entrevista de Fabio Machado
foto de Fernando Yokota
Fazer música de forma espontânea, ditada pelo momento, seja em cima ou fora do palco. Em meio a uma indústria saturada por ativações de marketing em festivais e miragens criadas por inteligência artificial, pode-se pensar que a improvisação é uma arte perdida. Mas ela ainda resiste em diferentes trincheiras, até mesmo no mainstream, onde o trabalho de Kamasi Washington é um exemplo vivo e vibrante da música improvisada com raízes firmes na tradição do jazz afroamericano.
Não é por acaso que o tema apareceu mais de uma vez durante a entrevista do saxofonista e compositor à Scream & Yell. Em conversa via chamada de vídeo, Kamasi demonstrou entusiasmo pelas possibilidades da criação musical ao vivo: “Sempre entro no palco pensando que o momento, e a música no momento, é quem manda”. E muitas vezes o momento pede por algo completamente diferente do que foi registrado nos discos ou ensaiado no estúdio – estratégia que é um dos pilares do jazz e que é referencial no trabalho do norte-americano, desde o início com “The Epic” (2015) até o disco mais recente, “Fearless Movement” (2024).
Mas a discografia de Kamasi também se expande para outros territórios e estilos. Para citar apenas um exemplo famoso, o músico foi um dos colaboradores de Kendrick Lamar em “To Pimp A Butterfly” (2015) juntamente com o amigo de infância, Stephen Bruner (mais conhecido como Thundercat e que passou recentemente por terras brasileiras). E mais recentemente, recebeu uma indicação ao Emmy pela trilha que compôs para o anime “Lazarus”, de Sinichiro Watanabe.
Durante a conversa que você pode ler na integra abaixo, falamos sobre jams sessions inusitadas, as diferenças entre apresentações em mega festivais e casas menores e sobre a amizade com Thundercat embalada pelo amor à animação japonesa.
Scream & Yell: Já é sua terceira vinda ao Rio de Janeiro. Mas quais memórias você tem de visitas anteriores ao Brasil? Pode contar alguma história em particular que ficou na sua cabeça?
Kamasi: Sim, eu tenho muitas boas memórias de visitas ao Brasil. A primeira vez que visitei o país foi com Stanley Clarke. E uma das lembranças mais bonitas de toda a minha vida foi quando fizemos uma apresentação e alguns músicos vieram ao backstage e perguntaram se eu queria participar de uma jam session após o show. E eu falei: “Sim, eu topo fazer a jam session”. E eles responderam tipo: “Beleza, encontre a gente nos fundos”. Isso foi em um teatro aberto em… acho que em Rio das Ostras [nota do redator: Kamasi fez parte da banda de Stanley Clarke e se apresentou no festival Rio das Ostras Jazz e Blues, em 2012]. Então eu falei: “Certo, encontro vocês lá”. E eu fui até lá e tinha cerca de 10 músicos, estavam todos lá fora, pensei que nós iríamos para algum lugar fazer a jam session. E eles começaram a tocar ali mesmo na rua. E eu só pensei: “Oh, uau, isso é legal”.
Aí eles começaram a fazer música e as pessoas começaram a nos cercar, e estávamos ali só tocando. Depois de alguns minutos, tinha cerca de 30 pessoas, e então começamos a andar. O líder da banda falou algo do tipo: “Vamos”. E aí começamos uma espécie de marcha pelas ruas da cidade. Nós caminhamos direto para a praia, às vezes parando para tocar nas ruas, e isso durou a noite toda. No final, haviam umas 150, talvez 200 pessoas. Uma grande multidão. Eles estavam interrompendo o tráfego e tudo mais. Quando finalmente chegamos à praia, devia ser umas oito da manhã. Acho que não parou até às 10 da manhã. E eu só pensava que era uma experiência linda. Foi tudo tão convidativo e caloroso, senti ali que isso era como a vida deveria ser. Vamos só tocar música e aproveitar a companhia uns dos outros. Esse sentimento que tive ali tocando é algo que vou levar comigo para o resto da vida.
Muito bom! Além do Rio, você também vai tocar em São Paulo – onde já tocou no Sesc Pompeia, na Audio e no C6 Fest (com o Dinner Party) -, dessa vez no festival The Town. Quais são as diferenças entre tocar em grandes festivais como esse e lugares menores como o Circo Voador? Como esses dois ambientes te afetam como artista?
Sim, eles são bem diferentes. Quer dizer, para mim, os festivais são algo com tantos artistas diferentes e tantas pessoas reunidas, o ambiente é maior e isso é bonito de um jeito diferente. É bonito no sentido de que tem tanto inspiração por todo lado. E muitas vezes, os festivais tem vendedores ou pessoas que fazem coisas e roupas e as pessoas estão lá, estão ouvindo música e estão nessa vibe, e ficam o dia todo fazendo isso. É quase como se fosse uma sopa, porque são tantos músicos, tanta gente, tanta coisa diferente acontecendo. E quando você toca em um lugar menor, é mais como se fosse uma refeição caseira. Como se você estivesse bem aqui, perto das pessoas. Então você não tem tanta energia como em um festival, mas ela está mais próxima de você.
E eu sinto que como músico, nós podemos quase nos sentir mais confortáveis para correr riscos e mudar a música para que ela fique mais espontânea, porque na maioria das vezes nos lugares menores você não tem tanta restrição em relação a tempo. Tipo, quando você está nos festivais, precisa parar exatamente no horário indicado. Em locais menores, você pode ir um pouco além. Então na hora de encerrar a música, quando você está ouvindo algo, você pode aproveitar e ir com tudo. Portanto, as duas situações têm a sua… Eu gosto de ambas. São apenas diferentes, mas com seus altos e baixos.
E falando em tocar ao vivo, como alguém que tem raízes na tradição do jazz, o quão importante é para a sua música tocar e improvisar ideias nesse contexto?
Sim, quero dizer, acho que isso definitivamente é o espírito da música que está nas minhas raízes, sabe? Minha improvisação e espontaneidade. Com certeza nós tocamos música em formatos definidos e com arranjos, ideias que queremos fazer e tal. Mas acho que sempre entro no palco pensando que o momento, e a música no momento, é quem manda. E se o momento diz: “nós não iremos tocar aquela intro que ensaiamos e preparamos”, então nós não tocaremos e faremos o que surgir no momento. Então, é definitivamente uma filosofia um pouco diferente de outras pessoas que não têm essas raízes, entendeu? Mas eu adoro isso, porque significa que se existe magia no ar, nós podemos capturá-la. Porque algumas vezes você está tão apegado em um arranjo, e talvez algo aconteça que faça você pensar: “oh, mas isso seria muito melhor nesse momento”, sabe? Nós sempre vamos pelo momento, o que é sempre divertido, e eu gosto disso.
O seu último disco (“Fearless Movement”) foi lançado no ano passado, mas em 2025 você compôs a trilha sonora do anime “Lazarus”, em conjunto com outros artistas como Bonobo e Floating Points. Gostaria de saber como você se envolveu com esse projeto e se você planeja trabalhar em outras trilhas no futuro próximo.
Eu sou um grande fã de anime, então quando eu fui chamado para trabalhar com Sinichiro Watanabe (diretor responsável por “Lazarus” e criador de animações clássicas do gênero, como “Macross Plus”, “Samurai Champloo” e “Cowboy Bebop”) fiquei super animado. Cresci assistindo seus filmes desde que eu era criança, e por isso eu fiquei, tipo, eu não consegui acreditar quando me falaram. Mas sim, foi algo super divertido e é sempre legal colaborar com pessoas que são abertas, que tem um espaço em sua criatividade para permitir que outras pessoas sejam criativas em conjunto.
Então, ele [Watanabe] teve essa postura bem receptiva e me deixou fazer o que eu quisesse. E sim, seria ótimo fazer mais disso, eu sou um grande fã dessa mídia de animação e filmes, por isso é sempre divertido e eu sempre sinto que toda vez que trabalho em qualquer tipo de trilha, eu cresço de alguma forma. Porque a música que precisa ser feita é um tanto diferente do que eu teria feito se fosse simplesmente algo feito sozinho, sabe? É uma coisa boa para ter inspiração.
Eu entrevistei o Thundercat há pouco tempo e ele também curte anime e tem todas essas referências japonesas. Seria legal ver vocês dois juntos fazendo alguma trilha de anime ou algo relacionado algum dia.
Sim, sim, na verdade nós dois crescemos juntos então costumávamos assistir um monte de desenhos quando éramos crianças (risos). Eu me lembro de comentar com Watanabe, tipo: “meu amigo me deu essa fita VHS de Macross Plus”, sabe? Eu e Thundercat sentávamos e ficávamos assistindo ela juntos.
Isso é muito massa! Bem, acho que é isso, Kamasi. Muito obrigado mais uma vez pelo seu tempo e espero que você aproveite bastante o tempo no Brasil nesses próximos shows.
Oh, obrigado. Sim, tenho certeza que irei. Estou animado para isso!
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.