Buzzcocks em Porto Alegre: uma aula com lições do punk rock ao power pop

texto de Homero Pivotto Jr.
fotos de Giovanni Maglia

O Buzzcocks surgiu durante a efervescência do punk inglês, mas não pode restringir-se ao estilo que promoveu uma revolução cultural por meio dos três acordes. O quarteto de Manchester é, em essência, um representante do power pop que construiu o próprio nome em cima de melodias cantoraláveis e refrães ganchudos. Elementos do punk rock (ênfase no rock), principalmente o 77 (uma referência a 1977, ano emblemático para o estilo), fazem parte do som da banda – como a urgência, a simplicidade e a energia. Contudo, não o resumem. E isso fica claro ao vivo. Foi o que se testemunhou na última terça-feira (27), no Bar Opinião, em Porto Alegre. Tendo à frente o veterano de disposição juvenil Steve Diggle (70 anos), único integrante da formação clássica, o grupo britânico desfilou hits numa performance entrosada e com doses de barulho pop que durou cerca de 1h50min.

Desde que foi criado, em 1976, pelo hoje finado guitarrista e cantor Pete Shelley e pelo então vocalista Howard Devoto – que depois formou o Magazine – o Buzzcocks apostou na melodia. Além da musicalidade bem trabalhada e mais acessível dentro do punk rock, o grupo também trouxe outros diferenciais. Esteticamente, carrega referências da subcultura mod, fugindo da imagem desleixada e com roupas rasgadas.

Na parte lírica, aborda sentimentos e preocupações adolescentes (considerando-se a fase antiga) em vez de protesto e contestação. Assim, tornou-se influência para uma gama de artistas indie e/ou inclinados ao pop. O EP de estreia da banda, “Spiral Scratch” – com Devoto ao microfone, Shelley só tocando guitarra e Diggle com a função das quatro cordas graves – é um dos primeiros lançamentos de punk rock no Reino Unido. O registro veio ao mundo em janeiro de 1977, sendo precedido pelo single ‘New Rose’, do The Damned.

Assistir ao conjunto inglês em ação é perceber que ali estão muitos elementos que ajudaram a moldar o britpop – como bem pontuou o camarada Rust Costa, da banda Prov!dence e um dos músicos que acompanha Wander Wildner, ao fim da apresentação. Em cena, o único elemento decorativo era uma bandeira do Brasil sobre os amplificadores de guitarra usados por Diggle. De resto, palco limpo, somente com o equipamento necessário para projetar o som dos instrumentos. Com pouco mais de 30 minutos de atraso, a atração principal da noite deu as caras. Diggle, vestindo camisa polo Fred Perry branca, entrou com um pandeiro na mão puxando o tradicional coro futebolístico “olê, olê, olê”. Jogo ganho!

Distribuindo simpatia, o artista – que entrou para o Buzzcocks como baixista, logo foi alçado a guitarrista e, com a morte do cantor Pete Shelley em 2018, acumulou ainda o posto de vocalista – agradeceu ao público diversas vezes. Nitidamente, o cara estafa feliz de estar ali tocando. Atuando como maestro, o frontman teve a companhia do guitarrista Mani Perazzoli e da azeitada cozinha formada por Danny Farrant (bateria) e Chris Remington (baixo).

O repertório abriu com quatro singles lançados ainda na década de 1970: ‘What Do I Get?’, ‘Harmony in My Head’, ‘I Don’t Mind’ e ‘Everybody’s Happy Nowadays’ – sendo que, no segundo som aqui listado, Diggle mostrou que também se dá bem com o lado ruidoso da guitarra. Na sequência, a instigante ‘Senses Out of Control’, do mais recente álbum “Sonics in the Soul” (2022). Em seguida, ‘Fast Cars’, ‘Sick City Sometimes’ (originalmente cantada pelo próprio Diggle no disco que leva o nome da banda, de 2003), ‘Isolation’ e ‘Autonomy’. A poderosa ‘Bad Dreams’ deu seguimento, reforçando in loco que o disco mais atual do Buzzcocks é uma baita obra. Depois, foi a vez de ‘Why Can’t I Touch It?’, ‘Destination Zero’, ‘Love You More’. Fechando a primeira parte do set, o clássico ‘Orgasm Addict’ e ‘Manchester Rain’, outra da fase atual.

Ao sair para o curto intervalo entre os dois atos do espetáculo, Diggle deixou a guitarra soando, provocando minutos de microfonia que fizeram alguns presentes levarem as mãos aos ouvidos para reduzir a perturbação.

Diggle abriu o bis com uma versão de ‘Love is Lies’ somente no violão e voz. A sequência teve ‘Why She’s a Girl From the Chainstore’, ‘Just Got to Let It Go’, ‘Boredom’, ‘Chasing Rainbows / Modern Times’ (com direito a trecho acelerado, de pegada punk, ao fim), ‘Third Dimension’, ‘Gotta Get Better’ e o hino atemporal ‘Ever Fallen in Love (With Someone You Shouldn’t’ve)’.

Encerrando com a humildade dos verdadeiros gentlemen, Diggle intensificou os cumprimentos com os fãs colados ao palco, retomou os “olês” e, novamente, deixou a microfonia soar. A impressão é que as ótimas composições do Buzzcocks ganham ainda mais potência ao vivo, com execuções precisas que fazem temas aparentemente simples tornaram-se grandiosos.

O quarteto paulista Treva (foto acima) abriu os três shows que o Buzzcocks fez no Brasil em 2025 (São Paulo, Curitiba e Porto Alegre). Com um som calcado no punk’n’roll com elementos do blues, que remete a bandas como Social Distortion, o grupo divulga canções de seu álbum de estreia “Em Própria Razão” (2023). Entre os integrantes, estão Felipe Ribeiro (guitarra e voz) e Eduardo Moratori (baixo), ambos ex-membros da banda de metalcore carioca Confronto. Durante o show na capital gaúcha, Felipe agradeceu reiteradas vezes ao público e a quem trabalha em eventos – talvez por ele mesmo ser um operário do showbusiness e saber a importância que tem a galera da graxa.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

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