Cinema: “O Último Episódio”, de Maurilio Martins, revisita com nostalgia os anos 90 em um ‘coming of age’ à mineira

texto de Renan Guerra

Desde quando estreou na Rede Globo em 1974, tendo um impacto ainda maior nas décadas de 80, 90 e 00, a Sessão da Tarde criou uma memória afetiva muito sólida do que um precisaria ter para ser exibido no horário vespertino da emissora mais popular do país. Não é tão simples explicar em detalhes essas definições, mas, fato, basta assistir a um filme que, rapidamente, é possível enquadrá-lo nessa gôndola. Aventura, romance, imaginação, amadurecimento e as memórias de belas amizades, tudo isso ajuda a criar a receita de um excelente filme desse estilo, envolvendo o espectador e o deixando curioso e atento até o final, que emociona. Todos esses ingredientes estão presentes em “O Último Episódio” (2025), de Maurilio Martins, um coming of age com um tempero mineiro especial.

Erik (Matheus Sampaio), um garoto de 13 anos, tem uma paixão platônica por Sheila (Lara Silva) e, para se aproximar dela, diz ter em casa uma fita com o lendário “último episódio” do desenho “Caverna do Dragão”. Com a ajuda de seus dois melhores amigos, Cassinho (Daniel Victor) e Cristão (Tatiana Costa), o pré-adolescente busca uma saída para a enrascada em que se meteu enquanto tenta dar conta das cobranças escolares, dos problemas familiares e das mudanças do amadurecimento. “Caverna do Dragão” foi uma série animada produzida entre 1983 e 1985. com três temporadas, 27 episódios e um fatídico último episódio nunca produzido. De 1985 a 2014 o desenho foi exibido na Rede Globo em inúmeras reprises dentro de programas apresentados por Balão Mágico, Xuxa, Angélica e dentro da programação da TV Globinho. Detalhe: de 1985 a 1994, a Globo exibiu apenas as primeiras temporadas do desenho, isto é, os primeiros 21 episódios; a exibição da terceira temporada só rolou em 1994, dentro do programa “TV Colosso” – isso significa que Erik e os personagens de “O Último Episódio” nem estavam perto do final da série, já que o filme se passa em 1991.

De todo modo, esse looping de reprises de “Caverna do Dragão” é apenas um ponto de partida para que o filme de Maurilio Martins se aprofunde em outros cenários, retratando experiências comuns da adolescência, como o nervosismo do primeiro amor, o desejo de demonstrar mais coragem do que se tem e os laços de amizade que se fortalecem nas pequenas aventuras. Diante da mentira criada por Erik e da tal fita que nunca existiu, ele precisa recorrer à imaginação como forma de solução e, nesse processo, aprende que amadurecer também envolve assumir as consequências de suas escolhas, em um retrato bastante especial do amadurecimento. O charme de “O Último Episódio” está na identidade brasileira que as produções da Filmes de Plástico conseguem transmitir de forma muito única: há uma forma singela de se recriar memórias e lembranças com detalhes e minúcias extremamente nossas; e isso pode ser visto em diferentes coisas, seja na relação próxima entre vizinhos tão comuns nas regiões de periferia e de classe média baixa no Brasil ou mesmo na apresentação de marcas e nomes que fizeram parte da nossa história – as revistas Bizz e o suplemente Bizz Letras Traduzidas, as embalagens de chiclete Ploc e Ping Pong ou as latas de óleo Violeta, entre outros.

Muitos desses detalhes nascem das próprias memórias de infância e adolescência do diretor Maurilio Martins, que cresceu em Laguna, bairro de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, no início dos anos de 1990. Essas memórias se conectam a memórias afetivas de uma geração e, a partir disso, Maurilio constrói um filme que fala sobre as lembranças coletivas de diferentes pessoas envolvidas pela cultura pop e que viveram e cresceram nas periferias brasileiras, mas que também auxilia na criação e construção de memórias regionais, em um trabalho delicado de revisitar esse passado que parece tão próximo, mas que já tem 30 anos. E essa viagem temporal se dá pelo trabalho minucioso da produção de recriar cenários, ambiências e todo um clima muito típico daquela época. Em um processo que dialoga com a própria passagem do tempo e as transformações físicas dos espaços, pois como bem relembra Maurilio, “na periferia, existe algo que funciona como um sinal de obtenção de uma vida melhor; um indicativo muito forte de que sua vida está melhorando é quando você consegue reformar a sua casa, derrubar e construir outra, trocar o muro, trocar o passeio. Essa reforma é muito constante em regiões periféricas”. Dito isso, vale citar que o filme foi realmente rodado em muitos espaços da juventude de Maurilio, tanto que a casa onde o Erik mora fica em frente a casa em que Maurilio cresceu na vida real.

Dentre os muitos detalhes que nos levam de volta no tempo, um deles é crucial: a música. Aquele universo de rock e pop entre os anos 80 e 90 é revisitado por esse olhar juvenil, de quem tenta mostrar sua maturidade a partir dos sons e tenta, de algum modo, renegar os sons infantis que, lá no fundo, ainda gosta tanto. “O Último Episódio” possui trilha original composta pelos músicos John Ulhoa e Richard Neves, da banda mineira Pato Fu. Além do material desenvolvido exclusivamente para a trilha, como a música “Guerra Fria, Domingo Quente”, em que John rememora a sonoridade de uma banda mineira marcante dos anos 80 (e da qual ele fez parte), a Último Número, há ainda versões de clássicos como “Doce Mel”, eternizado pela Xuxa, e a regravação inédita de “Qualquer jeito” (Bob McDill / Erasmo Carlos / Roberto Carlos) com Fernanda Takai, música eternizada na voz da cantora cega Kátia. A previsão da produtora Filmes de Plástico é lançar em breve o vinil com as canções do filme, celebrando assim essa trilha sonora de forma clássica.

Outro ponto fundamental do resultado final de “O Último Episódio” reside no o elenco que dá vida ao filme. O charme fundamental se encontra no trio de protagonistas, os jovens Matheus Sampaio, Daniel Victor e Tatiana Costa, que apresentam uma naturalidade na tela que parece muito sincera. Hoje em dia se brinca que o cinema e a TV foram dominados pelas “iphone faces”, isto é, a cara de pessoas que parece que sabem o que é um smartphone, do tipo que não podem mais representar personagens do passado; por isso mesmo vale reforçar que as crianças aqui parecem realmente crianças que zapeavam na TV e que colecionavam e trocavam figurinhas e tazos. No elenco adulto, vale o charme de encontrar os rostinhos conhecidos da Filmes de Plástico, como o diretor Gabriel Martins ou a estrela Rejane Faria, na mesma medida em que vamos encontrando os moradores de Contagem que se tornaram personagens da história.

Dito tudo isso, pode até parecer que o filme é mais uma dessas narrativas inteiramente calcadas na memorabília nostálgica, mas não. “O Último Episódio” se adorna das lembranças para construir uma narrativa bastante atemporal sobre amadurecimento, sobre o enfrentamento doloroso da passagem da infância para a fase adulta. É o confronto cru que há entre a fase em que somos pequenos demais para ouvir certas coisas até o dia em que somos adultos o suficiente para lidar com os pesos do mundo. Da forma quase típica dos títulos da produtora Filmes de Plástico (responsável por produções recentes elogiadas como “Marte Um” e “O Dia Que Te Conheci”), ao melhor estilo mineiro, o filme de Maurilio Martins nos conquista aos poucos, pelas beiradas e quando vemos estamos emaranhados naquelas emoções, entre lágrimas e risos. E aí acaba sendo inevitável lembrar das frases finais de “Conta Comigo” (Rob Reiner, 1986), quando o escritor-narrador sentencia: “Nunca mais tive amigos como os que tive quando tinha doze anos. Meu Deus, alguém tem?”.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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