texto de Renan Guerra
Tom Michell, um professor inglês, transfere-se para lecionar numa escola de garotos no interior da Argentina em meio ao caos do golpe militar de 1976. Enquanto o país convulsiona, a escola entra em recesso, os meninos são mandados para casa e Tom (Steve Coogan, de “A Festa Nunca Termina“) decide aproveitar a folga para visitar o Uruguai, aproveitar seu litoral e namorar um pouco. Tudo certo se ele não acabasse envolto no resgate de um pequeno pinguim que agonizava em um vazamento de óleo. O tal pinguim se afeiçoa a Tom e ele não tem escapatória: acaba colocando o pequeno animal em sua sacola de retorno para a Argentina. Está dado aí o ponto de partida para “Lições de Liberdade” (“The Penguin Lessons”, 2024), do britânico Peter Cattaneo.
A história de Tom Michell é real e se transformou em um best-seller sob o título “As Lições do Pinguim”, lançado no Brasil em 2015, via Edições Asa. Aqui vale um adendo: a história de Tom não é a mesma do pescador brasileiro João Pereira de Souza, que fez amizade de sete anos com um pinguim, depois registrada no filme “Meu Amigo Pinguim”, de 2024, com Jean Reno no papel título – isso mesmo, um francês interpretando um brasileiro. Voltemos aos ingleses na Argentina: “Lições de Liberdade” parte da amizade de Tom com seu pinguim, nomeado Juan Salvador, e nos apresenta como o pequeno animalzinho modifica o dia a dia do protagonista e de todos a sua volta, dos estudantes da escola aos funcionários. Para isso, o filme de Peter Cattaneo se aproxima de um arquétipo bastante em voga: a parceria homens e animais na busca da quebra de barreiras sentimentais.

Você conhece a fórmula: Keanu Reeves e seus cachorros na saga “John Wick”; Nicolas Cage e seu porco em “Pig” (2021); ou até mesmo Sergio Guizé e seu burro Policarpo nas novelas globais “Êta Mundo Bom! / Êta Mundo Melhor”. Essa relação entre homem e animal cria um dispositivo para que esses personagens tenham seus sentimentos e suas narrativas tensionadas de forma interessante e rica. Num universo em que homens são criados em logísticas que reforçam uma brutalização e que desincentiva a exposição dos sentimentos e emoções, esses animais reavivam suas fragilidades, expõem suas vulnerabilidades e ajudam esses personagens a se entenderem de forma múltipla. Em “Lições de Liberdade”, a amizade entre Tom e Juan Salvador vai fazendo o personagem desabrochar fazendo com que, aos poucos, o espectador perceba de onde vem seu humor ranzinza, seu olhar ácido sobre a vida e seu desânimo geral.
Esse ponto de partida faz com que o filme de Peter Cattaneo nos leve em uma discussão mais ampla que vai para além da individualidade de Tom Michell, desdobrando-se em uma discussão sobre nossas ações coletivas em uma sociedade em que as liberdades são cerceadas. Com o pano de fundo da ditadura militar argentina, “Lições de Liberdade” é um retrato potente sobre amizade e transformação, mas também uma narrativa rica sobre os perigos de uma pretensa neutralidade frente aos regimes ditatoriais – calar-se perante os horrores não seria ser cúmplice dessas ações? Cattaneo e o roteirista Jeff Pope conseguem incluir esse debate em seu filme de uma forma inteligente e sagaz: ainda temos aqui um filme pop, um filme acessível, com cara de sessão da tarde, mas que instiga o espectador à reflexão, que movimenta o público à emoção, seja ela o riso, o medo ou a raiva.
Esse tipo de abordagem não é algo novo no cinema de Peter Cattaneo, que fez sucesso com “Tudo ou Nada” (“The Full Monty”, 1997), que aparentava uma comédia sobre desempregados tendo que tentar a vida como strippers, mas que na verdade era um amplo e delicado olhar sobre a vida da classe trabalhadora britânica, sobre desejos e solidões, sobre saúde mental e qualidade de vida em meio a uma agenda neo-liberal. Jeff Pope, o roteirista”, é outro que gosta desse estilo narrativo: seu “Philomena” (2023), dirigido por Stephen Frears e também estrelado por Steve Coogan ao lado da divina Judi Dench, que se inicia como um comédia aparentemente leve e se transforma num interessante relato sobre liberdade feminina e construção familiar, bem como uma denúncia dos crimes cometidos em nome da Igreja Católica no século XX.
Dito tudo isso, vale destacar aqui a maestria de Steve Coogan, que consegue passear entre o ranzinza e o carinhoso e nos entrega um protagonista múltiplo e interessante. Ao lado dele se destacam as atuações do comediante sueco Björn Gustafsson, o colega falastrão de Tom que vive às voltas de um coração partido, e a veterana argentina Vivian El Jaber, que faz uma das funcionárias da escola. E claro, vale mencionar a presença sempre ilustre de Jonathan Pryce, que aqui interpreta o carrancudo diretor da escola, um inglês radicado na Argentina – Pryce logo poderá ser cidadão argentino, se lembrarmos que ele também já interpretou o Papa Francisco em “Dois Papas” (Fernando Meirelles, 2019).
Entre lágrimas e risadas, “Lições de Liberdade” nos relembra que é encantador ver o poder do cinema de transformar uma amizade entre um homem e um pinguim em uma história complexa sobre amadurecimento, coragem e solidariedade.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.