texto de Davi Caro
O flerte da cultura pop com o culto à personalidade é um fenômeno quase tão antigo quanto o próprio conceito de cultura pop; o mesmo pode ser dito sobre como a indústria do entretenimento se retroalimenta do fascínio que a idolatria, a superexposição e a obessão desmesurada são capazes de produzir. O estudo minucioso de fãs ao redor do globo em decifrar cada sílaba cantada por Taylor Swift, por exemplo, pode se mostrar como uma conclusão lógica da quase psicótica “Dylanologia”, conforme idealizada pelo infame A.J. Weberman, do mesmo modo que o furor hoje destinado aos grandes astros do K-Pop remonta à histeria coletiva da Beatlemania – e assim sucessivamente. É impossível discutir, explicar, ou mesmo imaginar o conceito de cultura popular, então, sem falar da fascinação idólatra que habita o (in)consciente coletivo desde que o mundo é mundo.
Tal é a realidade na qual habita Adrian Moretti, o cantor fictício interpretado por John Malcovich em “Opus” (2025), novo filme da A24 dirigido pelo estreante Mark Anthony Green. O artista, que prefere ser identificado somente por seu sobrenome, é um dos maiores astros dos anos 1990, responsável por colecionar hits, figurinos escandalosos, álbuns ambiciosos e muitos, muitos rumores e mistérios. Dos convidados ilustres recepcionados em seus camarins e badalados relacionamentos com figuras como Cindy Crawford, até boatos de haver comprado e vestido os dentes de Freddie Mercury, Moretti é, para dizer o mínimo, um excêntrico elusivo. No início do longa, um longo período longe dos holofotes, responsável por alimentar a atenção e a obsessão de admiradores ao redor do globo, é quebrado pelo súbito anúncio de um retorno triunfal, acompanhado de um disco que, nas palavras do próprio, almeja o posto de obra definitiva. Naturalmente, o lançamento é acompanhado de um bombástico anúncio no qual um seleto grupo de profissionais da imprensa e do entretenimento é convidado, sem muita sutileza, a conhecer a ampla área restrita na qual Moretti habita, junto com muitos de seus inúmeros seguidores.

Em meio ao grupo de convidados está Ariel (Ayo Edebiri), uma jovem jornalista em busca de reconhecimento e auto-afirmação profissional, e que lida com o choque de ser inesperadamente convocada com a ambição que suas aspirações naturalmente implicam. Acompanhada de seu chefe, o inescrupuloso Stan (Murray Bartlett) juntamente com a apresentadora de TV Clara (Juliette Lewis), a fotógrafa paparazzi Bianca (Melissa Chambers), a influenciadora Emily (Stephanie Suganami) e o radialista Bill (Mark Silvertsen), a moça é levada até o retiro, onde todos são recebidos cerimonialmente por um grupo de devotos de Moretti vestidos todos com cores e formas semelhantes, e que vivem em um tipo de doutrina misteriosa que envolve estranhas peças de teatro de fantoches, bizarros rituais durante jantares coletivos e outras práticas, no mínimo, perturbadoras – tudo isso culminando em uma prometida primeira audição do novo disco do cantor. Claro que não demora muito para que o grupo passe a diminuir, e que a oportunidade maravilhosa de uma avant-premiere de um trabalho dito “revolucionário” se transforme em um pesadelo do qual, no início, só Ariel parece realmente se dar conta.
Se a descrição da história soa cativante, é porque o conceito desenvolvido de fato o é, ainda mais nos dias atuais, onde venerar uma entidade que se apresente como maior do que a vida é praticamente um requisito básico a todos que buscam se encaixar em normas (e redes) sociais. O roteiro, no entanto, é por vezes acidentado: Mark Anthony Green, vale citar, trabalhou anteriormente como jornalista e, mais tarde, editor da revista GQ, o que pode explicar a elaboração de sua perspectiva diante dos aspectos mais hostis do showbiz. Porém, o desenvolvimento da trama carece de consistência conforme os diferentes aspectos da seita de Moretti vem à tona. As referências para a criação da história pregressa do artista e antagonista do longa são inescapáveis e escancaradas para quem quiser ver. Difícil não lembrar da mítica que sempre circundou grandes nomes como Prince e David Bowie, assim como (especialmente em uma tomada aérea no início do filme) de Michael Jackson e sua ostensiva Neverland. Tais referências, infelizmente, acabam fazendo com que muitos detalhes do enredo caiam por terra diante de arquétipos típicos de filmes inspirados em eventos reais de organizações ditas “religiosas”, e de seus carismáticos (e maníacos) líderes.
É na escolha dos personagens centrais, entretanto, que “Opus” consegue se redimir. Aproveitando bem o tempo predominante de tela, Ayo Edebiri demonstra o mesmo tipo de intensidade e entrega demonstrados antes nas três temporadas de “O Urso”, se sobressaindo mesmo com atuações que variam entre corretas (como a de Murray Bartlett, em apenas uma fração do potencial exibido em “The White Lotus”) e levemente exageradas (como a histeria deslocada de Juliette Lewis). Mas, apesar de agraciado com quase imperceptíveis participações de luxo – tais quais as de Lenny Kravitz e Lil Nas X – “Opus” encontra seu ás em John Malcovich, que comanda todas as cenas com um tipo muito dócil de estranheza, com direito à uma (propositalmente) esquisita cena de dança. Sua performance ajuda a criar um senso de instabilidade constante, de uma insanidade parcamente oculta que se estende a todos os seguidores de sua crença. Uma menção em especial (à Billie Holiday) ajuda a explicar as dementes razões por trás dos atos hediondos que tomam forma por dentro das cercas de seu retiro, em uma – mal velada – alusão ao vampirismo da mídia especializada e de massas, apontada como incapaz de criar e destinada a viver como detratora, e sanguessuga, de dádivas artísticas profundas demais para criaturas de mentes estreitas.
Tecnicamente falando, trata-se de um filme impecável. O trabalho de cinematografia, conduzido por Tommy Maddox-Upshaw, faz excelentes usos de tomadas abertas que valorizam paisagens naturais, ao mesmo tempo em que trechos filmados em ambientes fechados são adornados com usos de cores que reforçam a sensação de desorientação e perturbação. E a música, claro, também não deixa a desejar: além das peças incidentais, o que realmente chama a atenção são as canções compostas para o filme, como interpretadas por Moretti. Estas, resultado da colaboração entre o cantor e compositor The-Dream e o guitarrista e produtor Nile Rodgers, são capazes de soarem contemporâneas na linha do R&B do primeiro, ao mesmo tempo em que remetem diretamente aos célebres trabalhos setentistas e oitentistas do segundo (e, em especial, a seus discos com…David Bowie). As três novas faixas trabalhadas pela dupla mereceram, inclusive, um lançamento em streaming, na forma de “OPUS: The Moretti EP”.
Entre mortos e feridos, “Opus” é, em sua forma final, desbalanceado: com um final algo agridoce, é um filme onde as performances fazem valer a experiência, mas no qual muito da substância dramática se mostra volátil e pouco certa de si. O trabalho inagural de Mark Anthony Green não se sustenta tão bem, mas pode indicar melhores retornos no futuro não tão distante. Há coisas para se gostar, e estas são capazes de justificar esta ambiciosa empreitada – dependendo do nível de boa vontade do espectador, disposto, ou não, a testemunhar uma obra de arte capaz de retratar tão bem o horror por trás de um culto, mesmo que ainda carecendo, justamente, de um pouco mais de personalidade.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.