Entrevista: Ricardo Cury fala sobre o livro “Tchau”

entrevista por Leonardo Panço

“Comecei a escrever esse livro em 2004, mas só agora, 12 anos depois, resolvi finalizá-lo e publicá-lo”, contava Ricardo Cury em 2017 na página do crowdfunding para viabilização do lançamento de seu segundo livro, “Tchau”. Meta alcançada, o publicitário, escritor e baterista (que passou por bandas de rock baianas como Dinky Dau, Jupiterscope, brincando de deus e ZecaCuryDamm) começou a produção do livro, que agora alcança o público.

Seu primeiro livro, “Para Colorir”, foi lançado em 2008 e fez ‘sucesso’ no underground – hoje encontra-se esgotado e Ricardo Cury recusa uma segunda edição: “Tem textos no livro que escrevi com 21-22 anos e eu não me enxergo mais em muitos ali”. “Para Colorir” é um livro de crônicas que conta com historias que permeiam o universo do rock underground de Salvador. “Tchau”, por sua vez, é um romance sobre a vida, a morte, o acaso e a esperança.

Para ambientar a contento a trama de “Tchau”, Ricardo Cury conversou com “médicos, enfermeiros, psicólogos, diretores de hospitais, e também pessoas que não são dessa área profissional, mas que passaram por alguma forma de despedida”, e a grande ajuda veio de uma hematologista, que se sensibilizou. Também fez pesquisa com pescadores (que achavam que ele era fiscal do Ibama, devido a tantas perguntas).

Na conversa abaixo, Ricardo fala sobre o longo tempo que separa “Para Colorir” de “Tchau”, conta em detalhes seu processo de pesquisa para produção do livro, e anuncia que já tem outro livro em fase de pesquisa, e que pretende contar “divertidas e trágicas histórias” de bandas da cena baiana como Úteros em Fúria, brincando de deus, Cascadura, Dead Billies, Penélope, Maria Bacana, Inkoma até o fim do Dead Billies. Confira a conversa abaixo!

Primeiro de tudo você não sobrevive da literatura, tampouco da música, e tem uma kiberia, certo?
Sou neto de uma mulher que veio da Síria para o Brasil em 1920. Assim como acontece hoje, uma mulher refugiada, fugindo de guerras e perseguições em seu país. Trouxe consigo as inúmeras receitas da culinária árabe e isso passou pelas gerações. São três estabelecimentos onde servimos o que ela servia.

“Tchau” é o 2º livro seu. Por que tantos anos do “Para Colorir” até agora?
Foram 11 anos exatamente. Acredito que a paternidade tem uma parcela de culpa. O “Para Colorir” (lançado em 2008 e que não é de colorir – e hoje sempre que falo nele tenho que dizer isso, pois na época do lançamento os livros de colorir ainda não tinham aparecido) foi fruto de um blog que já tinha três anos de vida e 150 crônicas. Então, a partir do momento que decidi que iria publicar o livro com aquelas crônicas, foi quase fácil finalizar a coisa. Foi mais um trabalho de edição. Lancei em 2008, vendi os 1000 que imprimi em um ano e em 2009 meu primeiro filho nasceu. Acredito que eu não seja um escritor, estou mais pra um aventureiro. Não tenho disciplina porque preciso estar livre pra isso. Preciso não ter nada pra fazer nas próximas 8-10 horas, pois só assim eu consigo escrever, interrompendo na hora que eu quiser. Ter que parar de escrever porque tem que fazer outra coisa é como acordar de um sonho bom. E a paternidade faz você ter milhares de outras coisas pra fazer o tempo todo.

Você esperava o sucesso tão bom do crowdfunding? Foi um reflexo do primeiro livro?
Foi meio calculado. Eu tenho um feedback positivo do “Para Colorir”. As pessoas pelo menos me dizem que gostaram quando leram, então eu pensei “tenho 1300 amigos no Facebook, preciso que só 200 comprem a ideia, ainda tem os da família…”.

Que tipo de pesquisa você fez para poder ambientar um romance praticamente todo em um hospital? Entrevistou médicos e psicólogos?
Fiz uma lista de profissionais que precisaria ouvir para que me contassem histórias relativas ao tema do livro. Histórias em que eles foram testemunhas ou até mesmo agentes: médicos, enfermeiros, psicólogos, diretores de hospitais, e também pessoas que não são dessa área profissional, mas que passaram por alguma forma de despedida. Então procurei amigos. Um que perdeu a mãe, outra que perdeu o marido, um pai, um avô, um irmão, um amigo… Em um determinado momento eu tive dificuldade de encontrar algumas respostas técnicas e descobri que um médico apenas não resolveria, teria de ser um especialista, aí fui num oncologista amigo, que conseguiu uma hora pra me atender, mas quando ele começou a ler minhas perguntas, percebeu que eu precisava de alguém ainda mais especializado, que no meu caso seria um hematologista. Procurei alguns, mandei e-mail explicando a coisa, o livro, a história, mas não consegui nenhum retorno, afinal eram mais de 20 perguntas sobre determinado tratamento, sintomas, prognóstico, reações, segundas tentativas de tratamento e se isso tudo podia se encaixar no contexto da história que eu estava escrevendo… Então eu marquei uma consulta pelo meu plano de saúde e quando fui atendido, a hematologista perguntou o que eu tinha e eu disse ”não tenho nada, estou escrevendo um livro e preciso de informações sobre leucemia, sua especialidade”. Essa médica em questão se sensibilizou e prometeu responder as perguntas por e-mail. O que fez diversas vezes, inclusive lendo os trechos pra dizer se estavam verossímeis. E também fiz uma pesquisa com pescadores, pois um personagem é pescador. Assim conversei com amigos profissionais, mas também fui pra uma vila e fiquei por lá convivendo, conversando e indo no local da pesca. No começo ficaram desconfiados achando que eu era um fiscal do Ibama porque minhas perguntas eram ”pega quantos quilos? sai que horas? volta que horas? usa que material? que linha? que anzol? que rede?”, mas no final ganhei a confiança e a pesquisa fluiu.

Por que a recusa de uma 2ª edição do “Para Colorir”? Você realmente teve propostas para uma reedição?
Tive início de conversa, nada realmente muito certo, mas como é algo que nunca me deu ânimo, eu nunca fiz questão de evoluir no assunto ou mesmo de correr atrás pra isso acontecer. Lancei ele quando eu tinha 29-30 anos. Tem textos no livro que escrevi com 21-22 e eu não me enxergo mais em muitos ali. Mas não é uma recusa, é um respeito. Ele teve seu ciclo e desovei a produção toda. Tá de bom tamanho. Ele tem um formato grande e quando chegou da gráfica, as caixas ocuparam meu quarto quase todo, até o teto. Fiquei em pânico porque uma coisa é você pensar ”vou imprimir 1000 livros” e outra é você ver fisicamente esses 1000 livros e pensar ”pqp, tenho que vender 1000 livros”. Lançar uma segunda edição também significa que eu teria que fazer uma divulgação e eu não ficaria tão à vontade pra isso, divulgar algo que eu não me identifico tanto. Eu teria de fazer uma edição, reescrever, eliminar um monte de trechos, de crônicas (não tive um editor, fiz tudo sozinho e quis abraçar o mundo, contar de tudo).

Esse romance tem a morte como tema central, mas não único. Você lida bem em pensar sobre a morte?
Em pensar sobre, acho que sim, até porque estou em constante questionamento com esse tema. Se eu não me desse bem com isso, estaria perdido. Não que seja o tempo todo, mas é um questionamento que permeia meu universo constantemente. Escrever sobre isso foi talvez mais um questionamento e mais uma procura por resposta.

Que diferenças você sentiu entre compor, criar, escrever um livro de crônicas e agora um romance?
Compor música, no meu caso, sempre foi com outras pessoas, então isso já é bem diferente do que escrever um livro, de crônicas ou romance, que é algo solitário. Porém, o processo tem semelhanças. Tudo vem de uma ideia que precisa ser arrumada e depois lapidada para só então ser apresentada. Música, literatura, cinema ou gastronomia.

Teremos livro novo em breve?
Sim. Minha esposa diz que é cara de pau minha, mas estou pensando em já colocar o crowdfunding no ar. Será um “Para Colorir 2” – mas não com esse nome – mas também não com crônicas sobre a minha pessoa. O “Para Colorir” tem ainda três coisas que me orgulho. As ilustrações em primeiro (a capa acho incrível assim como os desenhos internos), a diagramação em segundo e, em terceiro, o fato de que muitas pessoas falam que ele é um livro sobre o rock de Salvador. Eu gosto disso apesar de discordar totalmente, pois ele não é sobre o rock de Salvador, mas, sim, sobre coisas que vivi, onde, em muitas vezes, o esse rock serviu de cenário. Então, nesse “Para Colorir 2” eu quero fazer justiça a isso, quero fazer um livro de crônicas do rock de Salvador, porém vou escrever as histórias dos outros e não minhas como no “Para Colorir”. A ideia é contar as inúmeras e divertidas e trágicas histórias das bandas de um determinado período. Esse período é um recorte pessoal, pois o livro não será um documento acadêmico, então não vou abraçar o mundo, só o meu. Começo com a Úteros em Fúria (banda seminal da geração 90 de Salvador) e vou pra brincando de deus, Cascadura, Dead Billies, Penélope, Maria Bacana, Dois Sapos e Meio, Inkoma, Lisergia, Arsene Lupin, Injúria… e tantas outras mais, e termina com o fim dos Dead Billies, talvez a banda mais emblemática e representativa dessa cena, que tem seu fim decretado justamente no ano 2000, sepultando a década. O livro está sendo feito em parceria com a fotógrafa Sora Maia, dona de um enorme registro dessas bandas, e com o jornalista Chico Castro Jr., que vai escrever sobre as produções: as fitas-demos e o os CDs. As pesquisas já começaram.

– Leonardo Panço (https://leonardopanco.bandcamp.com/) é um homem multitarefas: desde o começo dos anos 90 que ele atua em diversas frentes culturais seja tocando em bandas e gravando discos (Soutien Xiita e Jason), seja escrevendo livros (“Jason 2001: uma odisseia na Europa”, “Esporro” e “Caras Dessa Idade Não Leem Manuais”), seja lançando artistas pelo selo Tamborete (com destaque para Gangrena Gasosa e Zumbi do Mato) (continue lendo).

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