Jazz in Marciac 2025: O afro pop de Salif Keita e a militância de Tiken Jah Fakoly

texto de Carlos Lopes
fotos de Laurent Sabathé

O assunto aqui é o tonitruante e urbano jazz, mas, para melhor situar o leitor, será necessário certo deslocamento do texto a uma atmosfera mais tranquila, bucólica: Marciac é uma cidadezinha graciosa, de cerca de 1.200 habitantes, encravada na região da Occitania, no Sudoeste da França. O modo mais ecológico, bacana e barato de acessá-la é tomando um trem em Toulouse (a metrópole mais próxima) para Tarbes ou Auch (duas cidades com estações de passageiros). A partir desses dois pontos, vale tudo para vencer os cerca de 50 kms até a campestre Marciac: ônibus, carona, bicicleta… Estrada estreita e quase sempre ensolarada no verão, na borda da qual imensas lavouras de girassóis florescem, cavalos mascam feno pacificamente e casinhas de janelas coloridas espreitam o viajante.

Desde 1978, nesse enclave de harmonia é realizado o Jazz in Marciac (JiM), o maior festival deste gênero musical norte-americano em solo francês. Em geral são mais de 30 concertos (em 2025 foram 36) de pop, rock, soul, R & B e jazz sobre a cena principal, chamada Chapiteau, e centenas de outras apresentações menores e espontâneas, em cafés, bistrôs, praças, ruas, becos e vinhedos. Os franceses amam música e adoram jazz. Por isso, entre o final de julho e o começo de agosto, a população da simpática cidade aumenta em dez vezes, engravidando de distintos públicos.

Entre esses, dois se relevam: os casais na faixa de idade acima dos 60 anos de vida material bem consolidada; e os bandos de jovens estudantes, com a cara limpa e a roupa suja (que o querido Humberto libere a palavra, svp!). Os primeiros hospedam-se em hotéis estrelados ou viajam com seus camping cars último modelo, pagam 58 euros (380 reais) para ver os concertos, ocupam mesas fartas nas varandas dos restaurantes e avançam sobre a vasta oferta de souvenirs regionais (incluindo uma sessão de jazz em meio aos vinhedos da região). Dão uma pegada burguesa (ou bobo como se diz na França) ao Festival.

O pianista Sullivan Fortner toca no Château de Sabazan / Foto de Laurent Sabathé

Os jovens, por sua vez, formam o exército dos mais de mil voluntários que na prática fazem o festival funcionar desde sua primeira edição. Da limpeza dos banheiros à técnica de som dos espetáculos secundários, tudo é feito por voluntariado. Em troca de comida, pouso e acesso livre a todos os concertos. Dão uma pegada Woodstock ao Festival. Os dois distintos públicos do festival se cruzam em diferentes situações e se respeitam mutuamente; ouvem, cantam e dançam praticamente 24 horas por dia, celebrando a música sob a vibe libertária do jazz.

Os problemas do mundo inexistem para quem está em Marciac durante o festival. Ali, entre o 21 de julho e o 7 de agosto a festa nunca termina.

O grupo brasileiro Casuarina em ação no JiM 2025 / Foto de Laurent Sabathé

O JiM 2025 começou no dia 21 de Julho, e por seu palco principal já passaram nesta edição Robert Plant, Santana, Ben Harper, Madeleine Peyreux, Winton Marsalis, Herbie Hancock, Veronica Swift e uma penca de outros nomes interessantes. Como o caro leitor deve saber, 2025 é o ano do Brasil na França (visando estreitar a relação entre os dois países em áreas como negócios, turismo, educação e cultura), pontuado por vários eventos que mostram a variedade e o vigor de nossa Cultura aos franceses. Muita música incluída, é claro!

Assim, já passaram pelo Chapiteau Carlos Malta & Pife Muderno, Casuarina e Andrea Ernest Dias Quarteto. Na próxima semana enfileiram-se apresentações dos ícones Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, do virtuose Hamilton Holanda e da estrela ascendente Amaro Freitas, numa parceria curatorial do JiM com o MIMO Festival.

Como a música africana está até o talo imbricada em nossas raízes culturais, nada mais justo do que começar por reportar ao leitor os concertos de dois grandes artistas daquele continente, ocorridos na última noite de julho em Marciac: Salif Keita e Tikken.

Salif Keita / Foto de Laurent Sabathé

Às 21h, o malines Salif Keita, 75 anos, sobe ao palco. Ele vem mostrar seu último álbum, chamado ‘’So kono’’, ou ‘’Dentro do quarto’’ no dialeto mandingue. Escudado por uma formação mínima – percussão, violão e n’goni (uma espécie de violão primitivo com 4 cordas) -, ele lança sobre essa base acústica, profundamente melódica, seu canto mandingue, lamentoso e íntimo, lembrando o queixume recorrente no blues afro-americano original.

Toca seu violão sentado no centro do palco por uma hora e pouco se comunica com o público, preferindo preservar a voz quando não está cantando. Assim, deixa generosos espaços para bonitos, candentes e igualmente lamentosos solos de violão e de n’goni. O resultado é um agradável concerto de afro pop, cujas músicas se esgueiram suaves ouvido adentro dos franceses.

Salif Keita e banda / Foto de Laurent Sabathé

Ao final do show, a percussão ganha espaço, um caráter dançante (lembrando o dos discos que Keita gravou na França nos anos 80) vai tomando conta do espetáulo e termina por contaminar a francesada, que esquece rápidinho as lamentações mandingues para se atirar na folia sem barreira nem de idioma nem de estado de espírito.

Trinta minutos depois do fim do concerto de Keita é o costamarfinês Tiken Jah Fakoly, 57 anos, quem ocupa o palco do Chapiteau. Artista do primeiro time da África Ocidental, vários discos de Ouro na parede, Tikken é a antítese de Keita em discrição. Sobe ao palco vestindo uma multicolorida túnica tradicional com a estampa do continente africano cobrindo-lhe o peito.

Ele se movimenta em cena sem parar, enquanto rege os seis músicos e as duas backings vocais. Também está em turnê para mostrar seu trabalho mais recente, chamado “Acoustic’’ (2024). Para acompanhá-lo, recrutou músicos tradicionais do Oeste da África e misturou com uma base Ocidental (violões, teclado, baixo, n´goni, percussão e bateria).

Tiken Jah Fakoly e banda / Foto de Laurent Sabathé

Sua música é eminentemente dançante. Assim como a de Keita, é de sonoridade baseada no afro pop, mas com estrutura mais simples e repetitiva. É o tipo de música para se escutar com o corpo, balançando bastante. E foi o que o público francês continuou a fazer nesse segundo show.

Ocorre que, para além dessa perceptível platitude criativa, Tikken se faz acompanhar de um agudo discurso militante, em francês. Não deixa de gritar ‘’Rastafári!’’ entre uma música e outra e de apresentar idéias-força como: ‘’O Colonialismo não pode ser esquecido para que as crianças saibam por que as coisas são como são’’, ‘’O Continente africano é um paradoxo de riqueza natural e de pobreza do povo’’, ‘’A Juventude da África tem de ficar na África’’, e por aí vai.

No Chapiteu cabem seis mil pessoas, e estava quase lotado. Havia cerca de 30 jovens costamarfineses que foram ao show para ver de perto Tikken, mas ficaram a pelo menos 50 metros do ídolo. Acompanhavam cada música, gritavam, acenavam, mas não chegaram a ser notados pelo cantor militante. Entre eles e Tikken havia pelos menos quatro mil brancos com grana suficiente para ocupar os melhores espaços da grande tenda do espetáculo.

Na última noite de julho do Festival de Marciac, ficou provado que a música que vem da África não se escuta sentado.

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Tiken Jah Fakoly e banda / Foto de Laurent Sabathé

Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac

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