entrevista de Guilherme Lage
Em “Heaven”, primeira faixa de seu novo disco solo, “This Must Be Wrong” (2025), Hugo Mariutti canta: “you don’t know how long I’ve waited for you” (você não sabe quanto tempo eu esperei por você). A frase poderia ser cantada por fãs do músico, que aguardavam ansiosos pelo sucessor de “The Last Dance”, lançado em 2023.
Hugo é uma verdadeira entidade do metal brasileiro. Como guitarrista do Shaman, alcançou sucesso internacional no início dos anos 2000. O quase supergrupo nascido da dissolução da formação clássica do Angra rendeu frutos quase impensáveis para o gênero no Brasil naquela década. Também foi responsável pelas seis cordas na carreira solo do camarada Andre Matos, até seu trágico falecimento em 2019. Mas para muito além de cabelo comprido e riffs enérgicos, Hugo é um verdadeiro amante de música, em suas mais variadas vertentes e expressões.
O gosto foi tomado naturalmente, talvez por empunhar desde cedo uma guitarra para palhetadas viscerais no thrash metal quando era apenas um adolescente, o adquirido com o tempo, por meio de seu trabalho como compositor de trilhas sonoras. A verdade é que essa versatilidade se mostra claramente em “This Must be Wrong”, onde o músico dá sequência em uma tradição que o acompanha em sua carreira solo, com sonoridades fincadas no rock britânico, passando por influências de post-punk a dream pop.
As guitarras dão as caras, óbvio, mas o instrumento não é debulhado em um dedilhar frenético. Há uma construção sensível e confortável em torno do trabalho instrumental. O músico lida com sentimentos íntimos e expostos, inclusive tratando do “pecado” de descansar, não fazer nada. Abaixo, ele conta um pouco disso tudo!
Antes de mais nada, eu gostei bastante do disco. O título, “This Must Be Wrong”, me chamou atenção, porque fiquei pensando que há coisas na vida que a gente sempre para e pensa: será que isso está acontecendo mesmo? Para bem ou para o mal. E você transita por alguns sentimentos diferentes no disco. Foi essa a sua ideia? De transmitir esse pensamento de “será que isso está acontecendo mesmo?”
É um pouco disso, mas acho que a maior inspiração pra esse título e para a letra da música é o lance que sempre me pego pensando, que às vezes, um dia em que você está em casa sem fazer muita coisa, que você para e aí você se cobra a fazer alguma coisa. Você para e pensa: “Putz, eu não estou sendo produtivo”. É meio essa loucura que a gente vive, que a gente tem que estar toda hora fazendo algo pra sentir que está produzindo alguma coisa.
E quando eu vi a foto que essa artista tirou, ela postou numa página no Instagram, eu seguia ela. Eu vi a foto e me deu exatamente a impressão: uma cadeira na praia com uma pessoa e os passos como se as pessoas estivessem saindo, indo embora. É como se aquela pessoa que está parada ali na praia estivesse fazendo uma coisa errada, porque estava todo mundo indo embora, então achei que casava bem com a letra e o assunto que eu queria falar. E também casa com o lance do disco, porque também tem vários momentos diferentes de letras, de coisas mais positivas e coisas negativas. Então teve essa mistura toda e eu achei que era o nome mais legal pro disco.
E você diria que ele é uma progressão lógica do “The Last Dance”? Porque eles saíram com dois anos de diferença um do outro e ainda que as músicas sejam bem diferentes, dá para notar que existe uma certa continuidade no trabalho. Você tem essa impressão também?
Isso é engraçado, porque é uma coisa que você só vai perceber depois de o disco estar todo pronto, estar tudo gravado. (Mas) Sim, acho que é uma continuação, mas com coisas a mais. Acho que entre as músicas existe uma diferença maior de estilos, mas acho que é uma continuação.
Acho que o disco mais parecido mesmo é o primeiro, depois se tornou uma coisa que eu tento evoluir a cada disco, mas é uma coisa que eu não penso. Mas quando você ouve o final disso, acaba remetendo mesmo a algumas coisas. Tem coisas até do primeiro mesmo que nesse disco meio que acabam voltando mais do que nos outros.
Na música “Heaven”, você fala “you don’t know how long I’ve waited for you”, que pode ser uma pessoa, pode ser algo, algum lugar no tempo. E“Younger Man” também me chamou atenção, talvez fosse você conversando com uma versão mais jovem de você mesmo ou com alguém mais jovem realmente. Como é o processo de criação das letras? É algo introspectivo mesmo ou que você faz e só depois vai ver o significado?
As letras são coisas mais pensadas, tipo “Younger Man”, putz, eu sou um cara que sempre estudei muito esse assunto. Fiz faculdade de Geografia, mas não sou formado, fiz até o último ano. E eu sempre fui muito interessado no assunto do Oriente Médio, sempre fui atrás dessas coisas, do que a gente está vendo que está acontecendo atualmente na Palestina.
É como se eu estivesse vendo uma pessoa exatamente. Tem um menino que eu sigo no Instagram, porque ele toca o alaúde, na Palestina. E eu vejo a aflição dele, o que está acontecendo com ele e foi uma inspiração. Foi como eu olhar para um menino muito mais novo e como se eu estivesse realmente conversando com ele, ele me relatando um pouco sobre o que ele está passando ali.
Foi uma coisa que me chamou muito a atenção, ver ele tocando alaúde em meio aos escombros. Eu comprei um alaúde e usei no disco em algumas coisas. Quando o vi tocando, e tocando para caramba, percebi que por trás daquilo tem uma história muito triste acontecendo e eu quis expressar isso especificamente.
O disco, assim como os outros, tem uma levada que lembra post-punk e também uma pegada que eu não diria nem britpop, mas dream pop mesmo, algo do início dos anos 90. Como você se interessou por esse tipo de música? Porque a gente sempre te associou a um cara mais ligado ao metal. Como você entrou em contato com essa música?
Sempre fui um cara que ouviu muitas coisas diferentes, eu tive muitas épocas na minha vida. Comecei muito cedo a tocar em banda, e eu tinha uma banda de thrash metal no começo. Com 15 anos a gente já tocava em vários lugares aqui em São Paulo. Depois eu passei pra uma banda que mesclava rock progressivo antigo mesmo, com uma coisa mais metal, depois passei pelo Shaman, mas eu sempre fui ouvindo coisas muito diferentes.
E, cara, esse lance todo inglês sempre foi o tipo de música que eu mais gostei. Se for parar pra pensar, as bandas do Reino Unido sempre foram as bandas que me chamaram mais atenção. Esse lance, não é nem do britpop, porque acho que o Radiohead não é nem do britpop, mas foi uma banda que gostei muito. Eu já conhecia a banda, e quando ouvi o “Ok, Computer”, quando saiu, foi uma coisa que me fez mudar muita coisa, ir para outras coisas, buscar outras coisas.
É engraçado que muita gente associava o meu som ao Oasis por causa do meu corte de cabelo numa época (risos). Mas se você for reparar, eu tenho muito mais influência de outras bandas do que do Oasis, que é uma banda que eu gosto bastante, mas se for pensar mesmo, New Order, Joy Division, The Cure, o próprio Radiohead, Pulp, um monte de banda, é um estilo que mais escuto, então fica natural fazer isso.

Gosto muito de artistas que se desafiam em outras coisas. Por exemplo, gosto muito de um artista chamado Greg Puciato, que é conhecido só por cantar, mas nos discos solo ele experimenta com vários instrumentos. E no seu caso, que você é uma pessoa muito associada à guitarra, ver você tocando outros instrumentos e cantando também, isso é uma coisa que te inspira a compor? “Vou fazer isso sozinho, algo que as pessoas não esperam de mim”?
Na verdade vai ser um pouco natural, porque eu já sei o que as pessoas esperam de mim (risos). Mas eu também trabalho com trilha sonora, então fui trabalhando com outros instrumentos, com a voz. E nesse disco, o meu grande desafio mesmo foi cantar as músicas, porque muitas músicas estavam um pouco acima do tom que eu costumo cantar, mas eu não quis baixar o tom, porque às vezes quando você abaixa o tom de uma música ela não fica tão natural, do jeito que ela foi criada.
Então tive muita preocupação, treinei bastante as músicas cantando. E é o que você falou, pra mim é um desafio, porque eu queria fazer algo que não costumo fazer. Nesse disco toquei alaúde, vi algumas aulas na internet, treinei, comecei a tocar o negócio. São detalhes, mas sempre estou querendo fazer alguma coisa que eu não fiz, não para provar algo, mas porque acho legal, a cada disco você fazer algo diferente. Por mais que o estilo seja parecido, você sempre tem algo mais em relação a algo que eu já havia lançado.
Você pode falar um pouquinho sobre seu trabalho com trilhas? Porque eu sempre achei algo extremamente desafiador, pra gente muito talentosa. Como você consegue dar uma identidade a uma trilha?
Engraçado, porque comecei muito tempo atrás fazendo trilha pra publicidade, e é uma escola que você aprende muita coisa, porque a cada dia você está lidando com uma coisa completamente diferente. Assim, se eu for contar nos dedos os anos que eu fiz trilha é muito pouco perto de outros estilos que você acaba criando. O lance da publicidade te dá essa oportunidade de conviver com vários estilos diferentes, aprender, e você tem que aprender mesmo.
Porque não é assim: ah, isso é fácil. Não é, porque cada estilo musical tem uma linguagem muito característica e por mais que pareça que não tem, quando você vai a fundo no negócio, que você faz, você pensa: puta, cara, tá faltando alguma coisa. Algumas vezes, cara, a gente faz a trilha no escuro. Tipo para algum filme ou série, o diretor quer algo em um algum estilo e a gente faz algo e depois com o filme você vai desenvolvendo.
Outras vezes vem o pedido: olha, a gente quer uma trilha desse jeito em tal parte. Você vai vendo o filme e vendo o que vai funcionar no estilo. Mas é um processo que não é fácil, mas legal, porque é um desafio e te dá essa experiência com vários estilos. Eu já fiz trilha de funk, já fiz trilha de piseiro, com orquestra, então você vai pegando essa manha de fazer coisas diferentes, o que é muito legal pro seu desenvolvimento como músico.
E como você disse que teve uma banda de thrash metal quando era bem jovem ainda, e teve o Shaman, obviamente, tocou na banda do Andre. Eu imagino que o metal seja uma grande paixão ainda, você tem algum projeto de metal engatilhado pro futuro?
O Luís (Mariutti) fez um projeto que toca às vezes as músicas do Shaman, do Angra, da carreira solo do Andre. É um estilo que eu gosto muito de tocar, mas as coisas mais novas eu conheço muito pouco, pra ser sincero. Gosto das coisas mais antigas, ainda ouço bastante, principalmente essa parte de thrash metal, gosto bastante, porque foi o estilo que eu comecei a escutar.
Mas gosto de ver bandas novas tocando, principalmente no Brasil, que a gente tem uma leva de bandas muito legais, principalmente duas bandas formadas por mulheres, que são muito boas, a Nervosa e a Crypta, que são bandas que estão despontando lá fora, que fazem sucesso lá fora e aqui. Acho que o Brasil tem muita coisa legal.
Mas não é um estilo que ouço muito, gosto de conhecer, gosto de ouvir, acho coisas legais, e gosto muito de tocar, acho que tocar eu gosto mais do que escutar. Estamos fazendo esses shows, mas não tenho projeto de fazer música nova, coisas novas no metal nesse momento. Estou bem focado no meu trabalho solo, acho que é o que estou mais investindo em termos de divulgação, de fazer show, esse tipo de coisa, porque acho que é o que mais gosto de fazer acho que o álbum merece uma boa divulgação.
E você falou agora da questão dos shows, uma coisa que sempre fico me perguntando, porque a internet facilitou muita coisa, mas dificultou muita coisa, em relação à divulgação de um projeto. Como você enxerga isso? Nessa questão de divulgar e produzir, porque você produziu sozinho o disco. Sendo um artista solo, principalmente, qual a diferença de ser um artista solo divulgando o próprio trabalho em relação a uma banda?
Sempre falo que o bom de ser um artista solo é que você consegue gerenciar todas as coisas, e o ruim de ser um artista solo é que você tem que gerenciar todas as coisas (risos). Mas, cara, eu acho que realmente a minha maior dificuldade é essa mesmo, de conseguir divulgar da maneira correta. Porque eu vim de uma época que a gente não era assim. O Shaman tinha uma grande gravadora, que divulgava, fazia tudo, e a gente era focado em produzir e tocar. Hoje em dia mesmo você tendo uma banda grande, você tem que aprender.
Eu acho que estou muito longe de fazer um bom trabalho de divulgação. Tendo aprender, mas realmente é o que tenho mais dificuldade. E acho que é normal porque o volume de informação que a gente tem hoje em dia é muito grande, você se destacar em algo assim é muito difícil. É o que eu falo, a internet tem muitas coisas legais, que é você ter esse espaço de divulgar o seu som, mas ao mesmo tempo o volume é tão grande que muitos trabalhos legais acabam ficando escondidos. Então a gente tenta unir forças, com a ForMusic, que o trabalho que ajuda bastante nesse quesito, unir forças com os contatos que eu tenho e eles têm. É realmente o ponto mais difícil pra mim.

Você disse que viu a foto da artista que te inspirou no título do disco. Queria saber se você poderia falar um pouquinho sobre isso, que tipo de arte te inspira fora da música.
Cara, foi muito sem querer que aconteceu tudo isso. Na hora mandei uma mensagem pra ela perguntando quanto ela cobrava pra me deixar usar a imagem. Ela ficou super feliz, porque ela é fã do trabalho. Foi muito legal. (Mas) Eu tento consumir o máximo de filmes, livros, que eu consigo. A gente trabalha tanto, mas entrando no título do disco mais uma vez (risos), que sobra pouco tempo pra você assistir a um filme, ler um livro.
Então toda hora que eu consigo tento ler alguma coisa, assistir alguma coisa. As coisas que mais gosto de assistir ou ler são sobre geopolítica. Assisto muita coisa. Meu filho tem 15 anos, então assisto com ele as coisas que ele gosta de assistir, pra estar com ele também. Nem sempre de geopolítica, de vários assuntos. Tento consumir o máximo que posso, pra ter inspiração pra escrever é muito importante.
E, cara, muita coisa que a gente vive ajuda muito também pra escrever, todas as coisas que a gente vê. Falei da “Younger Man”, coisas que a gente vê pela internet acabam nos inspirando a escrever. Acho que hoje em dia, com toda essa doideira que a gente vive aí no mundo, acho que assunto não falta.
E como a gente falou, você tem uma bagagem musical bem diversa, eu fiquei curioso: tem algum tipo de som, de música que você ouve e as pessoas iam ficar surpresas? “Caramba, o Hugo Mariutti ouve esse tipo de música”?
Cara, com esse trabalho que tenho de trilha sonora eu realmente tenho que ouvir muitas coisas. Tenho que ouvir tudo, na verdade, até pra você aprender também, né?
Mas tem coisa de hip hop que eu acho legal, talvez as pessoas nunca imaginariam que eu escutasse. Mas na minha página no Instagram sempre posto algumas coisas. Nem posto nada de heavy metal, porque a maioria do pessoal que me segue é do heavy metal então já conhece a maioria daquelas coisas. Então tento pegar algumas coisas que eu ouço que não têm nada a ver com o que a maioria do público que me segue ouve, e posto pra ver se as pessoas acabam gostando.
Tem muita coisa, eu gosto muito do Emicida, que acho que tem muitas coisas muito legais. O meu filho gosta muito de algumas coisas de trap, então eu acabo escutando com ele. Acho que hoje em dia as pessoas nem se assustam mais, depois dos discos que eu lancei (risos).
Muito obrigado, Hugo! Adorei o disco e espero que você venha algum dia aqui em Vila Velha ou Vitória pra poder ver ao vivo.
Pô, se não for tocar eu vou de férias, porque já fui aí de férias com meu filho e ele adorou, a gente gostou pra caramba, ficou muito feliz aí. Espero que eu possa levar esse trabalho pra fora de São Paulo, tem muita gente que me pede e acho que com esse trabalho eu vou conseguir!
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!