Terminal Guadalupe detalha “Serenata de Amor Próprio”, seu novo disco, faixa a faixa

texto de introdução de Marcelo Costa
faixa a faixa de Terminal Guadalupe

“É como ouvir 10 bandas diferentes no mesmo álbum”, instigam o vocalista e letrista Dary Jr. e o multi-intrumentista Allan Yokohama sobre “Serenata de Amor Próprio” (2025), o quinto disco da Terminal Guadalupe. Ainda assim, há um fio condutor sonoro que não só aproxima muitas canções no álbum, dando unidade ao repertório, como também conecta o novo disco com os primeiros álbuns da banda, principalmente “VC Vai Perder o Chão” (2005) e “A Marcha dos Invisíveis” (2007), algo que “Agora e Sempre” (2022), disco de transição que marcou o retorno da colaboração de Dary e Allan, apenas insinuava. Ou seja, “Serenata de Amor Próprio” traz o Terminal Guadalupe que muita gente aprendeu a admirar no final dos anos 00.

Serenata de Amor Próprio” combina reminiscencias sessentistas (Beach Boys, Big Star, Ronettes, Phil Spector, Cat Stevens, Sui Generis, R.E.M.) com um olhar cuidadoso sobre temas caros aos dias atuais: “É um disco dedicado à construção da autoestima, apresenta canções que exaltam a afirmação das próprias ideias, desejos e identidade”, explica o duo, que contou com Rodrigo Panzone (baixo), Leandro Lopes (gaita), Léo Destro (contrabaixo acústico) e Ivan Rodrigues (bateria) nas gravações. Uma canção em especial, “Além da Glória”, registra o reencontro da formação clássica da banda, com Dary e Allan mais Rubens K (baixo) e Fabiano Ferronato (bateria).

No faixa a faixa abaixo, Dary, Allan e o produtor Bruno Sguissardi detalham o processo de construção de “Serenata de Amor Próprio”. Confira!

01) “Foi Por Pouco”
Dary: Power pop ao melhor estilo Big Star. O dedilhado R.E.M. no pós-refrão é uma beleza. E o solo, ah, o solo conjunto de guitarras traz o grande momento de uma canção que fala com franqueza e alguma poesia sobre o fim de um relacionamento.

Allan: Essa é uma daquelas músicas que eu achava que já estava pronta, até chegar o baixista e inverter tudo (risos). A linha de baixo do Panzone destaca a voz e o riff de guitarra no refrão. Trouxe até uma certa dissonância nesse momento da canção, em que nem tudo precisa soar perfeito. Eu acho maravilhoso. Esse baixão deu mais sentido à música.

Bruno: Minha canção favorita do disco, disparado, ela é o grande rock do disco, na minha opinião, e rock me deixa feliz! No que diz respeito a produção, o esforço maior foi para não estragá-la. O ponto alto é o solo com duas guitarras dobradas, gravadas simultaneamente pelo Allan e por mim.


02) “Vá Ser Feliz”
Allan: A letra foi inspirada em algumas “amizades” tóxicas que tive. Foi a partir desta canção que a gente começou a pensar nesse conceito do amor próprio. Durante a gravação, eu estava muito curioso pra trabalhar com o Leandro Lopes, um gaitista versátil e aberto a experimentar timbres diferentes como gaita baixo, gaita de acordes, entre outras. O Leandro é a cereja do bolo em VSF.

Bruno: Foi a primeira que fizemos, o Allan sempre vem com algo lúdico e eu sempre embarco, dessa vez foi uma sacola cheia com instrumentos para criança, e uma espécie de bumbo boliviano, e aí surgiu a base rítmica do arranjo, que deu suporte pra gente fazer o skazinho estranho que estava tocando na nossa cabeça. O coro das meninas no último pré-refrão é inspirado nas colegas de auditório do Silvio Santos, foi muito divertido gravá-las.

Dary: A música é 99,8% do Allan. Primeiro ska da nossa discografia. Desabafa contra muitas coisas, como a cultura do ódio. É típico da banda tratar de temas espinhosos com melodias solares, como fizemos em “O Bêbado de Ulysses” (violência doméstica) e “Holidays in Amityville” (depressão infantil).


03) “Sara”
Allan: Em 2016, quando a Sara era bebezinha, eu a embalava ao som de seu próprio nome, cantando a melodia do refrão da canção. Depois, em 2018, com a composição terminada, eu decidi gravá-la no meu projeto solo Yokohama Café. Agora, quando estávamos selecionando as músicas que iriam entrar no disco, o Dary quis resgatar a canção, propondo outras ideias e arranjos. Tivemos a oportunidade de contar com dois grandes músicos para a regravação: Rapha Moraes, que é padrinho da minha filha, no baixo, e Noélle Bonacin, no violoncelo.

Bruno: Música linda do Japa que veio muito pronta também. O cello já tocava o tempo todo na nossa cabeça, então foi óbvio colocar. Noélle fez isso com maestria, porém não esperávamos o baixo fretless do Rapha Mores, que deu o grande charme da parada. Destaco os timbres de guitarras que o engenheiro de som Matheus Bittencourt tirou – não só nessa, mas em todas as músicas.

Dary: A canção é linda como a Sarinha. Minha contribuição foi acrescentar um vocal no refrão para ampliar o sentido da música, da homenagem para uma filha à pedagogia do processo de cura.


04) “Volta”
Dary: Tinha feito algo que mais se parecia com um jingle. O Allan mudou a melodia. O Bruno trouxe um ar retrô. É uma declaração de amor à civilidade, ao desejo de voltar a um tempo em que, aparentemente, nada nos dividia.

Allan: O Bruno elevou “Volta” a outro nível. Rearranjou a música de uma maneira belíssima e inspiradora, tão inspiradora quanto as melodias e arranjos do grande Brian Wilson. Ivan Rodrigues, o baterista, foi a peça-chave que entregou o groove necessário para a canção. No final, ela se tornou uma das minhas prediletas.

Bruno: Já conhecia essa música do Dary de outros carnavais, mas a versão demo que o Allan me trouxe me fez olhar com outros olhos para ela. Ele puxou para algo mais 60’s, só que bem balada e mais arrastada. Então me veio a epifania da gente ir para um lado mais Phil Spector, Ronettes, permanecer nos 60’s, mas dar um up, e assim fizemos. Ficou bem mais romântica, e isso também me deixa feliz.


05) “Além da Glória”
Dary: A melodia é de 2008. Era para ter entrado no álbum “Agora e Sempre”, de 2022, mas não chegamos a um consenso. A letra é sobre a minha reconciliação com o Allan. Ficamos sem contato entre 2009 e 2018. A música celebra essa reunião.

Allan: E também celebra a reunião em estúdio que tivemos com o Rubens K e o Fabiano Ferronato, baixista e baterista, respectivamente, da formação clássica da banda, que gravaram com a gente nesta faixa.

Bruno: A oportunidade de ter gravado a formação mais clássica do Terminal Guadalupe nessa faixa foi maravilhosa. Esses caras todos são muito representativos pra mim. E a música ficou porrada.


06) “Sonho Não Faz Curva”
Dary: Minha canção preferida de “Serenata de Amor Próprio”. Junta Beatles com Xangai. Me inspirei na minha mãe para fazer a letra. Amo as camadas de instrumentos no arranjo.

Allan: A parte inicial do violão eu havia criado em 1999, mas só foi resgatada do fundo da gaveta em 2024, quando virou canção. O solo de guitarra foi inspirado em George Harrison.

Bruno: O ponto lúdico nessa é o clima de taberna, homens e mulheres embriagados brindando, batendo na mesa, cantando, rindo e chorando abraçados. O lance legal nessa, assim como em “Vai ser feliz”, é o uso da gaita de boca do Leandro meio que fazendo as vezes de um acordeom no arranjo, ajudando na personalidade da parada. Lindíssima!


07) “Black Jesus”
Dary: Música de branco – ou mais associada a brancos – para exaltar os negros. Suco de Terminal Guadalupe. É como se Cat Stevens fosse um quilombola. A ideia de surgir um Jesus nórdico onde todos tinham pele e olhos escuros sempre me incomodou.

Allan: Em 2013, eu fui para o Togo, na África, visitei algumas igrejas por lá e todas mostravam as mesmas pinturas de qualquer igreja católica, só que com uma grande diferença: Jesus era preto. Tudo fez muito mais sentido na minha cabeça a partir dali.

Bruno: É uma música meio folk, meio gospel, o trabalho ficou na ponta dos dedos do Allan, pra tocar com a sutileza certa pra gente criar as camadas de violão. No dia da gravação de voz, o Dary chegou resfriado. Fiquei meio puto, mas não quis falar nada, afinal, já estávamos ali e iríamos gravar de qualquer jeito, pelo menos tentar. No final, combinou demais na música a voz levemente zoada em função do resfriado, deu o charme.


08) “Cuando Me Extrañas”
Dary: Era uma balada triste, com cara de Savia Andina e Sui Generis, que virou um tema dançante. Allan e Bruno podem falar mais sobre isso. Escrevi a letra quando Allan ainda estava na Europa. É sobre essa saudade.

Allan: Eu imaginava ela como uma balada andina bem melancólica com instrumentos mais rústicos, quase que num ritual xamânico. Talvez essa minha imaginação vire realidade noutro disco. Ela acabou sendo o arranjo que mais mudou do original e todo o processo de transformação foi muito divertido, principalmente pelas referências que estávamos buscando.

Bruno: Essa música chegou com uma demo em que o arranjo também levava para o clima de taberna, mas aí já comecei a achar demais. E então, cantarolando a canção, comecei a fazer a melodia do refrão cantando no estilo Shakira. Todos caíram na risada, mas eu vi que o caminho poderia ser por ali, sim, então eu insisti e eles começaram a comprar a ideia. Da Shakira fomos pro eurodance e dali acabamos inevitavelmente voltando pra referências mais familiares de pós-punk, mas tudo isso está no arranjo final.


09) “Amor, Eu Vou Embora”
Dary: Fiz a música de uma só vez, em 2024, inspirado em Chico Buarque e em um casal de amigos. Foi a primeira vez que ousei compor pela perspectiva de uma mulher – a bela interpretação de Ana Cascardo reforçou isso. Tem sido uma das canções mais ouvida do álbum, o que nos surpreende.

Allan: Quando o Dary me mostrou “Amor, Eu Vou Embora”, eu não conseguia visualizar ele ou mesmo eu cantando e gravando essa música. Convocamos o Bruno para o Fender Rhodes e a Ana Cascardo para contribuir com sua linda voz. É a única canção em que eu e o Dary não participamos da gravação.

Bruno: Quem foi embora nessa música foram os caras da banda, que me deixaram tocando piano elétrico sozinho com a cantora (risos). Anedotas à parte, é um arranjo muito sutil, um Rhodes ligado no echoplex e a voz da incrível Ana Cascardo.


10) “Calma”
Allan: Francis Yokohama, músico e também meu primo, compôs excelentes canções. “Calma” é uma das que mostrei pro Dary e nela vimos a cara do Terminal Guadalupe. Durante a gravação, me pediram pra gravar um solo a la Nirvana (sem eu precisar implorar por isso), eu não acreditei, achei que estava sonhando (risos). É a típica faixa pra encerrar disco: pesada e reflexiva.

Dary: É a minha letra preferida do disco.

Bruno: Essa foi das ultimas que fizemos. A ideia do arranjo dessa música era trabalhar a sinestesia, a sensação de cada parte, e no final veio a calhar um “Tá faltando um Nirvana aí bicho”. Descemos a porrada.


11) “Não Desanime”
Allan: O Dary me mandou a letra e a ideia por trás da música, a melodia surgiu de uma maneira muito rápida no violão e com alguns retoques depois, ela tava pronta. Igual Miojo.

Dary: Eu compilei frases comuns em devolutivas de RH para montar a letra como se fosse uma carta sobre processo seletivo. Era para ser engraçado, mas também ficou melancólico, ou seja: coerente com a nossa história.

Bruno: O disco já estava gravado, mixado, masterizado, pronto pra ir para o mundo, os caras da banda vieram aqui em casa pra gente discutir detalhes sobre o show de lançamento do disco e então me mostraram uma música nova. Eu adorei, falei que eles tinham que gravar um vídeo simples tocando a música, eles quiseram fazer na hora, e aí, como já estávamos aqui no meu estúdio, não ví porquê não gravar o áudio também. Assim surgiu a última faixa do disco. Em 15 minutos, música e clipe estavam prontos.

Allan: No geral, foi um processo muito divertido e diferente para o Terminal Guadalupe contar com uma variedade de músicos para esta gravação, cada um com sua escola musical variando entre rock, jazz, punk, o clássico, o blues, a musica regional, a MPB. A contribuição de todos foi muito importante para a realização do disco: a produção e musicalidade do Bruno Sguissardi, a paciência e as técnicas (nos variados timbres que buscamos) de Matheus Bittencourt, as baterias pulsantes do Ivan Rodrigues, os baixos melódicos de Rodrigo Panzone, as diferentes histórias e timbres que as harmônicas de Leandro Lopes da Gaita trouxeram e ainda contamos com Léo Destro, no contrabaixo acústico, trazendo classe às faixas por ele gravadas.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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