Heineken No Lineup Festival: o que deu certo e o que precisa melhorar em edições futuras

texto e fotos de Fernando Yokota

No último sábado de outubro, São Paulo recebeu, na Fábrica de Impressões, o primeiro Heineken No Lineup Festival, que sob a curadoria de Lucio Ribeiro e Felipe Hirsch, tinha como proposta a ideia de um evento em que o público só soubesse quem iria tocar minutos antes da apresentação.

Com um cardápio que foi de Don L a TV on the Radio e Metá Metá, passando por Chaka Khan, Arca e Mano Brown, a extenuante maratona de doze horas de duração (15h do sábado às 3g do domingo) aguçou a curiosidade de muita gente, que compareceu ao evento, com ingressos gratuitos (e esgotados em segundos após problemas recorrentes na distribuíção via internet).

Don L / Pelados

Dentro da Fábrica de Impressões, a locomoção difícil foi o maior problema. A planta do local, que não favorecia, fazia com que o fim da fila para bebidas fagocitasse o público do palco Pulse (o principal). Ir do palco Echo ao palco Noise com show acontecendo no palco Pulse que, por sinal, tinha de pé direito praticamente o que a pista tinha de profundidade, era uma aventura. Em compensação, os banheiros eram mais que decentes (não eram os clássicos “porta potties” de festival) e vale o registro.

Se foi um sucesso? Como ação de marketing, certamente. Não dava para andar cinco metros sem ter que parar por conta de gente “criando conteúdo”. Sobre o evento como festival de música (em sua primeira edição, importante frisar) ficam algumas reflexões.

Soccer Mommy / Tv on The Radio

O palco Noise (área menor, com os artistas tocando quase ao mesmo nivel do público) foi a melhor parte e o que mais chegou perto da ideia do “público musicalmente curioso aberto a coisas diferentes”. Com um palco elevado ficaria perfeito, ainda assim funcionou muito bem e deu o clima de “inferninho urbano”. Ponto para o “inferninho indie”

Sobre as outras duas áreas de shows, tínhamos o Echo (um galpão coberto) e o Pulse (o palco principal). Se no palco Noise a dinâmica fluiu naturalmente, há um equilíbrio a ser buscado no restante do ambiente em futuras edições. A proporção “influencer x gente normal” parecia ser muito maior que num festival convencional, ao ponto de dar a impressão de estar num coquetel de lançamento de algum produto invés de um show de música ao vivo.

Panic Shack / Thalin

Quanto ao line-up, num mundo cada vez mais “nichado” e “fandomizado”, um evento de música é fundamentalmente pregação para convertido. Tendo isso como premissa, tocar para um público que não tem ideia de quem você seja num festival com a proposta de ter vários estilos é tarefa dura. Tierra Whack, em sua primeira vinda ao país, teve que suar pedra para animar a audiência no palco principal, que parecia mais confusa que curiosa. Em seguida, no palco Echo, Mano Brown deixou o galpão pequeno e intransitável: uma inversão de palcos teria funcionado melhor.

Por outro lado, TV on the Radio (explosivo) e Chaka Khan (suntuosa) foram destaques no “palcão”, Soccer Mommy, em versão solo, conseguiu se virar bem. No palco Noise, Pelados e Thalin (este último, regendo o público do alto de um frigobar vermelho) potencializaram ao máximo o clima de bagunça do espaço que parecia um container gigante de peixe congelado.

Mano Brown / Tierra Whack

A ideia era a de terminar a noite com a requisitada Arca comandando o que na prática seria um “after” no palco Echo, mas não foram poucos os que desistiram. A essa altura, o que sobrava em bravura e curiosidade já faltava em energia: com exceção de uma mini arquibancada e um pequeno lounge, os espaços para descanso eram poucos para o puxado lineup.

Ao final, fica a impressão de que, não obstante a intenção, pelo menos um pouco de direcionamento na composição do line-up ajudaria. Mesmo supondo um público 100% benevolente e diletante, parte da mágica de ir a um evento ao vivo é ver gente realmente empolgada com a música, e alguma segmentação (sem cair no sectarismo estilístico), seria importante para criar uma atmosfera de descobrimento musical sem prejuízo para o engajamento entre pista e palco.

Chaka Khan

Ainda que os festivais de música mais interessantes são os que misturam estilos, um line-up não funciona da mesma forma que uma programação de festival de cinema, por exemplo, que pode ir de Michael Bay e Pasolini e vai funcionar da mesma forma, por ser basicamente uma experiência de mão única. Para um festival de música, no entanto, o sucesso gira em torno da comunhão entre o palco e o público, e a distância (de gosto e estilo) entre ambos deve ser grande o suficiente para que haja o desafio de uma “descoberta mútua”, não pode ser distante ao ponto do incomunicável. Vale, portanto, a ideia de que um show é como um filme, mas sem a quarta parede.

Dito isso, que venha a proxima edição do festival. Estreitado ao extremo, esforços como esse são valorosos para abrir os poros estéticos do público, cada vez mais isolado e algoritmozado.

Chaka Khan

– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/ 

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