Crítica: “Cazuza: Boas Novas” apresenta Agenor de Miranda Araújo Neto para novas gerações

texto de Leandro Luz

Letrista de frases de efeito e com uma habilidade acima da média para criar imagens inusitadas ora por meio da doçura, ora evocando uma agressividade rebelde, Cazuza é a estrela do documentário dirigido por Nilo Romero e Roberto Moret. O filme dá conta de apresentar o personagem para novas gerações, transitando desde a era Barão Vermelho e as contendas com Frejat, seu grande parceiro neste e em períodos posteriores. Rapidamente, no entanto, notamos um interesse maior dos diretores pela carreira solo do garoto mimado que se tornou ídolo e porta-voz de toda uma geração.

“Cazuza: Boas Novas” (2025) canta sobretudo para os miseráveis que não conviveram com a figura em vida de Agenor de Miranda Araújo Neto, filho da então cantora Lucinha Araújo e do produtor musical João Araújo, fundador da gravadora Som Livre. O xará de Cartola – ou quase, por um erro do cartório que registrou o Poeta das Rosas com um “n” intruso – aparece no documentário em gravações oriundas de diversos formatos e bitolas: matérias de programas de televisão, vídeos de casamentos, festas caseiras e bastidores de shows, até um registro amador feito por George Israel, parceiro de Cazuza e do própro Nilo Romero na canção “Brasil”, na ocasião da turnê do álbum “Ideologia” (1988).

De acordo com Israel, cujo hobby de cinegrafista não costumava ir além da curtição esporádica, a proposta era filmar uma ou duas músicas, mas o impacto do show foi tamanho que o compositor e saxofonista do Kid Abelha, hipnotizado, não logrou interromper a filmagem. A turnê, com direção assinada por Ney Matogrosso e eternizada no disco ao vivo “O Tempo Não Para” (1988), passava especificamente pelo Canecão, no Rio de Janeiro, entre os meses de outubro e novembro de 1988. Dentre as quinze apresentações realizadas no Canecão naquele ano, o destino quis que Israel estivesse justamente naquela (provavelmente no dia 16 de outubro, último dos três dias das gravações que compuseram o disco) em que Cazuza cuspiu na bandeira do Brasil arremessada aos seus pés por algum anônimo da plateia.

As imagens capturadas por Israel e utilizadas em “Cazuza: Boas Novas” fazem parte de um dos pontos altos do documentário, não só pelo destaque que recebem, mas também pelo tempo concedido pelo roteiro ao assunto, contextualizando a atitude de Cazuza e ilustrando como a mídia reagiu à confusão, um reflexo da hipocrisia reinante no país. Com duas cusparadas, o cantor expurgou tudo o que sentia naquele momento político vivido pelos brasileiros: as manifestações pelas “Diretas Já”, amplamente apoiadas por artistas do rock brasileiro dos anos 1980, foram relativamente frustradas com a eleição indireta de Tancredo Neves e a aprovação de uma Assembleia Constituinte.

“Grande pátria desimportante / em nenhum instante eu vou te trair”. A letra cortante de “Brasil” traduzia todo esse sentimento de frustração e raiva – e era reverberada Brasil afora pela telenovela “Vale Tudo”, sucesso absoluto de público à época. Apesar da nova Constituição, ratificada apenas onze dias antes daquele show em 1988, o Brasil vivia há três anos governado por José Sarney, que assumiu a presidência em 1985 devido a problemas de saúde de Tancredo Neves. Como é lembrado tanto por apoiadores quanto por detratores, há apenas três anos Cazuza havia se enrolado na bandeira do Brasil em pleno Rock in Rio e agora cuspia no símbolo máximo de sua pátria. Uma afronta para muitos, um ato de coragem para outros tantos.

Segundo dois trechos de carta publicada n’O Globo após a sua morte em 1990, Cazuza sabia exatamente o que estava fazendo: “Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. Não me arrependo. […] Eu sei muito bem o que é a bandeira do Brasil, me enrolei nela no Rock’n Rio junto com uma multidão que acreditava que esse país pudesse realmente mudar. A bandeira de um país é o símbolo da nacionalidade para um povo. Vamos amá-la e respeitá-la no dia em que o que está escrito nela for uma realidade. Por enquanto estamos esperando”.

Dentre entrevistas pouco inspiradas e assuntos repetitivos, é também outro conflito midiático que se destaca no filme. Ainda vivenciando um limbo entre revelar ou não ao grande público a sua vivência com o diagnóstico da AIDS e seu agravamento severo de saúde, Cazuza é surpreendido com um golpe baixo criminoso: “Uma vítima da Aids agoniza em praça pública”, dizia a capa da Revista Veja, publicada em 1989, com uma foto que dava ênfase à fragilidade de seu corpo. Além de atacar por meio do sensacionalismo mais baixo, a reportagem também era vil pela maneira como concluía duvidando da perenidade da obra do cantor e compositor, contrapondo-a com a de uma figura como Noel Rosa, falecido prematuramente aos 26 anos de idade. Além de tudo, com a comparação, a Veja praticamente anunciava antecipadamente a morte de Cazuza, uma atitude absolutamente cruel. Furioso, Cazuza chegou a precisar de uma nova internação, viabilizada pela família em completa indignação.

“Minha sede de viver é uma ameaça atômica”, canta Cazuza em “O Lobo Mau da Ucrânia”, canção de seu segundo disco, “Só Se For a Dois” (1987). O filme de Romero e Moret parte dessa ânsia brutal de vida que norteou grande parte da vida do artista. A pulsão de morte, elemento presente não apenas na maneira como Cazuza conduzia a sua vida mas, sobretudo, nas letras de suas canções, completa o quebra-cabeças. O documentário por vezes pesa a mão nessa relação estabelecida entre a proximidade com a morte e a explosão criativa como compositor, mas é bem verdade que músicas como “Perto do Fogo”, “Cobaias de Deus” e “Quando Eu Estiver Cantando” (todas do repertório de “Burguesia”, disco lançado em agosto de 1989) corroboram essa visão.

Um dos diretores de “Cazuza: Boas Novas”, Nilo Romero, é ninguém mais, ninguém menos do que o baixista que acompanhou Cazuza em boa parte de seus discos solo e em suas apresentações ao vivo. Romero atuou também como produtor musical, compositor e arranjador, tendo estado ao lado do amigo no seu ápice criativo assim como, infelizmente, nos momentos de mais profunda dor. Essa dimensão pessoal está presente no documentário, que insiste em revelar a intervenção dos diretores junto aos entrevistados (em dado instante, eles chegam a comentar a respeito de recursos narrativos que empregariam na montagem do filme). Essa proximidade da equipe de direção com o seu objeto de interesse nem sempre joga a favor do trabalho, que não consegue se livrar das amarras de um projeto muito norteado pela sombra da morte de uma estrela. A despeito disso, é um deleite assistir a cenas preciosas contidas no material de arquivo deste filme que, a julgar pela boa performance recente de documentários e obras de ficção ligados à história da música brasileira, deve reverberar bastante pelo circuito comercial brasileiro.

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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.





2 thoughts on “Crítica: “Cazuza: Boas Novas” apresenta Agenor de Miranda Araújo Neto para novas gerações

  1. Sou cria do período, já no alto dos meus 58 anos. Vi um show dessa turnê em Belém. Lindo. Cazuza e Renato Russo foram os dois principais letristas da década, cada um no seu estilo e modo de ver. O trailer dá água na boca para assistir. E pra mim, o filme ficção ainda é o melhor que fizemos na Seara filmes biografias musicais

    1. Ismael, precisaria rever o filme depois de tantos anos para comentar com mais consistência, mas me lembro de gostar da atuação do Daniel de Oliveira (mais do que de outras encarnações do Cazuza na ficção). E para quem gosta da música, ver o documentário na sala de cinema é a melhor pedida.

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