entrevista de Marcelo Costa
O segundo semestre de 2024 da editora independente curitibana Barbante foi excelente em termos de lançamentos. Eles colocaram nas prateleiras dois títulos deliciosos da série Sound-Vision, inspirada em grandes discos (um sobre um disco clássico do Skank, outro sobre um álbum maldito de Odair José), dois títulos da linha de ilustrados da editora (“Museu”, de Javier Sáez Castán e Manuel Marsol, e “A Praia”, de Sol Undurraga) e, ainda, “a coleção mais completa do Garoto-Enxaqueca já publicada no planeta”, segundo revela o editor Alessandro Andreola, nessa conversa.
“O Garoto-Enxaqueca foi uma mini-febre no final dos anos 1990, quando a MTV passou a exibir as vinhetas do personagem”, explica Alessandro. Porém, poucos sabem “que as animações se baseavam em uma tirinha underground de Greg Fiering que era publicada em fanzines e revistas independentes”. E que as tirinhas nunca haviam sido lançadas em um livro no Brasil. Na verdade, existem apenas duas coletâneas de quadrinhos do Garoto-Enxaqueca publicadas nos EUA, e ambas as edições já estão esgotadas. A edição da Barbante, porém, é mais completa que ambas e ainda conta “com um belo posfácio do Érico Assis (que também traduziu as tirinhas) com uma entrevista com o Greg Fiering”, pontua Andreola.
Na conversa abaixo, Alessandro comenta sobre os livros da Barbante sobre o Skank (“O livro é uma delícia: além de ter um texto muito divertido, a Marceli fez uma bela pesquisa”), Odair José (“Eu já gostava demais desse disco, mas o texto do Vinhas é tão cheio de histórias e detalhes deliciosos, que passei a apreciar ainda mais”), sobre “Museu” (“É uma história que tem muito de Alfred Hitchcock, David Lynch, René Magritte, Edward Hopper, Fritz Lang”) e revela como foi o tramite para conseguir os direitos de “Garoto-Enxaqueca”, do Greg Fiering. Chega mais (e fique atento ao site da editora)!

O final de ano da Editora Barbante foi bem movimentado, com vários lançamentos. Pra começar, gostaria que você contasse da realização, como editor, de lançar “Garoto-Enxaqueca”, do Greg Fiering, no Brasil? Como rolou isso??
Eu sempre tenho muitos projetos na gaveta, são ideias que vou anotando e guardando para um momento oportuno. E um desses era justamente publicar o Greg Fiering no Brasil. Como as pessoas com mais de 40 anos devem bem lembrar, o Garoto-Enxaqueca foi uma mini-febre no final dos anos 1990, quando a MTV passou a exibir as vinhetas do personagem. Era um humor seco e muitas vezes nonsense que caiu no gosto das pessoas, que inclusive começaram a apelidar os mal-humorados de “garoto (ou garota) enxaqueca” — isso é uma coisa que rola até hoje, se você reparar. O que nem tanta gente sabe, até porque naquela época o acesso a informação era bem mais escasso, é que as animações se baseavam em uma tirinha underground que era publicada em fanzines e revistas independentes, e cujo maior feito, até então, era ter estampado o encarte de “Monster, (disco de 1994) do R.E.M. — o Michael Stipe é fã declarado do Garoto-Enxaqueca, tanto que fez o prefácio da primeira coletânea de tiras do personagem que saiu nos EUA. Bom, eu nunca entendi o motivo do quadrinho ser inédito no Brasil, sempre achei que se teve público naquela época, haveria hoje. E tem mesmo, a resposta dos leitores está sendo super legal.
Quais foram os desafios de editar o “Garoto-Enxaqueca”? Como foi a experiência de edita-lo?
Quando a gente foi verificar se os direitos de publicação no Brasil estavam disponíveis, demos algumas vezes com a cara na porta. Existem apenas duas coletâneas de quadrinhos do Garoto-Enxaqueca publicadas nos EUA, por duas editoras diferentes, e ambas as edições já estão esgotadas. O caminho natural era verificar com essas editoras a questão dos direitos, mas após inúmeras tentativas não conseguimos resposta. O próximo passo, então, foi tentar contatar o próprio Greg Fiering, o que foi um abacaxi ainda mais difícil de descascar. Não por ele, que é uma pessoa excelente, mas o problema foi conseguir encontrá-lo. O Greg quase não tem presença online. Não tem rede social, não tem site, nada. Para piorar, existe pouca informação sobre “Migraine Boy” (o nome original do Garoto-Enxaqueca) na internet, e aí você vê que realmente é um desses casos em que a coisa pegou mais no Brasil do que no resto do mundo (com exceção do resto da América Latina, em que o “Chico Migraña” também teve seu momento). Bom, após alguns meses de tentativas frustradas, o amigo de um amigo conseguiu o contato do autor, e a partir daí foi tudo muito rápido e fácil. O Greg sugeriu que fizéssemos uma edição exclusiva para o Brasil, e foi o que fizemos. A nossa edição é certamente a coleção mais completa do Garoto-Enxaqueca já publicada no planeta, que conta ainda com um belo posfácio do Érico Assis (que também traduziu as tirinhas) com uma entrevista com o Greg Fiering. E vale também destacar o projeto gráfico da Marcela Fehrenbach, que ficou incrível.

A série Sound-Vision, inspirada em grandes discos, também ganhou novos lançamentos. Vamos conversar primeiro sobre “Minas à Beira-Mar: Calango e o Verão Sem Fim do Skank”, de Marceli Mengarda. Skank é uma bandaça e “Calango” é um greatest hits! Como foi desenvolver esse livro e o que você destaca nele?
Eu já conhecia a Marceli há algum tempo, sou super fã do trabalho dela na Burocrata Carimbos. Em 2023, ela publicou um texto absolutamente sensacional sobre os 30 anos do Skank no Jornal RelevO. Quando li, não pensei duas vezes e a convidei para escrever um volume da Sound+Vision sobre a banda. Ela topou e escolheu o “Calango”, que como você bem disse é praticamente um greatest hits. O livro é uma delícia: além de ter um texto muito divertido, a Marceli fez uma bela pesquisa, conversando com alguns nomes bem próximos da banda — Chico Amaral, parceiraço da banda em várias composições, é uma presença constante no livro, por exemplo. E tem uma sacada muito legal, que é a de posicionar o Skank como a trilha sonora de veraneio de toda uma geração, uma banda incontornável na vida de qualquer pessoa que tenha frequentado o litoral brasileiro nos anos 1990. O livro se equilibra muito bem entre essa visão nostálgica e a própria criação do disco — indo inclusive um pouquinho além, porque estão ali as histórias tanto da gênese do Skank como do que veio depois, passeando por todas as fases da banda. E, como se não bastasse, a própria Marceli ilustrou o livro, que ficou muito bonito.
Outro Sound-Vision novo é de um grande cara, conhecido pelos leitores do Scream & Yell, o Leonardo Vinhas, parceiro de longa data em carregar pianos nas costas nesse site (risos). Ele já tinha entrevistado o Odair José para o Scream, e a proximidade o inspirou a escrever sobre esse disco maldito, “O Filho de José e Maria”, que muita gente sabe que é foda, mas poucos ouviram com atenção. Como foi pra você se deparar com esse disco na visão do texto do Leonardo em “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria”?
A pesquisa que o Vinhas fez para este livro é um negócio realmente impressionante. Ele conversou com praticamente todas as pessoas ainda vivas que participaram do disco, do Hyldon aos sobreviventes do Azymuth, e, é claro, com o próprio Odair, que deu vários depoimentos. Isso não quer dizer que seja um livro chapa-branca, muito longe disso. O Vinhas não passa pano e aponta algumas posturas incompatíveis com a atualidade, como o machismo que algumas letras carregam, além de derrubar alguns mitos, como o de que o Odair teria sido excomungado pela Igreja Católica (na verdade, ele foi “apenas” ameaçado). Mas muito mais do que isso, essa é uma “biografia” excelente de “O Filho e José e Maria”, que mostra que era um trabalho realmente muito à frente do seu tempo. Esse é um dos episódios mais interessantes da música brasileira — é o disco em que o Odair decidiu romper com que vinha fazendo e virar, sei lá, o Peter Frampton. O segundo maior vendedor de discos do Brasil, somente atrás do Roberto Carlos, vai lá e resolve fazer uma ópera-rock sobre um Jesus sexualmente ambíguo em plena ditadura militar, você imagina… Eu já gostava demais desse disco, mas o texto do VInhas é tão cheio de histórias e detalhes deliciosos, que passei a apreciar ainda mais. E o que o André Ducci, que já havia ilustrado outros títulos da coleção, fez aqui, foi uma coisa de louco. Ele imaginou uma “via crucis” do Odair em uma série de vitrais, as artes ficaram espetaculares.

Um outro lançamento de vocês que me chamou a atenção, inclusive pela capa, que é linda, foi “Museu”, de Javier Sáez Castán e Manuel Marsol, que ganhou prêmios na Itália, Portugal e Coréia do Sul. Conta um pouco sobre esse lançamento?
“Museu” foi a nossa segunda investida no mundo da literatura infantil — ou, como eu prefiro, literatura ilustrada, porque esse negócio de “literatura infantil” meio que confina o livro em um público específico e faz parecer que não serve para adultos, o que muitas vezes não é o caso. No “Museu”, isso pra mim é ainda mais evidente: é um livro para o público infantil, sim, mas com uma história interessante para todas as idades e que traz nas entrelinhas referências que vão divertir ainda mais as pessoas que as reconhecerem. A história — totalmente visual, ou seja, sem texto — mostra um homem cujo carro quebra em uma estrada que tem uma única casa: um museu sem nenhum visitante. Ao entrar, coisas estranhas começam a acontecer. É uma história que tem muito de Alfred Hitchcock, David Lynch, René Magritte, Edward Hopper, Fritz Lang… enfim, um livro sensacional com um acabamento gráfico muito bacana. Essa linha de ilustrados, que é comandada pela Daisy Carias, minha sócia na editora, vem crescendo: Agora em dezembro lançamos “A Praia”, um livro em formato grande da ilustradora chilena Sol Undurraga, que também traz uma narrativa super divertida.
São 8 anos de Editora Barbante, com muita coisa legal no catálogo. Mas eu queria abrir aqui um espaço para você falar de outras editoras: o que você leu de muito bacana de outras editoras independentes em 2024? O que você indica para os leitores?
Na seara musical, a Terreno Estranho continua fazendo um trabalho de encher os olhos. “Good Pop, Bad Pop”, do Jarvis Cocker, é sem dúvida um dos grandes lançamentos no Brasil em 2024. O livro do Tony Sanchez que saiu pela Sapopemba, “Eu Fui o Traficante do Keith Richards”, é provavelmente a biografia mais louca já escrita sobre os Rolling Stones, e também é sensacional. Na ficção, eu recomendo demais “Infelizes à Sua Maneira”, uma espécie de álbum-livro cujas narrativas partem de fotografias antigas, escrito pelo Lucas Verzola e editado pela Incompleta. É um livro assombroso.
Empolgado para 2025? Teremos Editora Barbante on fire?
Ah, teremos. Eu acho que 2025 vai ser o melhor ano da editora. Das coisas que já dá para contar, teremos “They Can´t Kill Us Until They Kill Us” (ainda sem título em português), do poeta e crítico cultural Hanif Abdurraqib, com tradução de Rogério Galindo e Rosiane Correia de Freitas. Trata-se de uma coletânea de ensaios, a maior parte sobre música, de uma das vozes mais singulares da crítica americana. Também teremos novos volumes da Sound+Vision, focados em Mark Lanegan, Paralamas do Sucesso e Graforreia XIlarmônica. E, finalmente, o adiado “Eu Nem Queria Dar Entrevista: O Melhor do Scream & Yell, Volume 1”, coletânea de entrevistas originalmente publicadas neste prestigioso site, finalmente verá a luz do dia. E tem mais umas coisinhas, que vamos divulgar um pouco mais pra frente. Vai ser demais.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.