texto de Carlos Lopes
fotos de Laurent Sabathé
Nas duas noites finais do 47º Festival de Jazz de Marciac, o palco pricipal foi entregue ao talento de quatro artistas brasileiros. Lembrando que 2025 é o ano do Brasil na França, visando estreitar a relação entre os dois países em áreas como negócios, turismo, educação e cultura, pontuado por vários eventos que mostram a variedade e o vigor de nossa cultura aos franceses. Muita música incluída, é claro!
Já haviam passado pelo Chapiteau, o palco principal do festival, nomes como Carlos Malta & Pife Muderno, Casuarina e Andrea Ernest Dias Quarteto. Para encerrar a maratona de 18 dias do JiM foi a vez dos ícones Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, do virtuose Hamilton Holanda e da estrela ascendente Amaro Freitas, numa parceria curatorial do JiM com o MIMO Festival.

Na quarta-feira à noite (6/8), um dos menores públicos do festival (cerca de mil pessoas) assistiu ao concerto do brasiliense Hamilton de Holanda, em sua quarta visita ao evento francês. Na véspera, o músico havia ministrado uma masterclasse intitulada “Improvisação: Oito Hábitos Criativos” e, no palco do Chapiteau no dia seguinte, surgiu acompanhado de Salomão Soares (teclados e o sintetizador Moog) e Thiago “Big” Rabello (bateria).
Aquele que é considerado o inventor do bandolim contemporâneo começou seu show de maneira discreta, tocando seu soft jazz e infiltrando melodias tupiniquins aqui e ali, ao que a plateia respondia com alguma frieza. Mas aos poucos o trio foi se soltando, o bandolinista passou a pedir (sendo atendido) a participação da audiência com lararás e ohohohs e, ao final, ganhou de vez a simpatia dos espectadores. No bis, tocou o clássico “Chega de Saudade” sendo acompanhado por um coro numeroso de franceses cantando em português sem vergonha do forte sotaque.

Hamilton é um virtuose. Tem domínio incrível do instrumento, mas fica evidente ao longo de um show como o de Marciac que o bandolinista se esforça para domar o instrumento dentro das fronteiras estéticas do soft jazz à americana. Talvez os estrangeiros não o percebam, mas é nítido o ganho em riqueza melódica e harmônica nas oportunidades em que Hamilton coloca as possibilidades de seu talento e de seu instrumento a servíço da música brasileira. Foi assim quando tocou o clássico de João Gilberto como também “Menina Liza”, de Hermeto.
Já Egberto Gismonti é, talvez, a maior referência de grande músico do Brasil atual. Aquele que é considerado o herdeiro de Heitor Vila Lobos é unanimidade internacional quando se fala de junção do clássico, do contemporâneo e do folclorico. Em Marciac, ele se apresentou ao lado do talentosíssimo violonista Daniel Murray, expoente da nova safra de músicos, notório por sua criatividade, técnica e sensibilidade transbordantes (num show que também tem circulado pelo Brasil).

Egberto subiu em cena com 15 minutos de atraso, explicou que alguém do seu círculo pessoal tinha falecido e que, por isso, se apresentaria abalado. Atacou três composições ao piano, entre as quais “Miudinho”, de Villa Lobos. E com essa abertura, solitário sobre o palco, parece ter retomado o controle dos nervos. Com Daniel em cena, revezando hora duo piano-violão, hora duo violão de 10 cordas-violão de 6 cordas, a apresentação passa a ser assombrosa do ponto de vista do que músicos de elevadíssimo nível são capazes.
É um duelo de sonoridades e ritmos que misturam com grande arrojo estruturas de música clássica, de jazz e de elementos regionais e do folclore brasíleiro. No meio da apresentação, o público está espantado com a profusão de ritmos, harmonias e melodias que Egberto e Daniel conseguem tirar de seus instrumentos. E tem percussão também, que os dois se revezam fazendo nas respectivas caixas acústicas de seus violões.

Egberto e Daniel criam instantes sublimes. Em determinado momento a sensação é de que se desafiam, para ver quem vai mais longe em ousadia técnica e criativa. É assim até a nota final. Literalmente! Quando após um silêncio ritmico prolongado, os dois terminam seus trechos de arranjo com a mesma nota aguda suspensa à eternidade.
A dupla precisou voltar para um bis, após o qual encerraram a apresentação deixando o público presente querendo mais.

Com igual público minguado da noite anterior, na saideira do festival se apresentaram o pianista perrnambucano Amaro Freitas e o bruxo Hermeto Pascoal. Amaro tocou repertório baseado em seu disco “Y’Y'”, em que volta seu olhar artístico para a Amazônia. Pianista de mãos muito rápidas, ele encadeou uma dúzia de composições com influência do regionalismo brasileiro, derivando para o que chama de afrojazz.
Acompanhado pelo baterista Rodrigo Braz e pelo contrabaixista Sidiel Vieira, Amaro reproduz em cena um jazz de forte influência norte-americana. Em formato e performance. As referências tupiniquins estão lá, mas um tanto quanto diluídas, ao menos na apresentação de Marciac. A plateia ficou satisfeita, mas foi antes a apresentação de um brasileiro tocando jazz do que uma apresentação de jazz com forte acento brasileiro.

Bem diferente foi a apresentação do sexteto do bruxo Hermeto Pascoal, que fechou o festival. Hermeto era, de longe, o brasileiro mais aguardado do JiM 2025. Aos 89 anos, entra em cena de cadeira de rodas e bombona de oxigênio. Está combalido! Auxiliado pelo empresário, acomoda-se atrás de um teclado, que não chega a tocar. Mas isso pouco importa para os franceses, que vibram só de tê-lo dividindo o mesmo espaço.
De seu posto de observação privilegiado, fica atento a todos os movimentos de seu inflamado grupo, formado por Jota P (sax e flauta), seu filho Fábio Pascoal (percussão), André Marques (piano), Ajurinã Zwarg (bateria) e Itiberê Zwarg (baixo). O mínimo que se pode dizer desse sexteto é que tem borogodó. Atacam um jazz com groove e swing, criando uma camada sonora densa que, aos poucos, vai ganhando forte acento nordestino, com a incorporação de ritmos forrózzísticos.
Tudo o que o sexteto toca foi composto e arranjado por Hermeto. Ali pela quarta música, começam as feitiçarias radicais do bruxo. Primeiro, entra em cena uma chaleira amassada, que ao ser assoprada por Hermeto incorpora-se ao arranjo como uma espécie de sax “resfriado”. Depois ele se serve de um berrante para ornamentar a barafunda regionalisada que o sexteto impõe sem piedade à platéia.

No meio do show, bebe de um copo transparente um líquido incolor, o qual explica ser a cachaça brasileira que tanto adora. Os franceses estão incrédulos – a chaleira volta à cena em outras músicas. Mas o que mais provoca a admiração do público nessa noite é o som engraçado emitido por dois animais de borracha (um porco e uma vaca), que são parte do kit de percussão de Fábio. A idéia de incorporá-los a um sofisticado trecho jazzístico foi do genial Hermeto, óbvio.
Nessa altura da apresentacão, é fácil notar que os franceses já se sentem recompensados pelo pouco que Hermeto foi capaz de lhes mostrar até ali estando na condição em que está. Mas tem mais, o sexteto começa a inflamar a plateia em vibração e o Chapiteau vai se transformando num imenso forró. Parte do público se aglomera em frente a um dos telões e sacode o corpo do jeito que dá até o fim da apresentação, encerrada com um tema meio coco meio junino a dois pandeiros (base e solo) , triângulo e flauta.
Hermeto fica de pé, agradece o entusiasmo da platéia, volta para a cadeira de rodas e desaparece deslizando, seguido por seus cinco companheiros de “animação de baile”. No anfiteatro, os franceses aclamam: “Hermetô! Hermetô! Hermetô! Volto prá casa pedalando minha bicicleta! É uma da madruga. Ainda não “sextou” no Brasil, mas já “Hermetou” na França.
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– Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac