Cinema: “Sin City” é um filmaço

texto de Marcelo Costa

Quem mistura leite com manga morre. Será verdade? Isso não está em nenhum dicionário médico, mas a sabedoria popular aconselha a não juntar os ingredientes no estômago. Pode ser fatal. Na arte também é assim, dizem. Misturas de gêneros geralmente entornam o caldo e podem induzir a obra ao túmulo artístico. Quando se trata, então, de misturar mídias, o resultado é normalmente catastrófico, com raríssimas exceções.

De uns tempos para cá, devido principalmente a evolução tecnológica que permitiu aos estúdios maior poder de “fantasia” sobre suas histórias, as populares HQspassaram a ser fonte constante de adaptações cinematográficas. Apesar de alguns acertos (“Homem Aranha”, “Batman Begins“), ainda não dava para dizer que aquilo que se via na tela era uma história em quadrinhos. Não dava: “Sin City – A Cidade do Pecado” (2005) surge para mudar essa história.

Lançada em 1991, a HQ “Sin City” logo se tornou um clássico dos chamados quadrinhos adultos. Assinada pelo gênio Frank Miller, a história tinha como uma de suas características ser em preto e branco e raramente usar cores, além de transbordar cinismo ao retratar o mundo moderno de uma cidade do pecado, corrupta, prostituída e mal-paga.

Miller se recusava a vender a história para os estúdios de Hollywood sabendo que o cinema poderia jogar no lixo uma obra tão sensacional. Precisou que Robert Rodriguez jogasse sua carteirinha de cineasta no lixo (o diretor pediu desligamento da Director’s Guild of América para incluir o nome de Miller como co-diretor no filme, já que a associação não permite a existência desta função) e, tendo Miller como braço direito, Tarantino por perto, e as próprias revistas como roteiro, transpusesse para o cinema o clima sádico e sombrio das páginas da HQ. O resultado é acachapante.

Porém, puristas acreditam que a adaptação rompe conceitos básicos tanto do cinema quanto das HQs. A ilusão de movimento típica do cinema teria achatado a estética dos quadrinhos, fixa em uma página, e, pior, teria surrupiado do público (principalmente dos leitores de HQs) a liberdade de imaginação e domínio sobre a história, já que Rodriguez – com o auxílio de Miller, é importante ressaltar – deu vida e movimentos a personagens broncos que eram desenhados em uma folha, e lá pulavam de um enquadramento para outro sem nenhuma gestualização, mas com total controle imaginativo do leitor, enquanto aqui caminham, pulam prédios, se socam e dirigem carros deixando o espectador como mero coadjuvante da história. A resposta para tudo isto está numa afirmação do próprio Rodriguez que declarou que não via “Sin City” como uma adaptação, mas sim como uma tradução.

Não é a mesma coisa, mas é, entende? (risos). No fundo, é algo muito mais teórico que prático, voltado para catedráticos de semiótica, cineastas e gente que manja de técnicas de produção, e não para pessoas comuns que vêem cinema como diversão e entretenimento. No fundo, são como edições remasterizadas de CDs: eu nunca consigo perceber a diferença. No caso do cinema, até entendo, respeito e valorizo regras como as do Dogma 95, porém o que importa, e sempre irá importar, é você sentado na frente da telona com cento e poucos minutos de projeção à frente. É ali que você saberá se o filme é bom ou não, independente de fatores de produção.

Dito tudo isto, vamos ao que interessa: “Sin City” é um filmaço. Deverá agradar fãs da série, que vão ter muito que comparar e festejar. Deve agradar a quem não gosta tanto de quadrinhos (como eu), mas que é fascinado por cinema e por histórias bem contadas. Sobretudo, vai agradar a quem gosta de cinema sujo, pervertido, sombrio e cínico.

Deixando as técnicas de filmagem de lado, o que sobra são o texto avassalador de Miller e as atuações brilhantes de uma constelação de atores broncos que parecem terem sido escolhidos a dedo pelos produtores: Bruce Willis, Mickey Rourke (em excelente atuação), Rutger Hauer, Benicio Del Toro, Michael Madsen e Clive Owen (o “machista” de “Closer – Perto Demais“) transbordam truculência, que parecem ganhar contornos ainda mais broncos ao serem colocados ao lado de beldades como Jéssica Alba, Brittany Murphy, Rosario Dawson e Carla Gugino, entre outras.

A rigor, “Sin City” é baseado em três histórias publicadas em graphic novel: “The Hard Good-Bye”, “The Big Fat Kill” e “That Yellow Bastard”. A primeira destaca Mickey Rourke encarnando a perfeição o ex-criminoso Marv que busca se vingar da morte de uma prostituta. A segunda foca na guerra entre policiais e as prostitutas da Cidade Velha de “Sin City”, em que brilham o texto cínico de Miller e as atuações empolgantes de Del Toro e Clive Owen. “That Yellow Bastard”, a terceira história, é dividida em duas partes. Começa focando no personagem de Bruce Willis, um detetive honesto que passa 8 anos em cana após ser traído por seu parceiro, depois de impedir que o filho pedófilo de um político local “devorasse mais uma criancinha”.

A seqüência da história flagra o tal bastardo amarelo na pista da tal menininha, isso oito anos após a tentativa de estupro. Só que agora a menininha virou um mulherão, e que mulherão (a história dá voltas, esbarra em outros personagens, e fecha o círculo, afinal, estamos todos na cidade do pecado) . Quem irá salvá-la?, pergunta o leitor. E mais uma vez o policial honesto, mas truculento, entra em cena. Essa terceira história também registra a divertida passagem filmada por Tarantino em que Clive Owen “conversa” com o cadáver de Benicio Del Toro. Impagável. Robert Rodriguez compôs a trilha sonora de “Kill Bill 2” pelo preço simbólico de US$ 1. Como retribuição, Tarantino decidiu dirigir este segmento de “Sin City” pela mesma quantia. Trabalhar com o que se gosta é outra coisa, não é mesmo.

Mais do qualquer outra coisa, a versão cinematográfica de “Sin City” lança luz sobre os quadrinhos clássicos de Frank Miller, que correm o risco de sair do gueto dos fãs de HQs para se tornarem, merecidamente, “best sellers” da literatura mundial. Exagero? Não, e os diálogos matadores do filme estão lá para comprovar. É claro que, esteticamente, o filme respira cinema com oxigênio de quadrinhos, mas, no fundo, bem lá no fundinho, é cinemão blockbuster. Porém, diferente do excelente “Batman Begins”, em que o Christopher Nolan quis dar ao homem-morcego o tom mais humano possível, em “Sin City”, Robert Rodriguez simplesmente jogou os quadrinhos na tela de cinema. E deu movimentos para a história. A mistura, que poderia soar tremendamente indigesta, se tornou um dos grandes filmes de 2005. Afinal, suco de manga com leite tem um gosto ótimo. Às vezes vale a pena arriscar.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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