Category — Causos
Um puta clichê
Dia desses eu conversei com a Talita, que está se encaminhando para o projeto de conclusão da faculdade de Jornalismo, e está centrando o foco de seu estudo nos sites de cultura. No meio do papo, a pergunta:
- O que te levou a fazer jornalismo?
A resposta aqui
Ps. Tô pensando sobre a vida. Já volto.
Maio 25, 2008 3 Comments
Atualizando histórias

Na quinta-feira, enquanto o Intensom com Hurtmold e Mamelo Sound System esgotava os ingressos da choperia, me abasteci de dois chopps escuros para assistir ao Wado no teatro do Sesc Pompéia. Uma seleta platéia acompanhou o músico num passeio por seus quatro álbuns, privilegiando o repertório do recém lançado “Terceiro Mundo Festivo” (baixe aqui).
Centrado em programações, teclados, baixo e bateria (com uma guitarra, tocada pelo próprio Wado, eventual), o show destacou canções mais antigas como “Alagou As”, “Uma Raíz, Uma Flor”, “Ontem Eu Sambei” (do “Manifesto da Arte Periférica”) e “Sotaque” (”Cinema Auditivo”). “Tarja Preta” surgiu em uma versão sinuosa, contagiante.
De “A Farsa do Samba Nublado” marcaram presença “Tormenta”, “Grande Poder”, “Alguma Coisa Mais Pra Frente”, “Se Vacilar o Jacaré Abraça” e “Carteiro de Favela” (faltaram – sempre faltam – “Amor e Restos Humanos” e “Deserto de Sal”). Das canções novas, destaque para a pungente “Melhor”, a poderosa “Fita Bruta” e o sambinha “Fortalece Ai”. De extra, um excelente funk proibidão sobre o 11 de setembro. Classe. (mais fotos aqui)
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Na sexta, aniversário de Lili no Veloso. Tomei um banho de caipirinha de frutas vermelhas (acho que a camiseta do Ash não irá sobreviver), mas a turma toda se deliciou com as melhores caipirinhas e coxinhas da cidade (ainda volto para experimentar com calma o bife de tira).
Na volta pra casa pegamos um taxi com Luiz, o equivalente nacional de Jerry Fletcher, o motorista interpretado por Mel Gibson no filme “Teoria da Conspiração”. Se eu tivesse guardado ao menos umas duas ou três previsões que ele nos falou no carro, teria escrito um “cenas da vida em São Paulo”. Coisas assim: O mundo vai acabar em 2022. Na verdade, os Estados Unidos vão acabar, e o Brasil será a maior potência da Terra. Sério.
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Eu planejava ver uns filmes no cinema no fim de semana, mas não rolou. No sábado, só Lost. No domingo, uma amiga ligou convidando para um almoço no Consulado Mineiro, na praça Benedito Calixto. Depois de uma bela refeição (bisteca, torresmo, feijão tropeiro, tutu, couve, farofa de banana – estou ficando com fome de novo) e algumas doses da excelente cachaça Germana, não teve como resistir a voltar para casa e desmaiar na cama. Vontade de ficar a semana inteira debaixo do edredom, mas a gente tem que trabalhar, né mesmo. :/

Maio 12, 2008 4 Comments
Do humor
O humor é algo bem interessante. Constantemente me pego fazendo coisas que não faria em determinadas situações, tipo, comprar coisas que em uma situação normal não compraria, ou gostar disso ou daquilo, e depois perceber que aquele filme, CD ou coisa que o valha não era aquela coca-cola toda. Acontece. Tem dias que fico lendo meus próprios textos e demoro a achar um que preste. Em outros dias, porém, até dos meus poemas eu gosto. Vá entender.
Pensei nisso tudo, pois hoje na hora do almoço passei nas Lojas Americanas do Shopping Iguatemi e, diante das promos de DVDs, comprei um filme que eu nunca compraria em uma situação normal. Peguei primeiramente o “Despedida em Las Vegas”, do Mike Figgs, que baixou de R$ 19,90 pra R$ 12,90, e eu vou querer rever esse filme uma outra vez com certeza (o filme definitivo sobre o vício em alcoolismo, já que o clássico “Farrapo Humano” derrapa nos últimos cinco minutos).
Peguei também “O Ilusionista”, com Edwart Norton, que perdi no cinema e queria ter muito visto. Na época, entre ele e “O Grande Truque”, do Christopher Nolan, fiquei com o segundo (e não me arrependi – filmão!). Como o DVD estava custando R$ 9,90, não pensei duas vezes. Por último, antes de devolver o DVD de “Os Outros” (uma ótima cópia de segunda categoria de “O Sexto Sentido”) peguei… “O Código Da Vinci”, edição dupla, caprichada, com 25 minutos a mais de filme.
Dois anos atrás escrevi o seguinte: “Não deixe se enganar pelos números de bilheteria do filme e nem pela vendagem astronômica do livro. O Código Da Vinci é um simulacro de literatura e de cinema (texto na integra)”. Catzo, o que me fez pegar o DVD então? Ok, ele estava baratinho (R$12,90), tem os extras e fiquei realmente com vontade de conferir se a versão estendida consegue tapar os buracos deixados no cinema, mas… bem, eu estava bem humorado. Só pode ser isso. Não sei como não peguei o clássico “Curtindo a Vida Adoidado” e “Quem Vai Ficar com Mary?” também…
Se um dia você me ver comprando “Olga”, por favor, evite.
Ps: Apareceram nas Lojas Americanas os três filmes da Trilogia das Cores, do Kieslowiski. Não é a mesma edição bacana do box da Versátil (que você até encontra separado por ai, nunca abaixo dos R$ 25), com extras, entrevistas e outras coisas legais, e sim uma edição mais simples, que vale os R$ 12,90 cada filme (pela excelência da trilogia), mas a edição especial é tãooooooo melhor.

Lili me deu de presente de natal no ano retrasado :o)
Abril 24, 2008 12 Comments
A última compra

Eu já tinha decidido que não ia mais passar na Nuvem Nove. Economia é palavra de ordem aqui em casa neste momento pré-viagem de férias. Mas então o Jonas pediu para que eu fosse com ele a loja (e não precisava pressionar tanto, vai), e eu acabei levando o Guto e a Marcela juntos. Tudo 50%. Lá se foram R$ 99 em onze CDs…
É bem provável que nunca na minha vida eu fosse comprar o “Metal Machine Music”, do Lou Reed. Não importa que fosse a edição remasterizada em comemoração aos 25 anos do álbum completados em 2000 (remasterizar microfonia de guitarra, sei). Não importa que David Fricke, da Rolling Stone, estivesse gastando adjetivos no encarte. Não importa nem que o texto original do próprio Lou estivesse transcrito. Nada disso importava.
Porém, você vai e olha o CD na prateleira. Ele olha para você. O preço da etiqueta diz que ele deveria custar R$ 40, o que quer dizer que, neste momento, ele está custando R$ 20. Está lacrado. É uma edição especial numerada (esta é a de número 5.132, o que faz imaginar que mais de 5 mil loucos no mundo têm esse disco em casa) “There is no other álbum in rock & roll like ‘Metal Machine Music’”, avisa a contra-capa. Era uma vez R$ 20…
Mas para dizer que sou forte (tsc tsc tsc), deixei um da Françoise Hardy, anos 60, que estava de R$ 60 por R$ 30, e a versão remaster do segundo álbum do Blondie, com cinco bônus tracks, de R$ 40 por R$ 20. Eu só devia ter pego os dois da Carmen Miranda, que estavam R$ 9 cada um. Minha última compra na Nuvem Nove acabou ficando assim:
R$ 20 - “Metal Machine Music – Limited Edition”, Lou Reed
R$ 11 - “Recuerdos de Asunción 443″, Jorge Ben Jor
R$ 11 - “Acústico MTV”, Paulinho da Viola
R$ 10 - “Bongo Fury”, Frank Zappa
R$ 10 - “Baby Snakes”, Frank Zappa
R$ 09 - “Gung Ho”, Patti Smith
R$ 07 – Songbook de Dorival Caymmi Volume 3
R$ 05 - “Eliana Pittman”, Eliana Pittman (série Odeon 100 Anos)
R$ 05 - “Doris Monteiro”, Doris Monteiro (série Odeon 100 Anos)
R$ 05 - “Dory Caymmi”, Dory Caymmi (série Odeon 100 Anos)
R$ 05 - “O Último dos Moicanos”, Moreira da Silva (série Odeon 100 Anos)
Ps. escrevi mais sobre a Nuvem Nove na Revoluttion. Leia aqui.
Abril 18, 2008 3 Comments
Nuvem Nove e Pasolini
A Nuvem Nove, uma das lojas de CDs mais bacanas de São Paulo, fechará às portas no dia 26 de abril. A primeira vez que fui à loja foi em 2000. Recém mudado para São Paulo, e trabalhando no iG (na primeira das minhas três passagens pelo portal), fui convidado a conhecer o local por dois Fábios, Sooner e Bianchini, com mais alguns outros amigos. Tratava-se da Confraria da Sacola Azul, uma turma de jornalistas que baixava na loja todo dia 15 e 30 (vale e pagamento) para se abastecer dos bons itens que a loja oferecia. A Confraria não durou muito tempo, mas a loja permaneceu firme até o mês passado, quando o Zé, dono da loja, anunciou o fechamento.
Passei por lá hoje, e as prateleiras já estão bem vazias, mas há ainda como encontrar boas coisas por bons preços. Dentre os achados de hoje estão o “Peace and Noise” da Patti Smith, o “1999″ do Prince, “Lê Danger” da Françoise Hardy, o volume 2 do songbook do Ary Barroso, e o grande achado dos últimos meses: o box “A Trilogia da Vida”, de Píer Paolo Pasolini, com “Decameron” (1971), “Os Contos de Canterbury” (1973) e “As Mil e Uma Noites” (1974). Dos três, assisti apenas ao último em uma sessão no CCBB, anos atrás.
Fiquei tão apaixonado pelo cinema do cineasta italiano que comentei com um amigo, Márcio, cinéfilo de longa data, que relembrou como tinha sido assistir ao polêmico “Saló” em uma das primeiras edições da Mostra Internacional de São Paulo, em 1979. “Estava uma bagunça na sala, falação e piadinhas, coisa de quem não estava acostumado com um evento como a Mostra. Parecia uma sala de aula, e ficou assim até uns dez minutos de filme, quando começaram a sair pessoas da sala assustadas com Pasolini”. Sensacional.
Este reencontro com Pasolini e as lembranças de vários amigos nesse post servem para mostrar o quanto uma loja interessante quanto a Nuvem Nove pode fazer parte da vida afetiva de qualquer pessoa. Boas lojas de CDs, sebos, livrarias, cinemas e shows são lugares ótimos para se encontrar pessoas legais. Na Nuvem Nove (assim como na Sensorial e na Velvet CDs, estas duas na Galeria Presidente, no centro de São Paulo), porém, o interessante não era só comprar música, mas conversar sobre ela. Não à toa, vários encontros de participantes da comunidade da revista Bizz no Orkut foram marcados ali.
Com o fechamento das portas da Nuvem Nove, São Paulo não perde apenas mais uma loja de CDs, mas perde sim um ponto de encontro de pessoas apaixonadas por boa música, algo que pode soar tolamente romântico, mas é a mais pura verdade. Uma grande perda, sem dúvida.
Abril 15, 2008 4 Comments
Dez coisas

- Hoje faz 14 anos que o cara que inspirou o nome desse blog se foi.
- Estão ótimos os comentários da coluna “Você trocaria todos os seus CDs por MP3?” (leia e comente aqui) Vou tentar escrever uma nova coluna refletindo os comments.
- Os discos novos do Bazar Pamplona (”À Espera de Nuvens Carregadas”) e do OAEOZ (”Falsas Baladas e Outras Canções de Estrada”) estão fazendo bonito aqui em casa.
- Ando viciado na caixa “Ensaio Geral”, do Gil, que cobre o período dele na Phillips (1967/1977). Primeiro foi “Viramundo” (ao vivo com coisas dele pós exílio) e agora é “Cidade de Salvador” quem disputa espaço na correria do dia-a-dia.
- Queria dormir ouvindo o novo do Spiritualized por dias e dias e dias…
- Listei sete filmes em cartaz no sábado passado para tentar ver um por dia. Assisti a “Shine a Light” no sábado mesmo, ‘matei a aula’ no domingo (mas vi “Era Uma vez no Oeste” - ah, a Claudia Cardinale - Zé Ricardo, foi só um suspiro), e preguicei ontem. Hoje eu ia tentar fazer uma rodada dupla. A idéia era ver “A Famíla Savage”, “O Banheiro do Papa” ou “Irina Palm” ás 19h e pouco e emendar com “Antes de Partir” ás 22h. Ainda na lista: “A Culpa é do Fidel” e “Senhores do Crime”. Porém, apesar de ter chegado em casa com tempo de sobra para pegar as duas sessões, uma chuva forte me fez perder a primeira, e no horário da segunda eu já estava me divertindo com um pacote de CDs importados que chegou em casa. Ou seja, nada de cinema.
- Isso tudo sem contar que começou o Ciclo Melhores Filmes de 2007 do CineSesc (programação completa aqui). Ou seja: mais filmes para se ver. Quinta vou assistir ao “Em Paris” e tentar pegar algum da listinha… :/
- E para você ver como sou um dos caras mais enrolados do mundo, hoje que decidi falar da exposição Magnum 60 anos, descobri que a exposição acabou anteontem. Catzo. Vi a exposição umas semanas atrás, e fiquei tão emocionado com algumas fotos, de encher os olhos mesmo (disfarçando pra Lili não perceber), que tinha que comentar aqui. Hoje, que devido a desistência de dois filmes, sobrou um tempo, a exposição já saiu da Paulista. O mínimo que posso fazer e linkar uma galeria com várias das fotos que estavam lá expostas (veja aqui) e abrir e fechar este post com as minhas duas preferidas.
A primeira, que abre esse post, é de Marc Riboud, e data de 21 de outubro de 1967. Milhares de manifestantes estavam na frente do Pentágono, em Washington, para protestar contra a guerra no Vietnam. O fotógrafo, que trabalhava para a agência Magnum, seguiu uma determinada jovem que parecia querer colocar uma flor na arma de um soldado da Guarda Nacional. Diz se não é uma foto de chorar? A segunda tem um viés mais cômico, característica do fotógrafo Elliott Erwitt. A foto em questão, “Felix, Gladys and Rover” mexeu comigo de tal forma que, se pudesse, eu teria arrancado a moldura da exposição e levado pra casa. Olha a expressão do Chihuahua!!!! Linda demais. Bah, chorei de novo. A propósito, a Magnum é uma agência cooperativa fundada em 1947 por Robert Capa junto a David Seymour, Henri Cartier Bresson e George Rodger…
- Pego meu passaporte nesta quarta. Tenho que marcar dentista e marcar aulas de inglês com alguém que ainda não sei.
- Vou esquentar o caldo verde de ontem e me enrolar no edredom. Baixou uma melancolia por aqui e ela precisa de atenção…

Abril 8, 2008 5 Comments
Você descobre que está…
trabalhando demais quando, depois de cinco dias intensos de cobertura de carnaval, acorda às 10h30 da quarta-feira de cinzas em meio a um “grande pesadelo”:
Estou na redação, aquela correria, quando alguém chega:
- Pessoa 1: Marcelo, Marcelo, o MSN vendeu todas as suas ações para um conglomerado asiático que está tirando do ar todo o seu conteúdo…
- Pessoa 2: Não consigo entrar no MSN, não consigo entrar no MSN…
No meu computador, tento acessar o MSN em vão. Vou para a página deles, e sou encaminhado para outra, cuja paisagem remete ao Himalaia. É algo assustador (no sonho; terrivelmente engraçado agora), pois cada clique que dou, a página do MSN começa a carregar e, em seguida, aparece a paisagem do Himalia com palavras e frases em uma língua que não consigo entender.
A redação está uma balburdia, penso no iCQ como alternativa (ao mesmo tempo me pergunto: o ICQ ainda existe?) e no meio da piração lembro que o MSN também detém o Hotmail, e a essa altura todos os meus e-mails foram para o espaço sideral virtual. Começo a teclar calmamente o endereço quando… o telefone toca e eu acordo.
Acho que preciso de uma folga.
Fevereiro 6, 2008 4 Comments
Alguém ainda ouve fitas cassete?

Nesta semana, após soltar um spam básico divulgando a publicação dos Melhores do Ano do Scream & Yell, uma amiga retornou o e-mail dizendo que tinha ido parar, através daquele spam, em uma coluna antiga minha na Revoluttion, que versava sobre fitas cassete e tinha o sugestivo título de “Qual música te define?“. Entre papos sobre fitas cassete e seleções de canções para pretês (isso é tão 02 Neurônio, né), lembrei que tenho sei lá quantas dezenas de fitas cassete em casa.~São duas maletinhas cheias delas, a maioria seleções de canções que eu fazia para eu mesmo ouvir, outro tanto de demos, e uma pequena parte de seleções feitas por amigos.
Muito tempo atrás, revirando essas fitas, tive a idéia tosca de sortear uma coleção do R.E.M. e mais algumas outras, e foi bem legal. Aí eu tava pensando se não deveria fazer o mesmo com essas, afinal, é muito melhor que elas sejam ouvidas do que ficarem guardadas eternamente em uma maletinha no quarto escuro. Mas então me pergunto: alguém ouve fitas hoje em dia? Não sei. Eu, até um ano atrás, de vez em quando pegava uma daquelas seleções e colocava pra ouvir, mas agora, na casa nova, meu Tape Deck nem está na sala, o que dificulta.
Dentre as dezenas de seleções que fiz tem algumas que considero especiais tipo a “Sobremesa” (a capa é uma torta de morango), que além de Nação Zumbi (a faixa título), tem R.E.M. (”So, Central Rain, I’m Sorry”), U2 (”Wake Up Dead Man”), Arnaldo Baptista (”Será Que Eu Vou Virar Bolor?”), Neil Young (”Changing Highways”), Engenheiros (”Sob o Tapete”) e Mundo Livre S/A (”Homero, o Junkie”), entre outras. Tem que ter um gosto bem amplo para curtir uma seleção dessas. Já a “Golden Lights” (inspirada em uma canção dos Smiths) traz Blues Etílicos (”Terceiro Uisque”), Soul Asylum (”Somebody To Shove”), Herbert Vianna (”Lição de Astronômia”), Lou Reed (”Trade In”), Legião Urbana (”A Tempestade”) e Radiohead (”No Surprises”), entre outras. Só estas duas já servem de paralelo para as outras cento e tantas. Será que um dia vou ouvir isso? Será que alguém quer ouvir isso? Será que alguém ainda ouve fitas cassete?
Janeiro 19, 2008 15 Comments
Sonhar é permitido, viver é permitdo
O processo que eu havia iniciado em 2006 persistiu por todo o 2007: meu amadurecimento. Ou, como escreveu o amigo Takeda um dia, o descongelamento. Passamos anos de nossas vidas congelados em um tempo que se foi, mas que não queremos deixar partir. Recusamos o amadurecimento em pró da eterna adolescência. Mas, quer queiramos ou não, a maturidade bate a nossa porta. E quando percebemos estamos descongelando. Dois mil e sete foi um dos anos mais importantes da minha história pessoal. E também da nossa história social, Brasil, saca. Como diria Marlon Brando, muitas coisas que pareciam ser relevantes, hoje não são mais. Posso creditar meu principio de descongelamento ao fato de ter expandido minhas fronteiras: posso dizer que cheguei perto da fronteira do Chile com a Bolívia e, quer saber, é uma experiência e tanto.
Posso creditar também ao fato de que, desde julho, sou um homem casado. Quase casado, ok. Dividir a vida com uma pessoa é algo extraordinariamente revigorante. E por mais que você se julgue mestre em relacionamentos, acredite, há um mundo de diferenças entre namorar uma pessoa e viver com ela. A gente aprende tropeçando, não tem jeito. E talvez essa seja a graça de tudo, e esse é um dos segredos para se manter uma história de amor: humor. Rir nos momentos bons… e nos ruins também.
Conceitualmente, porém, o que mais mexeu com meus pensamentos em 2007 foram dois fatos isolados acontecidos no meu poderoso inferno astral: o assalto em Buenos Aires e o atropelamento na rua da Consolação, dois minutos da porta de casa. É clichê pra caralho, mas não tem jeito: sentir a morte caminhando por perto mexe com a gente. E o atropelamento nem foi algo assim, violento. Mas depois que recebi o impacto, senti a escuridão, e abri os olhos sentindo um gosto de sangue nos lábios e a mão toda arrebentada, impossível não pensar no que poderia ter sido.
Passei algumas semanas pensando nisso, e o estranho é que, entre o mil anos a dez ou o dez anos a mil, sou partidário do mil anos a mil. Eu nunca quis pouca coisa, mas assim que o pessoal do Resgate me imobilizou e me transferiu para a ambulância, eu só conseguia pensar na quantidade de coisas que ainda não tinha feito, que seria uma grande bobagem divina alguém me aprontar uma peça. Era impossível não caraminholar isso: um dos meus grandes amigos sofreu um acidente de carro, foi transferido para o hospital, acordou no outro dia e falou com a família, tudo ótimo, mas quando foram transferi-lo da cama para uma maca, uma hemorragia interna o levou. Ele tinha 21 anos. Eu também. Melhor não arriscar.
O assalto me balançou de outra forma. Deu tudo errado naquele dia. Pior: os sinais eram evidentes, mas mesmo assim demos bobeira. Lili queria conhecer La Boca. Seus livros de arquitetura rendiam elogios ao lugar, porém, La Boca é um dos bairros mais pobres de Buenos Aires. Não dava pra marcar bobeira. A sucessão de erros começou no hotel: inseguro em relação ao dinheiro (R$ 4 mil no total), coloquei R$ 2 mil num bolso inferior perto do joelho esquerdo e outros R$ 2 mil foram guardados numa bolsinha por dentro da calça. Como tínhamos uma encomenda (uma camisa do Boca para o sogro), decidi levar R$ 200 em reais mesmo, para aproveitar a valorização da moeda. E mais 100 pesos para comprar outras coisas, almoçar e tal. Ou seja, eu estava portando aproximadamente R$ 4.500, e não se leva uma quantia dessas em um bairro barra pesada, ok.
Além do dinheiro (que era tudo que tínhamos para seguir viagem – Buenos Aires era o começo), eu levava uma Canon S215 (deve estar uns R$ 1500 por ai) na mochila, além de frutas e nosso guia de viagens, que tinha servido de base para todo o planejamento da viagem. Minha idéia era pegar um ônibus na avenida 09 de Julio (havíamos visto vários no dia anterior) e seguir até La Boca. Encostei numa banca de flores e perguntei para um garoto como chegar a La Boca. Ele respondeu?
- La Boca? Não vá a La Boca.
Eu ri, e insisti, mas ele continuou com o mesmo discurso, repetindo mais duas vezes:
- Não vá a La Boca.
Deixamos o menino e seguimos uma quadra. A idéia do ônibus já não parecia tão boa, então paramos um táxi. Assim que disse ao motorista que queríamos ir para La Boca, ele praguejou algo e nos deixou estatelados na calçada. O táxi seguinte, porém, parou e nos recebeu, mas o motorista não abriu a boca um segundo sequer nos 15 minutos de trajeto. Ele nos deixou logo na entrada do bairro pelo lado do porto, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma pixação em um conjunto velho de prédios: “Nos precisamos de água quente”. Poucos dias depois que partimos para Santiago, nevou em Buenos Aires. E moradores de La Boca não tinham água quente…
Fizemos o trajeto turístico, com vários seguranças contratados pelos comerciantes locais, e saímos por uma rua em direção ao estádio de La Bombonera, do Boca Juniors, casa que viu Diego Maradona nascer para o mundo. Eu não havia conseguido entrar no estádio nas duas vezes anteriores que eu o tinha visitado, mas desta vez demos sorte, e passeamos pela arquibancada, tiramos fotos, nos divertimos. Coloquei a máquina digital (que é de média pra grande) no bolso da jaqueta e partimos em busca do almoço.
O guia que levávamos falava muito bem de um restaurante italiano em La Boca, e depois de alguns dias devorando bifes de chouriço, experimentar uma boa massa nos pareceu uma grande oportunidade. Nosso erro, porém, foi nos desligarmos completamente do lugar em que estávamos. Olhávamos os prédios, as casas, eu questionava coisas sobre arquitetura, Lili me explicava, até que chegamos a uma grande igreja (duas quadras fora do centro turístico) e bateu um frio na barriga sem motivo. O motivo, na verdade, se revelou na esquina seguinte.
Assim que entramos na rua do restaurante, a Nepuchea, cinco caras nos cercaram. Um deles tirou Lili de lado, e depois de fuçar nos bolsos de sua jaqueta, e ela dizer que não tinha nada, apenas pediu para que ela ficasse em silêncio. Os outros quatro partiram para cima de mim, me jogando ao chão e tentando me atacar como urubus em busca de carne fresca. Não se deve, nunca, reagir a um assalto, mas tem coisas que são mais fortes que a razão. Colei minha perna esquerda no asfalto (no bolso próximo ao joelho havia R$ 2 mil) oferecendo o bolso da direita, que trazia apenas um caderno de anotações. Com uma mão eu segurava a máquina digital, e com a outra tentava atrapalhar o máximo possível a ação dos quatro rapazes. Passava um pouco do meio-dia.
A grande maioria dos assaltos não dura mais do que um minuto ( e existe uma grande porção que dura segundos, e você só descobre que foi assaltado horas depois), mas este deve ter batido os 120 segundos. Quando, finalmente, eles conseguiram retirar minha carteira (e ver os 100 pesos lá dentro) e minha mochila, saíram correndo deixando eu e Lili para trás. A primeira coisa que me veio à cabeça: documentos. Me levantei na hora e sai correndo atrás deles gritando “documentos, documentos”. O rapaz que estava correndo com a carteira a abriu e foi jogando RGs (meu e de Lili), vistos de entrada no país, cartões de crédito e de débito e outros. Resgatamos tudo e fomos acolhidos por uma família dona de um restaurante. Eles chamaram a polícia (que não veio), nos deram alguns pesos para a passagem do ônibus, e nos acompanharam até o ponto.
Tenho certeza que, assim que sai do restaurante, um dos assaltantes me aguardava na porta. Minha intenção era chutar-lhe o saco com toda força e arremessa-lo no meio da rua, mas seria uma grande idiotice. Eu estava com a máquina (que eles devem ter sentido falta na mochila, já que só a capa dela estava lá) e com R$ 4 mil. Não dava para cometer mais um erro. O dono do estabelecimento bateu boca com o cara, o clima ameaçou esquentar, mas fomos levados em segurança até o ponto de ônibus. O senhor se desculpava pelo acontecido como se ele tivesse culpa, e dizia que atrás do porto havia uma grande favela. Lili passou boa parte da viagem acordando assustada, e minha função – além de protege-la – era dar-lhe segurança e calma. Após alguns dias as coisas voltaram ao normal.
Apesar de toda violência (que, na verdade, me rendeu apenas um roxo no lado esquerdo do rosto, que sumiu no dia seguinte), não foi o fato em si que mexeu comigo, mas os pensamentos que dele decorreram. Primeiramente, não tiro a razão daqueles caras. Eu e Lili éramos dois turistas “esbanjando” enquanto eles estavam ali passando fome. É algo como aquela piada que diz “que a sociedade me deve a sua carteira, saco, mano”. Não estou querendo dizer, de forma alguma, que aprovo. Não, não aprovo. Eu sei o quanto Lili e eu ralamos para juntar aquele dinheiro, o quanto planejamos aquela viagem, mas se os assaltantes fossem se preocupar com isso, não teríamos crimes no mundo, não é mesmo. Na verdade, acho que os motivos são mais importantes que o fato.
Caraminholando incessantemente sobre tudo isso, e caminhando os meses seguintes pelas ruas cheias de pobreza de São Paulo, cheguei a conclusão (óbvia) de que se queremos um mundo melhor, precisamos dar o exemplo. Não ria. Eu sei que é piegas, mas numa entrevista que concedi ao amigo Carlos William, da revista Bula, ano passado, respondi assim a seguinte pergunta:
“E o PT?”
“Um sonho que nos apresentou a realidade: não existem sonhos!”
Não quero descambar para o partidarismo (na verdade, quero ficar cada vez mais longe deles), pois sempre votei em pessoas, não em partidos. O que estou querendo dizer é que se já sabemos que não podemos confiar em ninguém, que não existem sonhos quando o assunto é política, dinheiro e poder, então está na hora de fazermos as coisas nós mesmos. E, mais do que nunca, deixarmos o social de lado e agirmos no pessoal. Sim, mudarmos as coisas ao nosso redor primeiro. Sempre fomos acomodados demais, mas precisamos mostrar que se as coisas podem dar certo, elas tem que começar a dar certo dentro da nossa própria casa, do nosso próprio ambiente de trabalho, da nossa família, do nosso bairro. Sempre acreditei que fazer o bem é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer para mudar o mundo, e apesar de parecer a coisa mais piegas do mundo, é no que eu acredito realmente.
Não estou fazendo, de forma alguma, uma apologia da cegueira do tipo “feche os olhos para as coisas feias do mundo, para as pessoas que te xingam no sinal de transito, para aqueles que roubam o seu dinheiro, para os políticos que fazem da nossa capital federal um grande e nada engraçado circo”. Precisamos acreditar na Justiça, evitarmos a tolice (pois, como escreveu Blake, “se os outros não forem tolos, nós teremos que ser”) e buscarmos um mundo melhor. Quero chegar aos 100 anos, como Niemeyer, de preferência em um mundo muito melhor do que este que vivemos agora. Por mais que as grandes empresas nos queiram longe das decisões importantes (já leu o poderoso “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein?), a força está em cada um de nós. E nós podemos construir um mundo melhor a partir da nossa história pessoal, das coisas que vivemos, das pessoas que conversamos, das idéias que trocamos, da camiseta que vestimos. Tenho pensado muito nisso. E acho que essa é uma boa maneira de começar 2008: acreditando em um mundo melhor, apesar de assaltos, atropelamentos e partidos políticos. Apesar de tudo.
Feliz ano novo para todos nós. E força sempre.
Ps. Não esqueça: sonhar é permitido, viver é permitido. Sonhe. Viva.
Feliz 2008.
Dezembro 28, 2007 9 Comments
Açai com vodka

Após uma dúzia de cervejas, papeando sobre misturas alcoólicas, contei que quando meu pai teve uma sorveteria em uma cidadezinha do interior, anos e anos atrás, uma das metas de minhas férias escolares era descobrir qual sorvete combinava melhor com uísque.
Morango e limão foram reprovados, mas chocolate e creme passaram com louvor. A Ligelena, que estava na mesa, contou que adora sorvete com vodka. Eu tinha comentado na mesa algo sobre minha vontade de comer açaí, foi quando deu o estalo na mesa: o que será que vai dar misturarmos vodka com açaí?
A Juliana não quis nem saber (depois, aprovou). O Guto protestou contra o uso de banana e granola. Eu, Jonas, Renata e Ligelena nem ligamos e aprovamos a mistureba toda. Depois que “bebemos” a primeira cumbuca na colher (com uma senhora dose de vodka), pedimos outra, que atendendo aos pedidos do Guto, veio sem granola, mas com banana. Desceu tão bem que já virou um dos pratos especiais do reveillon da turma.
Dezembro 18, 2007 2 Comments
Niemeyer, 100

Aprendi (e estou aprendendo) a admirar a arquitetura. Eu já tinha dividido apartamento com uma querida amiga arquiteta e quase namorado uma quase arquiteta, mas o meu modo de ver a cidade (“veracidade – haverá cidade”, ops, piada interna) mudou completamente quando Lili entrou em minha vida. Casas, prédios, construções, nomes de arquitetos passaram a fazer parte da minha rotina, e eu comecei a gostar disso.
Isso tudo aconteceu, em larga escala, por culpa não só de Lili, mas também de suas (e minhas) queridas amigas Ligia e Kátia. Ver Lili, Ligia e Kátia conversando/discutindo arquitetura é algo bastante inspirador. Parece conversa de boteco sobre futebol, mas elas estão falando sobre os maiores arquitetos do mundo, suas obras, concordando e discordando sobre coisas que eu nem mesmo consigo emitir uma opinião. É bonito de se ver, garanto.
Foi por influência de Lili que aprendi a curtir muito mais o mundo a minha volta, e por conseqüência, descobri um Rio de Janeiro totalmente novo em nossas viagens a cidade maravilhosa. Faz anos que faço uma viagem anual ao Rio. Amo a cidade, o ar, as praias, tudo. Mas ir ao Rio de Janeiro com uma arquiteta é algo bastante diferente. O roteiro passa também por pontos turísticos, mas existem muitos outros que um não arquiteto consegue imaginar.
Na última vez que fomos fizemos um tour com base nos mapas do “Guia de Arquitetura Moderna do Rio de Janeiro”, e foi muito legal. No roteiro, obras como o Palácio Gustavo Capanema (Ministério da Educação e Cultura), marco da arquitetura modernista brasileira (que envolve os nomes de Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos, Roberto Burle Marx e Lê Corbusier) , o Edifício Sede da Petrobras (meu preferido - foto), o Edifício do BNDES, o MAM e o Parque Guinle (queremos morar lá, um dia - olha a vista), entre outros.
Porém, apesar de aprender a admirar estas obras, nunca achei que fosse ficar sem ar diante de uma. E isso aconteceu (e acredito que vá acontecer sempre) nas duas vezes que visitei o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o MAC, obra de Oscar Niemeyer. Eu já tinha esbarrado em várias obras do Niemeyer aqui e ali em minha vida (gostado mais de umas do que de outras), mas o MAC foi algo bastante especial.
Na primeira vez, fomos eu e Lili. Descemos um ponto de ônibus antes, e foi legal porque permitiu observar o museu de longe. Ele surge do nada, quase uma curva, e realmente parece um OVNI que pousou na beirada de um despenhadeiro. Conforme você se aproxima, ele vai se tornando imponente, e impressionando, mas nada se compara a belíssima visão que temos dentro do Museu. A área de exposição é minúscula e, não tem jeito, compete com a maravilhosa “varanda”, área que traz uma grande janela aberta para a Baia de Guanabara. É inesquecível.
Por mais que me sinta tentado, porém, é pretensão demais da minha parte escrever algo sobre arquitetura tendo estas três experts na sala de casa discutindo o tema com a mesma facilidade com que discuto cultura pop com os amigos. Então, longe de querer soar xereta bisbilhotando em território alheio, deixo este post singelo como uma sincera homenagem ao senhor Oscar Niemeyer, que ontem completou 100 anos. Em algum momento da visita ao MAC meus olhos encheram de lágrimas, e é preciso reconhecer e agradecer quando alguém toca nossa alma dessa forma. Niemeyer, parabéns. E Lili, Ligia e Kátia, obrigado por terem aberto essa porta.
Abaixo, algumas fotos do passeio escolhidas ao acaso:
Dezembro 16, 2007 2 Comments
Marcelo Costa, o “ogro-fofo”

Escrevi um textinho especial para o blog Comidinhas, da querida Ale Blanco, contando sobre minhas experiências culinárias. Da próxima vez que fizer um tournedo com ervas, posto uma foto aqui, ok. Além da receita, e da história, a Ale começa escrevendo assim e… bem… as frases dizem por si mesmas… :)~
Ps. Este texto é dedicado a Helena, minha “professora” de culinária… e a Lili, que vai experimentar meus pratos malucos quem sabe até os meus 100 anos…
O ogro-fofo, por Ale Banco
“O Marcelo Costa é o típico menino que eu e minhas amigas chamamos de o “ogro-fofo”. Sabe aquele tipo que gosta de futebol, conhece tudo de música, tem um fanzine há anos, um blog, anda com camisetas de banda de rock ou camisas xadrez, adora um clube indie da rua Augusta ou da Barra Funda? Esse é o lado ogro. O fofo é que ele é um amor, amigo para todas as horas, total amorzinho com a namorada (agora mulher). Mas jamais o tipo que eu imaginaria curtir um forno e fogão.
A gente se conhece há anos, trabalhamos juntos há vários outros e pelo menos umas duas vezes por semana eu dou uma carona na saída do trabalho e o deixo na porta de casa. Falamos sobre quase tudo, inclusive comida. Mas há alguns dias em um papo parado no trânsito o Mac disse que havia comprado um livro de dicas para homens na cozinha e que vinha se saindo muito bem. Contou que havia passado o estágio do macarrão, que seu risoto era um sucesso e me deu dicas de preparo de carnes!!!! Achei que merecia um depoimento aqui no Comidinhas. Então, aí vai abaixo: um ogro-fofo que acaba de se aventurar pela arte da culinária:”
Tem uma homem na cozinha, por Marcelo Costa
“Eu sempre tive vontade de aprender a cozinhar. Quando tinha meus 15 anos imaginava que quando chegasse aos 30 iria entrar em um curso de culinária e descobrir os prazeres da boa cozinha. Os 30 anos se passaram, a vontade de aprender a cozinhar continuou, mas o tal curso de culinária virou sonho de adolescente: na hora de escolher os primeiros móveis para a primeira casa de “homem morando sozinho” a cama de casal e uma TV 29 polegadas vieram na frente da geladeira e do fogão, que só foram fazer parte do ambiente um ano depois…
A compra da geladeira e do fogão não quis dizer muita coisa. A geladeira servia para manter as cervejas geladas e o fogão para fazer pipocas. Ou seja, eu era um caso perdido. Até que uma amiga querida decidiu me dar um empurrão e me ensinar a fazer risoto, um risoto de verdade.
- “Minha especialidade: risoto (tem panela e colher de pau aí?)”
- “Colher de pau? Hummm… vou tentar comprar… risos… mas panelas têm!”
- “Compra-se colher de pau com pouquíssimo dinheiro em qualquer supermercado…”
E assim foi. Aprendi a fazer risoto, e na primeira oportunidade testei o novo dom com a namorada na casa das amigas dela. O namoro estava começando e um fracasso naquele momento iria virar piada para o resto da vida, mas todos gostaram. Escrevi para a minha professora: “Ficou bom. Tá, o arroz estava um pouco durinho, mas nem tanto, e como eu deixei o alho porró passar do ponto, o arroz ficou amarronzado. Ficou ‘bunito’. E gostoso sim. Mas tenho que melhorar muito!”
Animada com o sucesso do aluno, e recém-formada em um curso de culinária, ela resolveu apostar no amigo, e lhe deu um livro que, segundo ela, havia quebrado muitos galhos em suas aventuras culinárias: “Guia Para a Sobrevivência do Homem na Cozinha”, de Alessandra Porro. A introdução escrita pelo pai da autora junta poesia familiar, David Bowie, Beatles e cabelos curtos em um jantar londrino. Diz o pai em certo trecho, antes de contar os detalhes da família:
“Eu não acredito em receitas. Respeito o básico, mas detesto as bizarrias que durante algum tempo nos foram oferecidas em nome de uma estrombótica nouvelle cuisine. Cozinhar, para mim, é exercício de criação, de invenção, de fantasia e inspiração. Mas é preciso respeitar o paladar dos hóspedes”, explica, antes de jogar uma pitada de açúcar sobre a filha: “Quando comecei a ler as provas deste livro (…) fui obrigado a rever – em parte – minha atitude carregada de preconceitos contra receitas. As que Alessandra nos oferece contêm, numa dosagem exata, o essencial e a fantasia”.
Com o livro em mãos fui fuçar as tais receitas. O texto é divertido e os rodapés funcionam como pequenas porções de tempero sobre o cotidiano. Na página 18, uma nota de rodapé explica que as “Panelas de Barro eram confeccionadas originalmente pelos índios e as de pedra sabão são, em grande parte, de Minas Gerais. Além de conferir um sabor especial à comida, elas se prestam a preparações lentas, pois conservam o calor e o distribui uniformemente”. Cool.
No capítulo “Cortes, Aproveitamento e Conservação de Carnes”, a autora abre a página dizendo que vegetarianos convictos não devem ler o que virá a seguir. Segundo ela, vegetarianos são “animais que se alimentam exclusivamente de vegetais e fogem daqueles que comem carne, como o tigre, o leão e o leopardo”. Logo abaixo, uma dica interessante: “Ao contrário daquilo que o seu açougueiro costuma repetir, não existe carne de primeira ou de segunda. O que existe é carne boa, bem tratada e bem utilizada”. Bingo.
Já é possível perceber que decidi começar minha aventura na cozinha pelas carnes, acredito. Apostei nos tournedos com ervas, algo que lá em Taubaté, cidade em que cresci, costuma ser chamado de medalhões. Levei o livro para o supermercado e fui separando os ingredientes: filés, bacon, manteiga, salsinha e pimenta-do-reino. A namorada tomou conta do arroz, uma amiga assumiu a salada e fiquei na total responsabilidade pelos tournedos com ervas. Preciso assumir que cozinhar para outras pessoas dá um friozinho na barriga. Será que vai ficar bom? Será que exagerei no tempero? Será que passou do ponto? Isso não era pra ser divertido? (risos)
E foi divertido. O prato ficou ótimo, daqueles que ao provar você fica na dúvida se foi você realmente quem fez (ou então, pior, que foi sorte de principiante). Na primeira vez que a mãe e a irmã vieram para São Paulo visitar o filho, adivinha o prato principal: tournedos com ervas, claro. A mãe toda hora ia na cozinha, observar, mas aceitou que naquele domingo ela seria visita e o filho quem iria cozinhar. E a receita, seguida a risca, saiu tão perfeita quanto da primeira vez. A mãe voltou feliz e imaginando que, agora, pode ficar despreocupada: “Ele cozinha bem, não vai passar fome” (risos – as mães sempre acham que nós vamos passar fome).
Após esse ímpeto inicial, arrisquei mais algumas receitas, mas a frase “ele cozinha bem” está muito (mas muuuuuito) longe da realidade. Na verdade, acho que estou perdendo aos poucos o medo da cozinha e sobrevivendo neste ambiente de colheres de pau, panelas, cheiros e sabores. Faço testes com umas ervas aqui, uns cheiros acolá, nada muito difícil. Ainda sou extremamente dependente do meu “Guia Para a Sobrevivência do Homem na Cozinha”, que depois de uma arrumação na estante de livros do quartinho acabou ganhando um lugar definitivo na nova casa: sobre o armário da cozinha, ao lado do “Arroz, Feijão e…”, livro de Glorinha Barbosa que a namorada, agora “esposa”, ganhou de uma tia quando veio morar sozinha em São Paulo (ela é mineira). Abaixo, a receita dos tournedos com ervas (para duas pessoas). É facinha, embora nada seja muito fácil para um homem que sobrevive na cozinha…
Tournedos com Ervas (para duas pessoas)
- 4 filés (cortados para tournedos*) de 100 a 150g cada, com 5cm de espessura;
- 4 fatias de bacon;
- 50g de manteiga, que deve ser derretida da geladeira 30 minutos antes da preparação;
- 1 colher de sopa de salsinha bem picada;
- Sal e pimenta-do-reino;
- 4 palitos de dente 50 cm de barbante;
1) Tempere os tournedos apenas com a pimenta-do-reino;
2) Enrole cada pedaço de carne com 2 fatias de bacon, no sentido da altura; **
3) Você pode prender o bacon usando palitos de dente ou amarrando com um barbante qualquer, de algodão; ***
4) Leve uma frigideira ao fogo bem alto. Quando tiver super quente, coloque nela os tournedos. Comece fritando os lados onde está o bacon. Não é preciso colocar manteiga ou óleo porque o bacon vai soltar a sua própria gordura. Conforme for tostando, vá virando os tournedos;
5) Coloque a manteiga em uma tigela, junte a salsinha bem picada e tempere com um pouco de sal e pimenta do reino moída. Misture muito bem. Vai ficar uma pasta verde;
6) Quando todos os lados estiverem dourados por igual, frite as pontas, virando apenas uma vez cada uma;
7) Apague o fogo e tire os tournedos. Com cuidado, solte o bacon que já deve estar esturricado e retire;
8 ) Coloque 1 tournedo em cada prato e sobre cada filé coloque metade da manteiga com salsinha e sirva;
9) Já que a carne pegou o gostinho do bacon, que é salgado, coloque o sal na mesa.
*Tournedos: é um corte feito com a parte central do filé mignon, que é bem redonda. Também são chamados de ‘medalhões’ e são um pouco menores que o chateaubriand;
**Altura: imagine que comprou a peça inteira e separou você mesmo os pedaços. As duas partes que forem seccionadas pela faca são as duas pontas. O bacon vai ser enrolado em toda a volta, deixando as pontas livres;
***Linha de bordado, grossa, também serve. Só não use lã, corda de varal, fio encerado para pipas ou fio de náilon;
“Guia Para a Sobrevivência do Homem na Cozinha”, de Alessandra Porro (Editora Objetiva, 3ª Edição)
Outubro 15, 2007 5 Comments
Uma estante de CDs ou uma novela?
Bem, após mais um amigo me perguntar da saga das estantes percebi que já está na hora de mostrar como ficou a casa com elas prontas, ok. Lili queria desenhar umas coisas bem legais, mas desistiu porque a quantidade de CDs era tanta que a estante teria que ser o mais básica possível. E assim foi. Para aproveitar ao máximo a madeira de chapa de MDF, Lili calculou 1,83m de altura por 1,10m de largura, que resultou em uma estante com 11 prateleiras, totalizando aproximadamente 125 CDs por prateleira (1375 por estante).
Para facilitar (sic), claro, pedi que uma das estantes tivesse um espaço maior para os DVDs. E também disse que queria alguns caixotes para os vinis e os boxes. A idéia era fixar as estantes na parede, e colocar os caixotes embaixo, formando tudo um móvel único. No entanto, com as peças em casa, descobrimos que os caixotes funcionavam bem na parede verde (eu já disse algum dia que Lili me fez pintar a parede da sala de jantar de verde? Bem, ela fez), além de poderem ficar ajeitados de diversas formas. Na foto está o formato padrão.
Três estantes de CDs ocuparam toda a parede da sala de jantar. A quarta ficou no corredor, frente à porta da cozinha, e além dos CDs também recebeu DVDs. Como organização ficou perfeito. Os CDs, agora, se encontram todos juntos, divididos em nacional e internacional, seguindo uma ordem alfabética, com exceção para as coletâneas, trilhas sonoras, tributos e discos que ainda preciso ouvir, que ficaram na estante do corredor, que também tem DVDs, mais de 100 CDs de MP3 e, acredite, VHS (além do pen-drive contendo o álbum “A Marcha dos Invisíveis”, do Terminal Guadalupe: nunca uma estante juntou tantas mídias – risos).
Com as estantes prontas liberamos espaços para alguns livros nos cubos da sala. Agora, livros de arquitetura convidem ao lado de livros de música. Lester Bangs com Herman Hertzberger, Tony Parsons com Leonardo Benévolo, a biografia de Billy Wider, o livro de Rainer Maria Rilke sobre Auguste Rodin, “Clássico Anticlássico” de Giulio Carlo Argan; “A Era dos Festivais” de Zuza Homem de Mello, e revistas Rolling Stone, Piauí, Uncut e AU (Arquitetura e Urbanismo). Bem, a sala ficou mais ou menos do jeito que vocês vão ver abaixo:
Foto1: vista da entrada da casa (com o sofá laranja ao fundo):

2) A foto não ficou boa, mas essa é uma peça das quatro estantes:

3) Vista da sala para a entrada do apartamento:

4) Close na parte dos DVDs:

5) O caixote com os vinis e os boxes na parede verde

6) Geral da parede verde (o relógio de vinil foi presente de aniversário):

Bem, é isso. Estou anexando o PDF que a Lili finalizou para o marceneiro, apesar da relutância dela (que diz que alguns dados estão errados), mas é mais para se ter uma idéia de como fazer, caso você precise fazer uma destas. Na verdade, depois que o “nosso” marceneiro nos deu cano, e deixou o serviço pela metade, percebemos que rolava termos feito nos mesmos. Na madeireira você entrega as medidas e eles entregam a madeira toda cortada para você, que “só” terá que juntar. Claro que não é tão simples. É um trabalho milimétrico, e a parte do acabamento é bem chatinha (essa coisa de colar as bordas e tal). Mas não é impossível. Se eu e Lili tivéssemos feito as quatro peças da nossa, com certeza elas teriam saído muito melhor que o trabalho meia-boca que nos foi entregue (pela metade) pelo marceneiro que encontramos. Vale tentar.
Outubro 8, 2007 22 Comments
Mais coisas…
Fui ao VMB ontem e me surpreendi com o baixo nível da cena nacional. O que é possível dizer rapidinho é que a produção do evento é acachapante, mas a premiação é terrível. Juliette and The Licks fizeram uma grande apresentação (na TV foi uma só, mas lá eles tocaram três ou quatro) e até o Marilyn Manson me convenceu. Mas o resto… muito vestido, muita beleza, muito roqueiro de butique e pouca inteligência.
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Antes que alguém se engane, vou torcer para o “O Ano Em Que Meus Pais Sairam de Férias”, na minha modesta opinião, um grande filme, mas inferior a “Tropa de Elite”. E vou mais alem: os dois são inferiores a “Saneamento Básico”, mas a metáfora do filme é para poucos – embora acredite que mesmo isso não deveria impedi-lo de ser o concorrente nacional – enquanto “Tropa de Elite” pega na veia. Qualquer um dos três seria um bom representante.
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Momento Herbalife: meu medido garantiu que tudo está em ordem com meu estômago, que o problema é mais em cima, na cabeça mesmo. Receitou uns chazinhos e comprimidos naturais. Fiz a primeira sessão hoje de manhã, e foi surreal. É uma salinha no centro da cidade, com palavras para melhorar a baixa-estima, em que um homem serve os chás naturais para os clientes. O programa inicial leva oito dias, e são três copos de chá cuja rotina me lembrou as histórias do Santo Daime. Apenas lembrou. Surreal demais para um cara que, um dia, cogitou ser junkie…
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O todo poderoso Billy Corgan liberou a integra de dois shows novos de 2007 para download no site oficial dos Pumpkins. O primeiro show data de 22 de maio, no Grand Rex Theatre, em Paris, e traz 33 músicas, entre elas hits como “Today”, “Bullet with Butterfly Wings”, “Tonight, Tonight” e “Disarm”. O segundo show aconteceu em 25 de julho, no famoso Fillmore, em São Francisco. O áudio captura 27 músicas da apresentação que junta hits com faixas novas como “That’s The Way (My Love Is)” e “Tarantula”, entre outras. Além dos dois shows recentes, a página de downloads do site dos Pumpkins ainda disponibiliza mais de 15 apresentações entre 1988 e 2007. Aqui.
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O programa Alto-Falante e o bar A Obra comemoram, a partir desta sexta-feira, dez anos de atividades. A data especial é o ponto de partida do Festival Garimpo, que leva para a capital mineira gente como o duo Lucy and The Popsonics, Terminal Guadalupe, Macaco Bong, Vanguart e Montage. Fica aqui os parabéns do Scream & Yell para estes dois grandes sinônimos de cultura independente do País. Mais sobre o Festival Garimpo aqui.
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E o disco do Babyshambles, hein. Já virou vício agora. Ouço no computador no trabalho, no celular quando estou indo pra casa, e no computador em casa. Já está na seleção da próxima discotecagem que irá acontecer em Curitiba, qualquer dia do mês que vem…
Setembro 28, 2007 3 Comments



















