. Quando cheguei em Fortal, todo mundo ficou “caralho, Catatau vai morar aqui!”, aí de repente se passou um ano e eu fui de um “cidadão instigado” pro “cidadão comum” e isso foi muito importante para me colocar como uma pessoa que faz outras coisas, que não sou só eu, Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, guitarrista, enfim. Então foi muito importante zerar o jogo e recomeçar porque eu já não estava mais satisfeito.
E o que você destaca de diferente no processo de compor para uma banda e compor sozinho? Na banda tem aquele lance de “precisar de aprovação” dos outros membros, né? Se sentiu mais livre no projeto solo?
Cara, é bem diferente. A gente tem uma afinidade muito grande, a maioria se conhece desde adolescente, então estamos juntos há muitos anos, tivemos outras bandas, tocamos juntos com vários artistas, não só no Cidadão Instigado, sempre estivemos muito conectados e teve um momento que precisei me desconectar disso. Fiquei inclusive tentando achar estilos e fiquei tão em crise que toda hora inventava uma coisa diferente. “Ah, vou fazer um disco estilo Ceará anos 70” e depois já mudava “vou fazer não sei o quê”, aí acabou que saiu vários fragmentos dessa minha indecisão no disco inteiro. Ele caminha por vários cantos. Tem músicas que eu fiz pensando como pensaria um Rodger Rogério, outras fiz já pensando no pop, porque escutava muito Kali [Uchis] e Rihanna, aí saí costurando todas as coisas que eu ia escutando. O reggae também, porque Fortaleza tem uma cultura reggae muito forte e é uma cultura da periferia, então tem uns passinhos e toda essa parada, que é uma coisa que me chegou novamente, esse lance da dança. Para mim, hoje em dia a dança é uma das coisas mais importantes da minha vida, por mais que eu não saiba dançar direito.
Você comentou comigo antes que já está com o segundo disco pronto pra lançar no ano que vem. O que você pode adiantar pra gente?
Acabei de gravar um disco novo, ele está pronto e vou lançar até ano que vem (2026). Comecei a mexer em máquinas, baterias eletrônicas, sampler… e pirei! Ao mesmo tempo, voltei a gostar de guitarra, então estou conseguindo juntar tudo, entendeu? Esse meu afastamento da guitarra, do Cidadão e de todas essas coisas do rock me trouxe outras coisas que somaram para o que eu já tinha e ainda chegou a guitarra de volta. Tenho estudado canto há um tempão, então tenho me sentido muito melhor cantando. Antigamente era um sofrimento e hoje consigo cantar confortável. E para esse segundo disco, acho que cheguei em outros cantos que eu já queria alcançar. Posso adiantar que é um disco que tem muitas parcerias. Tem Jadsa, Juçara Marçal, Mateus Fazeno Rock, Edson Van Gogh, uma galera aí… é um disco que fiz meio pensando em dança, mas nas minhas danças, não na dança dos outros. Porque eu não sei fazer passinho, não sei fazer nada dessas coisas, mas acho meu jeito. Eu fiz beats também, várias coisas nesses rolês mais eletrônicos.
A cena mudou muito desde o final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando o Cidadão Instigado estava dando os primeiros passos. Qual a sua opinião sobre esse cenário na música independente hoje? Mudou para melhor?
Fortaleza tem uma cena absurda! Tem o Mateus Fazeno Rock, o Getúlio Abelha, que já é conhecido, tem muita gente… São muitos estilos e muitos caminhos e sou suspeito de falar, porque sou realmente fã, voltei para Fortal por causa dessa galera. Agora consigo me conectar mentalmente, musicalmente e artisticamente, me sinto feliz de fazer parte disso, porque sei que eu sou um cara mais velho mas que não estou do lado de fora, entendeu? Me comunico com a galera, a gente troca ideia, compõe junto, faz as paradas… Acho que Fortaleza tá num momento incrível!
Como você gostaria de ser lembrado dentro da música brasileira?
O diferencial que eu tenho é o meu jeito de fazer. Durante muitos anos me incomodei comigo mesmo e com meu jeito de cantar, sempre achava que era um sacrifício muito grande. Lembro do primeiro show que eu fiz com o Cidadão e, quando terminei, a primeira pessoa que veio falar disse “esse teu sonho é muito doido, mas tu devia arrumar um cantor” e olhei pra ele e respondi “eu não vou arrumar, não, vou cantar eu mesmo, porque tu não manda em mim” (risos). E foi assim que eu segui. E dentro disso acho que consegui chegar numa personalidade minha, porque cantava desafinado, com a voz comprimida, me esforçando, me esgoelando, mas ia! É você não ser tão perfeito e conseguir passar o que você quer de verdade. É muito foda alguém chegar e me escrever “cara, essa tua música aqui me tirou de vários momentos de depressão”, isso é a coisa mais importante. O lance de eu fazer um disco para Fortaleza também, hoje vejo um monte de gente amando a cidade, sabe? Isso aí é um rolê que eu penso porque eu gosto, então vou fazendo.
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/. A foto que abre o texto é de Isa Stevani