Faixa a faixa: Alfamor comenta “ONÇA”, seu álbum de estreia

introdução por Nelson Oliveira
faixa a faixa por Alfamor

Independentemente da espécie, onças são animais que costumam se adaptar bem a diferentes biomas e que dispõem de grandes territórios para circular. Não é à toa que a multiartista Alfamor escolheu o grande felino das Américas como título de seu álbum de estreia: “ONÇA” (2020, YB music). O nomadismo está em sua essência.

Gaúcha, filha de um argentino e uma brasileira, Paola Alfamor já passou pelo Rio de Janeiro e hoje está radicada entre Salvador e São Paulo, onde faz um pouco de tudo, como se emulasse as famosas sete vidas dos felinos. Além de cantora, ela é fotógrafa, artista visual, muralista, tatuadora e terapeuta energética.

Toda essa polivalência está distribuída pelo álbum e é embalada pelo timbre de vez grave e etéreo da artista. “ONÇA” conta com sete faixas autorais, que flutuam entre ritmos como reggae, dub, cúmbia, ijexá e pop, e canções que versam sobre o feminino, o onírico, o esoterismo e a ancestralidade.

“ONÇA” tem a produção de Saulo Duarte, conhecido por seu trabalho solo e com a banda A Unidade, e as participações de Zé Nigro e Thomas Harres. Também conta com uma série de convidados: Mãeana em “Sideral Sinistro” e “Sábado Sangue”; Mateus Aleluia e Gabi Guedes em “Paô”; Arthur Braganti em “Sideral Sinistro”; Bruno Capinan em “Babylon” e “Paô”; Camila Costa em “Sábado Sangue”; e a dupla argentina Perotá Chingó em “Morada”.

O Scream & Yell convidou Alfamor para falar sobre a sua estreia como cantora e comentar o seu álbum, faixa a faixa. Confira abaixo.

Faixa a faixa, por Alfamor

01) “Alfa” (Paola Alfamor / Arruda / Saulo Duarte)
Alfa é como eu apelidei o poema que Arruda fez para mim. Conheci esse grande poeta em São Paulo e nos tornamos amigos rapidamente. Uma honra pra mim a parceria com esse cara que é parceiro de deusas que admiro tanto, como Alzira E e Alice Ruiz. Essa música veio em um dia que estava revendo uma foto em que coloquei essa poesia como legenda, em movimentos de viagem. Passei alguns anos da minha vida nômade, viajando com minha arte sem muitos planos, mas com grandes intenções – e foi entre essas viagens que recebi esse presente. Então gravei um áudio cantarolando a letra com melodia e, quando eu e Saulo nos juntamos pra pensar as músicas do disco, ele gostou muito dessa e fez a produção. É como uma apresentação e também como um mantra de vida. Uma flecha ancestral que parece adentrar na mata e tirar a onça para fora. O trovão que anuncia esse renascer.

02) “Babylon” (Paola Alfamor / Saulo Duarte)
Em “Babylon”, a inspiração veio do cotidiano, onde nós (principalmente mulheres, mas não só) saímos pelas ruas e somos abordadas de formas abusivas e opressoras pelo homem machista. Certo dia eu realmente estava andando pela rua, quando um cara passou me olhando e logo me veio a letra e melodia na cabeça. Depois Saulo veio e fez as harmonias e arranjos. Chamei, como participação especialíssima, Bruno Capinan, minha mana querida, exatamente pra expressar que esse grito de “não!” vem do feminino, das pessoas femininas, contra esses modos machistas abusivos. De alguma forma o grito “não é não” já é até batido, mas definitivamente não é algo absorvido pela sociedade machista. Acho sempre válido, até que algum dia o machismo acabe, reforçar esse cuidado e respeito aos nossos corpos. Foi um prazer gigante poder reunir tantas mulheres maravilhosas para, de uma forma empoderadora, gritarmos isso juntas.

03) “Sideral Sinistro” (Paola Alfamor / Saulo Duarte)
Essa música, num flash de memória, me veio em um sonho. É uma viagem astral. Uma abertura de percepção a esse caminho de autoconhecimento pelos astros, o movimento de explorar-se a si e a natureza cósmica, em um movimento de amplidão e pequenez do ser. E tive a ideia de chamar Mãeana e Arthur Braganti porque acredito que eles compartilham das mesmas indagações e da vibe sideral (risos).

04) “Morada” (Paola Alfamor / Saulo Duarte)
“Morada” me veio, como em “Babylon”, no ato. Saindo pela rua, e a letra é meu próprio pensamento. E, no caso, eu estava caminhando pelas ruas de Barcelona, então a letra veio “en español”. Meu pai é argentino, então eu tive a cúmbia muito enraizada na minha construção afetiva musical. A melodia da música foi pensada para ser uma cúmbia solar, e Saulo captou isso muito bem. As “Perotás” [integrantes da dupla Perotá Chingó] eu conheci através do Pocho, que é quem as juntou para cantar e trabalha com elas desde sempre. Era um dia lindo em Berlim, no qual elas acabaram gravando um vídeo para “Camino Certo”. Desde então, nos encontramos muitas vezes ao redor do mundo e, quando pensei em chamar alguém para essa música, me veio o nome delas automaticamente. Foi uma alegria concretizar isso.

05) Semente (Paola Alfamor / Saulo Duarte)
“Semente” escrevi como desabafo, no dia em que Bolsolixo foi eleito. Foi um desespero total, mas ali vi que teríamos que acessar esse lugar de proteção e cuidado conosco e com os nossos para minimizarmos essa situação – e realmente ficarmos atentos ao amor e não ao medo. E um grande exemplo disso pra mim é Marielle Franco! Acredito que, através do exemplo da força dessa mulher, isso reverberou e reverbera: se queremos uma mudança, temos que ser parte disso. Um gatilho para a coragem de enfrentar tamanhas barbaridades de um governo opressor. A escolha pelo reggae se deu porque, tradicionalmente, ele é um ritmo de manifesto e que, simultaneamente, tenta levar luz a essas questões antissistema.

06) “Sábado Sangue” (Paola Alfamor / Saulo Duarte)
Essa música fala sobre menstruação e tudo o que é o ser uma mulher cíclica. Sobre nosso eterno processo de nos entendermos e sermos gentis conosco. A doidera que é, todo mês, passar por uma transformação, ter seus hormônios alterados, sentir de outra forma, lidar com a dor, mas ao mesmo tempo todo conhecimento que trás essa morte – ou renascimento. Nosso sangue menstrual tem conexão com nossas ancestrais e com o instinto feminino. É um atestado da saúde do nosso corpo, uma ligação com um sagrado mistério. E foi muito legal poder chamar minhas manas Camila Costa e Ana Lomelino pra cantar essa comigo, pois já tivemos uma banda só de mulheres – Xanaxou – e foi lá que fiz minha primeira composição, que se chama “Sagrado Sangre”. Era um punk sobre a mulher, seus ciclos e a menstruação (também). Aí, um dia vi uma anotação com o título “Sábado Sangue” perdida no meu HD, e peguei para desenvolver. Logo, a letra e a melodia saíram em um ciclo de uma lua.

07) “Paô” (Paola Alfamor / Saulo Duarte)
Uma canção oração. Um pedido de licença. Iniciei meu trabalho musical com essa música que trata do meu espiritual porque acredito que é daí que tudo vem. É uma forma de agradecimento a tudo que me dá força e faz com que eu me inspire. O “Paó” (pronuncia-se “paô” e significa “bater palmas”) é utilizado para pedir permissão para entrar, saudar e pedir licença. Este gesto milenar remete ao som da chuva caindo sobre o solo e batendo no barro, fazendo com que a natureza dê frutos, germine, fertilize e crie vida. Na comunicação com os orixás, representa o respeito e a reverência às energias. Chama à presença, invoca; louva um ser aludido ou um elemento de àse. Alguns estudiosos da língua dizem que esta expressão yorubá é a junção de duas palavras, reforçando a ideia de que esta é uma saudação que desperta na Terra as energias do orixá: “pa” significaria juntar uma coisa com outra e “ô” seria cumprimentar. Paô é como Seu Mateus Aleluia me chama desde que, para minha sorte, viramos grandes amigos. Foi a partir das nossas trocas que captei todo esse ensinamento e, num lapso, voltando da Bahia certo dia, contei para o Saulo que Seu Mateus estava me incentivando a cantar. Então, o Saulo me instigou a fazer uma música para ele participar comigo no disco. Primeiramente, eu achei muita pretensão e ri, mas ficando sozinha no quarto, minutos depois, me vieram letra e melodia na cabeça, de repente. Aí mostrei para o Saulo e ele foi lapidando, criando as harmonias. Na gravação, Seu Mateus também foi produzindo a música, que foi fluindo de forma muito natural, na sinergia linda que tava rolando naquele dia. É uma honra enorme ter realizado isso – e um tanto auspicioso, inclusive! Mas só agradeço por ter Aleluia como amigo e mestre de tanta sabedoria. Àse!

– Nelson Oliveira é graduado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, atua como jornalista e fotógrafo, sobretudo nas áreas de esporte, cultura e comportamento. É diretor e editor-chefe da Calciopédia, site especializado em futebol italiano. Foi correspondente de Esportes para o Terra em Salvador e já frilou para Trivela e VICE.  A foto que abre o texto é de Ana Alexandrino. 

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