Três shows no The Town 2025: Inocentes & Supla, Bruce Dickinson e Bad Religion

texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota e The Town

No primeiro fim de semana do The Town 2025, o domingo foi escolhido como o “dia do rock” pela curadoria do festival, com um olhar específico para o punk e suas vertentes (dentro do que um evento dessa magnitude e com seus vários compromissos com patrocinadores master e outras ativações pelo caminho permitem, claro). Com uma estrutura que clona o Rock in Rio (os dois festivais são da mesma produtora), o The Town é uma miríade de palcos, colinas, rodas gigantes, mascotes vestidos de milkshake e uma série de outras atrações que torna impossível um olhar mais aprofundado sobre tudo que rolou nesse 7 de setembro.Já sabemos que Iggy Pop é o pai da coisa toda e aqueceu o coração de todos os 35+ com memórias afetivas da Rua Augusta; que o Black Pantera merecia mais visibilidade no evento (juntamente com Punho de Mahin & Mc Taya); que o Capital Inicial foi extremamente…Capital Inicial; e que o Green Day teve o seu bom momento como headliner para todos os que aguentaram ficar de pé após às 23h. Abaixo seguem alguns breves relatos de três shows diferentes entre si, mas que também marcaram o público que compareceu ao festival.

Inocentes e Supla em ação / Foto: The Town

Inocentes/Supla (Palco The One)
Os trabalhos da tarde foram inaugurados no palco The One pelo Inocentes, conjunto que é referência do punk paulistano. Por isso mesmo, foram muito bem recebidos pelo público de camisetas pretas, jaquetas e coturnos que se agitavam logo à frente do palco (embora uma parte considerável curtiu o show sentada na grama, provavelmente para conservar a energia para as próximas atrações). Clemente é um frontman como poucos e sabe comandar a galera enquanto manda clássicos da banda como “Rotina”, “Garotos do Subúrbio” e “Pânico em SP” e covers espertos como “I Fought the Law” (The Clash) e “Blitzkrieg Bop” (Ramones), essa em conjunto com Supla. Houve espaço também para gritos de “Sem Anistia!” por parte do público no festival. Na sequência, o folclórico Charada Brasileiro dobrou a aposta na sua persona com uma indumentária glam-punk e frases em inglês – para delírio dos presentes, diga-se. Ele também trouxe algumas versões em ritmo acelerado, com destaque para a inusitada “As it Was” (Harry Styles), “Imagine” (John Lennon), “She Loves You” (Beatles) e “Dancing With Myself” (da sua contraparte britânica, Billy Idol). Mas os hits autorais também tiveram vez com “Green Hair (Japa Girl)”, “Humanos” e “Garota de Berlim” (as duas últimas de sua banda oitentista, a Tokyo). Supla correu pelo palco, arriscou uns guturais e interagiu bem com Clemente e os Inocentes, transformando o rolê todo numa grande festa punk para todas as idades.


Bruce Dickinson / Foto: Fernando Yokota

Bruce Dickinson (Palco Skyline)
Ao olhar para o line-up do dia, o vocalista do Iron Maiden pode parecer o mais deslocado dentro do recorte roqueiro trazido pelo festival. Essa impressão foi reforçada nos primeiros minutos da apresentação, com um público um tanto apático enquanto Bruce e sua banda disparavam temas pesados da sua carreira solo, como “Accident of Birth”, “Abduction” e “Laughing in the Hiding Bush”, tocados praticamente em sequência. A resposta da plateia melhorou um pouco com “Chemical Wedding”, faixa-título do álbum lançado em 1998, e com “Ressurrection Men” e “Rain on the Graves”, duas canções do último disco “The Mandrake Project” (2024). O que importava é que Bruce e sua banda estavam claramente felizes por estar ali, e para o britânico a data era ainda mais emblemática pela comemoração de 40 anos da sua primeira visita ao país com o Iron Maiden no primeiro Rock in Rio, em 1985. O auge da apresentação, para além do óbvio hit “Tears of the Dragon”, acabou sendo um improvável momento a capella, onde Bruce cantou “Revelations” (canção de sua autoria presente no disco “Piece of Mind”, do Iron Maiden), seguido por outra referência aos seus companheiros britânicos: uma inesperada “Flash of the Blade”, lado B de “Powerslave” (1984), que deixou um sorriso no rosto de todos os headbangers (e quiçá alguns punks) ali presentes. Um final devidamente épico para uma geração que associa música com performance e “entrega” de hits, mas que deu seu recado.


Bad Religion / Foto: Fernando Yokota

Bad Religion (Palco Skyline)
A essa altura, o Skyline já estava mais do que lotado não só pela expectativa em torno do Bad Religion – escalado de última hora após a desistência dos Sex Pistols por questões de saúde -, mas também por conta dos fãs do Green Day que já começavam a vigília pré-show. De todo modo, todos receberam o conjunto norte-americano capitaneado pelo doutor (com doutorado mesmo) Greg Graffin nos vocais. A essa altura da sua história, o Bad Religion é uma entidade de 45 anos com uma extensa discografia, mas que de alguma forma consegue fazer um setlist que consegue representar boa parte dessa existência, seja na abertura com “Recipe for Hate” (faixa-título do álbum de 1993) e “Supersonic” (de “The Process of Belief”, 2002), apostando na rapidez melódica com “Do What You Want” (de “Suffer”, 1988) e provocando comoção hardcore com as notas do baixo na intro de “Fuck Armageddon…This is Hell” (do primeiro disco “How Could Hell Be Any Worse?”, de 1982). O resultado foi um público mais presente e animado, especialmente mais perto do palco com direito a roda punk e sinalizadores. Ainda mais com a execução de clássicos da discografia como “21st Century (Digital Boy)”, “Generator” e “American Jesus”, que encerrou a apresentação da melhor forma possível, e com destaque absoluto para o baterista Jamie Miller pelo conjunto da obra. Em resumo, um espetáculo que deve ter sido bonito de ver para quem estava descendo de tirolesa naquele momento.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *