texto de Carlos Lopes
fotos de Laurent Sabathé
O maior festival de jazz da França, o Jazz in Marciac (JiM), propôs em 2025 uma maratona musical de 18 dias entre 21 de julho e 7 de agosto – com shows todas as noites – na cidade de mesmo nome, localizada no Sudoeste do país. Esse ano, 36 concertos (que incluem também rock, pop e outros gêneros) movimentam o anfiteatro Chapiteau, com capacidade para seis mil lugares.
Desde o dia 21 de julho, quando foi aberto, já passaram pela pequena Marciac (uma cidade de 1.200 pessoas que aumenta seu contingente em até 10 vezes em dias de festival) nomes como Robert Plant, Santana, Ben Harper, Madeleine Peyroux, Wynton Marsalis, Herbie Hancock, Veronica Swift e, como já contamos aqui no Scream & Yell, Salif Keita e Tikken Jah Fakoly.
2025 é o ano do Brasil na França, visando estreitar a relação entre os dois países. Assim, o Chapiteau já recebeu Carlos Malta & Pife Muderno, Casuarina e Andrea Ernest Dias Quarteto e nesta última semana irá celebrar os ícones Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal (que fechará o JiM), o virtuose Hamilton Holanda e a estrela ascendente Amaro Freitas, numa parceria curatorial do JiM com o MIMO Festival.

No último fim de semana do festival em 2025, dias 2 e 3 de agosto, a organização do JiM retirou as seis mil cadeiras do anfiteatro Chapiteau, num convite explícito à dança. O público, por sua vez, compreendeu a mensagem, e se deleitou nos concertos de Dabeull e Meute.
Dessa forma, a noite de sábado foi reservada a uma viagem no tempo, com a apresentação de Dabeull (a pronúncia é “Dabul”) e seu grupo tamanho XXL. Dabeull é o codinome do parisiense David Said, DJ, tecladista e produtor que faz uma mistura de electro, disco e funk, repleta de apelo visual, hedonismo e vigor.

Para recebê-lo, o Chapiteau foi transformado numa imensa discoteca, no centro da qual um painel cintilava com o nome do artista, que surgiu acompanhado por mais 10 músicos. O tecladista é uma figuraça (lembra muito um dos personagens do ator Guilherme Karan na TV Pirata, aquele que apresentava a “TV Macho”). Não demora 30 segundos para enviar sem escalas os dois mil espectadores diretamente para a atmosfera dos lúbricos anos 70.
Sua banda tem tudo para conduzir a viagem: synths Roland, Keytars, Talk Box, vocalistas em lantejoulas e músicos em calça de Tergal… tudo analógico. Dabeull reforça o clima gritando aqui e ali frases do tipo: “Vamos lá, Marciac! Amor, Sexy e sexy chocolate”. Empunhando um dos Keytars, ele abusa do uso da Talk Box. Insiste tanto na sonoridade que, ao abrir espaço à participação da verdadeiramente sexy vocalista Angy Meyer, a sensação é a de que estamos em 1976 assistindo um entrevero musical que junta Peter Frampton com o ABBA…

Outro que ganha destaque nesse espetáculo “campi” é o tecladista Philippe Bouthemy, o qual, por sua vez, é a cara de… Lincoln Olivetti. Eles mandam ver por uma hora e meia num set list de cerca de 20 músicas, incluindo covers. Bom,…e o público? Totalmente maravilhado e dançandpo muito! Jovens, adultos, idosos, seguranças, barmans, chapeleiros… Dabeull consegue aquilo a que se propõe abertamente: divertir! Após o show, a septuagenária Patrícia confidenciou: “Voltei à minha juventude!”. Para o jovem Teo, de 20 e poucos anos, o “humor de Dabeull foi contagiante”.
Enfim, todos sobrevivem e regressam satisfeitos dos anos 70. Quem viveu e quem só deu uma espiadinha.

Já no domingo a grande atração internacional foi o grupo alemão Meute, classificados pelo prospecto do festival como um grupo de eletro-fanfarra. Bastante conhecidos na Europa e com turnês pelos EUA e até pela África, o Meute nunca esteve no Brasil, mas, esteticamente, é como se os 11 alemães que compõem o combo tivessem feito um estágio de como se vestir ”zoado à brasileira”. Todos trajam uma engalanada jaqueta marcial vermelha. Ocorre que o trombonista está mal barbeado, o trompetista veste um shorts de futebol da Adidas, o vibrafonista atravessa um boné amarelo-manga na cabeça, o saxofonista cola uma bandeirinha do orgulho gay no instrumento e por aí vai…

Antes de invadirem o palco, eles esquentam os cerca de quatro mil assistentes da noite com um jogo de luzes estroboscópicas e uma base sonora ensurdecedora, onde o trombone toma o lugar do que seria um linha de baixo de ritmo alucinante. Em seguida, os 11 entram em cena (trombone, dois trompetes, três saxofones, flauta, marimba, bumbo,caixa e vibrafone).
O volume da música que ressoa no Chapiteau aumenta a níveis quase ensurdecedores. E assim rola, sem intervalo, por duas horas de espetáculo. A música dessa fanfarra elétrica tonitruante é invasora e incontrolável. Ou curte e dança ou vai embora! Cada arranjo dura cerca de 15 minutos e é sustentado por uma base rítmica regular com os metais fazendo longas evoluções melódicas sobre ela. Se o caro leitor pensou em música de fanzone, acertou! Então acrescente muitos decibéis e uma ambiência hipnótica a essa zoeira. É isso! Estamos no show do Meute!

Perto do fim do espetáculo, a fanfarra desce do palco para alguns minutos de congraçamento entre o público, afinal de contas o lugar original dela seria ali. Então, quatro mil pessoas começam a cantar ”Ôoooooooooo! ÔoooÔooo!” seguindo a melodia e colaborando para que ninguém num raio de 10 kms consiga dormir essa noite, pois já são perto de uma da madruga em Marciac.
A fanfarra vai embora após um sinal do líder trompetista Thomas Burhom, mas tem de voltar pois agora quatro mil fazem barulho. Mais 15 minutos de hipnose… e insônia! Afinal fica praticamente impossível dormir com o corpo fervendo em adrenalina. O Chapiteau por sua vez descansa… até a noite de segunda-feira, quando a festa começa novamente.
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– Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac