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Category — Literatura

Top 100 Momentos Icônicos da Cultura Pop

Em 2005, a bacanuda revista inglesa Uncut saiu perguntando prum time invejável de “colaboradores” quais foram os momentos mais marcantes da cultura pop, aquele fragmento de segundo em que um objeto de cultura (um livro, um disco, um filme, um single, um programa de TV, etc…) mudou a sua vida, em particular, e revolucionou a cultura pop em geral. No “júri” seletíssimo da revista estão nomes como Patti Smith, Paul McCartney, Keith Richards, Ozzy Osbourne, Lemmy, Stephen Malkmus, Björk, Michael Stipe, Noel Gallagher e muitos, muitos outros. Abaixo você confere a lista Top 100 que foi publicada em um especial de 50 páginas na revista em setembro de 2005, e quem escreveu sobre aquela obra.

1. “Like a Rolling Stone” (1965), de Bob Dylan, por Patti Smith
2. “Heartbreak Hotel” (1956), de Elvis Presley, por Paul McCartney
3. “She Loves You” (1963), dos Beatles, por Ozzy Osbourne
4. “(I Can’t Get No) Satisfaction” (1965), dos Rolling Stones, por Roger Daltrey
5. “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick, por Malcolm McLaren
6. “O Poderoso Chefão I e II” (1972/1974), de Francis Coppola, por Steve Van Zandt
7. “Rise & Fall of Ziggy Stardust & the Spiders from Mars” (1972), de David Bowie, por Robert Smith
8. “Taxi Driver” (1976), de Martin Scorsese, por Edwart Norton
9. “Never Mind the Bollocks, Here’s the…” (1977), dos Sex Pistols, pelos Buzzcooks
10. “Prisoner” [TV serie] (1967/1968), por Donovan
11. “Meu Ódio Será Tua Herança” (1969), de Sam Peckinpah, por Michael Madsen
12. “Velvet Underground and Nico” (1967), por Michael Stipe
13. “Purple Haze” (1967”, de Jimi Hendrix, por Lemmy
14. “Simpsons [TV series]”, por Matt Stone
15. “After the Gold Rush” (1970), de Neil Young, por Jim Jarmusch

16. “Ramones” (1976), dos Ramones, pelo Sonic Youth
17. “Pet Sounds” (1966), dos Beach Boys, por Jimmy Webb
18. “My Generation” (1965), do The Who, por Bob Mould
19. “On the Road” (1957), de Jack Kerouac, por Roddy Frame
20. “Unknown Pleasures” (1979), do Joy Division, por Paul Morley
21. “Waterloo Sunset” (1967), do Kinks, por Peter Buck
22. “Raw Power” (1973), de Iggy & the Stooges, por Josh Homme
23. “Trans Europe Express” (1977), do Kraftwerk, por Richard Kirk
24. “Clash” (1977), do Clash, por Bo Diddley
25. “This Charming Man” (1983), dos Smiths, por Noel Gallagher

26. “Easy Rider” (1969), de Dennis Hopper, pelo New Order
27. “Johnny B Goode” (1957), de Chuck Berry, por Keith Richards
28. “Almoço Nu” (1959), de William Burroughs, por Lou Reed
29. “Spiral Scratch” (1977), dos Buzzcocks, por Alex Kapranos
30. “Music from Big Pink” (1968), da The Band, por Richard Thompson
31. “Eight Miles High” (1966), do The Byrds, por Johnny Marr
32. “Tutti Frutti” (1955), de Little Richard, por Al Green
33. “Blue Monday” (1983), do New Order, por Bernard Butler
34. “Um Estranho no Ninho” (1976), de Miles Forman, por Jesse Malin
35. “Grievous Angel” (1974), de Gram Parsons, por Bobby Gillespie

36. “Born to Run” (1975), de Bruce Springsteen, por Badly Draw Boy
37. “Scarface” (1983), de Brian de Palma, por Don Letts
38. “Five Leaves Left” (1969), de Nick Drake, por John Martyn
39. “Medo e Delírio em Las Vegas” (1971), de Hunter S. Thompson, por Ralph Steadman
40. “Monty Python’s Flying Circus [TV serie]” (1969/1974), por Lee Hazlewood
41. “Roxy Music” (1972), do Roxy Music, por Marc Almond
42. “New York Dolls” (1973), do New York Dolls, por Billy Idol
43. “Brass Eye” [TV series] (1997/2001), por Brian Eno
44. “Astral Weeks” (1968), de Van Morrison, por Kevin Rwoland
45. “Forever Changes” (1967), do Love, por Robert Plant
46. “Manhattan” (1979), de Woody Allen, por Gene Wilder
47. “Horses” (1975), de Patti Smith, por John Cale
48. “What’s Going On” (1971), de Marvin Gaye, por Paul Weller
49. “Ghost Town” (1981), dos Specials, por Damon Albarn
50. “#1 Record” (1972), do Big Star, por Mike Mills

51. “Marquee Moon” (1977), do Television, por Paul Haig
52. “Blue” (1971), de Joni Mitchell, por Crosby & Nash
53. “Curb Your Enthusiasm [TV series]”, por Doves
54. “Surfer Rosa” (1988), do Pixies, por J. Mascis
55. “Takes a Nation of Millions to Hold Us Back” (1988), do Public Enemy, por Beck
56. “Innervisions” (1973), de Stevie Wonder, por Josh Rouse
57. “Trout Mask Replica” (1969), do Captain Beefheart & His Magic Band, por Davey Henderson
58. “Physical Graffiti” (1975), do Led Zeppelin, por Dave Grohl
59. “Juventude Transviada” (1955), de Nicolas Ray, por Andrew Loog Oldham
60. “Bo Diddley” (1955), de Bo Diddley, por Mark E. Smith

61. “I Say a Little Prayer” (1968), de Aretha Franklin, por Rufus Wainwright
62. “Be My Baby” (1963), das Ronnetes, por Brian Wilson
63. “Catch a Fire” (1973), de Bob Marley the Wailers, por Suggs
64. “Rastros de Ódio” (1956), de John Ford, por Chris Hillman
65. “Electric Warrior” (1971), do T.Rex, por Luke Haines
66. “Nevermind” (1991), do Nirvana, por Gus Van Sant
67. “Shot by Both Sides” (1978), do Magazine, por Jarvis Cocker
68. “I Feel Love” (1977), de Donna Summer, por Sparks
69. “Piper at the Gates of Dawn” (1967), do Pink Floyd, por Carl Barat
70. “Tracks of My Tears”(1969), de Smokey Robinson & the Miracles, por Colin Blundstone
71. “Whole Lotta Shakin’ Goin’ On” (1971) de Jerry Lee Lewis, por Moby
72. “Doors” (1967), do Doors, por Grace Slick
73. “Live at the Apollo” (1963), de James Brown, por Hall & Oates
74. “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock, por Alice Cooper
75. “Reach Out (I’ll Be There)” (1966), dos Four Tops, por Wayne Kramer

76. “Metal Box” (1979), do Public Image Ltd, por Wayne Coyne
77. “Daydream Nation”, do Sonic Youth, por Stephen Malkmus
78. “A Change is Gonna Come” (1964), de Sam Cooke, por Kurt Wagner
79. “Relax” (1983), do Frankie Goes to Hollywood”, por Kevin Godley
80. “Midnight Cowboy” (1969), de John Schlesinger, por Norman Blake
81. “Off the Wall” (1979), de Michael Jackson, por Adam Ant
82. “Falling & Laughing” (1980), do Orange Juice, por Stuart Murdoch
83. “Good, the Bad & the Ugly” (1966), de Sergio Leone, por Robert Rodriguez
84. “Kick Out the Jams” (1969), do MC5, por Juliette Lewis
85. “Hurt” (2003), de Johnny Cash, por Trent Reznor
86. “Clube da Luta” (1999), de David Fincher, por Frank Black

87. “Murmur” (1983), do R.E.M., por Guy Garvey
88. “Sopranos” [TV series], por Ian McCulloch
89. “Catch 22” (1961), de Joseph Heller, por Noddy Holder
90. “Bullitt” (1968), de Peter Yates, por Todd Rundgren
91. “Stone Roses” (1989), dos Stone Roses, por Saint Etienne
92. “Fear of Music” (1979), dos Talking Heads, por Steve Harley
93. “There’s a Riot Goin’ On”, de Sly & the Family Stone, por Tim Burgess
94. “Good Times” (1979), do Chic, por Martin Fry
95. “Rumours” (1977), do Fleetwood Mac, por Magic Numbers
96. “Imperial Bedroom” (1982), de Elvis Costello & the Attractions, por Robert Downey Jr.
97. “Screamadelica” (1991), do Primal Scream, por Serge Pizzorno
98. “Sulk” (1982), do Associates, por Bjork
99. “Operação Dragão” (1973), de Robert Chouse, por Jean Jacques Burnel
100. “Soft Bulletin” (1999), dos Flaming Lips, por Chirs Martin

Abril 20, 2018   No Comments

Sobre a biografia de Bruce Dickinson

A convite da Intrínseca, escrevi sobre a autobiografia de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden (entre muitas outras coisas), para o blog da editora:

“Um dos caras mais gente boa do metal, Bruce Dickinson consegue fisgar o leitor tanto com histórias escabrosas (tipo urinar na sopa dos professores do colégio — e ser pego depois) quanto por momentos emocionantes (como uma visita a uma creche em Sarajevo no meio da guerra ou outra a Auschwitz: “Chorei muito depois da visita. Senti raiva e fiquei em silêncio”, conta). Sua autobiografia vai além da história de uma celebridade relembrando momentos de sua vida”. (Texto completo aqui)

Abril 11, 2018   No Comments

De Bruce Springsteen para Philip Roth

Terminei a bio do Bruce e raras vezes li algo tão pessoal e comovente, tão confidente. O fato de ser um herói pessoal e abrir-se mostrando seus defeitos e sua intensa luta contra a depressão (ainda hoje) torna a experiencia muito mais palpável, como se fosse um amigo que a gente admira contando seus causos. Daqueles livros que fazem você admirar ainda mais o autor. Bem, seguindo um acordo que fiz com a Lili, alternarei um livro de música e um romance este ano (a ideia é voltar a ler um livro por mês) então partiu para Philip Roth (eu já tinha deixado “O Complexo de Portnoy” na fila muito antes do Roth elogiar a bio do Bruce. Acabou sendo uma feliz coincidência).

Fevereiro 16, 2018   No Comments

Bruce Springsteen explica “Born in the USA”

“Alguns livros, algumas palhetas de guitarra espalhadas e um suporte de gaita se digladiavam com as migalhas de um lanche, roubando espaço do meu bloco de notas. Um abajur antigo iluminava o roteiro que estava em cima da mesa e que havia sido enviado por Paul Schrader, roteirista que havia escrito “Taxi Driver” e “Vivendo na Corda Bamba”, dois dos meus filmes favoritos dos anos 70. Toquei alguns acordes na minha Gibson J200 queimada pelo sol, percorri as folhas do meu bloco de notas, parei numa página e murmurei o verso de uma canção em que estava trabalhando sobre os veteranos da Guerra do Vietnã que voltavam para casa. Dei uma olhada na primeira página do roteiro ainda por ler e cantei o título: “Born in the USA”.

Peguei “Born in the USA” diretamente do roteiro do Schrader, uma história sobre as aventuras e desventuras de uma banda de bar de Cleveland, Ohio, que acabou por ser lançado com o título de “Light of Day” em 1987 (no Brasil, “Luz da Fama”), incluindo uma canção minha com o mesmo título, tentativa educada de retribuir ao Paul aquele roubo imprevisto que acabaria por dar um empurrão à minha carreira. No estúdio Hit Factory, observei que tinha em mãos uma letra, um grande título, dois acordes e um riff de sintetizador, mas não tinha um arranjo. Era o nosso segundo take. Um turbilhão de som vindo do amplificador Marshall soou nos meus fones. Comecei a cantar. A banda me seguiu de perto num arranjo improvisado e, na bateria, Max Weinberg fez uma de suas melhores atuações em estúdio. 4 minutos e 39 segundos depois, “Born in The USA”, a música, ficava pronta. Soava como se tivéssemos conseguido prender um relâmpago dentro de uma garrafa.

13 anos depois do fim da Guerra do Vietnã, escrevi e gravei a minha história de um soldado. Era uma canção de protesto, e quando a ouvi trovejando através das gigantescas colunas do estúdio, soube logo que era uma das melhores coisas que já tinha feito. Era um blues de soldado americano, em que os versos eram um relato do que aconteceu, e o refrão uma declaração da única coisa que jamais poderia lhe ser negada: o lugar do nascimento, o direito a todo o sangue, confusão, bênçãos e graça que vinham com ele. Ao darmos corpo e alma, ganhamos o direito de reclamar e moldar o pedaço de terra onde nascemos.

“Born in The USA” se mantém como uma das minhas melhores e mais incompreendidas canções. A combinação dos seus versões blues “para baixo” com o refrão declarativo “para cima”, a exigência do direito de ter uma voz patriótica “crítica”, juntamente com o orgulho do lugar onde se nasce, parecia ser conflituosa demais (ou simplesmente incômoda!) para ouvidos despreocupados e menos perspicazes. É assim, meu amigo, que a bola do pop político pode rolar. Os discos são, muitas vezes, testes auditivos de Rorschach: ouvimos aquilo que queremos ouvir.

Durante anos e anos após o lançamento do meu álbum campeão de vendas, na época do Halloween, havia sempre criancinhas com bandanas vermelhas batendo à minha porta, com seus sacos de doces ou travessuras na mão e cantando ”I was born in the USA”. A canção “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie, acabou tendo o mesmo destino, tornando-se presença habitual nas férias em acampamentos, mas isso não me fazia sentir melhor (quanto Pete Seeger e eu cantamos “This Land Is Your Land” na posse do presidente Barack Obama, um dos pedidos do Pete foi que cantássemos todos os contraversos escritos por Woody, pois ele queria recuperar a radicalidade da canção).

Em 1984, ainda por cima um ano de eleições, com o Partido Republicano querendo cooptar até o cu de uma vaca se houvesse uma tatuagem da bandeira dos Estados Unidos nele, o presidente em exercício, Ronald Reagan, acabou distribuindo cinicamente por todo o Estado o seu agradecimento à “mensagem de esperança nas canções… do filho de New Jersey, Bruce Springsteen” numa estratégia de campanha, e, bem… vocês sabem o resto. Em contrapartida, Bobby Muller, àquela altura presidente do Vietnam Veterans of America, foi o primeiro cara a quem mostrei a versão final de “Born in The USA”. Ele entrou no estúdio, sentou-se e aumentei o volume. Ele escutou durante alguns momentos e depois deu um largo sorriso.

Um compositor escreve para ser compreendido. Será uma tomada de posição política? Será que o som e a forma da canção transmitem o seu conteúdo? Vindo do disco “Nebraska”, eu tinha acabado de fazer isso de ambas as formas, mas aprendi uma lição de como o pop e a imagem do pop eram apreendidos. Ainda assim, eu não teria feito qualquer desses discos de forma diferente. Ao longo dos anos, tenho tido a oportunidade de reinterpretar “Born in the USA”, especialmente em versões acústicas que dificilmente seriam mal-entendidas (há, inclusive, uma versão acústica no box “Tracks”, de 1998), mas mesmo essas reinterpretações eram sempre comparadas com a versão original, e ganhavam parte de seu novo poder a partir da experiência anterior que o público tivera com o álbum. No disco, “Born in the USA” surgia na sua versão mais poderosa. Se eu tentasse enfraquecer o alterar a música, acredito que até poderia ter ficado com um disco que teria sido mais facilmente compreendido, mas que não seria tão gratificante.

“Born in the USA”, o álbum, foi um sucesso em escala planetária. Eu sabia que tinha uma verdadeira vencedora na canção título, mas não esperava a onda maciça de reconhecimento que obtivemos. Terá sido o timing? A música? Os músculos? Não sei. É sempre mais ou menos um mistério o que provoca um sucesso tão gigantesco”. 

Trecho de “Born To Run – Uma Autobiografia”, de Bruce Springsteen

Nascido numa cidade de um homem morto (1)
O primeiro chute que recebi foi quando caí no chão
Você acaba como um cão que foi surrado demais
E que gasta metade da sua vida só se escondendo

Nascido nos EUA, eu nasci nos EUA
Eu nasci nos EUA, nascido nos EUA

Me meti numa pequena confusão em minha cidade natal
Então eles colocaram um fuzil na minha mão
Me enviaram para uma terra estrangeira
Para ir e matar os homens amarelos

Volto para casa, para (o trabalho n)a refinaria
O homem que contrata diz: “Filho, se dependesse de mim”
Mostra para ele minha carteira de veterano de guerra
Ele diz: “Filho, você não está compreendendo”

Eu tinha um irmão em Khe Sahh, combatendo os Vietcongues
Eles ainda estão lá, mas se morreu
Ele tinha uma mulher que amava em Saigon
Eu tenho uma foto dele nos braços dela

Debaixo da sombra da prisão
Ou perto das chamas de gás da refinaria
Estou há 10 anos sem rumo
Nada para fazer, nenhum lugar para ir

Nascido nos EUA, eu nasci nos E.U.A
Nascido nos EUA, sou um pai ausente nos EUA

Nascido nos EUA, eu nasci nos E.U.A
Nascido nos EUA, sou um pai bacana agitando nos EUA

****

(1) Dead man’s town significa “cidade de um homem morto”, uma expressão que sugere uma cidade sem grandes oportunidades de trabalho que perde a mão de obra de sua população jovem, que migra para locais com maiores perspectivas.

Leia também:
– Bruce Springsteen e o fotógrafo Frank Stefanko (aqui)
– “Wrecking Ball”, retrato do lado podre das pessoas  (aqui)
– A passagem da turnê “Wrecking Ball” por Trieste (aqui)
– “Working on a Dream” não é ruim, o nível é que é alto (aqui)
– “Magic” fica abaixo de outros álbuns de Bruce(aqui)
– “The Promise” resgata do limbo canções sensacionais (aqui)
– Três horas de Bruce Springsteen ao vivo em Roma (aqui)
– Discografia: todos os discos de Bruce Springsteen (aqui)
– Bruce Springsteen ao vivo em São Paulo (aqui)

Fevereiro 15, 2018   No Comments

Um livretinho de Nelson Rodrigues

Eu comecei a ler bem cedo e logo moleque já era rato de biblioteca. Curiosamente, porém, só fui ‘encontrar” Nelson Rodrigues aos 24 anos, quando um representante da Folha deixou de presente na biblioteca em que eu trabalhava este volumezinho viciante. São apenas 11 histórias, entre elas “A Dama da Lotação”, “A Realeza de Pelé” e, uou, “Coroa de Orquídeas”, que, viciado (também) adaptei para um trabalho de teatro na faculdade. São “só” palavras num papel tosco, mas bastou para ser convertido… Em 2015, um filme que adaptava algumas histórias de Nelson, “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos“, passou batido, mas merece ser assistido. Está disponível no acervo do Canal Brasil (pra quem tem NET, Vivo, Sky, Claro HDTV e Oi). Vale a pena.

Janeiro 31, 2018   No Comments

Eu e Lygia

Uma das melhores cervejas que bebi em 2017 (Dádiva Quatro Graus Entomology, medalha de ouro dos últimos 30 dias) acompanhada de um dos dois livros que me viciou na leitura (o outro, na verdade, foram os primeiros volumes de uma série: “Para Gostar de Ler“): “Seleta”, uma coletânea de contos da Lygia Fagundes Telles (editada em 1971) que eu li a primeira vez quando tinha 10 anos, e fiquei chapado, pois trata-se de uma edição comentada em que a professora Nelly Novaes Coelho aprofunda o olhar do leitor ao final de cada conto. Como diria Erasmo, eu era criança, não entendia nada das entrelinhas dos contos, e os comentários da Nelly me abriram esse universo inexplorado pelo qual me apaixonei (e que amplifiquei na coleção de Shakespeare, que comentei aqui). Sonhei acho que um mês inteiro com o desenrolar de “Venha Ver o Pôr do Sol”, sempre com foco nas crianças brincando enquanto o final trágico era construido. Dai em diante, devorei praticamente tudo da Lygia, adaptei e encenei “Lua Crescente em Amsterdã” (que não está presente nessa coleta) pruma aula de teatro da faculdade e uma amiga a pediu em casamento… por mim. “Ele tem dinheiro?”, ela perguntou, rindo. Tadica :~ E todo esse amor pelos textos de Lygia Fagundes Telles começou com esse livrinho (que não custa nem R$ 10 no Estante Virtual). Venha ver o pôr do sol. Ele é trágico.

Janeiro 26, 2018   No Comments

O livro (e o show) de Lee Ranaldo em SP

Força tarefa de Nilson Paes, Marcelo Viegas e Fábio Massari, a Editora Terreno Estranho está lançando no Brasil o livro “Jrnls 80’s: Poemas, Letras, Cartas, Anotações e Cartões-Postais dos Primeiros Anos do Sonic Youth”, de Lee Ranaldo! A noite de autógrafos com direito a show de Lee acontecesse dia 12/12 no CCSP. Imperdível. Falo um pouco mais no vídeo abaixo.

dezembro 5, 2017   No Comments

Shakespeare e eu

Comecei a rever “Hamlet” (1996), a maravilhosa epopeia do Kenneth Branagh com 4h20 de duração que é das minhas adaptações favoritas da obra de Shakespeare, e quando percebi me vi relembrando da primeira vez que li o Bardo e já estava mandando uma mensagem pruma das bibliotecas da minha vida via Facebook:

“Olá! Meu nome é Marcelo, moro em São Paulo desde 2000, mas cresci em Taubaté e durante muito tempo peguei livros emprestados ai da biblioteca (posso dizer orgulhosamente que ela ajudou a me definir – risos). Nessa época havia ai uma coleção do Shakespeare, vários volumes (entre 15 e 20), com capa azul. Eu gostaria de saber se vocês ainda tem essa coleção a disposição do leitor e se poderiam identificar editora e edição, pois eu sonho vez em quando com essa coleção, e gostaria de tê-la em casa 🙂 É uma edição comentada de várias peças do Shakespeare.”

Hoje cedo o pessoal da biblioteca me respondeu gentilmente acrescentando essas duas fotos da coleção que me encantou quase quatro décadas atrás e então descubro que tudo do que li de Shakespeare na primeira (e segunda) vez (no começo dos anos 80) foi de uma coleção de 36 volumes de… Portugal (uma coleção mui provavelmente doada por alguma boa alma) – tenho ainda comigo desde sempre dois volumes da Editora Abril com 4 tragédias e 4 comédias datado de 1981, mas a minha base foi essa coleção portuguesa.

A primeira vez que li essa coleção foi entre os 11 e 12 anos. Como é de se imaginar, muita coisa passou batido por mim, mas a paixão foi tanta que reli essa coleção completa durante a crise dos 17 (pré e durante o Serviço Militar Obrigatório).

A edição é datada de 1955 e é da Lello & Irmãos, uma editora do Porto (também livraria). Soube através de um amigo português no Facebook que “a Livraria Lello ainda existe no mesmo local e é a mais incrível livraria de Portugal e uma das mais lindas do mundo. Paragem obrigatória se um dia fores ao Porto”. Dica anotada! Adoro essa edição da Lello das obras de Shakespeare porque muitos dos textos vem com um apêndice informativo primoroso, que amplia demais o olhar sobre a obra.

Numa busca na web cai nesse texto do Fernando Simões Garcia e compartilho a salvação do autor neste trecho delicioso que analisa as traduções de Shakespeare para o português:

“Fernando Pessoa escreveu o seguinte sobre a edição da Lello & Irmãos:

‘Apenas folheei, e nem uma linha li, das traduções que o sr. dr. Domingos Ramos terá imortalmente que expiar. Porque não é com a competência de tradutor-de-inglês do sr. dr. Ramos que eu implico e esbarro. É com a sua competência para traduzir Shakespeare, visto que lhe cai em cima e o reduz a prosa’.

Muito mais sensível do que eu, Fernando Pessoa rejeitou pela capa os volumes que me salvariam — pela qualidade e pelo tamanho. Trinta e seis volumes. Apostei metade do meu salário neles. Foi uma aposta. Eu não sabia da qualidade do que eu comprava. A edição foi composta por cinco ou seis tradutores. Todos eles com seu estilo. Sem regras fixas, cada um foi moldando a peça traduzida à medida de si próprio.

António de Castilho, por exemplo, que traduziu o Fausto — e há quem o acuse de o ter feito sem saber alemão — compôs em verso próprio o seu A Midsummer Night’s Dream. Sem notas, sem ensaio introdutório. Castilho negligenciou tudo, menos a poesia. O resultado, que não é do meu gosto, pode agradar a quem tenha o espírito mais movimentado. Não deixa de ser curioso, no entanto, esse esforço — e essa disparidade de tradutores, de inclinações intelectuais. Em contraposição, o Dr. Ramos, o Dr. condenado pelo Pessoa, é certamente o tradutor mais judicioso que possa existir. Traduziu diversas peças, todas elas bem alimentadas de ensaios introdutórios e notas explicativas.

O exemplo mais elevado é a tradução de Júlio César: o Dr. Ramos seguiu, passo a passo à letra do Bardo, a narrativa de base que deu origem à peça: a vida de Júlio César de Plutarco. O leitor que tenha paciência de folhear o volume achará ali uma sobrevida, uma camada a mais da personalidade vibrante e do destino trágico de César. As notas são exaustivas, completas, pra latinista nenhum botar defeito. Outro tradutor: Henrique Braga. Traduziu, entre outras, Troilus e Créssida. Sua obsessão com os tradutores franceses — os mesmos de que Machado de Assis fez largo uso — é esclarecedora. Ele compara, estuda e até repara as traduções feitas para o francês. Às vezes chega a dizer que são péssimas traduções, as dos franceses. O homem é ousado.

Com exceção de 4 ou 5 das Comédias, li todo o Shakespeare pela edição da Lello & Irmãos. Não me arrependo. Mesmo hoje, lendo em inglês, volto a elas. A tradução é sempre precisa. Sempre clara. Feita numa época em que as pessoas sabiam escrever em língua portuguesa.

O traço mais elevado dessa edição é a pluralidade. Cada tradutor expandiu a sua própria personalidade e o seu próprio gosto — e o modo pelo qual o gôsto se desenvolve — carregando à ponta do lápis as suas expressões e preferências mais íntimas. Sem a uniformidade tão característica das edições de hoje, a sensação que tive foi a de estar lidando com gente real — gente que leu, estudou e amou a obra de William Shakespeare.”

Pessoas como eu. Talvez você. <3

Leia a integra da esplendorosa análise do Fernando Garcia aqui.

outubro 25, 2017   No Comments

O punk rock por Peter Hook

Nunca definiram o punk rock tão bem quanto Peter Hook, ex-baixista do Joy Division e do New Order, no divertidíssimo livro “Joy Division: Unknown Pleasures”:

setembro 23, 2017   No Comments

Livro de Lee Ranaldo ganhará edição nacional

Publicado originalmente em 1998, “jrnls80s – Poems, Lyrics, Letters, Observations, Wordplay and Postcards from the Early Days of Sonic Youth”, de Lee Ranaldo, irá ganhar edição nacional nos próximos meses. O livro compila relatos de Lee Ranaldo sobre os primeiros anos de estrada do Sonic Youth, poesia, rascunhos de letras e doideiras. Segundo Marcelo Viegas, que está cuidando da parte editorial do livro (e lançou recentemente seu próprio livro, “Então? Coletânea de entrevistas de Música, Skate e Arte”), “jrnls80s é tão experimental quanto um disco do Sonic Youth: tem momentos ‘normais’ e coisas bem dissonantes”. O lançamento está em fase final de tradução devendo chegar nas livrarias entre setembro e outubro por uma nova editora, a Terreno Estranho.

Leia também:
– Lee Ranaldo desfila Fenders detonadas em show no Largo da Batata (aqui)
– Intimismo valoriza “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake” (aqui)
– “Girl in a Band”, de Kim Gordon, uma intensa confissão de fracasso (aqui)
– “1991 – The Year Punk Broke”: difícil não se apaixonar por Kim (aqui)
– Thurston Moore em SP: “Vocês estão sentindo o gosto do inferno? (aqui)
– Faixa a Faixa: “Murray Street”, do Sonic Youth (aqui)
– Claro Que é Rock 2005: Sonic Youth cansa em um show sonolento (aqui)
– “Between The Times And The Tides”, um belo disco de Lee Ranaldo (aqui)
– “Demolished Thoughts”, Thurston Moore soa interessado em sossego (aqui)

julho 11, 2017   No Comments