texto de Alexandre Lopes
fotos de Natália Michalzuk
A sexta-feira, 5 de setembro, trouxe mais público e mais intensidade ao Goiânia Noise 2025. Depois da abertura na véspera, a segunda noite ocupou os palcos Pyguá e Yguá do Centro Cultural Martim Cererê com uma maratona de doze shows, variando de bandas estreantes a grandes nomes históricos do rock brasileiro. Entre calor de 32° durante a tarde e um alívio de 21° à noite, a temperatura parecia tentar equilibrar a energia dos shows, que foi subindo até explodir em uma verdadeira ‘sauna política’ com o Black Pantera na madrugada.

A banda local Tatame abriu a noite no Pyguá diante de meia dúzia de amigos e alguns curiosos – talvez rock indie com toques de shoegaze e math rock não seja o melhor combustível para uma plateia em início de festival. Mas tudo bem; eles ainda são um nome novo (esta por sinal foi a terceira apresentação deles) e tocaram com afinco. O quarteto formado por Roberta (voz/guitarra), Gabriel (voz/guitarra), Matias (baixo) e Eduardo (bateria) tocou “Serpente”, o único single disponível até o momento, e fizeram um bonito encerramento com “Vazio”. Fica a promessa de uma estreia em disco cheio para este ano.

Logo depois, o Trio Tunda subiu ao palco Yguá para mostrar sua fusão de jazz, rock e ritmos regionais. Criado em 2021 na Chapada dos Veadeiros, Renato Segredo (guitarra), Flávio Marciano (baixo) e Raphael Mosquito (bateria) mostraram faixas instrumentais de seu EP homônimo, alternando frevo, xaxado, samba de coco e até ecos de bumba meu boi. Em alguns momentos, soavam até como um ‘progressivo abrasileirado’, agraciando a noite com alguma virtuosidade.

Aí chegou a Amados Mortos no palco Pyguá, para provar que góticos não só existem em Goiânia como eles não se importam de derreter suas maquiagens no calor. Formada em 2024, a banda encenou um espetáculo teatral de darkwave com influências de Bauhaus e letras em inglês e português. Durante canções como “Undergoth” e “Licantropia”, se você fechasse os olhos e fizesse um esforcinho, quase dava pra imaginar uma catedral fria em Manchester, em vez do inferno goiano.

À frente da Tess, o gaúcho Daniel Tessler começou seu show às 21h no palco Yguá. Com um volume bem alto, ritmos dançantes e guitarras de destaque de Gustavo X (uma espécie de Noel Gallagher versão mod-punk), o quarteto apresentou faixas do disco “Mais de Mil Palhaços no Salão” e tentou arrancar da plateia gritos pouco sutis com “V.S.F.” (sim, isso mesmo que você está pensando), enquanto caprichavam na presença de palco. Funcionou para uma parte do público, que ficou até o final para conferir “Caia Fora Daqui”. O recado fez sentido para que o pessoal transitasse pelo restante do festival logo em seguida.

Minutos depois, Bruno Gótia transformou sozinho o Pyguá numa pista gótica, armado apenas de microfone, pickups e sintetizador. Com vocais graves e performance intensa, Gótia mostrou um show hipnótico de darkwave, post-punk eletrônico e electro decadente para dançar de cara virada pra parede como se estivesse no Madame, templo dark em São Paulo. Parecia um casamento entre Sisters of Mercy e um DJ do submundo. Ninguém entendia uma palavra quando ele tentava se comunicar com a plateia entre as canções (por causa da quantidade de delay em sua voz) mas quem se importa? O cara fez o lugar ferver (ou seria congelar?).

Na sequência, o Red Sand King destoou com um rock radiofônico e polido demais. Formada em 2022 por veteranos da cena goiana, a banda apresentou faixas do EP “Second Chances” e singles recentes. Apesar da competência técnica e da balada “Hardest Part”, o show soou correto em excesso, parecendo não ter espaço para muita espontaneidade. Houve uma tentativa de invocar uma roda de pogo em “Dangerous”, mas o público não se empolgou muito e preferiu apenas assistir.

A expectativa mudaria com os Garotos Podres, que transformaram o Pyguá em templo punk. Fãs já aguardavam cantando músicas antes mesmo da abertura das portas. Com o lendário Mao (voz) ainda muito irreverente de bermuda, botas e suspensórios, a banda revisitou hinos como “Oi, Tudo Bem?”, “Johnny”, “Anarkia oi!” e “Papai Noel, Velho Batuta”, entre piadas escrachadas e provocações políticas. Perto do final, Mao chegou a aparecer de peruca imitando Kim Jong Un, puxou gritos contra Bolsonaro e lembrou com sarcasmo que em 1986 eles já gritavam “anistia é o caralho”. Entre velhos punks chorando e molecadas berrando, foi um show histórico e incendiário, daqueles que fazem você lembrar porque canções como “Repressão Policial (Instrumento do Capital)” e “Proletários” ainda fazem sentido em 2025.

No Yguá, Mateus Fazeno Rock assumiu o palco sem medo da sequência difícil; só trouxe sua guitarra e suas narrativas da quebrada. Acompanhado por backing vocal, DJ e intérprete de Libras, Mateus mostrou faixas do novo “Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem” (2025), como “Daquilo Que Nois Merece” e “Saturno e a Intuição”, com “Arte Mata” doendo bonito. Misturando rock, algo de punk, soul e crônica periférica, Mateus pode não ter atraído o mesmo público numeroso que o show anterior, mas emocionou com seu ritmo e força poética, finalizando com “Melô do Djavan” e “Licença pra Desabafar”.

Após a meia-noite, foi a vez do Violins revisitar o clássico “Grandes Infiéis”, de 2005. Beto Cupertino, (voz/guitarra) Léo Alcanfor (guitarra), Thiago Ricco (baixo/vocal), Pedro Saddi (teclados) e Fred Valle (bateria) receberam o retorno especial de Pierre Alcanfor na bateria em três músicas, com direito a arriscar dividir vocais de forma bem emocionada em “Ensaio Sobre Poligamia”. Mais voltado para admiradores iniciados do que para novos fãs, o show mostrou a densidade de uma das maiores instituições do rock goiano, mas sem alcançar o mesmo impacto explosivo das atrações anteriores.

O fechamento coube ao Black Pantera, que transformou o festival em uma sauna coletiva hardcore no palco Yguá a partir da uma da manhã. Em cerca de 90 minutos, o trio mineiro formado por Charles Gama (guitarra e vocal), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria) despejou altas doses de thrash, hardcore e punk em faixas contra racismo, opressão e desigualdade. Entre rodas de pogo exclusivamente femininas e até crianças subindo ao palco para brincar de mosh, o show virou um frenesi brutal de suor escorrendo do teto, mostrando porque o Black Pantera é hoje um dos principais nomes do rock nacional.

Mais do que uma sexta-feira de música, a segunda noite do Goiânia Noise trouxe um recado importante: ainda dá pra acreditar no barulho como ato político. Ver Garotos Podres, Mateus Fazeno Rock e Black Pantera ocupando palcos em duas caixas de concreto que já serviram como espaços de tortura durante o período da ditadura militar não é só uma reparação histórica, mas também uma necessidade transformadora no Brasil. E que venha o terceiro dia!
Saiba como foram os outros dias do Goiânia Noise 2025

Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.