texto de Paulo Pontes
fotos de Douglas Mosh
Vampiros fazem parte do imaginário humano há séculos. Criaturas que sobrevivem do sangue dos vivos atravessaram do folclore europeu para a literatura, o cinema e a música. No caso do The 69 Eyes, essa figura não é só referência: é identidade. Não à toa eles são conhecidos como os Vampiros de Helsinki.
No último domingo (31), essa identidade ganhou vida no Fabrique Club, em São Paulo. E antes mesmo de Jyrki 69 e companhia assumirem o palco, o público já se aglomerava em peso. Às 17h30 a casa estava mais da metade cheia, confirmando a devoção da base brasileira.

As primeiras horas da noite ficaram a cargo das bandas de abertura. Os fluminenses da Drama abriram a programação, mas tiveram dificuldades para empolgar o público. A galera assistiu com respeito, mas parecia guardar energia para o que viria depois.

Quem mudou o clima foi a When I Die, de São Paulo. A banda conseguiu conquistar a plateia com uma mistura de gótico clássico e elementos mais modernos. Sem baterista, Jeff Molina segurou firme a base rítmica nos samplers e synths, preenchendo bem o espaço. Mas o grande destaque foi Juliana Chacon, dona de vocais potentes e presença de palco marcante. O som, um pouco agudo demais em alguns momentos, não comprometeu a performance, que ainda contou com uma ótima versão de “Hells Bells”, do AC/DC, muito bem recebida pelo público.
Com o terreno preparado, chegou a vez do The 69 Eyes. O show começou com cerca de 15 minutos de atraso, suficiente apenas para aumentar a expectativa. Quando as luzes baixaram, não houve dúvida: os vampiros estavam prontos para assumir São Paulo.

O início veio com “Devils”, seguida de “Feel Berlin” e “Perfect Skin”. O impacto foi imediato. O público cantava alto, a banda respondia com energia, e o vocal de Jyrki 69, grave e imponente, dava a tônica da noite. Em comparação à passagem anterior pela cidade, no Summer Breeze Brasil 2024, a banda parecia mais solta, menos engessada. Havia mais interação com a galera, mais leveza, sem perder o peso.
O setlist percorreu várias fases da carreira. “Betty Blue”, “Still Waters Run Deep” e “Drive” mantiveram a vibração alta. “Gotta Rock” (cover do Boycott) foi recebida como celebração, enquanto clássicos como “Cheyenna”, “Never Say Die”, “Gothic Girl” e “Wasting the Dawn” levantaram o Fabrique em coro. Era visível que ali não havia curiosos: todo mundo sabia exatamente o que cantar.

Na reta final, vieram dois momentos marcantes. O primeiro, “Brandon Lee”, que fez celulares subirem e vozes se unirem num dos pontos mais altos da noite. O segundo, já no encore, foi a participação de Supla em “I Just Want to Have Something to Do”, cover do Ramones. Apresentado como “Papito Vampire”, ele arrancou risadas, aplausos e deu o tom de improviso divertido que contrasta com a aura sombria da banda.
O encerramento veio em alto nível, com “Dance d’Amour” e “Lost Boys”. A essa altura, não havia diferença entre banda e público: era uma massa única vibrando junto, entregando o que tinha de voz e energia.

Tecnicamente, o show foi sólido. O som do Fabrique respondeu bem, com guitarras soando nítidas, baixo na cara, bateria pesada e equilibrada, e vocais sem falhas. A iluminação reforçou a estética da banda sem exagero, valorizando mais a performance do que o cenário (que contava apenas com o logo da banda no telão). Desta vez, sem dúvidas, o The 69 Eyes esteve em casa.
Quando o último acorde ecoou, restou a sensação de missão cumprida. Mais do que nostalgia ou culto ao gótico, os Vampiros de Helsinki entregaram um show forte, direto, sem firulas. Uma prova de que ainda têm fôlego e relevância – e de que, pelo menos em São Paulo, ainda existe uma plateia disposta a viver essa noite escura com eles.
Que não demorem pra retornar, até porque vampiros não morrem; eles sempre voltam.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod