texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas
Todos os dias, dezenas – talvez centenas – de shows acontecem numa cidade como o Rio de Janeiro. Quem deseja ouvir música ao vivo conta com opções variadas, em preços, horários, localizações e propostas artísticas. Em meio a tantas alternativas, muitas vezes há situações em que o público decide que uma determinada atração é “a boa do dia”. Quem tentasse entrar na lona do Circo Voador no último dia 4 de setembro, durante a apresentação de Kamasi Washington, teria exatamente essa sensação – reforçando a máxima, como já disse um grande especialista, de que “o carioca gosta de quermesse, não de música”.
A expressão “tentar entrar” não foi utilizada à toa no parágrafo acima: apesar de ter uma dimensão total bastante confortável, a histórica casa de shows da Lapa tem uma centralidade reduzida quando comparada ao tamanho de sua mítica. E esse espaço tão conhecido (“a lona”, recém-renovada e estalando de brilhante) estava abarrotado de gente na hora que o saxofonista californiano subiu ao palco, com parte considerável do público refugiando-se nas franjas do local.
Engana-se, porém, quem imagina que o silêncio era sepulcral para prestar atenção nas inovações e improvisos jazzísticos de Kamasi e sua banda, formada por Dontae Wilson (trompete/voz), Cameron Graves (teclado), Tony Austin (bateria), Miles Mosley (baixo) e Patrice Quinn (voz), além do pai do artista, Rickey Washington (flauta transversal e sax soprano). Mesmo nas primeiras filas, no gargarejo junto ao palco, por vezes as conversas do público interrompiam os devaneios dos músicos.

O clima de festerê, vale notar, já era sentido no show de abertura: conhecido também por sua capacidade de experimentação, o carioca Jonathan Ferr fez uma apresentação marcada mais pelo engajamento que pelo improviso. Flertando com o autotune e com o trap, Ferr mostrou composições próprias, mas ganhou mesmo o coração dos presentes ao propor duas sessões de coral: a primeira, menos acessível, com temas do clássico “A Love Supreme”, de John Coltrane – uma referência confessa de Ferr, diga-se de passagem. Depois, como se tudo virasse carnaval, enveredou na manjada “Mas Que Nada”, de Jorge Ben, com direito até a theremin tocado por Jefferson Placido. Ô ô ô…

Ao entrar no palco meia hora depois de Ferr, Kamasi Washington é aplaudidíssimo já de partida. É claro que seu histórico o credencia para tal, ao não só ter renovado o repertório do jazz nos últimos 15 anos, mas também ao ter proposto conexões do clássico gênero americano com abordagens mais contemporâneas – do rap de Kendrick Lamar aos animes de Shinichirō Watanabe (o criador de “Cowboy Bebop” e também do recente “Lazarus”, que contou com a participação do saxofonista na trilha sonora, foi tema da conversa com Kamasi aqui no Scream & Yell). Além disso, só por sua presença corporal e pela forma como se introduz sob a ribalta, Kamasi já chama a atenção. Mas é interessante notar como parte do público parece aplaudi-lo só por existir, sem exatamente se importar com o que será apresentado a seguir.
Veterano de Circo Voador, Kamasi entende bem como lidar com a situação: ao longo da noite, ele repetirá o mesmo repertório que apresentou pela América Latina, mas investirá em uma releitura mais balançada e dançante de temas como “Lesanu” e “Road to Self (KO)”, do recente “Fearless Movement” (2024), ou “Vortex”, parte da trilha de “Lazarus” (2025).

É uma forma interessante de chamar a atenção de quem veio para “ver e ser visto”, resultando em uma conexão alto-astral – além de relembrar aos filósofos de plantão que o jazz nasceu para ser dançado, e não somente pensado. Ainda assim, a escolha (somada ao inescapável burburinho) faz com que a banda permaneça em velocidade de cruzeiro durante boa parte do espetáculo, sem precisar se arriscar em voos e rodopios mais ousados.
Curiosamente, é só ao final do show que a rota se altera. Em um insuspeito bis, iniciado quando alguns incautos já deixavam o espaço, Kamasi retorna ao palco para uma versão delicada de “Street Fighter Mas”, de “Heaven & Earth” (2018). Deixando o tom suingado da introdução de lado, o saxofonista começa o tema no teclado. Depois, vai para seu instrumento de origem, guiando o público em um coro tão simples quanto espiritual. É nesse quase mantra, de poucas notas, que Kamasi faz a melhor demonstração do amor pela música que declara tantas vezes ao longo da noite. Pena que esse amor possa parecer mera decoração para muita gente.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
Não é a primeira vez que leio texto que parece de fiscal de público. É esquisito. Curta seu show do seu jeito e deixe quem quiser curtir do jeito que bem lhe aprouver. Parece bedel de escola.
É muito fácil ser fiscal de texto também, cagar regra sobre algo que você não presenciou. Você não estava lá, não tem como ficar incomodado, então “deixe quem quiser curtir do jeito que bem lhe aprouver”. Eu, por minha vez, gosto de relatos assinados, em que a pessoa conta o que ela viu e sentiu, a experiência dela, o olhar dela sobre determinado tema/evento. Como as pessoas são diferentes, os olhares e as sensações são diferentes. Se você estivesse assinando o texto, talvez colocasse o foco em outra coisa e, provavelmente, não haveria menção a palestra do público em meio ao show. Como não é você que estava sentindo o show, há menção. Eu, por minha vez, acho importantíssima a menção, pois o show não acontece apenas no palco, ele é uma troca, e a maneira que o público recebe o espetáculo diz muito tanto sobre o espetáculo quanto sobre o públivo, e, no caso da música, faz set lists absolutamente iguais soarem diferentes pela maneira em que artista e público se relacionam em determinados ambientes. A funcão do jornalista, neste caso, não é disciplinar o público, mas observar e contar o que viu, transportando o leitor para aquele ambiente. Nesse quesito, o texto desenha um quadro perfeito da noite em questão.
Salve Ismael, tudo bem?
Não acredito que a questão seja ser “fiscal de público”, com todo o respeito. Acredito que todo show é uma troca entre quem está no palco e na plateia, e esse elemento é um dos mais importantes para que um espetáculo cresça ou diminua em intensidade – no mais, poderia ser mais confortável assistir a um DVD ou um vídeo no YouTube em casa.
No caso específico, sinto que um público alheio ao que estava acontecendo (e muitas vezes conversando em volume que rivaliza com a música, o que um ponto de atenção pois ultrapassa certos limites de civilidade) transformou sim a forma como o show deveria transcorrer — e mais que isso, até provocou a maior mudança na forma de atuar de um artista veterano, como é o Kamasi. Entendo teu posicionamento, mas fico feliz em discordar de ti nesse caso. 😉
Olá, Bruno, boa tarde. Tudo bem?
Você sabe dizer quais foram as músicas que ele tocou nesse show? Obrigado!