Três shows (de rock gaúcho): Catto, Supervão e Supergrass

Catto na Casa Natura Musical (29/08)
Textos e vídeos de Bruno Capelas / fotos de Felipe Giubilei

Fazer um tributo que não cheire a papel carbono não é tarefa fácil para qualquer artista. Seguir em frente depois de uma fase celebrada, também não. Na última sexta-feira, 29 de agosto, no palco da Casa Natura Musical, a cantora e compositora gaúcha Catto deu amostras suficientes de que passa com louvor nos dois testes. Depois de passar 2023 e 2024 com bom disco e ótima turnê de homenagem a Gal Costa, a artista trans não-binária lançou em maio “Caminhos Selvagens”, seu primeiro disco de estúdio após a transição de gênero. Ao abrir das cortinas, a trilha sonora de entrada dos músicos no palco – “O Verona”, tema de “Romeu + Julieta” (Baz Luhrmann, 1996) – mostra não só que os sentimentos estão à flor da pele. A faixa também evidencia que o tom cru, jopliniano e enérgico de “Belezas São Coisas Acesas Por Dentro” será substituído por algo mais glamuroso, performático e teatral, que cai muito bem ao repertório romântico do novo trabalho. É algo que fica explícito não só nas canções novas – a dobradinha “Eu Não Aprendi a Perdoar” e “Eu Te Amo”, que abriu o espetáculo –, mas também em números da carreira de Catto, como a gauchíssima “Saga”, em dueto com a tecladista Julia Klüber, ou a esperta releitura de “Canção de Engate”, do português António Variações. Espertamente, Catto foca no novo trabalho e administra o repertório de Gal em doses homeopáticas: da turnê anterior, aparecem só “Nada Mais (Lately)” e “Vaca Profana”, esta última já num bis redentor e celebratório. À baiana, se somam outras referências, como a “Bad Girl” de Madonna – antecipada pela frase “agora quero ver quem é GLS aqui mesmo”, como brincou a cantora. Enquanto isso, a presença de Julia, bem como a do guitarrista Allen Alencar, também ajudam a dar novo clima ao repertório, amplificando o power trio Fábio Pinczowski (guitarra, direção musical), Gabriel ‘Bubu’ Mayall (baixo) e Michelle Abu (bateria) – isso para não falar no figurino e na cenografia neon, ambos brilhantes dentro da noite escura, que vão se desvelando ao som de temas poderosos, como “Caminhos Selvagens”, “Para Iuri Todos Os Meus Beijos” ou “Madrigal”. Ao final de uma hora e meia, uma frase de “1001 Noites is Over” ecoou na cabeça como bom resumo do espetáculo e do bom momento vivido pela cantora: “eu só quero arrasar, ser feliz”. Depois de uma carreira cheia de tropeços e desenganos, está dando certo.


Supervão na Casa Rockambole (30/08)
texto, vídeos e fotos de Bruno Capelas

Formada há mais de dez anos em Uberlândia, ecoando shows para Goiânia, Brasília, Uberaba e mais uma série de grandes cidades, a produtora Cena Cerrado organizou seu primeiro festival em São Paulo no último dia 30 de agosto, na Casa Rockambole. Na escalação, além de nomes fortes da região – como a mineira Cachalote Fuzz, que dividiu espaço com o pernambucano Tagore, e a ancestral Macaco Bong –, havia um insuspeito clima de rock gaúcho na noite, seja pela presença da gaudéria Tess, pelo clima retrô-psicodélico da Corujones ou pela homenagem a Júpiter Maçã feita por Tagore (“Síndrome do Pânico”). Quem melhor colheu o espírito no ar, porém, foi a Supervão, que reside em Porto Alegre, mas vem colecionando boas vitórias em suas vindas a São Paulo nos últimos meses. Na Casa Rockambole não foi diferente: com bom som e um público ainda diminuto, mas bastante interessado, o grupo passeou pelas ótimas canções de “Amores e Vícios da Geração Nostalgia”, lançado no final do ano passado. O início foi empolgante, com a trinca “Love e Vício em Sunshine”, “Nostalgia” e “Cabelo” rendendo até uma pequena rodinha na pista, além de muitos cabelos ao alto. Parceria com Papisa, a balada “Querendo um Tempo” ajudou o grupo a reduzir a rotação, entrando no clima de “Toneladas” – a faixa da estreia “Faz Party”, de 2019, com brasilidades sintetizadas à frente, destoou um pouco do clima new rock retrô do repertório. O soluço, porém, foi rápido: buscando em extravasar as mágoas de “dois meses difíceis”, o vocalista Mário Arruda deu o melhor de si em outra grande sequência de “AVGN”, passeando por “Noia York” (que cita “Fake Tales of San Francisco” em seu riff), “Sei Lá, Não Deu” e chegando em “Androids”, em que o baixista Bernard Simon (substituindo Olímpio Machado) também brilhou nos backing vocals. O ápice da apresentação, porém, foi com outra balada, já perto do fim: “Tudo Certo Pra Dar Errado”, cujo coro (“por que eu não posso mais querer te ver de novo?”) foi entoado com excitação pelos presentes. Para fechar, ainda teve outra de “Faz Party”, “Sol do Samba”, mas nem precisava: jogando fora de casa, a Supervão fez mais do que o suficiente para levar pro Sul os três pontos da vitória. Mais que isso, mostrou que tem um time entrosado que mostra que pode sonhar com voos mais altos. Vale aguardar as próximas rodadas.


Supergrass no Terra SP (31/08)
texto e vídeos de Bruno Capelas / fotos de Fernando Yokota

O bagual que entrasse desavisado no Terra SP na noite do último domingo, 31 de agosto, poderia por algum instante achar que estava em Porto Alegre. Primeiro, porque a casa de shows cheia de pilastras fica tanto no sul da zona sul que dava até para achar que a CPTM virou Trensurb. Segundo, porque o sotaque gaudério, falado por guris e gurias já longe da adolescência, ecoava forte no bolicho. E, a depender da erva utilizada pelo magrão, os mezaninos do local poderiam fazer alguém acreditar que estava numa versão aumentada do Bar Opinião. O efeito ilusório poderia até ter passado durante a abertura, com a apresentação do paulistaníssimo Edgard Scandurra Trio – que não é gaúcho, “mas é o terror, né meu”. Em pouco mais de meia hora, o guitarrista do IRA! não se atucanou, alternando hits da banda (“Flores em Você”, “Núcleo Base”), com canções solo (“Minha Mente Ainda é A Mesma”, “Do Chão Não Passa”) com o garbo de sempre. Na sequência, foi a vez de Danny Goffey, Mick Quinn e os irmãos Rob e Gaz Coombes – este último, com uma boina que é moda no Bom Fim – subirem ao palco para revisitar “I Should Coco” (1995), baita álbum que fez a cabeça de bandas não só nos pampas, mas por todo o Brasil. O início, com “I’d Like To Know”, “Caught by the Fuzz” e “Mansize Rooster”, foi de cair os butiá do bolso, mas na sequência veio “Late in the Day”, de “In It For the Money”, interrompendo a sequência do disco. Uma das mais esperadas da noite, “Alright” surgiu mais à frente, colada com “Strange Ones” e “Sitting Up Straight”, em evidente clima de fandango. Radicado no Brasil, o irmão Charly Coombes fez uma participação especial em “Sofa (of My Lethargy)”, que, unida a “Time to Go”, gerou uma combinação digna de lagarteio com bergamotas na Redenção. Findo o disco, o Supergrass não deixou a rotação cair com um greatest hits do resto da carreira – e até na hora de iluminar o palco mostrou que é uma das maiores bandas do rock gaúcho. Sob luzes azuis, a plateia parecia a geral do Grêmio comemorando gol do Paulo Nunes quando Gaz entoou “Moving”. Na sequência, em tons colorados, foi a vez dos viventes celebrarem com “Grace”. No final, as cores bonitas ficaram mesmo violetas, sem entrevero, com “Sun Hits the Sky” e o hit “Pumping On Your Stereo”. Uma noite bonita demais – e que, para melhorar, só mesmo se o podrão da frente tivesse xis-coração, Fruki e um mumu de brinde. Barbaridade!

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

One thought on “Três shows (de rock gaúcho): Catto, Supervão e Supergrass

  1. Eu como desavisado e ( gaúcho sem o ranço ), poderia jurar pelo titulo que o Supergrass fosse uma banda nova gaúcha, sei la , fora isso ainda colocar louvação ao time do Grémio ( eu colorado me senti desconfortável ), fora isso até que bem divertido a resenha do show, mas nada de novo os gaúchos , “bandinhas” de Porto ( eu fora ) sempre quiseram ser ingleses ( urgh!!! ).

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