entrevista de Alexandre Lopes
Após um longo período marcado por tensões internas que se tornaram públicas e um conturbado processo de separação, a Selvagens à Procura de Lei ressurge com um quinto disco, uma nova formação e espírito renovado. Lançado em maio de 2025, “Y” marca tanto uma retomada quanto uma ruptura: traz de volta o ímpeto roqueiro dos primeiros trabalhos da banda cearense e também procura romper com a estética mais polida e pop dos álbuns “Praieiro” (2016) e “Paraíso Portátil” (2019).
No centro dessa reviravolta está Gabriel Aragão, vocalista, guitarrista e único remanescente do início do grupo. Após a saída dos ex-integrantes Rafael Martins, Caio Evangelista e Nicholas Magalhães (que hoje integram o projeto Cor Dos Olhos), Gabriel decidiu seguir em frente mantendo o nome da banda. O novo álbum soa como um desabafo cru e direto – uma espécie de “terapia do grito” que nasceu do tumulto emocional provocado pelo fim da antiga formação. Segundo Aragão, durante uma mediação com um advogado e os ex-membros, ele foi convidado a sair do conjunto que fundou ainda nos tempos de faculdade. “Essa história é curiosa, porque na verdade a primeira tentativa deles foi de me tirar da banda, e não montar outra. Eu tenho tudo isso gravado em vídeo, em áudio. Eu nunca soltei isso porque está na justiça, mas quem sabe um dia eu solte”, alfineta.
Essa separação virou matéria-prima para um dos trabalhos mais crus da carreira do compositor. “Depois do processo de ruptura, eu estava precisando colocar para fora mesmo, de musicoterapia”, conta Gabriel. “Eu tinha duas opções: sentava para escrever música de dentro, que é o que eu sei fazer, ou eu podia me entregar e cair na deprê. Então naturalmente eu pensei ‘cara, vou fazer uns rock que é o que eu sei fazer e botar para fora o que estou sentindo’”, resume com franqueza.
O “Y” do título simboliza uma bifurcação: duas estradas possíveis. Entre a nostalgia do que a banda foi e o desconforto com o que se tornou, ele decidiu continuar sob o mesmo nome, mas com uma nova formação. “A marca da banda é minha, eu que montei, eu que batizei. Eu que chamei as pessoas e estou continuando com ela. Tanto que, se não pudesse continuar, não estaria fazendo isso, alguém ia mandar alguma coisa me impedindo”, afirma, com bastante convicção.
A nova encarnação dos Selvagens conta com Matheus Brasil (bateria), Plínio Câmara (guitarra) e Jonas Rio (baixo), vindos de nomes como Projeto Rivera, Casa de Velho, Mateus Fazeno Rock e Left Inside. Segundo Gabriel, os integrantes são co-criadores de um novo capítulo na trajetória da banda, trazendo o peso das vivências periféricas, pretas e jovens da Fortaleza contemporânea. Gabriel não os escolheu por conveniência, mas por afinidade. Para ele, a proposta nunca foi soar como uma continuação do que já existia, mas sim cavar uma nova sonoridade. “Eu gostei porque as impressões que foram colocadas dos novos músicos estão muito legais. É um Selvagens que eu já tentava puxar há muito tempo, sabe?”
Em “Y”, as faixas são curtas, raivosas, quase todas com menos de quatro minutos (Gabriel as detalhou antes num faixa a faixa para o Scream & Yell). Guitarras pesadas, letras diretas e uma produção bem objetiva. Cada música é uma pequena explosão de ressentimento criativo e impulso de continuar – como em “Amigos Por Interesse”, “Um Lugar Que Te Mereça” e “Quando Eu Me Encontrar”, que misturam crítica, auto análise e reconstrução emocional. A ambição radiofônica dos discos anteriores dá lugar a uma produção (assinada por Gabriel e Matheus Brasil) mais seca e às vezes até desconfortavelmente honesta. Nesta entrevista ao Scream & Yell, Gabriel fala com clareza sobre o colapso da formação anterior, as disputas políticas internas, o processo judicial que está em vigor, as tentativas de boicote que tem sofrido e, principalmente, sobre a reconstrução artística e emocional que deu origem a “Y”. O que se revela aqui vai além de um novo disco: é o retrato de alguém tentando recomeçar com honestidade, mesmo que isso envolva feridas abertas, riscos e muita vulnerabilidade. Confira o papo na íntegra abaixo.
Ouça o disco novo na integra abaixo
Ouvi o disco novo e achei que ele tem momentos mais pesados até que a fase mais roqueira dos Selvagens À Procura de Lei. Fora o que aconteceu com a formação antiga da banda, teve alguma intenção consciente de buscar esse som mais porrada?
É, teve assim, no sentido natural. Comecei a compor essas canções mais ou menos em agosto [de 2024]. Tem três do disco que já são um pouco mais antigas, mas de uma maneira geral, depois do processo de ruptura da banda, eu estava precisando colocar para fora mesmo, (estava precisando) de musicoterapia. E como foi muito cruel o que rolou – o processo de ruptura, foi muito de repente, do nada mesmo – eu tinha duas opções: ou eu sentava para escrever música de dentro, que é o que eu sei fazer, ou eu podia me entregar e cair na deprê. Então naturalmente pensei: “Cara, vou fazer uns rock que é o que eu sei fazer e botar para fora o que estou sentindo”. Então veio tudo de maneira muito rápida e clara. Sentimentos de raiva, tristeza, de se sentir traído, mas ao mesmo tempo sempre com olhar pro futuro, de seguir em frente. E daí vem também o título do disco, que é o desenho do “Y”, que é ao mesmo tempo uma separação de um caminho único e também um “seguir em frente”. Enfim, tomar outros rumos na vida. Foi mais ou menos por aí. Mas foi mais natural do que previamente pensado “ah, vou fazer um disco de rock”.
Li o faixa a faixa do disco e vi que “Nunca Tem Fim” foi escrita depois de experiências com ayahuasca. Eu gostaria de saber a sua relação com a ayahuasca; se você toma regularmente ou se segue alguma religião que faz uso dela.
Não sigo nenhuma doutrina não, só tive algumas experiências. Na verdade, fui criado numa família católica; tenho um irmão que é padre, inclusive. Então muito da minha vida e princípios foram moldados pela minha criação bem católica. Minha família Aragão tem tias, avós freiras, esse tipo de coisa. Mas eu nunca tinha me encontrado muito nessa questão da espiritualidade. Eu me dizia ateu naquele comecinho da banda, nos primeiros anos. Até que tive uma experiência com a ayahuasca que mexeu profundamente comigo. Tomei como convidado algumas vezes, com um grande amigo cantor, o Marcos Lessa. Tomei aqui em Fortaleza e também em São Paulo. Mas sempre fui muito questionador, então nunca consegui me adaptar muito em um sistema religioso, sabe? Por isso nunca entrei em nenhuma religião que faz o uso da ayahuasca. Gosto de olhar de uma maneira muito científica; é uma substância, um psicodélico que você toma e tem algumas sensações. Não acho que é para todo mundo, mas para mim, eu tive a sorte de bater direitinho. Acho que também porque comecei a gostar muito de meditar, e acima de tudo, isso é o que me faz bem mesmo. Minha última experiência com ayahuasca foi em 2020. Mas voltando pra música, foi mais sobre essa sensação de pequena morte, que você morre e nasce de novo. Pelo menos para mim, a minha viagem é sempre de uma profunda despedida, um renascimento. Então essa música era uma letra já antiga, e eu sempre tentei escrever sobre essa sensação. Tem uma canção linda em inglês que é “A Horse With No Name”, do America. Se você pegar a letra traduzida, é puro suco dessa viagem também. Estava vendo as entrevistas do Sting e parece que quando ele esteve no Brasil, teve várias experiências assim, nos mesmos locais que eu fui. O Paul Simon também. Mas hoje em dia encaro como uma experiência que tive e que não pretendo ter novamente. Porque é uma coisa muito forte, muito profunda e muito pessoal. Acho que fechei o meu aprendizado ali. Para as pessoas que estão em religião, beleza, mas não tenho a menor intenção de fazer parte de uma religião que envolve o uso do chá. Acho que o chá traz o inconsciente à tona de alguma maneira. Tem umas entrevistas… é bonito, assim, tem uns trabalhos bonitos que as pessoas fazem. Mas acho que, se fosse possível ser usado da maneira mais científica possível, seria o que me agradaria mais. Tipo uma sessão de terapia com um psicólogo adequado, que pudesse conduzir legal… acho que isso seria bom.
Sobre a nova formação: sei que o pessoal saiu de outras bandas como Projeto Rivera, Casa de Velho, Mateus Fazeno Rock e Left Inside, mas como você os conheceu e como rolou o convite para tocar no Selvagens?
Entre agosto e janeiro, eu estava meio que compondo, produzindo, gravando o disco e remontando a banda. Então foi uma coisa muito doida, muito rápida. O Matheus Brasil, que é do projeto Rivera, assumiu a bateria. Já o conheço há mais tempo. Ele já estava tocando comigo no meu projeto solo que lancei em 2022. Então ele veio de lá pra cá, no sentido de estar tocando comigo. Mas todos eles eu já conhecia, assim, das bandas, de ocasionalmente tocar junto em Fortaleza ou São Paulo, esse tipo de coisa. Plínio Câmara, que assumiu a guitarra, era do projeto Casa de Velho, montado por ele e por outro Mateus, que acabou virando o Mateus Fazeno Rock. Eu já tinha convivido com a banda Casa de Velho, mas fiquei mais próximo do Plínio por último, e bem rápido. No ano passado, aqui em Fortaleza, a gente teve um candidato bolsonarista que quase ganhou a prefeitura. Foi meio doideira. E vários artistas daqui se juntaram pra gente tentar fazer um movimento massa, de ter um candidato que não fosse dessa corrente política terrível. E dentre as pessoas que estavam lá, estava eu cantando e o Plínio estava lá também no meio do mar de artistas fortalezenses. A gente se encontrou ali, trocou uma ideia e depois eu comecei a ver umas coisas dele. Alguns amigos indicaram também do tipo “se for pra entrar alguém na banda pra assumir a guitarra, chama o Plínio…” Então foi mais ou menos por aí. O Jonas eu já não tinha contato há muito tempo, mas ele é muito amigo do Matheus, então meio que veio através dele. O Plínio e o Matheus são mais novos. Então quando o Plínio estava começando a querer ser músico, ia pros shows do Selvagens, assistia e falava: “Pô, quero ter uma banda que nem essa.” E tudo isso foi massa também. Depois, trocando ideia com o Jonas, percebemos que nós somos os caras que têm a idade mais próxima e que o Selvagens À Procura de Lei e a antiga banda dele, Left Inside, tocaram juntos em shows ou festivais aqui em Fortaleza, bem no comecinho. Você vê nas fotos ali, todo mundo moleque, e estava junto em algum canto, sabe? E aí a gente se reencontrou. A gente se tocou disso só depois.
E quais são as suas expectativas para essa primeira turnê com a nova formação?
Cara, assim… A gente está obviamente ensaiando bastante, com setlist fechado, bem amarrado. Eu sei o que vai ser o show, no sentido da entrega. Então estou muito feliz com isso. Com a nova formação, está todo mundo num momento da vida que, indiscutivelmente, todo mundo toca muito. Então eu sei que profissionalmente está massa. Eu estava mais preocupado com a turnê no sentido de como é que seria a convivência diária, já que banda acaba virando um casamento aos poucos, né? Mas, cara, a galera é muito massa. Quando a gente foi fazer os primeiros ensaios, já fiquei muito aliviado. “Ufa, caraca, bicho… que bom, velho! Que bom que eu não estou soando como um cover de mim mesmo”. Esse era o meu maior medo, sabe? Às vezes tu vai num show do Roger Waters e vê o guitarrista tocando exatamente igual ao David Gilmour, e parece meio que um cover dele. Eu estava um pouco preocupado com isso. Mas gostei porque as impressões que foram colocadas dos novos músicos estão muito legais. É um Selvagens que eu já tentava puxar há muito tempo, sabe? O nosso baterista, cara… ele tá trazendo uma vibe de bateria que é muito foda. É descomunal, é uma coisa que a gente nunca teve. Nossa, bicho… agora parece que a gente tem uma bateria sensacional. Parece tipo o Nirvana ali com o Dave Grohl, sabe? É que o Matheus toca demais, mesmo. Se você for ver as coisas desse disco novo, as viradas… Não falando mal de quem já passou pela banda, pois quem passou anteriormente sempre deu sua contribuição e tal. Eu acho que, às vezes, menos é mais, e cada um tem sua maneira de lidar com o instrumento, está tudo certo. Mas dito isso, estou muito feliz com o Matheus na bateria. E o Plínio tem o jeito dele de tocar guitarra e eu acho maravilhoso. Ele vem de uma vertente da música de Fortaleza, que toca muito, mas ao mesmo tempo tem uma pegada mais psicodélica. É quase uma coisa pós-Cidadão Instigado, Fernando Catatau. Então, putz, vai trazer uma característica que eu também amo. E o Jonas, no baixo, é um monstro. O Jonas na verdade é guitarrista, mas ele assumindo o baixo é maravilhoso também, porque vai pra um lugar levemente diferente, assumindo caminhos que não são tão óbvios. E isso me agrada muito. Então o show está muito porrada. É quase a sensação que você teve com o disco: quando as músicas são rápidas, elas estão mais rápidas, mais rock, mais porrada mesmo. Até quando tocamos as canções mais antigas. Então houve uma releitura, assim, de deixar tudo mais rock. E estou adorando. Estou numa fase ouvindo o “In Utero”, do Nirvana, direto. E estou muito feliz nesse sentido, de “que saudade de fazer uma parada pesada, bicho!”.
Pedindo um spoiler: vocês não vão tocar só músicas do disco novo, vão tocar as antigas também?
Ah, sim, com certeza. De tudo um pouco. A gente vai resgatar muita coisa que não tocava há um tempo, do primeiro disco dos Selvagens, “Aprendendo a Mentir” (2011), que eu acho que dialoga muito com esse novo momento da banda. Mas assim, vamos passar por todos os discos, com certeza. Pelo menos os três primeiros e esse mais recente. O quarto disco da gente, o “Paraíso Portátil”, é um disco que acho que já anunciava que a formação não estava tão bem. Eu tentei puxar pra um lado mais psicodélico, a galera tentou puxar pra um lado mais pop, e acabou não ficando nem uma coisa nem outra – ficou no meio do caminho. Então, sobre esse repertório… depois que a gente foi perceber: “Pô, estou muito feliz com esse show” e, depois eu: “Pô, não tem nenhuma música do ‘Paraíso Portátil’” (risos). Mas tudo bem; depois, no futuro, quando a gente for fazer outro show, certamente podemos resgatar uma coisa ou outra dele.
Além da carreira musical, você já lançou dois livros – “O Livro das Impermanências” e “Armadura de Papel”. Como você divide o material que você escreve pros livros e pras canções? Ou você acha que eles se complementam de alguma forma?
No caso desse último livro, o “Armadura de Papel”, que eu lancei agora em janeiro… Esse livro específico eu escrevi na última turnê da penúltima formação da banda. Eu estava escrevendo o livro e vendo tudo desmoronar, cara. Assim, o clima estava uma bosta, e eu ali, escrevendo esse livro. E é um livro escrito nos aviões, ônibus, van, antes do show, no hotel, depois do show. E durante a crise, depois que tudo se tornou público e foi aquela coisa muito horrorosa que os outros lá decidiram fazer. Mas, com isso dito, acho que o lugar da poesia revela muito mais intimidade do que a música, sabe? Eu acho que não são tantos fãs que consomem as minhas poesias. Agora estou com uma caixa de livros aqui que eu vou levar pra estrada. Acho que sou mais visto como músico, então as pessoas acabam adquirindo os livros mais quando estou na estrada do que numa livraria ou algo desse tipo. Porém, acho que se um fã quiser conhecer o Gabriel com mais intimidade do que na música, vai me encontrar na poesia. É um lugar em que eu me vejo “pelado”, cara. Mas acho importante. Olhando pra música… pra mim, é o que faz sentido. Prefiro me expor fazendo poesia e fazendo música, dizendo as coisas que eu vivi, do que me expondo tanto em rede social. Tipo, abrindo câmera, esse tipo de coisa. Acho que é uma maneira muito mais profunda. Sou muito beatlemaníaco e sempre admirei muito o John Lennon nesse sentido. E o Renato Russo também. Você se sente muito próximo deles, da história pessoal deles. O Renato Russo, quando termina com o namorado, está lá ele cantando “Vento no Litoral”, chorando as pitangas dele. O John Lennon, no primeiro disco solo, o “Plastic Ono Band”, está lidando com os traumas dele e a coisa toda. Sempre admirei muito isso. Amo o Chico Buarque, o Samuel Rosa… mas não conheço a vida pessoal deles e tudo bem. Mas gosto muito desse outro lado, sabe? Porque, por ter sido sempre um cara extremamente tímido, acho que essa é a minha maneira de lidar comigo mesmo. Talvez falar, abrir a boca, dar uns berros… Acho curioso que alguns comentários que têm aparecido sobre esse disco específico, sejam do tipo: “Ah, mas está muito literal, está falando muito da tua vida…” Cara, eu sempre fui assim, desde a primeira música. A questão é que estou falando sobre uma situação que se tornou pública e ficou todo mundo sabendo. Mas, se não fosse pública, seria a mesma coisa que eu sempre fiz na minha vida inteira.
Fazendo esse paralelo, você diria que esse disco novo dos Selvagens funcionou como se fosse uma terapia do grito para você, como o Lennon fez no “Plastic Ono Band”?
Com certeza. Absoluto, cara. É um disco que eu tinha muito na minha cabeça, embora o “Y” não soe nada como o dele. O dele é bem minimalista. Inclusive, esse disco dele inspirou o “The Wall”, do Pink Floyd. Mas não estou falando sobre traumas passados de infância, como ele mergulhou muito. Pra mim, foi da minha vida recente. Estou falando sobre o que aconteceu comigo dois meses atrás, um mês atrás… o que está acontecendo comigo agora. É tipo isso.
Ouvi a sua participação no programa da Rádio Universitária FM 107,9 contando sobre tudo que aconteceu na separação da formação anterior. E em um vídeo no novo canal da banda no YouTube (acima), você diz que não gostaria de falar mais sobre o que aconteceu e sim sobre música. Mas para contextualizar tudo, tudo bem a gente conversar sobre isso?
Sim, tudo bem!
OK. Você pode falar como foi a história da censura da sua participação no Agora POD?
Posso sim. Quando a gente estava se preparando para lançar o primeiro single da nova formação, precisava fazer o anúncio da volta da banda, né? Então era necessário a gente fazer uma entrevista sobre isso. Tem uma pessoa ligada aos meninos [ex-integrantes], que é a esposa de um deles, que já é a segunda vez que tenta fazer algum tipo de censura. No ano passado, fui entrevistado pelo jornal O Povo para falar sobre a situação da banda. Depois recebi uma ligação me dizendo que essa pessoa ficava ligando pro jornal tentando proibir a entrevista. Ela vem de uma família importante daqui [de Fortaleza], que é dona de festival e ligada ao poder do mercado da música, trazendo artistas de fora. Se você for ver, a banda deles está no palco onde a gente costumava tocar. Isso, certamente, não vai acontecer mais porque não estamos no mesmo balaio… Mas, voltando à censura do Agora POD: eu gravei o programa e estava tudo certo. Mas depois o pessoal do podcast me ligou, dizendo que ela ligou fazendo ameaças para que o episódio fosse retirado do ar. Ela falou que, se não tirassem, faria isso e aquilo, ia falar com patrocinadores. E o pessoal, com uma extrema fraqueza e sem senso de jornalismo, decidiu retirar. Até agora, estou sem saber o que aconteceu. Mandamos mensagem do tipo “e aí, pessoal, vão nos dar alguma satisfação sobre o episódio?”. Esse tipo de situação acontece quando você está numa cidade onde as pessoas tratam tudo como uma província. E é muito triste, porque eu realmente acho que Fortaleza merece muito mais.
Entendo. E você mencionou que essa pessoa já fez isso de te censurar outras vezes…
É, houve um primeiro anúncio da banda dando um tempo, que foi no Jornal O Povo. Ela não conseguiu censurar, mas houve uma tentativa. Existiram muitas táticas, eu diria bem bolsonaristas, de extrema direita, sabe? Quando digo isso, não é só sobre votar no cara, mas essa coisa de querer aniquilar o outro. “Se você não está comigo, você precisa ser aniquilado”. Por exemplo, uma entrevista que me marcou recentemente, onde os outros três, que montaram outra banda, se referem assim: “O Selvagens acabou, agora continuamos aqui.” Cara, isso é muito tosco, essa ideia de aniquilação do outro. Do outro lado, a nossa equipe de comunicação continua comigo desde sempre, a mesma galera de antes. Só que a gente perdeu o acesso às redes sociais da banda. O Rafael e o Caio trocaram a senha do Instagram e até o Gmail da banda. A gente não tem mais acesso ao YouTube, etc. E essa mesma equipe de comunicação agora está identificando perfis falsos falando coisas por aí. Dá para identificar facilmente. Você entra no perfil da pessoa e vê quem ela está seguindo, quando a conta foi criada… um monte de mecanismos que permitem ver que são perfis fakes. E o tipo de mensagem que essas pessoas deixam é sempre muito direcionada, sabe? Elas só falam da banda e se concentram nesse tipo de post. Isso é bizarro e eu nunca imaginei que teria que lidar com isso. Mas, ao mesmo tempo, fiquei mais cascudo, porque aprendi que essas pessoas não vivem no mundo real também. Tudo bem se você não gosta da banda nessa nova fase e prefere a outra, mas tem muita gente que fala coisas maldosas, do tipo “vou no show só para xingar”, sabe? Durante um tempo, eu achava que isso podia acontecer. Mas depois percebi que essas pessoas se sentem no direito de falar essas coisas só nas redes sociais. Elas jamais vão levantar do sofá para fazer o que dizem. O mundo real é outra coisa. E teve uma pessoa ligada àquela garota de que falamos no começo que eu precisei entrar com um processo por danos morais. A pessoa fez uma declaração absurda na internet, e eu acabei ganhando a sentença. Ela entrou com recurso e tudo bem, é direito dela. Mas, sabe, é o tipo de coisa que a gente tem que aprender a lidar na vida. Esse é o momento que estou vivendo, lidando com essas loucuras das redes sociais, mas sempre respirando fundo. Porque, cara, uma coisa é a rede social, outra coisa é estar no show semana que vem, ali, de frente para a galera que pagou ingresso para ver a gente e está torcendo por nós, sabe?
Assim como dei uma ouvida na sua versão da história, fui atrás do podcast que os ex-membros participaram para saber o lado deles. E em posts em redes sociais, realmente vi comentários do tipo “esse disco novo do Selvagens é o Gabriel dando indireta para todos os ex-integrantes” e etc. Você já esperava passar por todo esse ódio ao lançar o trabalho como um novo disco dos Selvagens?
Cara, sim, sim. Eu já sabia que isso estava dentro do roteiro. Existe um imediatismo, até na minha geração mesmo, de você ser obrigado a ter uma opinião imediata sobre qualquer notícia do mundo. Se o Papa novo é americano, você tem que correr para dizer sua opinião, essas coisas… Cara, não sei nem quem é esse cara, deixa eu ter um tempinho a mais para absorver isso e a gente poder criar uma opinião própria. Mas hoje em dia a gente tem esse tipo de coisa assim, né? E aí o que eu decidi é que eu não vou ficar travado, deixar de fazer a banda que eu inventei no colégio, e eram outras três pessoas que me acompanhavam. Tudo bem que a formação que ficou mais conhecida foi a posterior. Mas eu, como criador da banda, nunca tive a menor vontade de criar outro projeto. Então se os outros estão a fim de criar outro projeto, com outro som, bicho, massa, que vão em frente. Mas até essa história é curiosa, porque na verdade a primeira tentativa deles foi de me tirar da banda, e não montar outra. Eu tenho tudo isso gravado em vídeo, em áudio. Eu nunca soltei isso porque está na justiça, mas quem sabe um dia eu solte. Rede social é uma coisa imediata, mas eu, que estudei Direito e me formei, sei que o tempo da justiça é outro. Cara, tem gravação dos caras tentando me tirar da banda numa mediação. E eu era o cara que estava propondo dar um tempo para depois a banda voltar. Mas aí foi o fundo do poço mesmo. Então massa, valeu, cada um vai para a sua. Mas agora é o seguinte: esqueçam essa ideia de que estão me tirando da banda, porque a partir de agora ela tá comigo e ninguém me tira dela. Eu que inventei isso aqui, pô! Então foi essa a decisão que eu tomei. Eu não tinha noção se eu ia voltar com a banda logo como está sendo agora. Mas ao fazer o disco, fiquei” “Putz, bicho, isso aqui está muito a cara do Selvagens”. Eu também não comecei a compor e produzir essas músicas para ser dos Selvagens. Mas ficou tão Selvagens que eu pensei: “Cara, por que não?”. “Putz mas está muito cedo, vamos esperar passar o tempo”… Mas esperar passar por quê? Se não agora, quando? Cara, estou com essas músicas, são sinceras, são a cara dos Selvagens… “Mas vai ser um bafafá”. Vai, mas se não agora, quando? Então teve tudo isso passando pela minha cabeça e eu tomei a decisão de continuar a banda mesmo assim. Meu irmão, vai ter sim um bocado de hate, mas vamos sempre ter em mente que existe o mundo real e existe a rede social. São duas coisas diferentes. Então acho que é isso: que é assumir, deixar o tempo passar e vamos para a frente. Não tem muito por que ficar choramingando, olhando para trás não, sabe? Eu jamais voltaria a banda se não tivesse um disco condizente. Mas quando me vi com um disco massa que nem esse, putz, acho que a hora é agora, tem que encarar. Então o que estou fazendo é isso. Tô encarando.
Existe uma disputa judicial entre você e os ex-integrantes? Como está isso?
Sim. Na verdade, partiu de minha parte colocar na Justiça. Depois da nossa mediação, decidi entrar na Justiça pra gente lidar especificamente sobre o CNPJ que a gente tem juntos. Esse CNPJ tem muita coisa; por exemplo, os royalties dos discos que nós fizemos juntos. Para quem não entende: antigamente se vendia CDs físicos, você distribuía nas lojas e o que fosse vendido era repassado para gravadora, distribuidora e pros artistas. A mesma lógica permanece pro streaming: o que toca lá arrecada um dinheiro. Isso sempre foi dividido igualmente pelos quatro, desde o início. Mesmo eu tendo feito ali a banda, montada na democracia total, eu quis dividir igualmente por todo mundo. Só que um belo dia esse dinheiro parou de cair na minha conta. E eu, que era o sócio-administrador da empresa, de repente descobri que não posso mais acessar a conta do banco para tirar um dinheiro que é meu por direito. Então esse tipo de situação, que o público fica sem saber e que é uma coisa extremamente burocrática, acontece e eu preciso resolver. Mas o que está na Justiça diz respeito tão só e somente ao nosso CNPJ, não tem nada a ver com a possibilidade de eu seguir ou não com a banda. Isso ninguém está discutindo. A marca da banda é minha, a banda eu que montei, eu que batizei. Eu que chamei as pessoas pra banda estou continuando com ela. Tanto que, se não pudesse continuar, não estaria fazendo isso, alguém ia mandar alguma coisa me impedindo. E foi exatamente isso que eles decidiram: não continuar, que é o que eles falaram na internet. Primeiro tentaram me tirar da banda, como se fosse algo muito fácil. Mas eles entenderam que não era. E aí montaram um novo projeto. E Deus abençoe, que sejam felizes assim.
Falando no projeto deles, você chegou a ouvir as músicas do Cor dos Olhos?
Não, nem quero. Ainda é uma coisa que me dá gatilho, sabe? Não é algo que me faz bem. Mas mesmo sem ter escutado, eu tenho uma boa noção do que deve ser: acho que é um lado bem mais pop, que eles já queriam seguir há um tempo. Um som mais comercial, talvez algo parecido com umas bandas que estão na moda hoje. Mas é uma parada que eu não estou nem um pouco a fim de fazer e nunca estive. Quando rolavam esses rompantes dentro da banda, com músicas nesse estilo, na minha liderança democrática, eu pensava: “Beleza, vamos nessa, vamos tocar a música do brother aqui. É o estilo dele, então vambora.” Mas fazer um trabalho inteiro com essa direção artística? Cara, acho um saco. Então prefiro fazer meu rock mesmo. Muita gente que está começando [na carreira musical] me pergunta qual a dica que eu dou, e para mim é… existe um momento de inocência, quando você é adolescente ou está entrando na faculdade, que é o melhor momento para montar uma banda ou qualquer projeto criativo – especialmente se ainda não tem grana envolvida. Esse é o momento ideal para criar os alicerces do que é o seu projeto, no sentido filosófico mesmo. O que ele significa? O que te torna diferente dos outros? Se nesse momento você já começa a se preocupar com o que é comercial – sem ganhar um centavo com isso ainda – aí já era. Pode até ganhar dinheiro depois, mas pode acabar virando refém de algo que te estressa, que não tem mais nada a ver contigo. Você cria um monstro, sabe? Do contrário, quando tu cria uma parada massa, do coração mesmo – tipo essa banda aqui, que ninguém gostava do nome Selvagens à Procura de Lei no começo, todo mundo queria mudar – e ela dá certo primeiro com os fãs e depois comercialmente no sentido de se manter, aí sim. Tem gente que acha que ganhamos uma grana absurda com isso, mas não é bem assim. Quando começa a andar, quando vira uma possibilidade de viver de música, aí beleza. Mas pra mim, se for pra ganhar dinheiro com música, tem que ser fazendo rock, porque é o que me faz feliz. Senão, qual o sentido? Vou fazer música que eu não gosto? Prefiro sei lá, virar um engomadinho e ganhar dinheiro de outro jeito, tipo com Direito. Mas eu não viraria advogado, não. Aí seria o fim da picada. Acho que viraria jornalista, ou outra coisa qualquer. Dou meus pulos, faço alguma coisa.
Em 2020, toda a formação anterior voltou a morar em Fortaleza, menos você, que ainda ficou em São Paulo. Agora você voltou para Fortaleza também, mas você diria que essa mudança deles e você ficar em São Paulo foi o começo do distanciamento entre os membros? Ou isso já vinha de antes?
Acho que isso já vinha de antes sim. Especialmente com o “Paraíso Portátil”, aquele disco que ninguém sabia onde queria chegar, com o baterista não querendo gravar e outras decisões, tipo tentar tornar a banda algo extremamente pop e comercial, o que não me agradava. Artisticamente, a gente já não estava se entendendo. Tinha muita música minha que já estava pronta, mas não estava sendo acolhida. Tenho três canções ou mais que não foram para esse disco. A minha carreira solo surgiu porque eu precisava colocar essas músicas para fora. A galera não queria gravar no disco, então pensei: “Vou fazer o meu próprio projeto, vou dar meus pulos também”. E tem também a questão de como lidar com fãs. Por exemplo, teve um integrante que não se vacinou [contra a Covid], e só se vacinou quando foi viajar para os Estados Unidos porque era obrigatório. Mas mesmo assim, a gente fez shows em que ele queria ter contato com os fãs, e nós tivemos que segurar a onda dele. Tipo, “não, brother, não é por aí.” Comecei a não tolerar mais esse tipo de atitude. Esse distanciamento que aconteceu a partir de 2020, com eu ficando em São Paulo e a gente se encontrando só para resolver questões burocráticas de shows, obviamente contribuiu para o distanciamento, mas eu acho que também foi por essas razões. Talvez as pessoas envolvidas não saibam terminar um relacionamento. A gente, como homem, tem uma dificuldade grande para lidar com isso. Nesse universo masculino, em que tudo é muito brutal, acaba rolando esse tipo de treta, essas bobagens de quinta série, sabe? E é uma pena o que aconteceu. Mas meu irmão, eu não vou ficar fugindo disso. Já foi, já aconteceu. Se alguém me perguntasse, eu diria que isso não estava nos meus planos, mas a vida vai acontecendo e a gente vai improvisando junto com ela. O que importa é o que você faz a partir daqui. A vida segue. A ferida ainda está um pouco exposta, mas é a vida, né? Daqui a pouco já é 2026, 2027, 2028, e a vida vai seguir.
É difícil manter uma relação estável entre todos os integrantes de uma banda. Como você mesmo falou, acaba sendo quase um casamento entre várias pessoas, com convivência intensa e desgastante. No caso de vocês, ainda teve essa questão política envolvida. Dando uma olhada na reação dos fãs nas redes sociais, dá pra ver que tem muita gente meio perdida com tudo isso. Tem fã que te apoia na decisão e diz que entende os motivos, mas também tem fã dizendo que foi bobagem brigar por política. O que você pensa sobre essa opinião de quem diz que é besteira?
Cara, eu diria o seguinte: eu sempre convivi com todo mundo. Acho que todo mundo convive com pessoas diferentes. Não existe um ser humano que viva numa bolha só de esquerda ou só de direita. Quer dizer, até existe, mas deve ser bem raro. Eu convivi com três pessoas com visões políticas muito diferentes das minhas durante muito tempo. E foi o que aconteceu com qualquer família brasileira: aquela escalada de situações inadmissíveis. Chega um ponto que você pensa: “Cara, a partir daqui não dá mais. Não dá pra ter um relacionamento saudável com essa pessoa”. E se você tem uma banda de rock, com o poder de estar na frente de um microfone e falar para um monte de gente, existe uma responsabilidade com o que está sendo feito por esse projeto, com o que está sendo dito. Se essas três pessoas não concordam com isso, começa a ficar muito difícil. Começa a parecer uma coisa muito falsa para os fãs. Vou te dar um exemplo que, para mim, foi o fim da picada. A gente fez um show gratuito em Fortaleza, num lugar que é um centro da esquerda – a Avenida Universitária, onde fica a Universidade Federal e tal. É um palco clássico da cidade. Tocamos lá num sábado à noite e, no domingo, o Bolsonaro venceu as eleições contra o Haddad, em 2018. Neste show, um dos integrantes da banda saiu lá de trás e foi até a frente do palco. Ele me disse: “É contigo, cara. Tu que é de esquerda, fala que a gente não vota em candidato homofóbico, machista, misógino”. Aí eu mandei um recado do meu jeito, como sempre fazia – misturando com música brasileira e tal. Mas o cara, não satisfeito, pegou o microfone e falou essas coisas. Alguns meses depois, vi esse mesmo cara feliz da vida com a vitória do Bolsonaro. Comentava nos bastidores, se entrosava com a galera de direita e falava que o Bolsonaro estava fazendo um grande governo. E aí também entra a questão de não querer se vacinar. A gente fez show em Fortaleza e era proibido ter contato com o público, mas ele ia lá e falava com os fãs mesmo assim. Eu dizia: “Cara, tu votou no Bolsonaro”. E ele: “Votei, gosto do cara.” Sempre que eu falava ‘Ele Não’ ou ‘Fora Bolsonaro’ no palco – e o perfil da banda chegou a postar isso também – os três vinham me questionar: “Cara, não fala isso, vai dividir o público.” E eu dizia: “Meu irmão, nessa altura do campeonato? Em 2020, 2022, uma banda de rock não se posicionar contra isso? Não dá”. Aí você vai juntando tudo e chega num ponto em que a convivência se torna inviável. Para mim, foi uma decisão que partiu de um profundo respeito aos fãs. Se o cara não se vacina, ignora as normas e ainda quer manter esse discurso, eu não quero prejudicar ninguém, mas também não dá pra continuar convivendo com uma visão de mundo tão distorcida. Pra mim, não dá. E, se os outros dois concordam com isso ou se há um degradê da direita entre eles, tudo bem, boa sorte. Mas eu não sou obrigado a trabalhar com fulano porque os outros dois querem. Um deles sempre foi abertamente conservador. Teve uma vez que ele encontrou o Roger, do Ultraje a Rigor, e queria fazer música junto. Cara… talvez em 1985 isso fizesse sentido. Mas agora? Estávamos em 2023, 2024, não dava mais. Eu ainda tenho que explicar o básico?
Pra gente terminar: tem algo que você acha que seria importante falar que eu não te perguntei? Fique à vontade.
Acho que é mais isso: essa volta da banda não é uma coisa pontual; eu já estou pensando lá na frente. Vai ter música inédita já no segundo semestre. Se você quiser, pode anunciar isso aí. E a gente já está pensando em disco novo, então vamos pra frente. Vamos com tudo agora. Ninguém para mais esse trem não.
Essa música inédita que vocês vão lançar como? Um novo single?
Eu ainda estou vendo. É uma canção que a gente gravou pro disco, mas que a gente decidiu deixar de fora. Eu não sei se a gente vai lançar ainda como a versão deluxe do disco atual e ela será uma inédita dentro ou se vai lançar apenas como single. Mas vai sair sim!
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.