Entrevista: Bob Mould fala sobre novo disco solo, o legado do Hüsker Dü, Trump e shows no Brasil

entrevista de Luiz Mazetto

Mais conhecido por seu trabalho com o Hüsker Dü, uma das mais importantes e influentes bandas do hardcore dos anos 1980 nos EUA, o vocalista e guitarrista Robert Arthur Mould, ou Bob Mould, possui uma discografia que passa de 20 álbuns, incluindo os seis clássicos com o histórico power trio de Minnesota, dois discos marcantes e de grande popularidade com o Sugar nos anos 1990, um disco colaborativo com Richard Morel e uma extensa e marcante carreira solo, que acaba de chegar ao seu lançamento de número 14 com o intenso e interessante “Here We Go Crazy” (2025).

Em seu mais recente disco, o sexto ao lado do baixista Jason Narducy e do baterista Jon Wurster, o músico de quase 65 anos de idade (a serem completados em outubro) continua fazendo o que sabe de melhor: uma mistura altamente inspirada de punk/hardcore com melodias mais pop e letras interessantes, que se intercalam de maneira fluida e natural ao longo de 11 músicas espalhadas por cerca de 30 minutos de boa música, com destaque para a solar faixa-título, as intensas “Neanderthal” e “Hard to Get”, a grudenta “When Your Heart is Broken” e a bela “Lost or Stolen”.

Na entrevista abaixo, feita por telefone no final de maio após uma série de shows pelos EUA, um simpático e disposto Mould falou sobre o processo de criação do seu mais recente trabalho e como ele pode ser comparado com seus trabalhos anteriores, discorreu sobre a situação dos EUA sob um novo mandato de Trump e como foi ver seu nome associado ao candidato a vice democrata derrotado, o ex-governador de Minessota, Tim Walz, que se disse fã do Hüsker Dü, relembrou sua (até agora) única passagem pelo Brasil, em 2013, revelou como o início precoce como compositor, aos 9 anos, ainda influencia a sua forma de escrever, e contou quais discos mudaram a sua vida.

Vi os setlists da sua turnê atual e notei que os dois últimos discos dominam a maior parte do repertório, junto com músicas do Hüsker Dü. Queria saber se você acha que dá pra estabelecer algum tipo de conexão entre esses dois últimos álbuns e aquele material mais antigo — não só sonoramente, mas também em relação ao momento do mundo: os anos 1980 e agora, com a segunda administração Trump e o estado atual das coisas.
Bom, acho que tudo soa como “eu”. Então, você está certo. Na turnê atual, temos nos concentrado nos seis álbuns que fizemos juntos com essa formação (Nota: desde “Silver Age”, de 2012). O restante do set, geralmente seis ou sete músicas, são do Hüsker Dü, com músicas que escrevi para a banda. E, respondendo mais diretamente à sua pergunta se tudo é intencionalmente político ou voltado para alguma direção… Por exemplo, “Silver Age” (2012), “Beauty & Ruin” (2014), “Patch the Sky” (2016) e “Sunshine Rock” (2019) não são discos exatamente políticos. “Sunshine Rock” tem alguma coisa nesse sentido, mas ninguém percebeu — então ficou por isso mesmo. Mas em 2020, “Blue Hearts” foi claramente um disco de protesto contra a administração Trump. Eu tentei criar uma analogia com o primeiro mandato do governo (Ronald) Reagan e a marginalização e opressão que senti no início dos anos 1980 — emoções que acho que muita gente compartilhava na cena underground naquela época. Então, sim, isso é um fato bastante claro. Já “Here We Go Crazy” (2025), meu disco mais recente, não tem muito protesto político explícito. É um álbum mais pessoal, com um olhar mais observacional. Em termos de som, acho que qualquer coisa que eu faça com uma guitarra com distorção e volume altos será bastante reconhecível (risos). Uma resposta longa para a sua pergunta, mas acho que é isso.

Sobre o novo disco: ele tem músicas bem fortes, assim como “Blue Hearts”, mas o que mais me chamou atenção foi a produção, ele soa mais grandioso. Você gravou em Chicago, no Electrical Audio Studio (famoso estúdio de Steve Albini). Já pensava desde o início, durante o processo de composição, que essas músicas pediam um som “maior” para fazer justiça ao que você queria expressar?
Obrigado pelo elogio sobre as músicas! É engraçado porque esse disco tem muito menos coisas acontecendo. Acho que é um exemplo clássico de como, quanto menos coisas você coloca em termos de ferramentas sonoras, maior será o resultado final. Em termos de produção, esse é o álbum mais simples que fiz em muito tempo. É menos complicado que “Blue Hearts”, e com certeza tem muito menos elementos do que “Sunshine Rock”, que era cheio de orquestrações, sintetizadores, várias guitarras e camadas de amplificadores grandes… Este disco novo tem amplificadores pequenos, normalmente duas guitarras ao mesmo tempo — às vezes uma terceira para o solo. E não tem quase nada de material sintético, tem uns sintetizadores analógicos, mas muito pouco – nada de sintetizadores digitais. Foi uma decisão consciente, tomada ainda no processo de composição. Eu costumo fazer demos bem elaboradas antes de gravar, mas nesse disco fiz demos bem mais simples. Meus colegas de banda estavam preocupados com a gravação chegando, perguntando: “Cadê os demos?”. E eu falei: “Fiquem tranquilos, vocês já conhecem essas músicas”. Quando mandei as demos, bem básicas, dez dias antes da gravação, eles ouviram e disseram: “É, você estava certo” (risos). É um disco bastante simples, demorou pra ser escrito, mas é muito mais enxuto que os cinco anteriores.

Na segunda música do disco, “Neanderthal”, você fala sobre dificuldades da sua infância. E na sua biografia (“See a Little Light”, de 2013, escrita em parceria com o jornalista Michael Azerrad), você comenta sobre os singles que seu pai levava pra casa — Beatles, The Monkees, etc — e como começou a escrever músicas ainda muito novo, com nove anos. Esse jeito mais direto e simples de compor, como em “When Your Heart Is Broken”, outra do novo disco, que é quase uma música pop nesse sentido, ainda tem a ver com aquele garoto de nove anos escrevendo canções?
Bom, é aí que o DNA da minha forma de compor foi definido, sabe? Ouvindo música pop dos anos 1960, ouvindo música no rádio AM, ouvindo Motown. Sim, esse tipo de coisa… é como livros infantis. Quando somos crianças, lemos, ouvimos, aprendemos – e não temos nada na cabeça além daquilo que absorvemos. E essas coisas, quando acontecem cedo na vida, moldam tudo o que fazemos. Então sim, esse tipo de música estabeleceu as bases para a minha forma de compor. E… estou tentando pensar em como dizer isso. Acho que o que você está me perguntando é se eu realmente volto a isso conscientemente. Na verdade, isso faz parte de quem eu sou. Talvez eu possa te dar um bom exemplo, não deste disco, mas de uma forma como eu conscientemente voltei a essas referências. No disco “Beauty and Ruin” tem uma música chamada “I Don’t Know You Anymore”. O riff, a melodia e a estrutura dela são bem simples – uma estrutura clássica do pop. E, quando a música chega àquela queda rápida, e depois emenda em múltiplos refrões até o fade out, eu já sabia que esse seria o jeito de encerrá-la. Mas eu pensei: “Como manter isso interessante?” Daí eu me lembrei de um grupo pop dos anos 1960 chamado The Association. Eles tinham uma música chamada “Windy”. E se você voltar e ouvir “Windy”, e prestar atenção em como ela termina — na repetição do refrão, mas com mais e mais elementos melódicos sendo adicionados conforme a música vai desaparecendo — é exatamente esse tipo de fade out que usei. Só fui empilhando coisas, sabe? Então é um exemplo bem direto em que eu pensei: “Como posso deixar esse fade out interessante? Ah, eu lembro daquela música da minha infância com um final que me marcou. Deixa eu voltar nela, estudar com lupa, ver o que posso aproveitar e aplicar no que eu estou fazendo”. Esse seria um exemplo literal para a sua pergunta.

Espiritualmente, não. Eu simplesmente escrevo discos. A menos que eu comece com a ideia de escrever algo com uma estrutura externa, tipo uma ópera dos três vinténs ou algo shakespeariano, o que não é meu caso – eu simplesmente costumo compor canções. E, quando surge uma música que não sai da minha cabeça por semanas ou meses, geralmente é ali que começa a criação do álbum que você vai ouvir. Essa música vira uma espécie de totem, um ponto de partida, e então começo a escrever outras que possam se construir a partir dela, complementá-la ou se encaixar no que eu considero a estrutura de um bom álbum pop. A forma de introduzir um álbum, de apresentar os personagens, de passar do fim do lado A para o começo do lado B, e de como encerrar o disco… o ritmo, a narrativa, como manter alguém interessado por 35 minutos, tudo isso entra nesse processo. As músicas que vêm depois da primeira geralmente já nascem com um lugar certo dentro da estrutura do álbum. E isso eu aprendi ouvindo singles e álbuns dos anos 1960 e 70. Essa fórmula, sinceramente, não mudou muito.

Você ainda pensa nos seus álbuns como “lado A” e “lado B”, no sentido de ter essa mudança de ritmo ou de espírito, vamos dizer, entre as duas partes do disco?
Bom, sim, quero dizer, teoricamente, se todo mundo estivesse ouvindo vinil e me escutando dessa forma, o ponto-chave seria: como você encerra o lado A? Porque existe aquela pausa — o momento em que a pessoa se levanta, coloca a capa do disco e a folha com as letras de lado, vai até a vitrola, levanta o braço do toca-discos, vira o vinil, e coloca a agulha de novo no início do lado B. Então, nos velhos tempos, esse era um momento em que você tinha muito controle sobre a narrativa. Era uma pausa real, não é alguém apertando “pular faixa” no iPhone (risos). É algo concreto, quase como no teatro. Há esse momento em que todo mundo dá uma pausa, e você pode reiniciar a história, redefinir a atmosfera. No caso desse disco, “Fur Mink Augurs” encerra o lado A. E é… é uma cacofonia, tem um solo de bateria, é provavelmente a faixa mais produzida do álbum, porque tentei criar esse tipo de tornado de ideias, imagens abstratas, sons improvisados. E aí, quando tudo isso para, a sequência é uma canção acústica bem minimalista… esse é exatamente o momento que eu descrevi para você. É quando eu posso redefinir a narrativa, posso redefinir as emoções. E isso me dá um novo ponto de partida para continuar o álbum.

Este ano e o ano passado marcaram os 40 anos de três álbuns muito importantes do Hüsker Dü: “Zen Arcade” (1984), “New Day Rising” (1985) e “Flip Your Wig” (1985). Quando vocês estavam escrevendo esses discos, imaginava que, 40 anos depois, ainda estariam sendo celebrados — inclusive sendo mencionados em uma campanha presidencial nos EUA, como aconteceu com Tim Walz (governador de Minessotta, estado natal do Husker Du, e candidato a vice-presidente na chapa com Kamala Harris em 2024) e Beto O’Rourke (ex-deputado e candidato ao governo do Texas em 2022) no ano passado?
Quando eu estava trabalhando na música e depois, eventualmente, escrevendo as letras que viriam a se tornar “Zen Arcade”, acho que a gente sabia que tinha algo diferente ali (nota: o baixista Greg Norton disse praticamente a mesma coisa ao Scream & Yell). Mas não acho que… Aos 23 anos, acho que eu estava mais preocupado em conseguir chegar vivo aos 30, do jeito que eu vivia naquela época. Então, não, acho que não pensava nisso. A gente sabia que estava fazendo algo fora do comum, mas não acho que alguém, com aquela idade, realmente… Eu, pelo menos, não pensava que aquilo sobreviveria, que passaria nesse primeiro teste do tempo.

E como você mencionou sobre o Walz e o Beto… (Nota: Suspira profundamente antes de voltar a falar) É realmente uma pena o que aconteceu nos Estados Unidos em novembro de 2024. Considere isso: eu passei a minha vida inteira com ideias, valores e formas de viver. E sigo meu trabalho, junto a colegas, com o mundo da música de modo geral. Tento fazer o certo, tento compartilhar o que acredito serem boas ideias sobre como viver neste planeta. E aí, no ano passado, acontece esse momento em que o Beto O’Rourke e o Tim Walz saem para correr juntos e acabam conversando sobre cultura, artes e o jeito americano de contar histórias – e eu acabo fazendo parte dessa conversa. Com alguém que pode estar à beira de receber um enorme poder, concedido pelo povo americano. E pra mim, aquilo não foi: “Uau, eu fui mencionado” (risos).

O que eu senti foi: “Todo esse trabalho que eu fiz, e que milhares de pessoas como eu fizeram, chegou aos ouvidos de alguém que talvez tenha o poder de influenciar a direção do futuro do mundo”. Então, esse é um cenário cheio de esperança, foi algo que me fez realmente pensar: “Caramba, talvez… talvez essa mensagem tenha sido ouvida. Talvez essa seja a nossa hora. Talvez tudo aquilo em que acreditei a vida inteira possa mesmo se realizar”. Infelizmente, o que vimos até agora neste ano mostra que nada disso vai acontecer. Então é muito mais do que: “Ah, eu saí na imprensa ao lado do candidato à vice-presidência”. Não era isso que eu estava pensando (risos). Por um instante, eu senti que talvez eu tivesse algum tipo de poder de ação no mundo. E… não foi assim que as coisas aconteceram. Mas, sabe… a vida continua.

Você veio ao Brasil há mais de 10 anos para fazer alguns shows. Você tocou duas vezes em São Paulo e uma no Rio de Janeiro em 2013. O que você lembra dessa viagem, teve algo que chamou sua atenção durante a visita?
Foi incrível. Quando vou pela primeira vez para qualquer lugar, eu tento prestar atenção às nuances e aos pequenos detalhes, ao ambiente, à cultura. Para entender como são as coisas. Os shows em São Paulo foram ótimos, o local era excelente (Nota: os shows na cidade foram no Sesc Pompeia). Lembro que, assim que chegamos, os produtores nos buscaram, nos levaram para o hotel e nos disseram: “Está vendo aquele shopping ali? Você pode ir até lá. Fora isso, é melhor ir com alguém, porque pode se perder”. Você me entende, eles estavam sendo protetores com o artista, claro, tentando garantir que nada aconteça ou que as coisas se compliquem. Foi um pouco como se estivéssemos “presos”. Ainda assim, pude conversar com pessoas, sair pra jantar, observar como as pessoas se comunicavam, como compartilhavam os espaços públicos, esses tipos de coisas. Pareceu um lugar realmente ótimo. No caminho do aeroporto para o hotel, pude ver uma enorme desigualdade na vida brasileira, isso foi algo que ficou muito evidente de forma imediata. Mas o meu trabalho é meio que ver, ouvir e aprender, sem chegar com qualquer ideia, somente absorver. Tudo foi muito fascinante. Nós também tocamos no Rio, que tinha uma vibe totalmente diferente de São Paulo. É meio que um lugar lindo e uma festa linda, talvez a desigualdade não fosse tão evidente. Mas definitivamente me senti mais como um turista de férias de certa forma (risos). Senti como se tivesse que ficar mais atento. Eu saí sozinho no Rio e depois de alguns minutos foi algo como “Ok, eu entendo, estou chamando a atenção” (risos). Esse tipo de coisa, já viajei um pouco ao longo da minha vida. Mas, no geral, as pessoas foram incríveis: muito calorosas, carinhosas. Foi ótimo poder tocar e compartilhar minha música nos shows. Mas é esse é o sociólogo dentro de mim, que sempre tenta observar e aprender, comparar com outras experiências e entender o que realmente está acontecendo, tipo “O que é isso? Qual a minha percepção do Brasil? E o que realmente está acontecendo aqui?”. E o contraste social foi o que mais saltou aos olhos. Você sai do aeroporto que é muito limpo e seguro e começa a andar no carro e pensa “Oh, Meu deus”.

Sim, isso ainda é uma realidade por aqui, infelizmente.
Pois é. Acho que agora os EUA estão começando a entrar nessa mesma lógica. Temos divisões muito claras, sempre tivemos, de muitas formas diferentes. É como mencionei antes, quando falamos sobre o Tim Walz, é esse tipo de coisa – artistas e escritores percebem isso muito rápido. E agora estamos vendo o que acontece quando um governo tenta silenciar essas vozes. Nós estamos vivendo isso agora, não é uma aula que estamos tendo na faculdade (risos). Estamos realmente vivendo isso. Mas esse é o trabalho, é a minha missão, é o que é.

Essa é a minha última pergunta: me diga três discos que mudaram sua vida e por quê? Sei que é impossível escolher só três, mas…
“Revolver” (1966), dos Beatles. O primeiro dos Ramones…(Nota: lançado em 1976). Estou tentando pensar em outro. Vou com o “Loveless” (1991), do My Bloody Valentine. Só pra gente cobrir diferentes fases na linha do tempo (risos).

É uma lista excelente.
Pois é. Difícil de bater (risos).

Muito obrigado pelo seu tempo, Bob. Espero te ver no Brasil em breve.
Estou esperançoso que algo vai acontecer nos próximos anos. Eu e a banda nos divertimos muito em 2013, o público foi incrível e espero que algo se concretize em breve. E te agradeço por reservar um tempo para conversar comigo. Foi muito legal!

Leia também: Bob Mould em um papo animado sobre Hüsker Dü, Sugar e carreira solo (2013)

–  Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud! 

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