17º In-Edit Brasil: “Veraneio: Uma Antologia Negra” revisita o legado de Seu Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil

texto de Renan Guerra

Em 2003, quando pesquisava para o livro “Todo DJ Já Sambou”, a jornalista Cláudia Assef se deparou com a história de Osvaldo Pereira. Fascinado pelo rádio desde pequeno, Osvaldo fez um curso sobre técnicas de rádio por correspondência e foi trabalhar como técnico de som. Pesquisador atento, Osvaldo criou seu próprio equipamento de som em 1958. Numa época de bailes com orquestras a altos preços, o profissional criou um meio de gerar entradas mais baratas: ele usava seu equipamento para tocar discos e animar os bailes. Mas havia um charme especial: seu Osvaldo tocava a primeira metade do baile escondido no palco, atrás das cortinas, e só depois elas se abriam, revelando seu maquinário especial. Ele se classificava como um discotecário e seu equipamento técnico era chamado de “A Orquestra Invisível”.

Seu Osvaldo tocou com sua Orquestra Invisível Let’s Dance entre 1958 e 1968, quando resolveu se aposentar dos toca-discos e focar na profissão de técnico de rádio. Nos anos 2000, com a redescoberta da história de Seu Osvaldo e a chancela do livro de Assef, o artista passou a ser oficialmente compreendido como o primeiro DJ de que se há registro no Brasil. Sendo assim, ele acabou voltando para as pistas dos bailes e sua trajetória acabou inspirando sua própria família. Essa história é registrada no documentário “Veraneio: Uma Antologia Negra” (2025), de Nalu Silva, que conta como as memórias de Seu Osvaldo incentivaram seu filho e seu neto, Dinho e Jean Pereira, a criarem a festa Veraneio, um evento que celebra a história dos “discotecários” brasileiros e que mantém vivo o legado de Seu Osvaldo e da família Pereira.

O encontro do presente, passado e futuro é o que cria a espinha dorsal do filme de Nalu Silva, numa narrativa que conta a história de uma família negra fruto de uma São Paulo dançante e criativa. A partir da história de Seu Osvaldo, o filme faz interessantes paralelos sobre música e festa com as possibilidades de sociabilidade para as populações negras no século XX e XXI em São Paulo, sejam os bailes black durante a Ditadura Militar ou as festas que celebram as discotecagens em vinil pelo centro da capital paulista nos anos 2010. É uma costura rica que compreende tanto uma bela história familiar de carinho e amor pela música quanto uma narrativa mais ampla sobre o coletivo que a pista de dança pode gerar para os corpos à margem. Entender os bailes como um espaço de celebração da negritude, da alegria e do poder da comunidade é algo fundamental.

“Veraneio: Uma Antologia Negra” se desenha a partir da narrativa de três gerações da família Pereira: Osvaldo, Dinho, Jean. Três homens negros com três experiências distintas com a música e com a pista de dança e que se entendem em suas semelhanças e que se celebram e trocam em suas diferenças. A possibilidade de celebrar essa trajetória geracional é uma das grandes belezas do filme de Nalu Silva, que consegue captar com delicadeza a última discotecagem de Seu Osvaldo. Esse último encontro do discotecário com a pista de dança aconteceu no topo do Edifício Martinelli, espaço icônico do centro de São Paulo, e local que foi pista de muitos dos bailes da Orquestra Invisível Let’s Dance lá nos anos 1950 e 1960. Foi o fechamento de um ciclo, um reencontro de Seu Osvaldo com um espaço fundamental de sua história.

Delicado e envolvente, “Veraneio: Uma Antologia Negra” é um vislumbre de memórias familiares, é um construir de novas narrativas sobre as memórias negras no Brasil e é a possibilidade de nos conectarmos mais uma vez com o poder congregador da música.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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