Entrevista: Figueira lança EP “… nesse lugar…” com sonoridade crua e ruidosa do indie anos 90

entrevista de Leonardo Vinhas

Fabio Figueira “militou no underground”, por assim dizer, e sumiu desse universo. Treze anos depois, o músico volta, agora com um projeto solo que leva seu sobrenome, apresentando quatro canções no EP “… nesse lugar…” (2025). Ele pode não estar mais “militando”, mas decididamente não abandonou o underground, garantindo a sonoridade suja e ruidosa apoiada em melodias pop – você sabe, aquilo que, algumas décadas atrás, era chamado de “indie”.

Figueira era guitarrista da The Vain, uma das bandas mais ativas da cena indie paulista na primeira década deste século. Com base em Taubaté, o quinteto / sexteto / quarteto (a formação variou muito) entregava canções cantadas em inglês, equilibrando melodia, punch e certo senso pop, e sua pequena fama vinha dos shows adrenalínicos, nos quais os integrantes se acabavam, quase literalmente, tamanha a entrega das execuções, permeadas de uma aeróbica demente que desafiava a resistência e a saúde deles próprios.

Mas isso tudo foi até 2012. A banda “parou para descansar” e nunca mais retomou as atividades. A maioria dos integrantes nunca mais se animou a montar uma banda, mas o baixista Julito Cavalcante se juntou a alguns amigos e formou o BIKE, com base na também valeparaibana São José dos Campos. Dois dos integrantes do BIKE – o guitarrista e vocalista Diego Xavier e o baterista Daniel “Fumega” Dandas – colaboraram em “… nesse lugar…”

Xavier produziu o álbum em parceria com o próprio Figueira, e a sonoridade entrega a paixão de ambos por Dinosaur Jr., especialmente na maravilhosamente veloz e furiosa faixa-título. “Mais um Dia” vai em linha semelhante, mas um tanto mais desacelerada e um vocal quase spoken word nos versos. Já “Amanhã” faz pensar que alguém usou a divisão métrica e a melodia vocal das letras do Barão Vermelho da era Frejat e meteu num instrumental à Superchunk. “Contumaz” começa dedilhada, vai ganhando ruído e termina em microfonia pura e simples. Uma quinta faixa faria parte do disco mas foi limada e… bem, talvez devesse ter entrado no lugar dessa última. Mas ei, se um projeto solo de “indie das antigas” não pode lançar um EP de estreia fazendo o que der na telha, quem mais vai poder?

Sentado em um café após uma madrugada de labuta, Figueira contou um pouco da gênese desse disco e como ele recupera uma sonoridade que seu compositor jamais abandonou. E que, a julgar pelo papo aqui, não vai ficar só nesse EP (que você pode ouvir na integra abaixo só dando ‘play’).

Mais de 10 anos fora da música, você volta – e volta solo. O que aconteceu nesses 13 anos entre o fim do The Vain e a gravação desse EP?
Ah, várias coisas. Com o The Vain, começamos muito jovens, e ficamos 10 anos rodando, chegou uma hora em que estávamos todos cansados. Era ensaio, show, gravação de disco, ensaio de novo… A gente ensaiava demais, eram duas, três vezes por semana, ensaiava sábado, domingo. A gente queria aproveitar um pouco mais os fins de semana, e quando a gente deu a pausa – era para ser só uma pausa mesmo – ela acabou sendo definitiva.

E você não se envolveu em nada musical nesse meio tempo?
Não, era só a vida sendo vida mesmo. Não foi nada programado. Fiquei um tempo tocando para valer depois disso, tinha os meus meus instrumentos, violão, guitarra, eu fazia um barulhinho e tal, mas nada sério. Aí, depois de muito tempo, resolvi voltar a me dedicar mais. Isso foi há uns quatro anos, comecei a tocar devagarzinho, devagarzinho, e aí a vida foi levando, tive um processo na vida que me levou a ficar um tempo sozinho, isolado, e foi nesse período que voltei a tocar todo dia direto. Começou a sair uma melodia aqui, uma melodia ali, daí eu falei: “Ah, vou fazer umas coisinha aqui de brincadeira, tá”. E acabei gostando do resultado.

E você voltou tão solo quanto possível, só não gravou as baterias, e veio assinando com o seu sobrenome. Isso me faz crer que esse é um trabalho bastante pessoal para você.
Totalmente, totalmente. Eu só não levei bateria porque não sei tocar (risos). Mas nas demos eu fazia bateria eletrônica, eu mesmo usei um padzinho e fiz as bases. Quando as músicas estavam mais ou menos prontas, eu as passava pro [Daniel] Dandas, baterista do BIKE. Depois a gente combinava de ir um dia no Wasabi (nota: estúdio em São José dos Campos de Diego Xavier, também do BIKE e do Diego Xavier Trio) e gravava para mim. Aí foi saindo.

Você fez esse disco com dois caras que se movimentam muito ainda na cena do Vale do Paraíba, e também fora dela, que são os dois integrantes do BIKE. O The Vain provavelmente foi a banda que mais agitou a cena do Vale do Paraíba nas últimas décadas: vocês organizaram muita coisa, discutiram, se movimentaram, fizeram até a clássica turnê-roubada no exterior. Eu imagino que esse ímpeto todo já nem cabe mais nesse momento, certo?
Não cabe mesmo, certeza. Com o The Vain, a gente organizou bastante festival, bastante, botava a banda para tocar em Taubaté, em São José dos Campos, teve até um festival que fizemos em Santo Antônio do Pinhal em que foram os Blank Tapes (nota: Festival da Montanha, em 2010). Agora é isso, um projeto solo. Quero tocar ao vivo em breve , a minha ideia é lançar um próximo EP e aí começar a fazer shows e tal, mas nada como naquela época.

Essas canções do próximo EP elas já existem? Estão gravadas?
Tem umas duas ou três que já estão gravadas, mas ainda estou fazendo ajustes em letras. E estou montando uma banda, inclusive já falei com umas pessoas, e acho que a gente deve começar a ensaiar entre outubro e novembro, e aí talvez o próximo EP já não seja totalmente solo, mas com mais pessoas.

O EP tem uma sonoridade que não é muito comum hoje em dia, uma coisa crua, ruidosa, mesmo que exista melodia nas composições. O indie pós-Los Hermanos é uma coisa totalmente diferente do indie dos anos 1990. Essa sonoridade, mais noise, mais garageira, inspirada pelo o que a gente chamava de “alternativo” nos anos 90 é cada vez mais rara, e com pouca renovação de artistas e público. Foi intencional esse resgate estético, mesmo que consciente que ele é “fora de moda”?
Todo dia eu ouço alternativo 90, é algo de que eu gosto e sinto falta. Nesse indie brasileiro que você falou, acho que falta guitarra, falta distorção, falta barulho. É muita guitarra limpa, e como você falou, depois do Los Hermanos tudo foi para essa estética. Eu quis desgarrar disso, ir para o que eu acredito que seja um alternativo de verdade. Quis gravar desse jeito. Quando comecei o EP , eu estava ouvindo Pavement todo dia, e ali, além das guitarras, tem a voz. Eu não sou um cantor, não sou nada nem perto, mas é aquilo, é encaixar a voz que eu tenho dentro do som. É um processo novo para mim também, porque nunca cantei. Sempre fazia as bases, fazia as músicas, a letra, mas gravar a voz foi novidade.

Tem uma melancolia em todas essas músicas. Você falou que elas vieram depois de um período de recolhimento, e vejo essa melancolia e até uma certa mágoa nessas quatro canções. É isso?
Sim, tem mesmo. Senti uma urgência de falar disso. Gosto muito de me expressar com as guitarras, e o barulho todo, aquele caos, eles complementam aquilo que eu quero dizer. Acho que falo mais no instrumental do que na letra, mas é isso: no dia a dia de um processo de recolhimento, você vive muita coisa sozinho, e tudo hoje é muito polido. Falta raiva. E eu estava com urgência de falar, não quis soar bonitinho, quis soltar tudo que estava preso dentro de mim, falar algumas coisas e fazer barulho.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. 

2 thoughts on “Entrevista: Figueira lança EP “… nesse lugar…” com sonoridade crua e ruidosa do indie anos 90

  1. Só tenho a dizer SHOW, sonhos, desabafo, novos projetos, resiliência, tudo para nos presentear com esse trabalho fantástico. Nasce uma estrela, sucesso e muitas realizações, repleto obviamente de muitos shows que aguardaremos ansiosos.

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