entrevista de Alexandre Lopes
Em agosto de 2005, ou seja, quase 20 anos atrás, Clara Lima “caiu” do palco de um show do CSS no Campari Rock, em São Paulo, festival que ainda contava com The Kills e MC5. “E, então, eu nunca mais a vi”, conta Adriano Cintra na entrevista abaixo. Nunca é um exagero, claro. “Lá por 2016, ela se mudou para o lado da minha casa e começamos a nos encontrar fortuitamente no boteco da esquina, o Picuí, ali na Alameda Barros. Para mim, foi um grande alívio reencontrá-la”, revela Adriano, que acaba de estrear um novo projeto musical com a ex-parceria de CSS, o Superafim.
Sim, o nome da banda faz uma referência direta ao hit “Superafim” da ex-banda dos envolvidos – o que não deixa de ser uma espécie de “justiça simbólica”. É só lembrar do fato que as integrantes remanescentes do CSS (Luísa “Lovefoxxx” Matsushita, Luiza Parra, Ana Rezende e Carolina Sá) ainda fazem shows esporádicos em festivais utilizando as bases gravadas por Adriano e tocando suas composições após a saída (nem um pouco amigável) dele em 2011. “Elas são grileiras, grilaram minha obra, meus backing tracks, usam tudo como se fosse delas e se acreditam intituladas àquilo tudo”, escancara Cintra. Então nada mais justo do que ele também querer surfar um pouco na própria obra, certo?
Mas aí que está: apesar do nome e dois integrantes, o Superafim não tem sonoramente lá muito a ver com o CSS; “Sorry” apresenta uma estética que pode remeter a artistas como New Order, Lana Del Rey, The Smiths e algo de dream pop, explorando a melancolia e o humor de maneira inusitada e até mesmo camp. A letra de “Sorry” é um pedido de desculpas que combina sinceridade e ironia – e isso também fica bem evidente nas fotos promocionais do duo. A faixa antecipa o primeiro EP oficial do projeto, que promete chegar ao público ainda nos meses iniciais deste ano. No fim das contas, o Superafim surge como uma extensão das experiências e influências musicais de Adriano Cintra e Clara Lima, mas com a liberdade de criar um novo caminho sem repetir a sonoridade de projetos do passado.
E antes mesmo de “Sorry”, o duo fez sua estreia não oficial publicando no fim de dezembro de 2024 um EP intitulado “XMAS GIFT” no YouTube. O disquinho virtual natalino conta com oito faixas — sendo três músicas autorais (“Dallas Winston”, “Those Shoes Were Not Made For You, Gurl” e “Meu Querido Rafael”) e cinco releituras, incluindo versões de Yoko Ono (“Listen, The Snow Is Falling”), Bangles (“Manic Monday”, um presente de Prince), The Jesus & Mary Chain (“Come on”), Leonard Cohen (“Closing Time”), além de “Money Changes Everything”, de Tom Gray, mas mais conhecida na versão de Cindy Lauper (ouça no fim do texto).
As primeiras faixas autorais lançadas pela banda são predominantemente em inglês, com a proposta de ser plural sem se limitar ao mercado brasileiro. “Com certeza, queremos que esse disco seja lançado no Japão”, admite Adriano. “Nosso foco é lançar música, fazer versões, demos e remixes. O objetivo é existir, sempre”. Mas embora o músico demonstre a vontade que o Superafim seja um projeto longevo, estar no palco não é uma prioridade para ele. “Eu odeio ir em show, eu odeio fazer show”, confessa. “Não tenho idade nem psiquiátrico pra ficar dormindo tarde e viajando. Meu negócio é compor, gravar, lançar, além de dormir bem e ir à academia”.
Isso não significa que o Superafim não tenha potencial para apresentações ao vivo. Para Adriano, o palco seria uma experiência válida em um contexto único, bem planejado e controlado: [em um show ao vivo do Superafim] “teríamos músicos lindos e gays e jovens e seria tudo muito arrumadinho”, teoriza. “Mas, como eu disse, só de pensar em fazer show eu tenho um mini ataque de pânico. Só faria show se fosse algo muito especial”, justifica (lembrando que, nos últimos anos, Adriano assumiu a posição de guitarrista do Pin Ups).
Por e-mail, Adriano Cintra contou ao Scream & Yell mais sobre o que esperar do Superafim, como ele e Clara Lima retomaram o contato e a quantas anda sua briga com ex-companheiras de CSS, entre outras coisas. Confira o papo rápido (mas bem franco) a seguir.
Antes de qualquer coisa: você tem problemas em falar sobre o CSS?
Eu não tenho problema algum em falar sobre o CSS e o que aconteceu… escrevi muito a respeito disso ao longo dos anos. Inclusive, tem os posts no meu Medium narrando minha saída da banda e o fatídico show que elas fizeram no Popload, e me recusaram um ingresso. Quem quiser ler, é só procurar; o arroba no Medium é @adrianocintra (Nota do editor: Adriano também conversou com o Scream & Yell longamente em 2015 sobre o assunto em um entrevistão imperdível que “ainda está na fita”, mas um dia saí)
Bom, a Clara saiu do CSS antes de lançar o primeiro disco. Como vocês se reconectaram e resolveram fazer o Superafim depois de tanto tempo?
A Clara, junto da Iracema, era minha amiga antes do CSS. As duas trabalhavam com meu então namorido, o Maurício Ianes. E, apesar da voz da Clara estar em praticamente todas as músicas do primeiro disco [do CSS], ela saiu da banda antes do lançamento. Foi uma coisa bem tosca que aconteceu: estávamos abrindo para o The Kills em outubro de 2005; era o gran finale do show, estávamos tocando a música “Superafim” e a Clara “caiu” do palco. “Caiu”. Tipo o episódio da Kathleen Hanna com a Courtney Love (no Lollapalooza 1995). Foi horrível, foi tosco. Já estava rolando um ciuminho ali, um incômodo a respeito de atenção aqui, uma treta por causa de um tênis emprestado ali… Coisa de criança. E, então, eu nunca mais a vi. Daí, lá por 2016, ela se mudou para o lado da minha casa e começamos a nos encontrar fortuitamente no boteco da esquina, o Picuí, ali na Alameda Barros. Para mim, foi um grande alívio reencontrá-la. Eu gostava muito dela e sempre me senti muito culpado de não ter intervido naquele imbróglio. Então, em 2023, o Carlinhos do Polara / Againe / Caxabaxa ficou dando ideia da gente gravar alguma coisa com ela, mas ele ficou super ocupado com o Polara fazendo show sem parar. Então, eu chamei a Clara e gravamos.
Por enquanto o Superafim divulgou mais músicas cantadas em inglês do que em português. Existe alguma expectativa de trabalhar com esse projeto fora do Brasil?
Com certeza. Queremos que esse disco seja lançado no Japão.
Depois de “Sorry” lançado, quais os planos da Superafim daqui pra frente?
Lançar muita música. Música nova, fazer versão, cover, demo. Tudo que uma banda deveria fazer. Existir.
Vocês pensam em fazer shows? Tem alguma data marcada ou previsão de apresentações ao vivo?
Cara, eu odeio show. Eu odeio ir em show, eu odeio fazer show. Só faria show se fosse algo muito especial, não tenho idade nem psiquiátrico pra ficar dormindo tarde e viajando. Meu negócio é compor, gravar, lançar, além de dormir bem e ir à academia.
No palco, o CSS podia ser meio caótico e imprevisível, sem saber o que esperar de um show. Como vocês acham que seria com o Superafim?
Teríamos músicos lindos e gays e jovens e seria tudo muito arrumadinho. Mas, como eu disse, só de pensar em fazer show eu tenho um mini ataque de pânico. Eu durmo todo dia às 21:30, acordo às 05:30. Faço tudo igual todo dia. Não quero estragar minha rotina; é a coisa mais preciosa que eu tenho.

Em uma entrevista antiga, você comentou que se o som do palco estava muito ruim, geralmente você ficava estressado e isso atrapalhava o teu rendimento e se curtiria o show. Depois de tudo que aconteceu e outros projetos, ainda é assim para você ou acha que mudou essa sua relação com o palco?
Eu realmente não gosto mais de fazer shows. Um dia eu gostei de fazer, mas, depois de tanto tempo e, principalmente, depois de ter lançado um disco como “artista solo”, eu entendi que não gosto de me expor, não gosto de estar num lugar onde não estou com vontade de estar, de ter que dar atenção para gente quando não estou com vontade de falar. “O que é que eu estou fazendo aqui? Por que essa gente toda está me olhando? O que essas pessoas querem comigo?” É uma responsabilidade muito grande e tem que ter uma vontade muito, muito grande de estar ali, naquele local do holofote. Eu simplesmente não tenho. E, além disso tudo, eu não tenho um apreço muito grande por tocar [ao vivo]. Eu gosto de gravar, é um processo mais artesanal. Eu não sou um puta músico, só sei fazer minhas coisinhas.
Anos atrás você estava morando em Portugal e chegou a produzir uns artistas de lá (Callaz, Luís da Riviera, Vaiapraia, Nadia Schilling), mas voltou para o Brasil. Qual foi a causa do seu retorno?
A pandemia foi um saco lá. Não podia nem ir ao supermercado direito, que já vinha a polícia perguntar o que eu estava fazendo na rua. Eu fazia academia todo dia; daí, a academia fechou e, no começo do lockdown, eu não podia nem ir ao parque atrás da minha casa correr. Encheu o saco e voltei. Eu amo São Paulo, eu sempre volto. Não me vejo morando em outro lugar. Hoje, eu moro na mesma rua onde eu cresci, onde morei minha infância e adolescência toda. Me sinto muito bem aqui.
Sei que você sempre escreveu muito durante os períodos nas bandas, como se fosse um diário, e até chegou a cogitar a ideia de lançar um livro com esses materiais. Você chegou a fazer algo de concreto sobre isso? Ainda pensa em realizá-lo?
Não muito. Eu ainda escrevo, até que bastante, mas não publico mais. Talvez uma hora eu mude de ideia… Mas escrever dá muito trabalho: tem que escrever, ler, reescrever, repensar, editar… E minha ocupação principal ainda é a música.
Na época dos últimos shows do CSS em festivais, li que sua relação com as integrantes atuais se resumia em contatos esporádicos por e-mail e instagram, nem sempre lá muito pacíficos. Essa situação mudou? Como está atualmente?
Só piorou. Eu só gostaria que elas ao menos entendessem que a banda só existe até hoje por causa da minha obra e queria que elas tivessem a decência de responder aos e-mails dos meus advogados. Elas são grileiras, grilaram minha obra, meus backing tracks, usam tudo como se fosse delas e se acreditam intituladas àquilo tudo. Elas “herdaram” tudo que era meu. A gente vai fazendo o que dá pra correr atrás dos nossos direitos. É como ter um filho com um ex que você não quer ver nem pintado de ouro. No caso, esse ex seria a Luísa [LoveFoxxx], porque as outras sequer são autoras das músicas. E, de acordo com o artigo 23 da LDA (Lei dos Direitos Autorais): “Os co-autores da obra intelectual exercerão, de comum acordo, os seus direitos”. Tô aguardando a ‘alecrim dourada artista ecologista super good vibes’ entrar em contato comigo para chegarmos a um comum acordo. Até lá, ela segue violando meus direitos.
Pra finalizar: qual a diferença de tocar no Thee Butchers’ Orchestra, no Cansei de Ser Sexy, no Madrid e agora no Superafim?
O Butchers era solto, caótico, cheio de testosterona, viadagem e colaboração. O CSS era tipo uma partida de guitar hero cheio de burocracias, oportunidades, solitário e muita picuinha. O Madrid era lindíssimo e colaborativo. O Superafim é o seguimento disso tudo.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.


