Entrevista: Michael League (Snarky Puppy) fala sobre “We Like it Here”, a parceria com a Metropole Orkest e sua sobrinha mineira

entrevista de Fabio Machado

Imagine que você é responsável por criar arranjos, produzir e gerenciar uma big band com mais de uma dezena de músicos, ao mesmo tempo em que cuida de uma gravadora, atravessa continentes fazendo turnês e faz entrevistas nesse meio tempo. Ah, precisa tocar o baixo nas gravações e shows também.

Essa é a vida de Michael League, principal compositor e líder da Snarky Puppy, conjunto que começou passou mais uma vez pelo Brasil em setembro, desta vez como parte do Queremos! Jazz, que esse ano já trouxe ao país outros nomes internacionais como Thundercat e Kamasi Washington.

O conjunto está na estrada celebrando os 10 anos do álbum “We Like it Here”, registro feito ao vivo no estúdio e lançado em 2014 que ajudou a botar Michael League e seus músicos no mapa da música instrumental mundial. Ao mesmo tempo em que celebra o passado, o Snarky Puppy também tem um olho no futuro com “Somni”, disco realizado em parceria com a Metropole Orkest, da Holanda, com lançamento previsto para novembro deste ano.

A rotina multitarefas de League não aparenta ser um grande desafio para o artista: em meio a essa turbulenta lista de afazeres, ele até teve tempo para responder via e-mail a entrevista do Scream & Yell. Nas respostas a seguir, ele fala sobre a importância de “manter as coisas em movimento” ao invés de buscar o perfeccionismo – o famoso ditado “melhor feito do que perfeito”. A julgar pelos trabalhos do Snarky Puppy até o momento, a estratégia tem dado resultado.

Ouça a versão originald do álbum “We Like it Here” na integra abaixo

SCREAM & YELL: Nessa turnê vocês estão comemorando os dez anos de “We Like It Here”, trabalho que se tornou um marco na discografia da banda e referência na música instrumental moderna. Pessoalmente, o que esse disco representa na sua vida? Quais as suas principais lembranças durante a gravação do álbum?
Michael: Nós temos várias histórias e memórias daquela sessão (de gravação), com certeza. Foi caótico – nosso baterista não conseguiu participar e tivemos que encontrar um substituto de última hora, muitas músicas foram escritas lá no estúdio poucos dias antes da sessão, etc. Mas olhando em retrospecto e pensando em todo o sucesso que o álbum obteve, posso dizer que poucos integrantes da nossa banda consideram que este seja nosso melhor trabalho. A maioria de nós sente que outros álbuns são melhor executados, mais bem escritos e mais coesos. Essa é a beleza da arte. Todos respondem de forma diferente à mesma coisa.

“We Like It Here” foi relançado recentemente com uma versão remixada e remasterizada (ouça abaixo), além de incluir takes alternativos das músicas. Essa decisão surgiu por alguma insatisfação com a mixagem original ou com as versões escolhidas para o disco lançado em 2014?
De maneira alguma. Eu gosto de como o álbum original soa. Mas queria oferecer uma perspectiva diferente desse registro, especialmente considerando o quão popular ele se tornou.

Um elemento constante na carreira do Snarky Puppy é a participação do público nos discos ao vivo. O quão importante é essa participação e o quanto o público influencia a sua performance e a dos músicos da banda?
É algo que muda completamente o jeito que tocamos. Você se expressa de um modo diferente quando tem seres humanos assistindo e ouvindo a meio metro de distância. Creio que isso faz com que nós possamos nos comunicar de maneira mais eficaz (com o público).

A faixa “Tio Macaco” é um dos destaques de “We Like It Here” e também tem uma conexão especial com o Brasil. Você pode contar mais sobre ela? E aproveitando, quais suas principais referências de música brasileira?
Meu irmão se casou com uma garota de Minas Gerais e eles tiveram duas filhas, então me surgiu essa ideia de escrever músicas para elas baseadas no baião (“Tio Macaco” e “Semente”, do álbum “Culcha Vulcha”, de 2016). Eu chamei a primeira de “Tio Macaco” porque minha sobrinha, Jasmine, disse que eu parecia com o macaco de um de seus livros infantis favoritos. E isso se tornou nossa piadinha – eu fui o Tio Macaco por alguns anos, até ela crescer.

Recentemente foi anunciada “Somni” , colaboração entre Snarky Puppy e Metropole Orkest. A faixa “Waves Upon Waves” foi o primeiro lançamento deste trabalho. Qual a diferença entre este projeto e sua parceria anterior com a Metropole Orkest, “Sylva”, lançado em 2015? E qual a diferença entre compor para uma orquestra com vários musicistas e para a formação habitual da Snarky Puppy?
A diferença principal são as composições. São todas novas, e eu tentei garantir que elas fossem para direções diferentes daquelas em “Sylva”. Escrever para uma orquestra é muito mais libertador, no sentido de que você tem muito mais cores para pintar. As possibilidades de texturas são infinitas.

Você é o principal compositor, baixista e arranjador do conjunto, e ainda é responsável pela gravadora GroundUP Music além de ter outros projetos paralelos. Como faz para conciliar todos esses papéis no seu dia a dia?
Eu tento dar o melhor de mim! É difícil, e nem sempre eu faço um grande trabalho, mas manter as coisas em movimento é prioridade sobre fazê-las com perfeição.

O que o público brasileiro pode esperar das apresentações nessa turnê? Além das músicas de “We Like It Here” e outros temas mais conhecidos, vocês pretendem incluir novidades no setlist?
Nós não planejamos nada, nem mesmo o setlist, até poucos minutos antes de cada show. Ninguém sabe o que vai rolar. Mas sim, estamos tocando músicas do “Somni” nessa turnê e é ótimo ter composições novas no repertório.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

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