texto de Marcelo Costa
fotos de Douglas Mosh
Talvez você lembre, talvez não, mas poucos anos atrás viralizou uma campanha que “defendia” os vegetais feios, que eram descartados nas gôndolas por seus “defeitos”, apesar de manterem todas as características nutricionais de um belo exemplar da mesma espécie. Oliver Ackermann, líder do A Place To Bury Strangers, parece ter a mesma sanha com relação as guitarras. No show arrasador que sua banda fez em São Paulo, no Massari Fest, os exemplares mais detonados deste instrumento que, um dia, foi incendiado por Jimi Hendrix, estiveram em cena, uivando ferozmente e, mesmo estilhaçados, mostrando todo o seu valor. Foi bonito de ver e excessivamente alto de ouvir.




O Massari Fest 2026 abriu suas portas às 16h do domingão enquanto muita gente tirava uma siesta pós-almoço. Às 17h, porém, quando o septeto formado por integrantes das bandas Oruã e Retrato (ostentando uma formação sonhadora de três guitarras e uma viola caipira) deu start no evento, o Fabrique já recebia um público excelente, que só iria somar e somar e somar mais gente até o cataclismo de encerramento. Alternando repertórios, Lê Almeida (guitarra e voz), João Casaes e Bigú Medine (revezando baixo e teclado), Ana Zumpano (bateria), Beeau Gomez (guitarra), Elisa Moos (guitarra) e Victor José (baixo e viola caipira) fizeram um daqueles shows impressionantes que, num dia normal, teria potencial para desbancar o headliner.
Mas não era um dia normal…




Começava a escurecer em SP quando a seleção Bufo Borealis entrou em campo com seu jazz from hell. Timaço formado pelo baterista Rodrigo Saldanha (Pequeno Cidadão) com Juninho Sangiorgio (baixo do Ratos de Porão) mais Anderson Quevedo (sax da Charanga do França), o tecladista Vicente Tassara (Sophia Chablau e Pelados), Kishimoto (baixista da Pitty), Daniel Verano (trompete do Bixiga 70) e a guitarra de Tadeu Dias, a Bufo Borealis fez um show classudo que chocava reminiscencias do mestre Miles Davis (e outras lendas) com a brasilidade da Banda Black Rio (e outros suingues), influências perceptíveis em “Natureza”, discaço presente na lista da APCA do primeiro semestre. Um showzaço, ainda que menos infernal do que se pudesse esperar. Dante apostaria no purgatório. Tudo em casa.




Repetindo o formato que deu muito certo na primeira edição do festival criado em 2024 para comemorar os então 60 anos do Reverendo Fábio Massari no mesmo Fabrique (com Devotos, Patife Band e Acid Mothers Temple fazendo a farra sonora), a edição 2025 promoveu um caprichado mercadinho com livros musicais, discos, merch, roupas e pedais de distorção do A Place To Bury Strangers (que esgotaram no fim da noite!) capitaneado pela Editora Terreno Estranho acompanhada de outras editoras de muita responsa (e com alguns dos melhores livros sobre música da safra editorial recente do país): Barbante, Hipotética, Sapopemba, Agência Powerline e Garota FM, entre outras. As bancas lotavam ao final de cada show.




Com uma foto do mestre Hermeto Pascoal, falecido no dia anterior, no telão ao fundo do palco, a Violeta de Outono entrou em cena encavalando clássicos de seu icônico disco de estreia: abrindo o set, a ótima “Dia Eterno”, com riff de guitarra marcante de Fábio Golfetti, mas inaudível no Fabrique, foi vitimada por ajustes no som. Já na pungente “Outono”, segunda canção do show, tudo estava ajustado, permitindo sacar todas as nuances do som pós punk do trio. A maravilhosa “Declínio de Maio” colocou mais um sorriso no rosto de todos os presentes que compraram o disco de estreia da banda, lançado pelo selo Plug, em 1987, mas o show em si – de rock classudo, mas certinho demais – destoou levemente do tom torto da noite, como se o Echo and The Bunnymen tivesse aquecendo o público para o Swans.




Isso ficou ainda mais claro quando Oliver Ackermann surgiu acompanhado do casal John Fedowitz (baixo) e Sandra Fedowitz (bateria) com o volume absolutamente no talo tocando “Dragged in a Hole”, do álbum “See Through You” (2021). A condução de Sandra é totalmente sixtie, dançante, mas o baixo sujo de John carrega absolutamente tudo que vê pela frente enquanto Oliver faz uma tempestade sonora com seus riffs que, em muitos momentos da noite, remetem a choque elétrico. Com seu baixo hipnótico e suas lapadas de riffs que poderiam tosar moicanos perdidos no recinto, “Transfixiation” causa a primeira baixa da noite: Oliver estraçalha uma guitarra preta sob uma base ensurdecedora. O show do A Place To Bury Strangers só está começando…

Com levada mais punk, “Hold on Tight” permite analisar o trio em cena: de cabelos curtos e sorriso largo, Sandra conduz o caos como se estivesse contando uma anedota aos amigos. O volume sobe e a garota segue sorrindo, feliz. John é mais sério, mas se diverte observando a felicidade da esposa e alterna vocais com Oliver, um típico doidaço que ostenta a camisa 2 do time do Corredor da Morte e, assim como Michael Gira, do Swans, “caminha” em cena com passos de gigante, largos e pesados, como se quisesse demolir o lugar a cada vez que coloca os pés no chão. Precisa dizer que o chão chegou a tremer em alguns momentos do show? Precisa. Tenso.

“Deadbeat”, um clássico do A Place To Bury Strangers, surge pesada e demolidora, incentivando a roda de pogo que brota do inferno. O show segue com “Bad Idea” e outro showzinho de Oliver: ele pendura sua guitarra numa pilastra do palco do Fabrique de uma maneira semelhante a que Kawabata Makoto, do Acid Mothers Temple, fez no primeiro Massari Fest, mas, mais doido ainda, ele começa a chicotear o instrumento com o cabo, que despenca de lá e beija o chão, abrindo um vergão na parte traseira do corpo. O indivíduo resgata a bichinha e a toca ferozmente, como se quisesse testar se tudo estava ok após sua queda, e o som abrasivo que tenta insistentemente perfurar os tímpanos dos incautos no público é o sinal positivo de que tudo “está bem”.




Outro momento icônico dos shows do A Place To Bury Strangers está prestes a acontecer: Oliver desce no meio da galera e vai para o fundo do Fabrique, local em que espera Sandra chegar com seu bumbo e John com seu baixo. O público cerca o trio, mas, infelizmente, só se ouve o som orgânico advindo das pancadas de Sandra (nem voz, nem guitarra e nem baixo estão ligados). Quando, quase ao final do set “acústico”, guitarra, baixo e voz são finalmente ouvidos pelas caixas de som da casa, a sensação é de que um ciclone bateu em nossas costas, e quase nos derruba. Deve ter sido isso que Marty McFly sentiu no início de “De Volta Pro Futuro”…

O trio retorna ao palco, e quem achava que era impossível melhorar esse show, a coisa toda enlouquece: as luzes de todo espaço são apagadas e, de posse de um jogo de luz branca, que ele esfrega ferozmente nas cordas da guitarra e rodopia perigosamente no ar, Oliver conduz os presentes ao inferno sonoro ao som de “Never Coming Back” (que começa com baixo e bateria de maneira… pop), “You Got Me” e “I Lived My Life to Stand in the Shadow of Your Heart” (as duas com uma condução espetacular de Sandra na bateria). Ela, aliás, brilha também em “Have You Ever Been in Love”: com o bumbo no centro no palco, marcando a condução da música e soltando berros enquanto Oliver, que está tocando com uma guitarra despedaçada, com apenas metade do corpo, questiona: “Você se apaixonou?”

Em cerca de 60 minutos de apresentação, o A Place To Bury Strangers fez um show que não apenas deverá ficar marcado na memória de quem assistiu, como também fica difícil de contar sobre ele, porque nem mesmo as hipérboles e nem mesmo os vídeos conseguem dar a dimensão do caos, do volume, da beleza que é observar a baterista sorrindo enquanto, sonoramente, o mundo desaba, da potência e violência que é assistir a banda mais barulhenta de Nova York frente a você. É um daqueles shows que, diferente de maioria que a gente assiste bocejando no sofá de casa, ver ao vivo faz COMPLETA E TOTAL diferença. Foi lindo, bizarramente lindo. Como prometeu Oliver ao Scream & Yell, “a festa mais louca em que a gente já esteve“. Épico.




Em sua segunda edição, o Massari Fest já se firma como um festival indispensável no calendário anual de São Paulo. A curadoria do reverendo, sempre disposto a trazer os artistas mais loucos para tocar em sua festinha pessoal de aniversário, é única. Sortudos os que tem a chance de beliscar um pedaço desse bolo musical oferecido por Fabio Massari. Que venha o próximo, que venham muitos. O otorrino agradece.
Retomando o tema do início do texto, de uma chance aos vegatais feios, pois cerca de 40% dos alimentos produzidos no mundo anualmente vão para o lixo por não atenderem padrões estéticos de “perfeição” (devido tanto ao aquecimento global quanto às constantes mudanças de tempo nas estações do ano), perpetuando um ciclo de degradação ambiental. Valorize-os. Assim como velhas guitarras, eles podem fazer você feliz.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. – Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod