texto de Leandro Luz
A Perna Cabeluda caminha sorrateira pelas vielas de Olinda e pelos parques de Recife. Chuta a barriga de um, dá uma rasteira em outro. Salta de lá para cá, faz o diabo. Não tem bala, canivete ou peixeira que a pare. De um anúncio sensacionalista de jornal para a materialização da Perna, Kleber Mendonça Filho faz, em menos de três minutos, o seu pequeno grande filme de monstro. Tal como em “Vinil Verde” (2004), curta-metragem protagonizado por um par de luvas verdes macabras, há no miolo de “O Agente Secreto” (2025) uma suspensão da realidade que nos desarma. É um filme devastador em vários aspectos, sobretudo quando se propõe a encapsular momentos de profunda dor e agonia vivenciados pelos brasileiros ontem e hoje, dos anos de ditadura à (de forma indireta) COVID e ao governo de extrema-direita que se instalou no Brasil nesta última década. Ao mesmo tempo, interessa ao cineasta se afastar de uma lógica confortável e genérica do típico thriller policial, incluindo uma porção elevada de humor e delírio, ainda que navegue descomplicadamente pelos códigos do gênero.
A primeira sequência já dá o tom: um Fusca amarelo invade a paisagem pernambucana habitada por um posto de gasolina e um defunto coberto por jornais no meio do “nada”, logo seguido por um carro de polícia da mesma cor; um bang-bang à brasileira, mas silencioso, sem a necessidade de grandes duelos com pistolas (o estardalhaço chega mais adiante na trama). Wagner Moura é o motorista do primeiro carro. Se apresenta como Marcelo (em breve descobriremos o seu nome real, Armando) e trava um jogo cínico com os policiais. As moscas ao redor do corpo ajudam a compor a atmosfera insólita, assim como a invasão dos cachorros que latem e lambem as vísceras putrefatas do morto. O rompante de violência e sangue será uma constante aqui. Desde a presença da carcaça de um tubarão que engoliu uma perna (esquerda ou direita?) até os tecidos do rosto de um policial que explodem pelo ar com um tiro. A materialização do horror é generalizada, na contenção e no excesso.

“O Agente Secreto” se passa majoritariamente em Recife, no ano de 1977, e acompanha a saga de um professor universitário, viúvo, que retorna à sua cidade de origem para reencontrar o filho pequeno e tentar se desvencilhar de uma vez por todas da “perseguição invisível” empreendida pelo governo brasilieiro. A pessoa que dá nome e rosto a essa eminência parda não tarda em entrar em cena: Ghirotti, interpretado por Luciano Chirolli, é o empresário designado para minar os esforços da universidade em prol de interesses escusos – algo que o filme nos conta por meio de um longo flashback. Na única cena na qual a esposa de Armando, Fatima, aparece com destaque, Alice Carvalho rouba todos os olhos para si, como já é de costume em sua carreira. É ela quem tem a coragem para colocar os “pingos nos is”, que xinga, grita e coloca o dedo na cara do absurdo. E, logicamente, diante de um sistema absolutamente cruel e podre por dentro e por fora, sofre todas as consequências. Marcelo / Armando passa, então, a cruzar com diversas personagens que irão lhe ajudar a entender que, apesar de todo o horror, ele não está sozinho.
A começar pelo sogro, Seu Alexandre, vivido por Carlos Francisco, projecionista do Cinema São Luiz. Ele e a esposa cuidam do neto e se mostram surpreendidos com o retorno do genro. Para eles, pessoas comuns que esperam ficar longe de qualquer tipo de problema com a polícia ou com o governo, Marcelo / Armando jamais deveria ter voltado. Mesmo assim, entendem a importância da relação entre pai e filho e decidem ajudar. O próprio ofício de Seu Alexandre, aliás, terá uma importância fundamental, com três locações dentro do cinema servindo a diferentes momentos da trama. Outra figura central para a composição dessa grande rede de amparo é Dona Sebastiana, uma senhorinha encurvada que administra uma espécie de condomínio com vários apartamentos que servem de abrigo a pessoas perseguidas por motivação política. Tânia Maria interpreta a sua personagem com muita vitalidade, funcionando quase como uma bússola moral para o filme. Outras boas personagens vêm e vão, com maior ou menor importância, cada uma com a sua devida função narrativa: Hermila Guedes é Claudia, um afeto importante para o protagonista – e quando a atriz abre um largo sorriso, logo em sua primeira aparição, entendemos o motivo de sua presença no elenco; Maria Fernanda Cândido é Elza, espécie de líder de uma resistência de esquerda que oferece ajuda com passaportes falsos e rotas de fuga; e os inúmeros vilões, claro: o divertido e asqueroso Euclides (Robério Diógenes), a dupla de matadores Augusto & Bobbi (Roney Villela e Gabriel Leone); dentre várias outras figuras, com destaque para Udo Kier que interpreta um alfaiate judeu sobrevivente da Segunda Guerra Mundial que é estupidamente lido como um soldado nazista pelos milicos.

A ironia empreendida por Kleber Mendonça Filho é fina, assim como é inteligente a sua capacidade de nos levar para um determinado tempo e espaço muito definidos. Um exemplo dessa maestria é a sequência na qual Marcelo / Armando descobre que a sua cabeça está a prêmio, literalmente, e depois de uma longa conferência em uma salinha do Cinema São Luiz, sai às ruas do Recife em meio ao caos do Carnaval. O frevo e o pó de arroz imprimem uma alegria brutal em contraste com o momento vivido pela personagem. Wagner Moura, com muita sutileza, incorpora em seu olhar preocupado e em seu risinho de lado o que o filme parece gritar a todo momento: a vida é dura, mas ela também é bonita. Enquanto caminha, pula e dança discreto pelas vielas da cidade, podemos enxergar as engrenagens funcionando dentro da cabeça do ator. Perspicaz como é, Moura trabalha de modo a compor uma interpretação sóbria, até mesmo contida, que não precisa ir muito além do que se é. Pelo contrário, o ator usa do próprio prestígio e do legado das personagens que interpretou no passado para dar peso a Marcelo / Armando. Quando o delegado Euclides afirma que ele tem “pinta de policial”, o sorriso maroto de Moura denuncia a consciência de que, no passado, ainda muito vivo na memória do povo brasileiro está o seu Capitão Nascimento, tão famoso quanto controverso no Brasil. O que nos leva a uma pergunta fundamental: seria “O Agente Secreto” um filme universal, capaz de ser compreendido no mundo inteiro?
Sim e não. Kleber Mendonça Filho, cinéfilo e esperto como é, consegue construir, mais uma vez, uma obra que adota referências muito sedutoras e reconhecíveis. Dos filmes de monstro da Universal ao cinema de John Ford e John Carpenter (mais uma vez, especialmente após “Bacurau”), de Steven Spielberg a Michael Cimino. Há muito de “Retratos Fantasmas” também aqui, sobretudo na maneira como o diretor insiste em filmar as suas grandes paixões – “Tubarão”, um dos filmes que inventaram o blockbuster como o conhecemos hoje, a cabine de projeção de um velho cinema, o modo como se pulava o Carnaval antigamente, as marchinhas, os discos de vinil e as fitas cassete, a cerveja gelada em um dia quente de verão, Donna Summer, Chigado e a música de Ennio Morricone e Audrey Nohra, “Guerra e Pace, Pollo e Brace”, tirada de um filme obscuro (“Grazie Zia”, primeiro longa-metragem do diretor italiano Salvatore Samperi lançado em 1968). O barato é que, no entanto, boa parte dessas referências estão conectadas a modos de existência muito brasileiros. E isto não pode ser dito de forma leviana, ainda que seja bastante difícil de colocar em palavras. É a maneira como a língua portuguesa é mastigada e cuspida pelos atores, como Tânia Maria conta uma fofoca, como Hermila Guedes caminha pelos jardins do condomínio. Está na troca de olhares entre os milicianos cariocas que viajam a Recife, na postura autoritária na qual o delegado chega na cena do crime com resquícios de confete e purpurina na cara. O Brasil está presente em cada fotograma (ou seria frame?) de “O Agente Secreto”.
O vencedor nas categorias de melhor ator e melhor diretor no Festival de Cannes deste ano e o candidato do Brasil ao Oscar em 2026 tem uma montagem, assinada por Eduardo Serrano e Matheus Farias, ao mesmo tempo fluida e propositalmente marcada pela intermitência. É como se o filme nunca quisesse seguir adiante no embalo do thriller, pelo menos não a qualquer custo. Ou seja, como se para cada passo dado a frente, uma necessária tergiversação se fizesse necessária para garantir o peso dos eventos retratados. Nem sempre tal decisão é benéfica. Daí as cenas protagonizadas por Laura Lufési, espécie de pesquisadora que, no tempo presente, investiga um vasto e confuso material de arquivo a pedido de uma empresa, caindo sem querer nos registros desse grupo de perseguidos políticos e toda a sua rede de contatos e serviços. Esse movimento do filme soa como um truque para se conectar ao cinema contemporâneo de vulto autoral-comercial, a obras que ganham prêmios em grandes festivais, cujas vitrines ajudam a multiplicar o dinheiro e a possibilitar, portanto, uma continuidade do cinema de arte dita “padrão internacional”.
As constantes interrupções para o tempo presente e principalmente a cena mais alongada ao final do filme lembram muito o recurso usado por Jonathan Glazer em seu premiadíssimo e divisivo “Zona de Interesse” (2023). Nada contra a ação em si, que por si só não compromete o resultado, mas que usada desta forma soa mais como um recurso apelativo feito exclusivamente para ajudar o espectador a ligar os pontos e garantir a satisfação final sob uma perspectiva estrutural. A sorte é que o restante do longa-metragem de Kleber Mendonça Filho é muito melhor do que o do diretor inglês. Afinal de contas, só mesmo um brasileiro para tentar inventar um mundo com menos pirraça.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
…”Seria “O Agente Secreto” um filme universal, capaz de ser compreendido no mundo inteiro?”
Sr. Leandro, parece que vossa pergunta foi respondida pelo reconhecimento mundial que o filme alcançou.
Era eu um menino na cidade do Recife em 1977. Um Office Boy ou estafeta, que corria as agências bancárias com as duplicatas e os cheques para efetuar os pagamentos que a empresa para a qual prestava serviço, me incumbia de fazer todo santo dia.
Há vários detalhes no filme que somente quem lá viveu e esteve consegue identificar: a) a camiseta da personagem Clóvis é da Livraria Livro 7 (precursora da liberdade de poder folhear os livros no local); b) A camiseta da empregada doméstica (vizinha do Marcelo) é do Banorte (banco local que patrocinava a inscrição de calouros para o vestibular unificado do estado); Há um “take” onde aparece ao fundo, uma caixa de sabão em pó da marca Rinso que era de alcance nacional, mas, no nordeste era campeão em vendas. Há outros tantos e quase imperceptíveis detalhes que não cabem aqui mencionar para não ficar extenso demais, o texto.
Porém, o que pouca gente notou foi a troca de sotaque da personagem interpretada pelo Wagner Moura. No início, o Anisio (meu xará) e personagem do filme, estranha o sotaque pernambucano dele. No final, o mesmo Wagner que interpreta o filho, nascido e criado no Recife, já está TOTALMENTE “pernambucanizado”. É que para os “sudestinos” a nossa maneira de falar é uma só. O Nordeste que são 09 estados (como bem sabe) e os que lá habitam, identificam claramente as diferenças na maneira de falar de cada unidade da federação da região. Muito mais fácil para nós, saber quem é do Maranhão, Bahia , Pernambuco e por aí vai.
No mais, o retumbante sucesso do filme retirando quaisquer vieses políticos, premiou um diretor pernambucano , o qual e por sua vez, foi um observador mais que atento daquela realidade do já longínquo ano de 1977.
Forte abraço.