Cinema: O terror argentino “1978” é rico em gore, ideias promissoras e deslizes

texto de Davi Caro

A Copa do Mundo de 1978 é um marco na história da Argentina por uma série de razões. Entre as mais emblemáticas estão, em primeiro lugar óbvio, por ter se encerrado como o primeiro campeonato mundial conquistado pelos anfitriões, que venceram a Holanda na final por um placar de 3 a 1. E segundo como exercício de uma tentativa de mascarar os horrores que a Ditadura Militar, presidida pelo General Jorge Rafael Videla, vinha promovendo no país desde 1976.

Entre abduções, interrogatórios, torturas, assassinatos e desaparecimentos que vitimaram quase 10 mil pessoas em uma tentativa de suprimir supostas iniciativas comunistas, a imprensa e os órgãos humanitários internacionais começaram a prestar atenção. A realização do evento, portanto, poderia servir como uma distração da realidade brutal pela qual a população, oprimida, passava então: foram instalados centenas de centros de detenção e tortura clandestinos ao longo de diferentes cidades, onde assassinatos e abusos físicos e psicológicos eram rotina.

Este é o momento histórico onde se situa “1978”, filme dirigido pelos irmãos Luciano e Nicolas Onetti, distribuído pela produtora Black Mandala e originalmente lançado em 2024. Construído a partir de um roteiro de autoria dos dois diretores, o longa, que agora chega ao streaming via HBO Max, transita entre um lado mais politizado – que é mais do que oportuno dado o momento que o mundo atravessa atualmente – e outro fixado no body horror recheado de vísceras, remetendo a grandes obras de John Carpenter e Dario Argento. Com um argumento interessante, o filme mira em um aprofundamento da trama, por si só enriquecido com o contexto histórico que retrata, e almeja, assim, certa validação da violência gráfica propagada na tela. E o longa atinge seus objetivos, mesmo que não sem ressalvas.

Um grupo de torturadores em plantão se entretém assistindo a final da Copa, jogando truco e encarando como uma mera inconveniência as sessões brutais de tortura que realizam em indivíduos indefesos. Quando um desses militares, Moro (Mario Alarcon), obtém, durante o questionamento particularmente impiedoso de um jovem, a informação de um local que abrigaria uma organização rebelde que buscavam, um grupo, que inclui o relutante Miguel (Agustín Olcense) apreende de forma violenta cerca de meia dúzia de jovens, entre os quais uma jovem grávida chamada Irene (Paula Silva).

Os bárbaros interrogatórios dos novos prisioneiros, no entanto, revelam que os “revolucionários” aprisionados pelos torturadores não são o que pareciam ser: com tatuagens em vermelho-sangue, e portando objetos que incluem obscuros livros e uma adaga, o grupo se revela como membros de um culto, com objetivos misteriosos que são diretamente conectados à criança que Irene carrega no ventre. Assim, os sanguinários oficiais, bem como outros prisioneiros, se veem diante de um ritual macabro do qual precisam lutar contra o tempo para escapar com suas vidas – e seus espíritos – intactos.

Desde a primeira tomada, com uma já mencionada partida de truco, é fácil lembrar de uma outra ambiciosa produção recente realizada em terras argentinas: afinal, o aclamado “O Eternauta” também se usa deste elemento narrativo para estabelecer as dinâmicas entre os personagens centrais. A tensão vista em “1978”, na verdade, é uma subversão completa do enredo elaborado no quadrinho de Oesterheld e Solano López: a deturpação dos torturadores mostrados aqui faz torcer para que não demore tempo para ver o sangue jorrar. Neste sentido, o elenco encara, e muito bem, a tarefa de encarnar figuras tão repugnantes e merecedoras de ódio – sobretudo o ator Carlos Portaluppi, que interpreta o vil policial Carrancho.

Se “1978” tem um protagonista, este é o Miguel de Agustín Olcense. Os esforços em estabelecer uma narrativa paralela que une o passado do personagem com o tormento que presencia no presente, porém, parecem muitas vezes apressados e dignos de um desenvolvimento mais cuidadoso no roteiro. Já o prisioneiro Hugo (Augusto Pardella) não ganha tempo de tela suficiente para que o único elemento digno de empatia em cena consiga despertar uma conexão mais real da parte do espectador. O mesmo se pode dizer de muitos dos coadjuvantes, que incluem um displicente e asqueroso médico que se recusa a dar atenção a uma Irene iminentemente grávida, com a desculpa de odiar o que ele chama de “gente imunda”. Mesmo assim, o fim dado ao personagem, que poderia guardar oportunidades de aprofundarem o subtexto político e humanitário da trama, é brusco, anti-climático e carecedor de mais atenção.

Se o desenvolvimento dos personagens é atravancado, o mesmo não se pode dizer do apreço visual do filme. A cinematografia não poupa esforços em apresentar cenas sanguinolentas com frequência, e o uso de efeitos práticos definitivamente conta a favor. Determinados pontos do filme, no entanto, tem efeitos de edição onde cortes (muito) rápidos acabam desorientando a audiência. É algo que não chega a prejudicar a experiência, mas que poderia valorizar mais as boas locações, claustrofóbicas na medida certa. O contexto histórico, embora apareça com mais ênfase em determinados pontos, fica longe de ser fundamental no decorrer da trama, ao ponto de muitas vezes não fazer qualquer tipo de diferença.

Visto como um todo, “1978” é uma boa ideia levada a cabo por uma produção que, por muito pouco, se mostra aquém do conceito que tenta abarcar. Existem, sim, muitos pontos positivos a se considerarem aqui – tanto a montagem e a cinematografia quanto o próprio enredo principais são promissores desde o início – ainda que o filme permaneça como uma promessa para algo muito maior. Seu análogo mais próximo, talvez, seja o longa brasileiro “Skull: A Máscara de Anhangá” (2020); ambas são produções dotadas de enredos capazes de prender a atenção mesmo do mais casual dos cinéfilos (além de um senso de terror visceral desenfreado que remete a grandes clássicos do gênero) e acabam se deparando com alguns percalços que, se não arruínam totalmente a experiência – e são definitivamente dignos da atenção de audiências maiores – levantam questões sobre o que poderia ser alcançado com um pouco mais de tempo, e de esmero.

“1978” pode não estar à altura de um clássico moderno como o impecável (e também argentino) “O Mal Que Nos Habita” (2023). Mesmo assim, não deixa de ser reconfortante saber que há boas ideias sendo desenvolvidas na sétima arte latino-americana, a medida que tomamos conhecimento de nossa história e vemos mãos talentosas e comprometidas ilustrarem não só as formas mais surreais do horror fantasioso, como também ameaças ainda mais tenebrosas, aterrorizantes e que, igualmente, não deveriam existir. Mesmo sendo muito, muito mais reais.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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