texto de Fabio Machado
fotos de Marcos Hermes
Para quem gosta de ver correlações e coincidências pelo universo afora, considere isso: as apresentações de Test e Deafkids em São Paulo para o lançamento do novo disco “Sem Esperanças” (2025) calharam de acontecer nos dias 11 e 12 de setembro – justamente quando o Brasil via, enfim, alguma esperança com uma condenação histórica de militares pelo STF. Talvez por isso, o clima no dia 12 tenha sido de celebração e catarse entre os presentes no Sesc Avenida Paulista. Ou talvez eu esteja vendo correlações onde existe apenas uma atração, por parte de todas as pessoas ali, em apreciar frequências que te engolem, ritmos que te deixam indeciso sobre dançar ou se esvair num surto e o uso de distorção como argamassa arquitetado por João Kombi (guitarra e voz), Barata (bateria) – metade do Test -, Douglas Leal (guitarra, voz e percussões) e Sarine (percussões e efeitos) – a outra metade formada pelo Deafkids.
Esse é o tipo de relato em que não vale a pena dizer se tocaram música x ou y, ou se o guitarrista usou esse ou aquele equipamento: a intenção é pura e simplesmente voltada para a música baseada no álbum recém-lançado do quarteto. Desde o início, a partir de um drone criado por Kombi que foi acompanhado logo pelo restante do conjunto com percussões e camadas extras de ruído, era perceptível que algo único estava sendo criado ali (e afirmo isso mesmo sabendo que os músicos fizeram uma apresentação no mesmo lugar no dia anterior; ainda que haja semelhança entre notas e palavras, é improvável que a sensação fosse a mesma daquele momento).

Ao vivo, “Sem Esperanças” é uma versão maximalista da sonoridade apresentada no disco. A voz de Kombi por vezes soa como um sussurro gutural envolta em percussão e guitarra até explodir num blastbeat feito por Barata. Ou pode surgir beat eletrônico acompanhado por intervenções percussivas de Sarine e Douglas. O ritmo é um aspecto essencial em toda a apresentação: a forma como a parte rítmica se mistura com as camadas de ruído chega a ser hipnotizante e revela texturas densas que vão além da agressão e brutalidade esperada nas versões individuais das duas bandas. Loops atmosféricos se dissolvem em momentos de brutalidade industrial e pulsações que mais parecem um coração alienígena. Repetitivas e incansáveis.
Nesse sentido, é natural que as presenças de Sarine e Barata acabem se destacando. Os estilos de ambos se abraçam por toda a apresentação: uma levada percussiva de Sarine pode anteceder momentos destrutivos de bateria (e guitarras), ou uma batida criada no synth pode se mesclar a blastbeats e outros elementos mais metálicos. Não há choque de estilos ou propostas, tudo ali conversa e faz parte de uma mesma avassaladora massa sonora. Ao mesmo tempo, o som não era formado só por caos e cacofonia. Um breve momento de silêncio pode antecipar um drone, e a partir daí se (des)construindo. Às vezes isso podia ser tão ensurdecedor quanto um berro distorcido ou uma bateria sendo espancada. Uma paisagem sonora complexa, mas perfeitamente audível nas dependências do Sesc, por meio da mixagem feita na hora por Bernardo Pacheco.

O clima também era construído ali pela iluminação (a cargo de Mau Schramm) que seguia e ampliava o contorno sonoro criado pelo quarteto, variando entre uma quase penumbra com a silhueta dos músicos; ou tons diversos, do azul ao vermelho, com detalhes em laser. Toda essa atmosfera intensifica o clima de ritual, que foi quebrado apenas na parte final. Douglas Leal agradeceu a presença do público e lembrou que aquela data era um dia para comemorar, após o anúncio da condenação de Bolsonaro. O agradecimento também se estendeu para seus companheiros de palco: para ele, fazer música com a Test é “inspirador pra caralho”.
Já eram 20h30 quando iniciaram os preparativos finais a partir de um riff de sintetizador que se uniria com a voz de Kombi e a percussão de Sarine, pendendo mais para o eletrônico e industrial do que para o drone tribal enfatizado na primeira parte da noite. E a platéia a partir daí começou a acompanhar o clima e dançar, enquanto o beat incessante seguia amalgamado com as guitarras, percussões e vozes da Deaftest. Um encerramento que é realmente celebratório, mas ao mesmo tempo mentalmente exaustivo em virtude da saraivada de frequências e batidas ao mesmo tempo. Mas ainda que pareça ser muita coisa ao mesmo tempo para ser digerida no momento, a sensação final é de uma apresentação que te move – seja pelo grave no peito, pelos ritmos onipresentes ou pela nossa necessidade de extravasar e celebrar pelas pequenas e grandes vitórias.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.