Oscar 2025: um dia as campanhas deste ano vão virar filme (ou, no mínimo, minissérie do Ryan Murphy)

texto de Alexandre Inagaki

Sexo! Memes! Escândalos bombásticos! Postagens racistas, islamofóbicas e falando mal das vidas alheias! Sejam bem-vindos à cobertura das campanhas da 97ª edição do Oscar.

Na era da economia da atenção, se você não é chamativo o suficiente, acaba sendo esquecido em meio a milhares de outras opções de conteúdo. Não se iluda achando que um filme é indicado a uma premiação como o Oscar “só” por causa de sua qualidade artística. É como um conteúdo publicado na internet: se não for compartilhado e receber likes e comentários deixados por pessoas estratégicas, ou se não tiver o empurrãozinho de um impulsionamento pago, acabará sendo ignorado pelos algoritmos e sequer aparecerá nas timelines.

Quando Fernanda Torres conquistou o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático, em uma cerimônia televisionada para o mundo inteiro, foi um momento decisivo para a sua candidatura ao Oscar. As buscas pelo seu nome no Google chegaram a aumentar mais de 3.000% mundo afora. E, certamente, muito membro gringo da Academia de Hollywood, que ainda não tinha visto aquele filme falado em português (não podemos subestimar a barreira das legendas, citada por Boon Joon-Ho ao agradecer a um dos Oscars recebidos por “Parasita”), teve a sua curiosidade despertada pela atuação de uma brasileira que foi capaz de superar estrelas como Nicole Kidman, Angelina Jolie e Kate Winslet.

A vitória histórica de Fernanda não veio do nada. A Sony Pictures, distribuidora nos EUA de “Ainda Estou Aqui”, encampou uma campanha publicitária e de PR altamente profissional, que incluiu todo um circuito de entrevistas e organização de sessões especiais do filme, com as presenças de Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello, para jornalistas especializados. Investimento que foi decisivo para que o brasileiro “Ainda Estou Aqui” se sobressaísse em meio a outros longas elogiados desta temporada, como o indiano “Tudo que Imaginamos como Luz” (considerado o melhor filme de 2024 pela prestigiada publicação britânica Sight and Sound) ou o inglês “Hard Truths” (pelo qual Marianne Jean-Baptiste ganhou os prêmios de melhor atriz do ano segundo os críticos de Nova York, Chicago e Los Angeles). Ambas são produções que poderiam ter recebido diversas indicações ao Oscar se tivessem o mesmo orçamento de marketing de uma grande distribuidora (mas, claro, o oposto é verdadeiro: seria inútil gastar milhões propagandeando um produto ruim do naipe de “Madame Teia” ou “Megatubarão”).

Foi a junção entre um filme excepcional e o investimento necessário para que essa obra chegue ao maior número de pessoas possível que resultou nas 3 indicações históricas de “Ainda Estou Aqui” no Oscar, primeiro longa-metragem majoritariamente falado em português que concorrerá à categoria principal de Melhor Filme. Agora que esta etapa foi bem-sucedida, dá para sonhar mais alto ainda e vencer alguma das estatuetas? Aí chegamos à etapa atual: a nova fase das campanhas na qual, conhecidos os finalistas, começam a surgir vazamentos misteriosos de informações que possam afetar a imagem pública dos concorrentes diretos.

Toda disputa que envolve dinheiro, egos, prestígio e poder não será das mais edificantes. A temporada atual do Oscar está sendo comparada com as tretas e puxões de tapete mostrados em “Conclave”, longa ficcional que mostra os bastidores da sucessão de um papa no Vaticano. Mas também lembra as recentes eleições municipais, cujas propostas de governo dos candidatos foram ofuscadas por bizarrices como cadeirada em debate ao vivo e laudo médico falsificado. Só para resumir os recentes incidentes envolvendo indicados ao Oscar 2025, tivemos:

• Uso de AI para “dar mais autenticidade” ao sotaque húngaro dos atores principais de “O Brutalista”;
• Ausência de um “coordenador de intimidade” nas cenas de sexo em “Anora”;
• O resgate de um vídeo antigo em que Demi Moore, de “A Substância”, beija na boca um menor de idade;
• Outro resgate de uma esquete do “Fantástico” em que Fernanda Torres fez blackface;
• Mais um resgate, desta vez de Zoé Saldaña, de “Emilia Pérez” fazendo blackface para interpretar Nina Simone nos cinemas.

É muita baixaria? Certamente. Isso é novidade? Nem um pouco. Cinéfilos brasileiros de última hora, que estão acompanhando a temporada pré-Oscar pela primeira vez, podem estar chocados com tantas cadeiradas metafóricas. Mas, desde que o Oscar virou sinônimo de projeção internacional e aumento imediato de bilheterias, as campanhas em busca do Troféu Imprensa do cinema mundial, assim como a ~zuera~, desconhecem limites.

Um marco dessa história pouco edificante de cobiça e p(h)oder foram as campanhas milionárias encampadas pelos irmãos Harvey e Robert Weinstein, dos estúdios Miramax. Em 1999, investiram cerca de US$ 15 milhões para convencer os membros da Academia de que o esquecível “Shakespeare Apaixonado” merecia o Oscar de Melhor Filme no lugar de “O Resgate do Soldado Ryan”, uma das obras-primas de Steven Spielberg. E, lembrança especialmente dolorosa para os brasileiros, fizeram com que Gwyneth Paltrow ganhasse o Oscar de Melhor Atriz em vez de Fernanda Montenegro por “Central do Brasil” (que, por sua vez, perderia o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para outra produção acolhida pela Miramax, o italiano “A Vida é Bela”).

Neste ano de 2025 em que a maior pedra no caminho para que “Ainda Estou Aqui” ganhe o Oscar de Melhor Filme Internacional é o francês “Emilia Pérez”, não anima muito saber que a Netflix, sua distribuidora, tem como estrategista de sua campanha de marketing ninguém menos que Lisa Taback, que trabalhou diretamente com os Weinsteins nas divulgações de “Shakespeare Apaixonado” e “A Vida é Bela”.

Lisa, porém, comandou campanhas vitoriosas para o Oscar em uma era pré-redes sociais. Talvez isso explique a presepada pantagruélica que foi permitir que inúmeros tweets racistas, preconceituosos, islamofóbicos e absolutamente lamentáveis de Karla Sofía Gascón, publicados ao longo de vários anos, estivessem até a semana passada no ar. Graças a esse enorme vacilo, a jornalista canadense Sarah Hagi, uma mulher negra e muçulmana, pesquisou por algumas palavras-chave e revelou para o mundo as opiniões lamentáveis que a protagonista de “Emilia Pérez” propagava enquanto ainda não era uma pessoa mundialmente conhecida.

Antes do passado nem tão remoto de Gascón vir à tona, “Emilia Pérez” já vinha sendo alvo de críticas incisivas. Os mexicanos se revoltaram com o retrato superficial de um filme cuja trama se passa no México, mas foi integralmente filmado na França e protagonizado por atrizes da Espanha e EUA. Jacques Audiard, diretor e roteirista, colocou gasolina na fogueira ao declarar que considera o idioma espanhol uma “língua dos países modestos, dos pobres e dos migrantes“. Visão indisfarçavelmente colonialista, que reforça ressalvas como as de Gaby Meza, crítica de cinema mexicana, ao comentar que o longa francês fez a “exploração de uma tragédia atual no México, do tráfico de drogas e dos desaparecidos devido à violência, para gerar um produto de entretenimento“.

Além disso, há as acusações de que justamente o filme responsável pela primeira indicação de uma mulher trans a um Oscar é transfóbico. Nas indicações da 36ª edição do GLAAD Media Awards, que premia representações consideradas precisas e inclusivas da comunidade LGBTQIA+ em filmes, TV, música e jornalismo, “Emilia Pérez” foi solenemente ignorada. Um texto no site da GLAAD descreve a obra como “um retrato profundamente retrógrado de uma mulher trans“. Sobre essa questão, vale também ler o artigo “Emilia Pérez Is the Most Unique Cis Nonsense You’ll Ever See”, da crítica Drew Burnett Gregory, que escreveu: “Na superfície, Emilia Pérez é diferente de tudo que você já viu. Mas, no fundo, contém uma imensa falta de curiosidade. O que parece ser um banquete são, na verdade, sobras de três dias em decomposição.“

Tantas celeumas acabaram por soterrar o favoritismo inicial de “Emilia Pérez” no Oscar 2025. Filme com a maior quantidade de indicações neste ano (13, batendo as 10 indicações recebidas por “Wicked” e “O Brutalista”), seria natural considerá-lo o longa com maiores chances de vencer em categorias como Melhor Filme, Direção e Roteiro Adaptado. Não mais. Embora o período de votações do Oscar ainda não tenha começado – esta fase ocorrerá entre os dias 11 e 18 de fevereiro -, já é possível afirmar que nem todo o dinheiro da Netflix será capaz de reverter o prejuízo à imagem de “Emilia Pérez” junto aos votantes da Academia.

Possivelmente, ainda deve ganhar as estatuetas de Melhor Atriz Coadjuvante (Zoé Saldaña) e Melhor Canção Original (“El Mal” ganhou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original), mas suas chances nas categorias principais tornaram-se quase nulas. A boa notícia: as chances de “Ainda Estou Aqui” vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional aumentaram substancialmente. Porém, há muito chão até rolarem as votações; tempo suficiente para que outras polêmicas e plot twists permaneçam agitando esta trepidante temporada.

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P.S. 1: As próximas datas relevantes para o Oscar serão a cerimônia dos Critics’ Choice Awards, dia 7/2, e do BAFTA, em 16/2. Em ambas as premiações, “Ainda Estou Aqui” concorre ao prêmio de Melhor Filme Internacional, mas Fernanda Torres não foi indicada à categoria de Melhor Atriz. Informação importante: enquanto os votos ao Critics’ Choice Awards já foram fechados e contabilizados, os membros do BAFTA têm até o dia 11/2 para eleger seus favoritos. Ou seja: os resultados do BAFTA já levarão em consideração o impacto da crise de imagem sofrida por Karla Gascón, e esclarecerão melhor as chances atuais de “Emilia Pérez” no Oscar.

P.S. 2: Depois das revelações recentes, lamento mais ainda por Daniela Vega, protagonista do excepcional “Uma Mulher Fantástica”, filme que deu ao Chile o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2018, não ter sido honrada com o marco de ter sido a primeira atriz trans indicada a uma estatueta.

P.S. 2: Já viram “Johanne Sacreblu”, a resposta ao retrato superficial da cultura mexicana exibido em “Emilia Pérez”? Vídeo criado pela tiktoker Camila Aurora, é uma sátira/revanche que elenca saborosamente vários clichês associados à França, incluindo croissants, Ratatouille, mímicos bigodudos e pessoas que não costumam tomar banho. Assista aqui embaixo:

Alexandre Inagaki é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, e consultor de mídias sociais. Já escreveu para a Rolling Stone Brasil, Trip e foi responsável pela criação e planejamento de campanhas online para Coca-Cola, Sony Pictures, entre outros. É curador da Campus Party e youPIX Festival. Publica textos na internet desde 1999. Começou em blogs coletivos e em seu próprio e-zine, chamado SpamZine. Além do Pensar Enlouquece, também foi um dos criadores do InterNey Blogs, um portal brasileiro de blogs.  (linktr.ee/alexandreinagaki)



2 thoughts on “Oscar 2025: um dia as campanhas deste ano vão virar filme (ou, no mínimo, minissérie do Ryan Murphy)

  1. Parabéns pelo texto sensacional! O conteúdo, o vocabulário e os links que complementam tudo estão perfeitos!

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