entrevista de Fabio Machado
Quando se trata de Thundercat, a expectativa é pelo imprevisível. Do visual que agrega referências de cultura pop e oriental, passando pela sonoridade dos seus discos que passeiam pelo pop, jazz fusion, R&B, vocal cheio de sentimento e timbres de baixo que parecem trazidos de outra dimensão, parece não haver limites para o que a mente do baixista, cantor e compositor norte-americano (cujo nome real é Stephen Lee Bruner) pode conceber.
Mais imprevisível ainda é a sua trajetória musical, que passou por nomes tão diversos como Erykah Badu, Flying Lotus, Suicidal Tendencies, Childish Gambino e Kendrick Lamar – com quem conquistou seu primeiro Grammy pela participação no já clássico “To Pimp a Butterfly” (2015). Mais tarde, ele ganharia outro Grammy com um trabalho próprio: “It Is What It Is” (2020), um disco cheio de participações, incluindo nomes como Steve Lacy, Ty Dolla $ign, Kamasi Washington e o brasileiro Pedro Martins (que ainda será assunto mais algumas vezes nesse texto).
Mas em meio ao aparente caos da sua persona no estúdio e nos palcos e da presença constante junto a artistas acostumados a se manter no topo, Stephen é uma pessoa que não tem medo de demonstrar sua vulnerabilidade, seja ao explorar questões existenciais em suas músicas ou ao relembrar a vida de amigos como Mac Miller, uma perda recente que foi homenageada neste ano com o álbum póstumo “Ballonerism”. Transborda felicidade ao falar do encontro com Milton Nascimento (providenciado pelo amigo Pedro Martins e por Augusto, filho de Bituca) e cai na risada ao lembrar da sua participação no programa infantil norte-americano “Yo Gabba Gabba” vestindo uma fantasia de gato laranja… e um baixo laranja de seis cordas para acompanhar.
Stephen/Thundercat consegue ser e unir várias coisas em uma pessoa só: vai do absurdo ao solene, da inevitabilidade da morte à gratidão pela música. Ele fala sobre todas essas coisas na entrevista ao Scream & Yell que você confere a seguir.
Stephen, primeiramente gostaria de agradecer pelo seu tempo para essa entrevista. Aqui no Brasil estamos empolgados para a turnê latino-americana que você anunciou para Agosto. Acredito que sua última vez tocando por aqui foi em 2023 em São Paulo, é isso?
Naquele festival, certo? [nota do redator: o Festival GPWeek]
Sim, isso mesmo. E então as outras datas foram canceladas por conflitos de agenda. E por isso mesmo, creio que sua base de fãs brasileiros está ansiosa por essa nova turnê, já que muita gente ficou chateada pelas datas canceladas. O que podemos esperar de você e da sua banda nessa nova turnê?
Talvez alguma música nova, algumas piadas, sei lá, muita informação pessoal. É meio oversharing, então eu não sei dizer.
Certo. Apesar dessa última passagem no festival ter rolado há alguns anos, creio que não tenha sido sua última visita por aqui, já que em 2024 você esteve na casa de Milton Nascimento na comemoração de 82 anos do cantor. Acredito que isso tenha sido como um sonho realizado, já que Milton Nascimento é uma lenda viva. Gostaria de saber quais as suas memórias desse momento, e se você teve alguma oportunidade de falar sobre música com o Bituca, ou mesmo fazer uma jam com os outros músicos presentes.
Sim, foi um dos melhores dias da minha vida, cara. Eu e Pedro Martins (guitarrista e compositor brasileiro) decidimos ir juntos e foi o Augustin (Augusto Kesrouani Nascimento, filho de Bituca) que insistiu: “você tem que vir, tem que vir”. E eu falei: ok, eu vou. Estarei lá.
Eu estava muito animado porque a influência do Milton na minha música e nas minhas escolhas de melodia e harmonia é muito, muito grande. E eu pude até mesmo explicar para ele o momento em que me dei conta da música dele, e de como ela moldou e mudou meu jeito de compor. E contar para ele a história do meu último álbum, “It is What it is”.
Foi muito bom ter a oportunidade de compartilhar isso com ele. Sou muito grato a Pedro e Augusto, pois eles fizeram questão que eu fosse até lá. E é engraçado (lembrar das histórias), porque eu sei que ele (Milton) não fala muito inglês e eu não sabia como algumas das histórias que compartilhei soariam para ele, sabe? Mas quando eu cantava músicas dele que eu conhecia para ele ouvir, Bituca me olhava de um jeito bem peculiar, tipo: “Hein? (risos) O que fez você gostar disso? (risos)”.
Sentar junto com Pedro e Milton, tocar canções para ele, mostrar músicas que fizemos juntos. Foi uma felicidade imensa poder estar lá. E eu também vi Milton quando ele veio para Los Angeles, sabe? Eu sentava junto com ele, e ficávamos vendo TV, ou ele nos mostrava músicas que ele amava e que tinha participado. Ele mostrou as coisas que gravou com Wayne Shorter. E eu só pensava como isso é muito importante para o meu crescimento como músico, sabe, e acho que algumas das minhas memórias favoritas daquela festa (aniversário de Bituca) foi ter assistido Pedro tocando piano e guitarra até sete da manhã (risos), sem piscar. Acho que foi a melhor coisa que vi em toda a minha vida (risos).
Parece ter sido incrível mesmo!
Foi sim! (continua rindo por mais um momento)
Pedro fez uma participação no seu último álbum, “It Is What It Is”, certo? Como vocês se conheceram? Há planos para fazer mais músicas juntos?
Sim, meu plano é realmente continuar a fazer música com Pedro. Eu o conheci por intermédio de Louis Cole e Genevieve Artadi (dupla responsável pelo projeto “KNOWER”). Foi mais por conta da Genevieve, na verdade. Eu lembro de ter ido assistir ele tocar em Londres. E claro que fiquei impressionado.
Meu tecladista, Dennis Hamm, também tinha me falado sobre o Pedro. E aí fui ouvir o primeiro disco dele, minha primeira experiência ouvindo algo do Pedro foi “Horizonte”, do álbum “VOX” (disco lançado em 2019). E eu fiquei tipo: “Estou apaixonado por esse cara (risos)”.
E ainda não tinha nada indicando da minha parte que nós faríamos música juntos. Eu era somente um fã da música dele, antes mesmo de ter uma chance de trabalhar com ele. Então, passado algum tempo, nós sempre soubemos que precisávamos sair juntos, precisávamos sair e compor.
E acho que o timing bem na época do meu último trabalho foi muito, muito perfeito. Aquele momento foi perfeito porque mesmo entre as duas músicas em álbuns diferentes, elas são muito como se fossem a mesma canção. E eu já disse isso antes algumas vezes, mas a música que está no disco dele é o encerramento verdadeiro do meu disco. [nota do redator: Martins e Thundercat são co-autores das músicas “It Is What It Is”, faixa-título do disco lançado em 2020; e “Isn’t it Strange”, que está em “Rádio Mistério”, registro de Pedro Martins realizado em 2023]
E eu não sei, nós simplesmente… (pausa) Eu estou sempre assistindo ao Pedro e aprendendo alguma coisa, sabe? Sempre que eu posso, tento trazer ele para perto de mim. Mesmo sem saber que está me ensinando coisas, ele me ensina alguma coisa; eu tenho muita sorte de tê-lo em minha vida e espero continuar criando música com ele.
Isso é ótimo. Parece que é realmente uma amizade que a música trouxe na sua vida, né?
Sim, sim.
Falando mais sobre o seu trabalho. Não apenas no último disco “It Is What It Is”, mas ao longo de toda a sua trajetória, sempre senti que seus álbuns sempre abordam temas sobre mortalidade, reflexões sobre morte e apocalipse, não só por você ter sofrido perdas durante esses anos, mas também o seu próprio senso de mortalidade. Ao mesmo tempo, também há momentos de humor e coisas surreais. Você acredita que essa temática veio naturalmente? Foi algo que sempre te interessou como artista?
Sim. Sim. Tipo, (a idéia de) mortalidade sempre foi um fator no meu processo de pensamento desde que eu era criança. Não sei, acho que ponderar sobre essas coisas é algo muito inato. Creio que é um jeito muito natural de pensar, sabe, mas desde que me lembro, eu sempre pensei sobre essas coisas e a relação com o que é a experiência e existência aqui na Terra.
Então, é algo que sempre esteve com você desde o começo.
Sim. Desde o começo, sempre foi algo que eu pensava bastante sobre. E a parte onde isso influencia na minha música, eu acho que é algo inevitável, sabe? Quanto mais tempo eu passava criando música, mais ela se traduzia dessa forma.
Ok. E claro que ao falar sobre a sua carreira, também pensamos sobre amigos que você perdeu. Um deles foi Mac Miller (que faleceu em 2018). Esse ano, você ajudou a lançar “Balloonerism”, produzindo e tocando em faixas do álbum póstumo dele. Como foi trabalhar nesse projeto, já que ele era uma pessoa tão próxima de você?
Hmmm… [reflete por um momento] Meu Deus, cara, que pergunta.
Me desculpe se isso for um assunto pesado…
[interrompendo] Não, não, está tudo bem. É uma ótima pergunta. Não é nada… é que voltar ao processo de trabalhar nesse álbum… Se eu soubesse que isso seria uma fotografia, um momento congelado no tempo de uma pessoa. Você nunca sabe o tempo, ou o lugar, ou as coisas que irão… [pausa] Como você falou na pergunta anterior, eu acho que no momento em que estava trabalhando nesse disco, eu e Mac estávamos mentalmente nesse lugar de perceber a mortalidade, a dor, o amor. Nós estávamos passando por experiências muito similares. E creio que Mac acreditava muito nisso, como deveria ser.
E quando ele escrevia, quando estávamos compondo e trabalhando juntos nisso com Taylor Graves, nossas mentalidades estavam bem parecidas, e tentávamos nos adaptar para qualquer coisa que rolasse. Criar a música para esse álbum foi uma jornada linda, porque tinha tanta vida sendo vivida entre os versos, e entre a música que estava sendo criada e formada. Do que eu imaginava até o que realmente faria parte do álbum é como se fosse uma memória fotorrealista para mim. Então, eu sou muito grato. Mas também muito abalado pelos altos e baixos que vieram com esse trabalho.
Claro, é fácil entender já que vocês tiveram toda essa experiência de vida juntos. Eu assisti os vídeos do NPR Tiny Desk com vocês tocando e é muito comovente ver vocês. Dá pra sentir a conexão.
Sim, Mac foi… [pausa] O mundo consegue ver quem era o Mac. E eu sou grato que o seu amor, sua arte e sua expressão se traduziram, e que não foi só eu que senti isso por Mac.
Bem, mudando para outros assuntos. Atualmente, você é bem reconhecido como produtor e compositor. Mas no início da carreira, você ganhou notoriedade pelas suas habilidades no contrabaixo, se tornando um ícone entre baixistas. Eu me lembro de ter visto você pela primeira vez na minha cidade natal, Santos, porque você tocou lá com o Suicidal Tendencies nessa época.
Ah, sim! (rindo, animado)
Foi um ótimo show! Mas minha pergunta é: você ainda se vê como um estudante de contrabaixo hoje em dia? Você ainda pratica? Creio que sim, já que sua música é cheia de solos e coisas doidas no instrumento. O baixo ainda tem a mesma importância para você?
Sim, com certeza. Para mim, meu baixo é… e isso é engraçado, já que a ironia do meu nome artístico ser Thundercat é que o baixo é minha espada e meu machado. E realmente é isso aí. É realmente algo para refletir. Toda vez que eu pego o instrumento, é como se ele estivesse estado ao meu lado a vida toda. E sabe, nunca é demais passar mais tempo com seu instrumento. Mas ao mesmo tempo, também é importante aproveitar o tempo sem o baixo a essa altura da vida. Mas é um dos meus maiores atributos na vida. E eu uso o baixo como uma armadura. Eu acredito que ele me protege. Me guia. Me fala para calar a boca, isso tudo.
É legal saber disso, porque eu realmente acompanhei seu trabalho desde aqueles primeiros anos. E não só falando como jornalista, mas também como baixista, eu sabia que havia algo diferente ali. Então, é legal saber que esse elemento da sua arte ainda é algo importante.
Sim, totalmente. Ainda é muito importante e imperativo para o meu trabalho.
Mas eu também acredito que, com o passar do tempo, você também desenvolveu um visual totalmente próprio. Há muitas influências diferentes indo da cultura japonesa, ficção científica, street wear, o próprio nome Thundercat sendo referência a um desenho animado famoso. Você sente que esse aspecto visual está sendo mais reconhecido agora que você aparece em lugares inusitados, como revistas de moda e até mesmo uma participação em Star Wars? Como você se vê nesse ambiente mais fashion?
Sim, eu sempre amei moda, com certeza. Isso sempre foi um elemento importante para mim. E eu acho que, esteticamente, a moda é muito importante na expressão, e a forma como você se apresenta tem muito a ver com o que você sente sobre si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que… Não é uma coisa feita para parecer artificial, forçada ou exagerada, sabe, mas sim que é algo natural para qualquer pessoa muito criativa, que elas sejam muito ligadas (no aspecto visual).
Certo. Mas a questão visual foi uma preocupação para você desde o primeiro dia?
Ah, sim. Acho que uma das coisas mais engraçadas era tentar me fazer usar uma roupa social quando eu era criança, isso deve ser uma das piores experiências para qualquer pessoa (risos). Eu sempre digo que há literalmente evidência física da última vez que eu usei um terno, quando eu tinha 15 anos.
E falando sobre roupas doidas e diferentes, o que você tem a dizer sobre sua participação no Gabba Gabba Land? O que te atraiu nesse projeto?
Eu sempre curti! Desde o começo (do programa), eu amei o conceito. Amei o que estavam fazendo com isso, tentando fazer o máximo possível que a música, a arte, as cores e a expressão sejam de alto nível. E eu assistia meus amigos participando de vez em quando. Eu via gente como Erykah Badu e Flea fazendo várias coisas diferentes. E então eu fiquei tipo: cara, estão fazendo um bom trabalho com esse show (risos).
E na minha cabeça eu dizia para mim mesmo: talvez um dia, sabe, eu adoraria participar, se tivesse uma chance e me colocarem nos planos, eu adoraria fazer parte. E a oportunidade se apresentou quando… um lance engraçado que aconteceu é que trocaram de apresentadores. E não era um fato conhecido que não havia uma conexão que pudesse fazer algo tão intenso quanto isso (a participação no show).
Mas assim que escolheram a nova apresentadora, a parte engraçada é que a mãe dela é minha primeira namorada, da época que eu era jovem (risos). Pois é. E foi tão engraçado, porque eu não entendia porque havia tanta pressão para mim. Eu fiquei tipo: não acredito nisso! E nós nos conhecemos a vida toda. E eu conheço a filha dela desde que nasceu. E eu fiquei meio sem acreditar. Então, é como se fosse um desses momentos universais onde, tipo, tudo acaba fazendo sentido, sabe?
E vocês planejaram juntos como seria a fantasia? Você já se via como um gato de pelúcia gigante?
Sim (risos) . E tinha que ser um gato laranja (risos). Isso mesmo.
Como o Garfield, mas com esteróides.
Isso. Um gato doido em algum lugar do espectro (risos).
Sim, e o resultado ficou ótimo. Acho que é algo que combina com você, porque apesar de estar usando uma fantasia, dá pra ver que a sua cara. A música parece algo que você realmente tocaria em um show normal, e as pessoas diriam que é algo do Thundercat.
Sim (risos), isso é uma grande parte da ideia toda (risos). Grande parte disso foi pensado antecipadamente, com certeza.
Legal. Queria saber se podemos falar sobre músicas novas, já que você comentou sobre talvez tocar coisas novas nessa turnê. Existe um álbum novo no horizonte? Ou você está mais focado em produzir e colaborar com outros artistas?
Eu sempre acreditei que não existe uma separação entre essas coisas. Penso que estão todas no mesmo barco para mim. E claro, estou trabalhando nas músicas. Sempre estou trabalhando em coisas novas. Acho que até mesmo trabalhar com canções de outras pessoas faz parte disso. Mas eu não sei, não há muito que eu queira mostrar (sobre músicas novas), tipo, porque eu gostaria de surpreender as pessoas. Mas ao mesmo tempo, a coisa é que fazer música ainda é algo que me anima. E quando chegar na hora certa de… (pausa) Dessa vez é tão diferente para mim, por conta das mudanças da vida e todas as coisas que rolaram nos últimos anos. Então eu só estou, sabe, confiando no processo.
Claro. E além disso, “It Is What It is” foi lançado há cinco anos, mas acho que é um disco que ainda reverbera na sua carreira. Foi um divisor de águas que rendeu um Grammy. Sei que não é seu primeiro Grammy, mas foi uma conquista para você e todos os outros artistas que colaboraram nesse registro. Você também sente que esse álbum foi um divisor de águas nesse sentido, ou a essa altura é como se fosse só mais um “dia no escritório”, já que você está acostumado a receber prêmios e trabalhar com grandes nomes?
Tento não me entreter com a celebração dessas coisas em comparação com, como você disse, um dia no escritório. Uma parte de mim acredita que isso é muito mais sobre a jornada. Tem pontos altos e baixos. E pessoalmente, é muito bom olhar para trás e perceber que algo que eu fiz significou algo para alguém, de alguma forma. Mas eu ainda tenho mais a ser feito, sabe? É engraçado você ter falado sobre isso, porque meu amigo Flying Lotus precisou me falar, tipo: “Ei, cara, pode relaxar um pouco. Esse é um bom momento”. E eu só pensava: “Preciso continuar trabalhando”. Mas eu sou muito grato por esse momento. Totalmente. E eu espero que haja mais. E quem sabe o que o futuro reserva com esse tipo de coisa, né?
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
Entrevista magnífica, perceptível como ele parecia contente sobre as perguntas e contente enquanto respondia elas, ótimo trabalho!