Cadeira, piscina, sonhos e zeitgeist: Letrux e Nouvella se unem e lançam dois singles

entrevista de Elsa Villon

Letrux, alcunha artística de Letícia Pinheiro de Novaes, é um nome incontornável do novo pop brasileiro. Nouvella é uma jovem banda de rock de Florianópolis cuja carreira, iniciada em 2019, já conta com três EPs, diversos singles e shows no Psicodália e no Lollapalooza Brasil. Juntos, Letrux e Nouvella firmaram uma parceria que começou nos palcos e ganhou dois novos capítulos em junho: os singles “Vira Essa Boca Para Cá” e “Dropar Teu Nome” levam a voz de Letrux para os arranjos de Nouvella em duas faixas inéditas.

Segundo Letícia, a química se deu de cara, quando Yasmin, do Nouvella, subiu ao palco no show de estreia de “Aos Prantos” (2020), na capital catarinense. “Eu já tinha conhecido a Nouvella nesse mesmo ano, conheci a Yasmin e acho que simplesmente a coisa fluiu”, conta. O encontro no palco foi promissor: havia muito em comum, posturas parecidas e outras similaridades que levaram não apenas a reencontros, mas uma parceria. E de maneira espontânea, tal qual prega o Grupo Revelação, elas deixaram acontecer naturalmente.

Mais de quatro anos depois, em fevereiro de 2025, Letrux retribuiu a visita com uma participação no show da Nouvella, mais uma vez em Florianópolis. A dinâmica do ensaio e da apresentação foi boa, dando vez às jam sessions que levaram a duas canções com videoclipes.

Embora permeadas de anotações pessoais de Letícia e Yasmin, os dois singles trazem muito de um sentimento coletivo, na máxima: nenhuma experiência é totalmente individual. Tanto “Dropar Teu Nome” quanto “Vira Essa Boca Pra Cá” são permeadas por algo que todos que já se relacionam afetivamente vão identificar. E mais do que isso, reflete um sentimento de época, o tal do zeitgeist.

Do estúdio para (novamente) os palcos, a primeira edição do show Nouvella convida Letrux reuniu 4 mil pessoas e já seguiu de Florianópolis para o Rio de Janeiro, no Circo Voador, em julho, e para São Paulo, no Cineclube Cortina, e Mogi das Cruzes, em agosto.

Até o fechamento dessa matéria, “Dropar Teu Nome” acumulava pouco mais de 17 mil audições no Spotify.
Já “Vira Essa Boca Pra Cá” somava o dobro: 34 mil. Levando em conta o lançamento das canções, em 27 de junho de 2025, a primeira contou com 278 ouvintes por dia, enquanto a segunda 555 pessoas dando o play, sem contar as visualizações dos videos clipes no YouTube, downloads, outros players e, é claro, pessoalmente.

Para falar um pouco mais das canções, um pingue-pongue por e-mail com Letícia Letrux, e Gabriel Viegas, guitarrista da Nouvella:

Capa do single “Dropar Teu Nome”

Scream & Yell – As duas letras falam de relacionamentos: elas são baseadas em experiências individuais ou tratam de um sentimento coletivo?
Letrux: Yasmin e eu fomos abrindo nossas anotações enquanto os meninos iam improvisando no som. Há frases minhas ali que são bem antigas até e só estavam esperando o momento de sair em forma melódica. Falando por mim, sinto que tudo que a gente sente é e não é individual. Acho que artistas, ou pessoas sensíveis, de forma geral, conseguem sentir ou perceber o zeitgeist do momento. Ou então: eu falo de uma experiência minha, mas com a certeza que alguém já viveu aquilo e pode se identificar.

Nouvella: Acho que as duas músicas falam mais sobre uma fantasia ou um sentimento do que um relacionamento em si. Também são letras que abrem muito espaço para interpretação, então cabe a cada um fazer sua própria história quando ouvir as faixas.

O single “Vira Essa Boca Pra Cá” me remeteu à máxima: o desejo de ter e o tédio de possuir. É algo nessa linha, uma sensação que é comum a nós, considerando principalmente as marcas que carregamos pelo isolamento social e a pandemia e que mudou muito a nossa perspectiva em torno das relações de afeto?
Letrux: Caramba, não penso em tédio com essa música, mas essa é a beleza do gosto, da interpretação de cada um. Eu realmente penso na coisa do carro, cada pessoa olha para uma janela, cada viagem é individual. Até rola de falar “olha aquilo ali!”. Na maioria das vezes, cada um está em sua própria brisa e tal. Acho que a parte em inglês mostra o quanto a dinâmica das relações pode mudar. Uma vez você se fode, depois você é que fode com alguém. Mas ainda assim, o desejo em pedir que aquele boca vire em direção à sua. Acho que as relações mudam conforme o tempo passa mas tem algo que é ancestral: desejo, tesão. Isso aí é (e vai ser, tomara) eterno. Como vamos lidar, quais vão ser as regras, aí muda. E as gerações vão mudando também. Mas tesão é pré-histórico, ufa.

Nouvella: Começou mais como uma brincadeira com as palavras e depois fomos deixando a imaginação fluir. Acho que de uma forma tentar mudar o sentido de um ditado ou de uma frase conhecida e usar isso pra poder criar todo um novo universo.

O clipe me remete muito aos anos 1990, uma estética meio VHS, um ar até meio grunge… tem essa pegada ou a ideia era outra?
Letrux: Acho que de alguma maneira queríamos algo mais nessa pegada sim, anos 90, falamos bem sobre isso. Eu era criança nos anos 90 e que bandas estavam nascendo ainda? Mas acho que todo mundo tem um certo fascínio com o rock/grunge dessa época. E do poder que a MTV tinha nessa fase. Era hipnótico.

Nouvella: Acho que devido à banda ter nascido e vivido nessa época não tem como não ter uma influência, direta ou indiretamente, desse movimento, mas os dois clipes foram feitos pensando nas viagens das músicas e também buscando uma estética original que misturasse Nouvella e Letrux.

“Dropar Teu Nome” é para chorar no banho, deslizando pela parede do banheiro e cortar uma franja vegana. A batida melancólica, meio rock inglês da década de 1980 com o termo dropar, gíria mais contemporânea, é para unir Millennials ou Geração Z nas ações sugeridas de tristeza virar raiva e paralisia virar ação?
Letrux: Menina, não sabia que dropar era gíria mais contemporânea hahaha, Arthur e eu usamos tem muito tempo, até porque no surf usam (e também tem tempo) mas não sabia que estava rolando na Geração Z. Saiu porque tinha que sair, porque Floripa tem mar, porque cada circunstância pede um verbo, uma palavra, eu componho muito envolvida com o ambiente, com as pessoas. Eu entendo a importância da raiva, na motivação da luta (seja lá qual seja). A tristeza é bem paralisante mesmo, mas eu respeito o tempo da tristeza. Não dá pra ser campeã todo dia. Mandar bem, sorrir, arrasar. Tem dia que tudo bem afundar. É bom conseguir voltar pra pegar mais ar, já tive fases mais esburacadas mas foram importantes de alguma maneira pra aprender a nadar e viver melhor.

Nouvella: Estou gostando muito das análises das músicas hahahaha, mas acho que mais uma vez foi uma brincadeira com as palavras, tipo aquela frase que fica na tua cabeça por um tempo até que dá um estalo, abre para novas ideias, interpretações. A partir disso a gente vai viajando em cima e criando música.

Ainda sobre o single: no clipe, em preto e branco, senti um pouco nouvelle vague também com a estética de 1990 e Sci-fi. Dá para fazer esse paralelo?
Letrux: Eu amo PB, acho que eu que pedi pro clipe ser PB hehehe e todo mundo embarcou. Minha mãe é professora de francês, me levou muito ao cinema pra ver filme francês, então tudo isso está no meu inconsciente, sem dúvida. Yasmin e eu conversamos muito sobre sonhos, porque ela estuda psicologia e a gente faz análise. Sonho é sempre prato cheio. Daí piramos nessa sensação de alguém poder escolher seu sonho ou embarcar numa máquina de sonho, algo assim.

Nouvella: Sim, a gente quis remeter um pouco dessa estética sci-fi, um sonho meio maluco onde tudo pode acontecer. Como a gente tinha o outro clipe bem colorido com cores vibrantes na piscina, a gente trouxe o preto e branco pra essa música que realmente é um pouco mais slow e melancólica digamos assim.

Há planos para ampliar ainda mais essa parceria, novos singles, um álbum completo em parceria, alguma turnê?
Letrux: Eu amaria, porque a coisa bateu e fluiu bem, sabe? Não descarto nada. Um disco, um tributo, uma turnê, quem sabe?

Nouvella: Realmente uma turnê desse show seria muito legal porque, para além dos dois singles lançados, a gente preparou algumas músicas muito boas tanto da Nouvella quanto da Letrux. É um show eletrizante! Mais gravações… só o tempo dirá! Por enquanto ainda estamos curtindo os clipes e toda repercussão desses lançamentos.

Capa do single “Vira Essa Boca Pra Cá”

Como vocês definiriam Letrux + Nouvella?
Letrux: Tenho muita dificuldade em me definir, ainda mais com outras pessoas envolvidas. A definição fecha e eu tenho dificuldade com isso. Mas acho que somos pessoas curiosas, criativas, amantes da natureza e da cabeça humana. Todo mundo ama música de um jeito forte, bonito, livre. A gente se encontrou nesse lugar, sinto.

Nouvella: Rock + roll.

A escolha do frame da cadeira na piscina do clipe “Vira Essa Boca Pra Cá” como divulgação: alguma influência do álbum de Bad Bunny nessa estética ou foi uma coincidência de um símbolo da cultura latino-americana?
Letrux: Caramba, você acredita que fui conhecer Bad Bunny por agora? E foi depois da escolha da foto. Eu já tinha ouvido falar mas não tinha me dedicado. Agora ouvi e pirei. Confesso que queria ouvir a voz dele com menos efeito, mas ele é um baita compositor, estou para escrever um texto no meu substack sobre ciúmes e quero usar a música dele “Yo no soy celoso” e “Jealous guy”, do John Lennon. Mais uma vez o zeitgeist agindo de forma forte na minha vida. A gente ficou com algumas opções de capa e no final essa foto foi a mais votada, mas ninguém nem lembrou ou comentou sobre o Bad Bunny. A vida como ela é…

Nouvella: Olha essa cadeira foi polêmica, digamos assim, mas com certeza nenhuma influência de Bad Bunny. Na verdade, nos convencemos a ser essa capa quando nos trouxeram argumentos que é uma cadeira simbólica no Brasil, nos bares, nas casas e eventos de família. E a imagem ficou muito foda também, né?

Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.

 

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