Faixa a faixa: BIKE retorna barulhento em “Noise Meditations”

introdução por Leonardo Vinhas
Faixa a faixa por Julio Cavalcante

O BIKE voltou, e voltou barulhento. O quarteto de São José dos Campos (SP) entrou em estúdio para gravar seu sexto disco, e fez tudo em um dia só, garantindo uma sonoridade mais direta e ruidosa que muito beneficia a banda. Não à toa, o álbum foi batizado de “Noise Meditations” (2025).

Os joseenses formam uma banda de trajetória e características peculiares. Parece oscilar entre a vontade de pertencer ao universo neopsicodélico brasileiro, na trilha aberta pelos Boogarins, e encontrar uma identidade própria mais inspirada pelo kraut rock. Esses elementos ora se conflitam, ora vão em caminhos separados, mas quando se encontram, rendem ótimos momentos. O álbum anterior, “Arte Bruta” (2023), tinha vários desses momentos, e um cuidado maior com os vocais – sempre um dos pontos de deficiência do grupo.

“Noise Meditations” parece ter resolvido essa “crise” existencial. A banda assume vocais mais altos (quase dissonantes), aumenta o volume dos riffs “krautificados” e capricha (muitíssimo!) nas tramas percussivas – o baterista Daniel Fumega ainda há de ser reconhecido como um dos mais inventivos em seu instrumento no cenário roqueiro do Brasil. Em vez de brigar com as falhas, o BIKE as assume, e tenta trabalhá-las como parte de sua identidade. Em muitos momentos, dá certo. Em outros, soa ainda em transição. Mas decididamente, temos aqui uma banda que está mais em paz com a música que faz.

“Diferente do que fizemos com o quarto e o quinto disco, optamos por trabalhar sem um produtor dessa vez. Fizemos uma pré-produção aqui no Estúdio Wasabi (nota: de propriedade do guitarrista e vocalista Diego Xavier) e chegamos num consenso de que queríamos um disco o mais ao vivo possível, no qual executássemos apenas com os quatro integrantes no palco, com o mínimo de overdubs e tals. Marcamos uma diária no estúdio El Rocha. Se fosse necessário, pegaríamos mais uma data, mas nem precisou”, conta Fumega.

O baterista conta que a agilidade também teve a motivação financeira (um dia de estúdio sai bem mais em conta, afinal), além da necessidade de ter material para vender na tour pelo Reino Unido em setembro, que passou pelas cidades de Londres, Cardiff, Glastonbury e Liverpool. Nessa turnê e na gravação, já estavam com o baixista Gil Consolino no lugar de João Gouvea. “Tivemos poucos desentendimentos, mas também alguns momentos críticos devido a várias situações sobre as quais não tínhamos controle: coisas fora da banda e tals. Somos uma banda bem independente que produz discos e tours sem apoio de selos ou de equipe para fazer acontecer. Para a gente conseguir desenrolar tudo isso, as nossas ideias e divisão de tarefas dentro da banda precisam estar bem alinhadas e distribuídas, e essa foi a razão maior de mudanças na formação da banda – sem tretas e tals”, conta Fumega.

No fim, a necessidade de se adaptar às circunstâncias e de organizar a casa funcionou a favor do BIKE. “Noise Meditations” ainda não é o grande disco que parte dos que acompanham da banda esperam que um dia ela entregue, mas traz uma proposta musical melhor definida e mais direta. E para ajudar a entender essa proposta, a banda preparou um faixa a faixa, convidando fãs e neófitos a mergulharem em seu ruído meditativo.

Ouça o disco na integra abaixo e leia o faixa a faixa assinado por Julio Cavalcante

01) “Todos os Olhos”: É psicodelia apocalíptica. A letra é o ponto de vista da floresta pegando fogo, quando todos ficam de olho, mas a maioria não faz nada, enquanto os olhos imundos do mundo querem apenas o lucro que a floresta pode dar.

02 – “V.D.C”: A letra veio durante uma expedição que fizemos com amigos. A partir de um certo momento a música que tocava me fez querer dançar como num ritual. Quando o disco que tocava acabou me senti muito leve e anotei as frases que vieram num papel. Na criação do som a música surgiu em cima de um ritmo do meu pedal de guitarra, e o loop que criamos me deu a mesma sensação da expedição. Foi só juntar as coisas nesse quebra-cabeça.

03 – “NEU!A”: Fiz essa letra na nossa última turnê pela Europa. É como se fosse uma letra irmã da “Divina Máquina Voadora” presente no nosso segundo disco. São imagens do que vimos e vivemos por lá. Se “Divina” homenageia Ronnie Von no título, aqui quem leva a homenagem é uma das nossas bandas alemãs preferidas, que influenciou muito esse disco e foi trilha sonora de toda essa turnê.

04 – “Sucuri”: Tem forte influência de Pedro Santos e do disco “Krishnanda”, que é um dos favoritos da banda. A letra veio para celebrar a Sucuri da lenda “Yube e a Sucuri”, da cultura Kaxinawá, em que um homem se apaixona por uma mulher sucuri e, para continuar com ela, também se transforma em sucuri e passa a viver no mundo profundo das águas, onde descobre uma bebida alucinógena que dá poderes de cura e acesso ao conhecimento.

05 – ‘Bico de Ouro”: A música nasceu de uma combinação do slicer de uma guitarra com o drone da outra, e a partir daí foi criado o beat que jogou a música pra frente. A letra traz a ideia de liberdade, de não ficar preso a nada.

06 – “Coral”: Surgiu da ideia de ser uma transição do Lado A para o Lado B do vinil. Então depois de toda a explosão de “Bico de Ouro” chegamos em “Coral”, que começa com um riff simples de guitarra que vai se somando aos outros instrumentos. A letra traz a ideia de uma picada de cobra-coral, que se espalha rápido pelo corpo e te leva a outro plano, um renascimento em outro espaço.

07 – ‘Noise Meditations’: Essa letra também foi fruto da mesma expedição que fizemos. Ela é quase um resumo do disco e por isso acabou ganhando esse nome. Talvez a faixa mais jazzística do álbum, mas do nosso jeito. Acho que nunca tínhamos feito uma faixa assim.

08 – “Bhang”: Psicodelia apocalíptica guiada por tambores.

09 – “Velada”: O “Noise Meditations” saiu de uma sessão pesada de três dias de jams gravadas aqui no estúdio. “Velada” foi uma das músicas que nasceram no fim da sessão com o corpo já cansado, mas como o groove engrenou a gente gastou um tempo nesse loop, que era pesado e rítmico. Acho que é a faixa mais pesada do BIKE até então. Ela também me passa uma sensação muito forte de leveza ao terminar e sua letra também surgiu na expedição. É a faixa onde a afinação que uso na guitarra neste disco mostra mais a sua cara.

10 – ‘Essência Real”: Para encerrar o disco pensamos em “Essência Real” porque ela traz na letra o resumo do que é ter uma banda independente lançando discos e fazendo turnês. Na parte sonora tentamos trazer a sensação de estar voltando, aterrando e mostrando ao ouvinte que é o final do disco.

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