Entrevista: Bebendo cervejas com Linda Martini

entrevista de Bruno Capelas e Marcelo Costa

Depois de 20 anos na estrada, o que uma banda ainda tem a dizer? Essa dúvida é uma das principais forças motrizes de “Passa-Montanhas”, álbum que os portugueses do Linda Martini colocaram no mundo no início de 2025. A despeito do peso de suas duas décadas de história, porém, a temporada já marca uma série de estreias para os lusitanos: além de lançar o primeiro trabalho com uma nova formação, com o guitarrista Rui Carvalho substituindo o fundador Pedro Geraldes, o grupo também fez sua primeira canção com mais de dez minutos e esteve pela primeira vez no Brasil para dois shows em São Paulo, realizados em fevereiro.

“Nós nos sentimos em Portugal, porque as pessoas estavam cantando junto. As músicas que normalmente cantam lá, também cantaram aqui. Foi especial”, descreve Henriques sobre a noite de estreia em São Paulo, n’A Porta Maldita. Na tarde seguinte à apresentação (e dias antes do segundo show no Bar Alto), o quarteto – o “novato” Rui, mais Hélio Morais (bateria), Cláudia Guerreiro (baixo) e André Henriques (voz e guitarra) – aproveitou para bater um papo com o Scream & Yell, realizado na cervejaria Tap Tap, em Perdizes, destrinchando o processo criativo do álbum, um dos mais densos e políticos da carreira da banda.

“Não sentimos que um artista ou músico tem a obrigação de falar sobre um tema específico. Mas é inevitável tu não refletires o mundo que se passa à tua volta, especialmente se não vives numa bolha”, diz Henriques. “Hoje, todo mundo está percebendo que a liberdade já não é o que era e pode não ser o que é daqui a dois anos. E isto impõe-se, mesmo que tu estejas a fazer uma música de amor, um texto de amor sobre a tua namorada, o teu filho, a tua avó”, complementa o vocalista, refletindo sobre um trabalho composto enquanto a extrema-direita, pelas mãos do partido Chega, passa a ganhar cada vez mais relevância em Portugal.

A chegada de um novo membro também chacoalhou as estruturas do Linda Martini – até porque, inicialmente, Rui entrou para acompanhar a banda na turnê do álbum “Errôr” (2022), e passou meses como integrante temporário do grupo. Além disso, habituada a trabalhar em um processo de residência, na qual cada integrante leva suas ideias para elaborar um novo disco, a banda desta vez se viu sem material na hora de começar o retiro. “Nenhum de nós sabia se ia correr bem. Podíamos chegar lá na residência e não sair nada. Mas lá pelo primeiro dia, assim que começou a sair, começamos a perceber que havia também uma ligação criativa”, conta Carvalho, dono de uma carreira solo como Filho da Mãe – e também marido de Cláudia Guerreiro.

Na entrevista a seguir, os quatro não só falam sobre “Passa Montanhas” e a turnê no Brasil, mas também mostram os bastidores de uma banda inventiva, capaz de dosar melodia, peso, distorção e delicadeza em um só universo. “Emociona-me o rock e o pesado. Acho que não é só a música bonita que tem essa capacidade de emocionar. A raiva, no sentido positivo de libertação, é uma coisa que me emociona”, diz Carvalho. Os quatro também falam sobre a ligação com a música brasileira, dissertam sobre o uso de palavrões e projetam o futuro à moda dos Rolling Stones. “Vamos para mais 60 anos. Vou ficar o mais velhinho da banda!”, brinca Rui.

Marcelo Costa: O Linda Martini acaba de fazer o primeiro show no Brasil, tendo mais de 20 anos de banda. Imagino que vocês já tinham recebido sondagens antes, mas nunca tinha acontecido. Por que agora?
Hélio Morais: Era para ter demorado menos tempo, né? Antes da pandemia, a gente tinha definido esse plano [de vir para o Brasil]. Tinha uma galera que morava em Portugal quando a gente começou e depois voltou para o Brasil. Quando eu vim com a (banda) PAUS, em 2019, muita gente me perguntava quando o Linda Martini viria. E eu duvidava se ia ter público. Na época, decidimos juntar dinheiro para fazer uma coisa bem feita, com alguns shows, com uma boa promoção. Aí veio a pandemia e tivemos que dividir o dinheiro (risos).

André Henriques: Não havia (como agendar) shows.

Hélio Morais: Ficamos meio assim, praticamente desistimos (de vir). Mas rolou agora – e era como tinha que ser.

Marcelo Costa: Como foi fazer esse primeiro show no A Porta Maldita? Tinha gente querendo ver vocês e até mesmo cantando e pedindo músicas do disco novo.
André Henriques: Nós estávamos meio em dúvida na hora de fazer o setlist. Pensamos que, como nunca viemos para cá, se calhar, as pessoas iam querer ouvir as coisas mais antigas, como “Amor Combate” (do disco de estreia da Linda Martini, “Olhos de Mongol”, de 2006). Mas nunca fomos uma banda assim. É claro que gostamos das coisas antigas e as tocamos com frequência. Mas nunca fomos uma banda da saudade, de olhar para trás ou de ter que tocar “aquela” porque “aquela” é importante. Decidimos fazer uma cena para nós, pensando nas pessoas que viriam, mas também no que é que nos apetece tocar. E nos surpreendemos muito! O espaço é muito menor do que nós estamos acostumados a tocar lá. Quando começamos, tocávamos em muitos bares e clubes deste tamanho, mas há muito tempo que não tínhamos a experiência de tocar num clube pequeno – e adoramos fazer isso. A proximidade que tu tens com as pessoas é diferente: estás cara a cara, não há um fosso ou um segurança. É uma coisa muito próxima, sente-te muito ligado às pessoas. Há uma energia na sala toda que te contamina. Foi… bonito. Sabíamos que viriam algumas pessoas, talvez duas, três, dez. Não sei quantas foram que já conheciam a banda. Mas nos sentimos em Portugal, porque as pessoas estavam cantando. As músicas que as pessoas normalmente cantam lá, também cantaram aqui. Foi especial.

Marcelo Costa: Vamos falar do disco novo. Na história da música pop, é bem comum as bandas começarem pesadas, barulhentas, e irem amaciando a sonoridade com o tempo. No “Sirumba” (2016), vocês tiveram um momento mais próximo da canção. Na teoria, é pra ser um disco para chegar a um público maior. Mas, na sequência, vem o “Linda Martini” (2018), que é um disco mais porrada. E aí na sequência vieram outros discos ainda mais porrada: o “Errôr” (2022) e o “Passa Montanhas” (2025). Como foi pensar a sonoridade do novo disco?
Cláudia Guerreiro: A verdade é que fizemos algumas alterações na banda. Olhando para trás, nunca quisemos amolecer. Mas há alturas na vida em que tu estás mais para um tipo de música. O “Sirumba” saiu numa altura dessas, em que a coisa se acalmou um pouco. O processo também foi um bocadinho diferente. O Pedro estava morando no Porto, já eu estava grávida, então estava um bocadinho mais ausente. Assim, as bases foram feitas mais entre o André e o Hélio.

Marcelo Costa: Seus pops! (risos)
Cláudia Guerreiro: Por isso, acho que depois no “Linda Martini” estávamos com saudades [dessa dinâmica]. Quando fizemos o “Errôr”, queríamos o peso, uma coisa mais…

Hélio Morais: Densa?

Cláudia Guerreiro: Densa, lenta, negra. E do “Errôr” para o “Passa-Montanhas”, o Pedro deixou de fazer parte da banda e entrou o Rui, que tem um passado rock muito específico. Ele tem um projeto solo, o Filho da Mãe, e isso trouxe algo diferente à banda. Sem dúvida, o peso viria com ele. Mas é diferente.

Bruno Capelas: Este é o primeiro disco do qual você participa da criação, Rui?
Marcelo Costa: E aproveitando: como foi a adaptação? Temos aqui três músicos que estão juntos há 20 anos, numa banda de sonoridade forte. Como foi entrar nesse meio?
Rui Carvalho: Foi gradual. Houve uma adaptação que se fez muito rápido, que é a parte da química na garagem – e que depois passa para o palco. Percebemos que tínhamos todos mais ou menos a mesma maneira de falar, ouvíamos música muito parecida. Não foi difícil. Depois, há um segundo nível de adaptação, que é o do som. Há anos toco sozinho, estou habituado a ter um som desenhado para isso – o que é muito diferente de ter uma banda. Aí já há mais dificuldades. Por fim, há a parte do processo criativo, que nenhum de nós sabia se ia correr bem. Podíamos chegar lá na residência e não sair nada. Mas lá pelo primeiro dia, assim que começou a sair, começamos a perceber que havia também uma ligação criativa. Quando isso aconteceu, ficamos todos mais tranquilos. Mas é isso: há um processo de adaptação de três velhos que tocam há 20 anos juntos (risos), com suas discussões próprias. Nisto, tens que entrar de mansinho, de fininho, até poderes mandar alguém à merda, por exemplo. (risos). Não aconteceu [de mandar à merda], mas pode acontecer amanhã. A verdade é que o processo foi um bocado gradual, orgânico e definitivo. Não houve um briefing.

Hélio Morais: Mesmo no disco em que o Rui entrou para tocar ao vivo, o “Errôr”, ele não tocou as partes do Pedro. Ele fez arranjos dele por cima das nossas músicas, praticamente.

Bruno Capelas: Mas teve uma fase em que vocês não sabiam se ele era membro ou não da banda, não é?
Hélio Morais: Houve. E era mau isso.

Bruno Capelas: Há fotos de divulgação da época em que vocês estão só os três.
Hélio Morais: E olha que ele já estava há nove meses conosco.

Cláudia Guerreiro: Já é um filho.

Bruno Capelas: Como diria certo poeta brasileiro, “depois de nove meses você vê o resultado”.
Hélio Morais: Nós dávamos entrevistas nos shows e ele não. Era esquisito.

Cláudia Guerreiro: Naquela época, tudo teve que ser decidido muito rápido. A saída do Pedro foi em cima da saída do disco (“Errôr”), tivemos que tomar uma série de decisões para assumir que éramos o núcleo. Depois, fomos com calma para ver o que acontecia. Tínhamos de ver também se ele queria continuar conosco ou não.

Marcelo Costa: O “Passa Montanhas” foi feito em um processo de residência, algo que vocês fizeram pela primeira vez no “Linda Martini”. Como funciona esse processo? E o que vocês levam para a residência?
Hélio Morais: Foi uma necessidade. Houve uma altura em que nós estávamos com dificuldades. O “Turbo Lento” foi um disco que levou muito tempo para ser feito, porque o Pedro já estava morando no Porto. Ele vinha todas as semanas a Lisboa, mas era pouco – até porque durante a semana, o André tinha um trabalho em tempo integral.

André Henriques: Eu fui pai na época, era o meu primeiro filho.

Hélio Morais: Era difícil ter tempo para compor.

Cláudia Guerreiro: Depois, no “Sirumba”, fiquei grávida.

Hélio Morais: Naquela altura, eu e o André ensaiávamos muito, quase todos os dias da semana. Ali, surgiu a ideia de que se fizéssemos isso o dia todo, a coisa renderia muito mais. No disco seguinte, o “Linda Martini”, decidimos fazer um retiro. Copiamos o Rui neste aspecto, na verdade. Não é segredo que o Rui e a Cláudia são um casal. E, a certa altura, ela nos disse que ele fez uma residência em tal sítio para compor e foi muito fixe (legal). Fomos para o mesmo sítio. Quer dizer, não é um sítio – é um lugar, como vocês dizem aqui. Fizemos essa residência, correu muito bem e passamos a adotar esse esquema. Eu não sou pai, mas todos eles têm filhos e o Pedro também. O processo ajudava porque era uma semana em que não havia preocupação nenhuma: estávamos ali só, de manhã à noite, pensando na música. Tomávamos café juntos, íamos para a sala, gravávamos, fazíamos o almoço, falávamos, íamos para a sala, falávamos ao jantar.

Bruno Capelas: Mas a residência serve para compor, para gravar…?
Hélio Morais: Compor. O que fazemos são os registros.

André Henriques: Mas ainda não há letra, não há voz. Normalmente, é só o instrumental e as ideias. Algumas vêm de casa, outras surgem lá, e é toda a gente a cozinhar por uma semana.

Bruno Capelas: Quem é o melhor cozinheiro?
Hélio Morais: É uma merda a questão de dizer quem cozinha melhor.

Cláudia Guerreiro: Por quê?

André Henriques: És tu quem cozinhas melhor, Claudia.

Hélio Morais: É um problema, porque há logo uma leitura [de que a mulher é quem deve cozinhar].

André Henriques: A verdade é que toda a gente cozinha. Mas a Claudia tem a mão.

Cláudia Guerreiro: Lavar a louça é mais difícil, eles gostam menos.

André Henriques: Aí já estás a entrar no gênero. Eu também gosto de lavar a louça.

Hélio Morais: Também eu, mas a Cláudia nunca aceita que ninguém lave a louça.

Cláudia Guerreiro: O que é que eu faço bem? É lançar a discórdia.

Rui Carvalho: Foste muito bíblica agora. (risos)

Marcelo Costa: Para o “Passa Montanhas”, vocês chegaram com algo pronto? Ou foi tudo construído ali?
André Henriques: Foi a primeira vez que nós fomos para uma residência sem nada. Nos outros discos, sempre que íamos trabalhar, havia muitas ideias na mala. Aqui não havia quase nada: havia uma ou duas coisas que eu e o Rui tínhamos cozinhado na guitarra, mas era muito pouco. O que aconteceu é que quando saímos de lá, sentimos que era um disco muito fechado. Na estrutura, até mais fechado que o “Errôr” – que era um disco denso, mas com estruturas que eram labirintos. Começa aqui, depois entorta, vira à direita, vira à esquerda e depois avança. Como chegamos aqui? Não sabemos. O disco é muito labiríntico e muito para dentro, só nós é que o conseguimos decifrar.

Bruno Capelas: Quando vocês saem da residência, o que é o disco na cabeça de vocês? É um momento em que já há uma estrutura de canções, mas as letras, por exemplo, ainda não vieram.
Cláudia Guerreiro: O disco é sempre muito mais pesado. Eu, pelo menos, sempre saio com a sensação de que temos um disco realmente pesado. Depois, naturalmente, quando entra a voz, é claro que vai amaciar um pouco – ainda mais porque o André não é um artista de hardcore.

André Henriques: Sim, isso acontece. A voz, para além do texto, tem uma carga. Além disso, tens o tema que cada texto vai abordar, tens o componente da melodia. É isso que a Cláudia diz. Há uma melodia que tu não ouvias na residência. Quando metes uma voz, é claro que aquilo vai para outro lugar. Depois, há o trabalho das letras. É sempre um pesadelo para mim porque tenho aquela tormenta de não querer estragar, querer embelezar. Passo ali um ou dois meses onde tenho ataques de pânico.

Marcelo Costa: As letras são sempre suas?
André Henriques: Sim. Meus ataques de pânico acontecem porque para mim as canções estão feitas, então o que é que vou acrescentar? Posso tornar isso melhor ou não? É sempre difícil. Já escrevi sobre tanta coisa também, não quero me repetir, quero escrever sobre coisas diferentes e tentar sempre, tal como na guitarra, procurar uma outra versão de mim. Na voz, isso também acontece. Mas nas letras é sempre difícil: parece que a cada disco quero inventar a roda e há ali um processo meio difícil. O que eu senti desta vez foi que o fato de não termos trazido nada na mala fez com que o resultado da residência ficasse muito distante do disco final. Antes, não: no passado íamos para a residência e o que saía dali era quase o disco. Faltava colocar a voz por cima, mas a música era aquela. Desta vez, não. Tivemos que cavar alguns espaços para colocar a voz. Falava com eles: “aqui, era fixe ter um refrão”, “aqui não temos bem uma estrutura”, “se calhar mais à frente era giro voltar a chamar isso”. É por isso que, quando lançamos o “Passa Montanhas” em Portugal, incluímos na pré-venda a “Serra”, uma fita K7 que leva o nome do espaço onde fizemos a residência (disponível aqui). Nela, tens ali as versões instrumentais que nós fizemos. Dá mesmo para perceber a diferença.

Hélio Morais: Também teve outra mudança. O Rui está muito acostumado a compor gravando – e nós não. E nos ensaios que fizemos depois da residência, nunca pegamos tanto nas músicas como nesse disco. O fato de irmos para casa e escutarmos fez a gente mudar muito as músicas. Trabalhamos mesmo muito. Houve um momento em que eu já estava cansado, porque havia cinco versões de uma mesma música e eu não sabia qual era melhor.

Rui Carvalho: Nós mudamos tudo até o fim, até o último momento, criando alguma ansiedade antes da gravação. Essa ansiedade nem sempre é má, ela gera uma surpresa. E quando começamos a ver que as músicas na Catalunha estavam a soar como estavam, começamos a animar cada vez mais, porque vimos o que o disco estava a ser. Uma coisa que eu gostei muito no Linda Martini é porque as letras são discutidas por todos. Nós falamos sobre elas, discutimos para sabermos todos do que é que isto se trata. Isto faz com que o disco tenha ficado muito mais coerente, por estarmos à volta da mesma ideia. Foi uma parte muito interessante.

Bruno Capelas: O que é “Passa Montanhas”?
Hélio Morais: É Balaclava. Por isso que a gente vai tocar no Bar Alto! (risos).

Bruno Capelas: Mas qual é o conceito?
Hélio Morais: O título vem depois da foto que a gente cogitou por muitos meses para ser a capa do disco. Vou tentar resumir porque é uma história muito grande. Todos nós crescemos no subúrbio de Lisboa, entre Massamá e Queluz, na linha de Sintra. Nos anos 1990, havia não exatamente gangues, mas sim grupos de jovens que saíam na porrada uns com os outros. E havia um problema enorme com o consumo de heroína na época. No final dos anos 1990, secaram o consumo de maconha, aí introduziram a heroína e a galera ficou presa naquilo. Havia uma “gangue” em particular, que era o Gueto, que era de onde eu morava. E nela, havia um cara que era o Beto, supostamente era um líder, embora não houvesse líderes. Fato é que o Beto já estava vendo a coisa um pouco diferente do resto. Ele entendeu que não fazia sentido sair na porrada porque aquela galera tinha mais coisas em comum do que em desacordo. Foi aí que ele inventou este personagem, o Corvo, e criou boatos de que ele estava fazendo mal para as pessoas, assaltando as pessoas. De repente, as gangues rivais começaram a se unir para perseguir esse inimigo comum, que era ele. Até que teve um dia que ele se revelou, explicou o porquê de estar fazendo aquilo, que era basicamente para juntar as pessoas. Foi algo super midiático. Pois bem: um pouco antes da gente fazer a residência, uma amiga minha me enviou uma reportagem do (jornal) Público e tinha essa foto numa reportagem sobre o Beto nos anos 1990. Ficamos um tempo achando que aquela foto poderia ser uma capa, mas tinha que fazer sentido. E aí por conta disso a gente chamou o disco de “Passa Montanhas”, que é o nome que nós damos à balaclava, e unimos significados para que isso fizesse sentido.

Bruno Capelas: Esta é a segunda vez que há Chico Buarque citado em uma composição de vocês. A primeira foi em “Febril (Tanto Mar)”, no “Turbo Lento”, que cita “Tanto Mar”. Agora, “Uma Banda” cita “A Banda”. Por que voltar a Chico?
André Henriques: É sempre acidental. Nunca é planeado, vocês dizem planejado. “Uma Banda” surge neste disco porque o Rui entrou para a banda e estávamos a fazer a tour do “Errôr”, com muitos shows, todas as semanas, muitas horas no carro a andar de Norte a Sul de Portugal. Um dia, nós estávamos a pensar no que seriam os 20 anos da banda, que se completariam em 2023. Estávamos a falar que íamos fazer uns concertos para celebrar a data. E aí o Rui começou a brincar: “foda-se, vou matar a banda”. Naquele sentido de “esta merda já durou 20 anos, agora vou gorar isso, vou dar azar, mau olhado, agora que eu entrei, isto vai morrer”. Achei muita piada nisso e comecei a escrever algumas coisas sobre isto de ser uma banda. Nenhum de nós estudou música ou sabe ler uma pauta, às vezes não sabemos nem em que nota estamos.

Bruno Capelas: Nem o Rui?
André Henriques: O Rui até engana melhor, mas não sabe. A cena é esta: sempre tivemos bandas desde miúdos e nenhum de nós pensou que a banda ia comer uma porção tão grande da nossa vida, que 20 anos depois íamos estar a fazer música. De repente, quando isso acontece, é a altura de questionar. A mim, pareceu o momento ideal de questionar, num momento quase de autoflagelação, o que é isto de ser uma banda. Quando estou para finalizar a letra, lembrei-me de “A Banda”, do Chico. A letra estava quase toda feita, e de repente estou a escrever de uma banda. São 20 anos, vai ver a banda passar? A banda já passou. Já são velhos, e de repente aparece o Chico. Mas é sempre acidental. Por quê? Vocês sabem, lá em Portugal, nós ouvimos muita música brasileira. A geração dos nossos pais, a geração antes do 25 de Abril, ouvia muito o Chico, o Caetano, o Milton Nascimento, a lista é imensa. As minhas memórias de criança são estar em casa aos finais de semana e o meu pai pôr esses discos. Para nós, esses nomes são irmãos de Zeca Afonso, José Mário Branco ou Fausto. É igual, é geracional. Eles falavam da ditadura militar aqui e nós falávamos do Salazar lá, as coisas se comunicavam. É depois lá está, o Zeca Afonso aparece, o José Mário Branco aparece, e também o Chico, mas só nos percebemos no final que temos a sagrada trindade dos cantautores para nós.

Bruno Capelas: É uma referência interessante porque nenhuma banda tão barulhenta quanto o Linda Martini cita o Chico aqui no Brasil.
Cláudia Guerreiro: Mas é que em relação ao Brasil mesmo há muitas referências para nós.

Hélio Moraes: Há o “Caretano”. (risos).

Bruno Capelas: O Linda Martini tem 20 anos – e são 20 anos em que Portugal mudou muito, em altos e baixos. Crises, troikas, geringonças, uma série de mudanças. É claro que a banda não é primariamente uma banda política, mas como vocês enxergam a relação da banda com o país?
Cláudia Guerreiro: Acho que a banda agora reflete mais este aspecto, ou pelo menos tem uma tendência maior a isso neste momento da nossa vida. Se calhar, preocupam-nos mais coisas agora do que nos preocupavam há 20 anos. As pessoas têm filhos, ficam mais preocupadas, a ver o tempo passar, as tendências a mudar. Quando éramos putos, quando éramos mais novos, se calhar ainda vivíamos a vantagem de um pós-25 de Abril.

Bruno Capelas: E do Mercado Comum Europeu.
Cláudia Guerreiro: Sim, exato.

Hélio Morais: E o fascismo era uma coisa distante.

Cláudia Guerreiro: E o tempo já está a dar a volta, não é? Então agora, realmente, essas questões voltam numa altura em que se calhar, nós pensamos mais nelas. Já fizemos também tanta coisa que, passado tanto tempo, estávamos à procura de falar do que não dissemos – e a esta altura realmente há coisas diferentes, infelizmente.

André Henriques: É porque o tema toca a mais gente. O tema impele porque é transversal: aconteceu aqui, acontece nos Estados Unidos, em muitos países da Europa e em Portugal. Mas, por exemplo, se tu olhares um bocadinho para trás, nós nunca tivemos a preocupação premeditada de falar sobre o que se passa. Não há uma agenda. É porque as coisas são muito intuitivas. Como nós não temos a escola e não sabemos tocar de academia, também não temos a escola do pensamento erudito. Portanto, o que sai é o que tem de sair, é o que a música sugere. Durante muitos anos, trabalhei num emprego formal numa grande consultoria enquanto já fazia (parte d)a banda. Sentia-me completamente mastigado ao viver uma vida que não era a que eu queria. Aos finais de semana, dava shows e era incrível, mas depois tinha uma casa, tinha família, ia começar a ter filhos e havia aquela preocupação de ter que ganhar dinheiro. Sentia uma dissonância grande. E é por isso que muitas letras nossas falam do trabalho, de relações laborais. “Ratos”, “Farda Limpa”, “Cronófago”, tudo fala disto: de te sentires oprimido porque estás a trabalhar para alguém que fica com o teu dinheiro – o patrão, ou o Estado. E tu ficas a viver feito formiguinha porque tens que pagar a renda, tens que pagar a casa, tens que pôr comida na mesa. Temos muitas músicas que falam disso porque era uma coisa que eu vivia muito na pele. Não sentimos que um artista ou músico tem a obrigação de falar sobre um tema específico. Ele tem a obrigação de fazer a música que tem para fazer. Mas é inevitável tu não refletires o mundo que se passa à tua volta, especialmente se não vives numa bolha. O que se passa aqui, concordando com o que a Claudia disse, é que hoje temos um tema como tínhamos antes da Revolução [dos Cravos]. Hoje temos um tema que parece estar a juntar toda a gente, que está a perceber que a liberdade já não é o que era e pode não ser o que é daqui a dois anos. Vocês já viveram bem isso na pele. E de repente, isto junta toda a gente, isto impõe-se. Isto vai infiltrar-se, mesmo que tu não queiras, mesmo que tu estejas a fazer uma música de amor, um texto de amor sobre a tua namorada, o teu filho, a tua avó. Isso vai se infiltrar porque sentes isso. Nesse disco, mais do que nunca, os temas são mais explícitos – não por uma vontade nossa de fazer um disco político, mas é porque isso que estamos a sentir na pele.

Marcelo Costa: Tem uma coisa que eu queria saber. Quando o disco ficou pronto, como ele soou para vocês?
Hélio Morais: Um ótimo exemplo é quando eu ouvi o disco todo e depois mandei-lhes uma mensagem falando: “o disco é do caralho, mas não tem single, não vai tocar na rádio”. Aí o André, no dia seguinte, meio de zoeira, mandou uma música e disse: “já tem um single”. A gente achou que a estrutura era redondinha até demais. Mas quando você ouve a versão final de “Corações Rápidos”, que é a tal música, ela não tem nada de single. A gente colocou uma bigorna no começo da música, um barulho infernal. Ou seja: a coisa pode começar de um jeito, mas depois passa pelos filtros do quatro e já foi.

Rui Carvalho: A gente deixou um single na boca e depois destruiu. É uma música engraçada, porque primeiro nós conseguimos tirar tudo o que há de eletricidade ali, ficando quase uma música popular, da base tradicional portuguesa. E daquilo vai. É uma coisa de transformação.

Hélio Morais: O “Passa Montanhas” também vai ser sempre o primeiro disco do Rui. Ou seja, vai ser sempre ímpar. É a primeira vez que fizemos juntos. Já nos emocionamos várias vezes ao final de um disco, sempre achamos que é o melhor que já fizemos. Isso não é novidade. Mas esse tem um gosto especial porque é o primeiro com o Rui e a gente também queria ter essa sensação com ele – e havia medo de não termos essa sensação. A verdade é que quando a gente escutou o disco a primeira vez em seguida, na Catalunha, todos nós molharam os olhos. Uns numas músicas, outros noutras.

Claudia Guerreiro: A mim foi no “Assombro”.

Hélio Morais: A mim foi em “Uma Banda”, não sei o porquê. Porque é este lugar de questionamento do que a gente é.

Marcelo Costa: André, qual te emocionou mais?
André Henriques: O “Assombro” e o “Uma Banda”. Fiquei muito comovido com o disco todo e se calhar por isso, porque foi muito tempo. Nós não sabíamos o que ia acontecer. Estávamos com a mesma banda há tantos anos, e de repente entra o Rui? Era um momento de questionamento para nós. A ansiedade de não saber o que podia resultar. E quando tu ouves, vem aquela sensação de endorfinas, todo o suor abaixo, “foda-se”. Foi mesmo uma emoção muito grande.

Rui Carvalho: Fiquei muito emocionado. É uma emoção misturada com orgulho. Me emociono com “O Assombro”, claro. Mas também fiquei impressionado com “A Mão Como A Maré”, pela dinâmica, pela delicadeza de um disco de rock duro. Nós somos bem porcos a tocar ao vivo. Mas nesta música, conseguimos ter uma delicadeza que é mais típica do jazz ou de alguma coisa assim. O disco tem muitos momentos assim e emocionou-me essa delicadeza quando conseguimos acabar uma música, sendo que ela acaba numa porcalhice total, numa destruição total. Emociona-me o rock e o pesado. Acho que não é só a música bonita que tem essa capacidade de emocionar. A raiva, no sentido positivo de libertação, é uma coisa que me emociona – e o disco tem esses momentos.

Cláudia Guerreiro: Gosto muito do arco que o disco faz. Ele começa de uma maneira, com uma vida, e acaba quase com a mesma vida. Ele começa em baixo e acaba em baixo. São vários níveis de justiça.

Hélio Morais: Tem uma que me emociona muito também, que é “Às Vezes Perco-Me”. Eu fiquei com um orgulho do caralho do baixo da Claudia. A música começa com o baixo a ditar a melodia, com uma batida. Depois, a gente muda a batida e ela botou o mesmo baixo, são as mesmas notas, a mesma sequência, com um ritmo um pouco diferente. É algo que me dá orgulho: é a mesma coisa, mas é totalmente diferente. A gente se perde no meio da música e depois volta. Não sei explicar muito bem o porquê.

Rui Carvalho: É uma conversa confusa de pessoas que não sabem ler ou escrever música. Tivemos que nos orientar de quais eram as voltas para estarmos no ritmo no caminho, mas nos perdemos várias vezes. Essa música tem um nome muito adequado.

Cláudia Guerreiro: Pois, o nome da música vem disso: eu me perdia nas voltas e a certa altura disse: “às vezes perco-me”. O André agarrou nisso e construiu a letra à volta, é assim mesmo.

Bruno Capelas: É a primeira vez em muito tempo que o Linda Martini tem uma música de dez minutos – no caso, “A Mão Como A Maré”.
Cláudia Guerreiro: É a primeira.

Hélio Morais: Não é a primeira, mas é. A “Lição de Voo” tem mais tempo, mas tem uns quatro minutos só de ruído. Música do princípio ao fim, com a gente tocando, é a primeira.

Rui Carvalho: Mas para nós ela tem só cinco minutos, ela não tem dez minutos.

Cláudia Guerreiro: É uma música que tem um bom feeling de ter dez minutos.

Rui Carvalho: Dá muito gosto de tocar, é muito saborosa.

Bruno Capelas: Como é fazer uma música tão grande? É um statement? Ou só saiu assim?
Cláudia Guerreiro: Saiu assim. Como é o Pink Floyd: é a sensação de ter todo o tempo a fazer isso, tem-se todo o tempo no mundo. Quem quiser não ouvir, não ouve, mas isto é um bom jeito de tocar, para crescer, muito devagarinho.

André Henriques: Mas há uma coisa muito gira na cassete que nós gravamos, na fita. Essa música partiu de duas guitarras que eu e o Rui estávamos a tentar casar. Ele tinha uma coisa e eu estava a tocar uma coisa por cima, que aparece no meio da música. Nem sequer é o início, aparece lá no meio. Nós achamos que é o refrão, apesar de ser a única parte onde não canto. E há uma parte assim mais harmoniosa, mais bonita. Nessa primeira gravação, nós só tínhamos isso, coisa de uns 20 segundos. Era a ideia mais curta que tínhamos e foi a música mais longa. Agora, como chegamos lá? Não sei. Tínhamos aquele bocado e de repente, acho que quando voltamos para a sala de ensaios, começaste [Rui] com o início. E depois toda a gente foi tentando.

Rui Carvalho: Acho que nós já tínhamos falado, antes da residência, de tentar fazer alguma coisa assim. Eu era recente na banda, mas vi perfeitamente que eles não estavam presos a um conceito. Isso é espetacular numa banda que tem 20 anos. E falamos um bocado do Pink Floyd, de uma ideia que eles já tiveram várias vezes, de fazer uma coisa que fosse mais uma peça, embora ainda seja uma canção. Tínhamos a ideia de fazer algo assim, de começar quase do nada e depois derreter-se, diluir-se. Mas tínhamos esta ideia da delicadeza, de fazer alguma coisa que quase não se ouve. O que é engraçado de ter essa ideia, e a música acaba de ser feita porque tem essa delicadeza, que acho que o disco precisa.

Cláudia Guerreiro: Acho que gostamos muito de jogar com dinâmica. Muito embaixo, muito em cima. Tu [Rui], (na carreira) solo, também tens isso completamente.

Hélio Morais: O André a solo também tem muito.

Cláudia Guerreiro: Esta música é completamente sobre dinâmicas.

Rui Carvalho: E sobre interação com os outros.

Marcelo Costa: E não é um single. (risos)
André Henriques: Mas sabes que o nosso maior single, que nós tocamos ontem, não é um single. É o “Cem Metros Sereia”. Nunca tocou na rádio, nem em Portugal ou em país nenhum. Nunca teve um vídeo.

Bruno Capelas: Nem na Antena 3?
André Henriques: Nunca! Só em programas de autor, se calhar o Henrique Amaro deve ter tocado às 11 da noite. Mas nunca passou em rádio, teve airplay ou esteve em playlists.

Cláudia Guerreiro: E é o maior single.

André Henriques: E é só pela comunidade que nós juntamos à volta, as pessoas. Ontem vimos isso e foi isso que nos emocionou: de repente as pessoas estão a cantar uma música que tem só uma frase. É uma música longa, um bocado instrumental, e de repente tem uma frase que toda a gente agarra. E olha, agora que falei nisso do “Cem Metros Sereia”, eis aqui uma ligação ao Brasil que não é nada óbvia. Nos anos 1990, não sei se vocês têm essa noção, mas em Portugal parecia que era brega cantar em português. Por alguma razão, todas as bandas queriam cantar em inglês. Os palavrões até eram usados. Mas só havia dois usos: na música popular, quando se queria ser engraçado, ou então na música punk, mas naquele punk antigo, em que tudo parecia muito gratuito. Nunca ninguém usava o palavrão como nós estamos a falar aqui. Nós estamos juntos, já dizemos “foda-se” ou “caralho” trinta vezes, cem vezes. Parecia-nos sempre estranho porque isso não aparecia nas músicas. “Porque é que eu não digo foda-se numa música?” Lembrei dessa conversa porque o Caetano tem uma música que é o “Estou-Me A Vir”, acho que é do “Zii e Zie”. E ele deu uma entrevista nessa altura onde ele dizia que tinha estado em Portugal e tinha adorado a expressão “estou-me a vir”. Vocês dizem “gozar”, nós dizemos “estou me a vir”. E ele dizia que aquilo era mais parecido com o inglês – “I’m coming”. Pensei que aquilo era bonito e pensei porque não dizia aquilo numa música também. A ligação vem daí. Em “Nós, Os Outros”, veio “se me vier, espero te chegar”.

Bruno Capelas: É algo que um ouvinte brasileiro não percebe.
André Henriques: Mas lá também não, ninguém sabe isso que vem daí, só nós é que sabemos. Por isso que é giro falar contigo disso.

Bruno Capelas: “Só nós dois é que sabemos…”
André Henriques: (risos). Mas a cena é que de repente eu comecei a discutir isso. Não é gratuito, não vou procurar dizer “foda-se” numa música se ela não me levar para essa direção, mas se levar, por que não? E essa ideia do “foder é perto de amar” apareceu numa altura em que pensamos assim: vou dizer o que tiver que dizer. E pode ser “foda-se”, pode ser “caralho”, porque ser o que for. Isso vem do Brasil. O Caetano sempre teve uma linguagem mais aberta. Em Portugal, não tens isso. Não tens o Zé Mario Branco ou o Zeca Afonso a dizer “foda-se, caralho”. É o português correto, português padrão.

Cláudia Guerreiro: Era uma grande defesa à tua educação.

André Henriques: E o português era solene. E havia uma coisa que nos irritava: como durante muitos anos não se escreveu em português, quando as bandas começaram a cantar em português, toda a gente queria ser poeta. Queriam usar a palavra difícil, “tu tens que ir ao dicionário para perceber o que eu estou a dizer”. Não queríamos isso, queríamos escrever como estou a falar contigo.

Marcelo Costa: Tem alguma das músicas do disco tocando nas rádios em Portugal agora? E pergunto isso porque no Brasil não tem nenhuma banda que chegue ao nível de peso de vocês tocando nas rádios. Para nós, quando vocês falam de um single que vai tocar na rádio, isso é algo que não existe no Brasil.
Hélio Morais: Só tem uma rádio nacional que ainda toca um pouco a gente, que é a Antena 3. Cada disco sempre tem pelo menos uma música que entra nas playlists deles. Fora isso, só tem rádios mais locais, como a Radar, tinha a Super Bock, que terminou. A Vodafone FM passava indie e deixou de passar. No momento tem só a Antena 3 e a Radar, e a Radar é local.

Cláudia Guerreiro: Mas vocês têm muita música brasileira a passar na rádio.

Marcelo Costa: Mas em termos de rock, não.
Cláudia Guerreiro: Mas há uma produção gigante da música cá, que não se compara com a produção de música que nós temos lá. Há muita coisa que vocês podem passar na rádio antes de chegar aos indies.

Marcelo Costa: Mas pensa na primeira música do primeirodisco da Maria Beraldo (nota: que participaria do show do Linda Martini no Bar Alto). É uma música muito pop. Poderia tocar.
Hélio Morais: Mas é que provavelmente ela já está encaixada no indie.

Bruno Capelas: Mas a Maria Beraldo é uma cantora de música brasileira radical, que o ouvinte médio de música brasileira não alcança.
André Henriques: Mas a nossa história de rádio é muito curiosa, porque nós temos a sorte de ter um país muito pequeno. Não tem comparação com o Brasil nesse aspecto. E temos a sorte de ter a Antena 3, sendo uma rádio nacional com apoio do Estado e que tem uma curadoria que consiga encaixar alguma música portuguesa. Mas a verdade é que, por exemplo: no “Turbo Lento”, um dos singles foi a “Volta”. É, se calhar, das canções mais radiofônicas que já fizemos. É mais calma, não tem muita distorção, não tem gritos. E lembro que naquela altura, eu tinha uma amiga que trabalhava numa rádio mais comercial e a gravadora tentou fazer o pitch para a música entrar lá. E eles achavam barulhenta, eles achavam horrível. Ou seja, a percepção que nós temos, a percepção de quem consome música independente, é uma. Mas para o público em geral, o que estava a dizer com a Maria Beraldo, nem tudo é fácil, não é redondo. Nós nunca tivemos muita facilidade com as rádios mainstream. Tirando a Antena 3 e as rádios pequenas, de nicho, focadas no underground, nunca fomos uma banda de rádio.

Hélio Morais: Para vocês verem: a coisa menos redonda e pop que tocou alguma vez na rádio com mais audiência em Portugal é o Capitão Fausto. É a coisa mais indie que alguma vez tocou lá. E é redondinha também. Mas para a rádio mainstream, é uma coisa muito fora.

Bruno Capelas: Vocês estão juntos há 20 anos. Já houve algum momento em que vocês acharam que já disseram tudo o que tinham para dizer?
André Henriques: Vou te confessar uma coisa. Cada vez que acabo um disco com eles, sempre acho que não sei como fazer um disco depois. Quando vamos partir para um disco novo, sinto sempre essa ansiedade do que vou fazer, do que nós vamos fazer. Quando pego na guitarra, parece que tudo o que faço já soa como coisas que já fiz. Começo a escrever e as primeiras ideias, durante um ou dois meses, vão todas para o lixo. Fico frustrado porque parece que é tudo igual, porque se calhar já fiz e já toquei melhor. Não há nenhum disco em que não aconteça isso. Em todos, é uma luta interna muito grande. Mas depois que o trabalho em si começa a se formar, lembro que não é um trabalho sozinho, não é só o trabalho de uma pessoa. Sou eu com a minha insegurança, o Rui com a insegurança dele, os dois com as deles. E às vezes há um que puxa uma ideia, outro puxa outra e de repente as coisas são transformadas por quatro cabeças diferentes e ganhas uma segurança extra. “Ok, há ali uma cena, podemos ir por aqui”. Mas em todos os discos é um processo difícil, sinto mesmo uma angústia grande. Sempre que começo um disco, acho que não vou conseguir fazer. Digo que não sei como se faz uma música, um texto. E quando olho para o trabalho acabado, é estranho, porque parece que não fiz bem parte daquilo. E em certa medida não fiz, porque contribuí e dei meu cunho, mas no final aquilo é tão transformado e cresce tanto. Essa é a magia de ter um projeto como este, tão democrático no sentido da partilha de ideias. Tu nunca sentes que nada é inteiramente teu. Uma ideia que pode até partir de ti é tão transformada que de repente tu acabas te perguntando como fez aquilo. Não fui eu que fiz, é toda a gente. É um prédio.

Cláudia Guerreiro: [O Linda Martini] não é aquela banda em que tu chegas e digas que esta música fui eu quem fiz. Não: por mais que haja músicas que são mais um ou outro, é uma coisa completamente diferente.

Marcelo Costa: E vocês estão prontos para mais 20 anos juntos?
Hélio Morais: Se a saúde permitir.

Rui Carvalho: 60 anos.

Marcelo Costa: Pô, os Stones estão há aí há mais de sessenta.
Hélio Morais: Mas eles já botaram sangue novo.

Marcelo Costa: [aponta para Rui] Mas temos um sangue novo aqui.
Rui Carvalho: Eu vou ficar o mais velhinho da banda!

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie, na Eldorado FM, e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Ana Viotti / Divulgação

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