Goiânia Noise 2025, Dia 1: Abajur Always On brilha, Swave agita e Ousel & Carne Doce se consagram

texto de Alexandre Lopes
fotos de Natália Michalzuk

Três décadas depois de nascer do underground goiano, o Goiânia Noise Festival começou sua edição de 2025 na quinta-feira, 4 de setembro. Na abertura, uma programação gratuita no Centro Cultural Martim Cererê reunindo seis bandas (cinco delas locais e uma paulistana) que serviu como experimento e cartão de visitas para o que está por vir: a pluralidade de um evento que insiste em se reinventar sem perder sua tradição roqueira de resistência e celebração coletiva.

Sangra D’Água

Quem abriu os trabalhos foi a Sangra D’Água, representante da nova cena goiana. Formada em 2023, a banda apresentou uma mistura de rock, nuances de jazz e psicodelia. Mariana Barros (voz), Lucas Romão (baixo/voz), Raul Freitas (guitarra) e Adriano Abreu (bateria) subiram ao palco Pyguá acompanhados de um tecladista, o que permitiu a Mariana dedicar-se exclusivamente ao vocal e à interação com o público. Talvez por isso ela tenha insistido demais em instigar moshes da plateia – que não chegaram a se concretizar no público ainda tímido do início da noite. No repertório, destacaram-se as inéditas “Coroa de Flores” e “Se Esconda Nessa Máscara”, que apontam para uma nova fase na sonoridade da banda, diferente do EP “Desenlace”, lançado há um ano.

Abajur Always On

Na sequência, o Abajur Always On surpreendeu. Inicialmente um duo formado por Virgínia Perê e Luís Feitoza, o grupo subiu ao palco Yguá em trio, com Luís assumindo baixo e teclados, enquanto Virgínia transitava entre violão, guitarra e falsetes marcantes no microfone, sustentados pela bateria precisa de Renato Marciano. Alternando canções em português e inglês, a banda apresentou um som que passeava pelo experimental e o pop, mesclando indie rock à la Radiohead com jazz livre e compassos que fogem do óbvio. O set acabou com “No Alcance de Mim”, primeira faixa que o trio lançou nas plataformas digitais. Foi o suficiente para mostrar que o Abajur Always On é uma banda interessante para ficar de olho nos próximos passos.

O clima esquentou com a entrada da Idos de Março, banda goiana de emo formada em 2019. Com letras confessionais e entrega no palco, o quinteto apresentou faixas do EP “infamiliar” (2025), em um show que equilibrava melodia e peso, com destaque para “Partes de Mim São de Argila”. O público acompanhou o entusiasmo da banda, apresentando o primeiro show mais numeroso da noite. Além disso, uma cena curiosa chamou atenção: uma criança de cerca de oito anos assistia o show, dançando durante as músicas e gritando “oh yeah” entre as faixas.

Idos de Março

Em seguida, o bonito dream pop da Ousel trouxe um clima sublime e contemplativo para o Goiânia Noise. A vocalista Thaís Michelone chegou a dizer que não parecia, mas que eles estavam muito felizes de estar ali e pediu desculpas pela introspecção da banda. A verdade é que a Ousel nem precisava de uma presença mais assertiva: a execução precisa, os arranjos delicados e as camadas instrumentais prenderam a atenção da plateia, que viajou com as músicas novas em português que farão parte do próximo EP do grupo. Entre guitarras atmosféricas, vocais etéreos e timbres que deixariam David Gilmour com um sorriso no rosto, ficou claro que a Ousel já tinha subido ao palco com o jogo ganho, com vários integrantes das outras bandas presentes para assistir a apresentação.

E se a Ousel poderia ser quietinha demais para alguns, a paulista swave (que se pronuncia “suave”, vejam só) se mostrou exatamente o contrário. Formada por músicos experientes – como Cris Botarelli e Rafael Brasil (Far From Alaska), Murilo Benites e André Dea (ex-Violet Soda), além da vocalista Aline Mendes -, a banda despejou um power punk pop bem contagiante e direto, chegando a lembrar algo da energia dos suecos do The Hives em certos momentos. Carismática, Aline não parou quieta: interagiu com o público do começo ao fim, desceu até a galera, puxou movimentos e chegou a escalar a torre de som no encerramento, com “Já Foi”.

swave

Apesar de alguns probleminhas de microfonia por conta de sua agitação no palco, o grupo fez o show mais empolgante da noite. Em dado momento do show, Murilo foi ao microfone para dizer que na noite anterior a banda tocou em Brasília e não sabe como, pois Aline deu entrada no hospital sem voz e estava ali segurando a bronca novamente, como se nada tivesse acontecido. Outro fato que chamou atenção foi que o público feminino na plateia aumentou bastante durante o show da swave, como se a geração atual estivesse procurando uma nova frontwoman para se engajar e se identificar. Ou será que precisamos somente de ídolas gringas como a Amy Taylor?

swave

Encerrando a programação, o Carne Doce reafirmou seu lugar como maior banda goiana da última década – ou ao menos naquela noite. Antes mesmo de acabar a apresentação do swave, uma fila já começava a se formar na frente da porta de acesso ao palco Yguá. Quando Salma Jô (voz), Macloys Aquino (guitarra), João Victor Santana (guitarra e sintetizadores), Aderson Maia (baixo) e Frederico Valle (bateria) iniciaram o show, um público cada vez maior entrava para ver a última atração da noite. O Carne Doce não se intimidou e começou seu set com “Princesa”, “Hater” e se deu o luxo de enfiar um cover de “Gimme All Your Love”, do Alabama Shakes. Não precisava, pois o público sabia as letras das canções próprias e cantou “Comida Amarga” e “Brincadeira” em coro. A presença de intérprete de Libras foi um diferencial, ampliando a acessibilidade da performance. Com mulheres dominando a linha de frente da plateia – inclusive com direito a fã passando mal com queda de pressão na grade – e a banda em plena forma, o encerramento foi apoteótico, com uma versão de “Apocalypse Dreams” (Tame Impala) com “Açaí”, resultando numa jam barulhenta e repetitiva que incluiu uma citação inesperada de “Iron Man”, do Black Sabbath. Em algum lugar, Ozzy sorria com a homenagem.

Carne Doce

E assim terminou a primeira noite do Goiânia Noise 2025: entre bandas recentes suando para provar seu valor e veteranos mostrando que ainda têm muito barulho a fazer. Um mosaico de gerações, costurado pelo rock independente goiano, que revelou o que já funciona e que também serve como laboratório do que ainda está por vir. Amanhã, a cidade volta a pulsar, e o Noise segue sua trajetória ruidosa e apaixonante.

Saiba como foram os outros dias do Goiânia Noise 2025

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

One thought on “Goiânia Noise 2025, Dia 1: Abajur Always On brilha, Swave agita e Ousel & Carne Doce se consagram

  1. Ousel entregou muito, faltou ter mais tempo de palco. Parabéns ao evento por trazer bandas tão boas assim.

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