texto de Davi Caro
Já é mais do que canônica a inspiração que Geezer Butler, membro fundador do Black Sabbath, credita ao cinema de terror dos anos 1950 e 1960 para a atmosfera funesta, sombria e sutilmente perigosa que sua banda experimentou criar – por consequência, lançando mão da pedra angular do heavy metal. Mais do que isso: em sua biografia, “Into The Void”, o baixista elabora a intenção de canalizar, no som, a mesma sensação amedrontadora que o cinema de terror conjurava nas telas.
Ainda que quase sessenta anos tenham passado, pode-se dizer que o gênero finalmente internalizou uma proposta parecida. Afinal, uma coisa ficou bem clara desde o início da divulgação do horror canadense “Undertone” – do estreante Ian Tuason – que debutou em festivais no ano passado, para ganhar exibições nos EUA em Março de 2026 e chegar, agora, ao VOD: o longa-metragem, distribuído pela A24, mira abertamente em proporcionar uma experiência na qual o que se ouve é tão importante quanto aquilo que se vê. E, muitas vezes, ainda mais importante. Com um elenco impressionante de tão enxuto, sem contar com grandes nomes e dispondo de escolhas estéticas que contribuem para um aspecto (sempre) claustrofóbico e (às vezes) surreal, “Undertone” é um projeto com um objetivo muito bem definido. E acerta seu alvo mais do que erra.
Evy (Nina Kiri) é uma jovem que enfrenta um verdadeiro inferno pessoal: o de servir como cuidadora da mãe (Michele Duquet), uma mulher em coma. O único salvaguardo da moça é o podcast “The Undertone”, que ela apresenta junto ao amigo Justin (Adam DiMarco), com quem se comunica à distância. Focado em relatos sobrenaturais, o programa encontra um novo tópico instigante quando este último recebe um e-mail anônimo, com um texto sem qualquer sentido aparente, e com dez arquivos de áudio em anexo. É quando os dois co-apresentadores (e sua audiência) passam a ser testemunhas auditivas daquilo que inicia como gravações corriqueiras do sono de um casal, para depois se revelar como o registro de macabros eventos. Em paralelo a isso, e compelida a desmentir o que acredita ser uma farsa, a cética Evy começa a buscar por mensagens ocultas por trás de canções infantis – e se depara com enigmas mais sinistros do que poderia esperar. Algo relacionado ao perturbador caso que seu podcast procura desvendar e, para sua surpresa, com seu próprio drama pessoal, que agora se transforma gradualmente em tormento particular.

Se a quantidade reduzida de intérpretes envolvida em “Undertone” poderia dar pano para a manga do ceticismo, qualquer dúvida é prontamente desarmada logo nos primeiros minutos do filme: expressiva, Nina Kiri exala versatilidade, com sua Evy transitando entre momentos de pleno auto-controle e pânico descontrolado. Assim, a atriz comanda seu tempo de tela de modo ímpar, interagindo com o espaço insular da casa que sua personagem habita com a mesma naturalidade demonstrada em suas cenas com a mãe da jovem podcaster. Embora não apareça efetivamente, no entanto, Adam DiMarco também se faz presente na pele (e na voz) de um Justin ao mesmo tempo deslumbrado e estável, mostrando o mesmo nível de dedicação que trouxe destaque ao ator na segunda temporada da série “The White Lotus”. Ainda que quaisquer outras participações sejam limitadas a aparições auditivas pontuais, o senso de envolvimento na trama tem, através do foco certeiro em sua protagonista e em seu drama pessoal, um dos principais alicerces para seu êxito enquanto obra de horror.
O outro alicerce tem a ver – como não? – com o uso magistral do som. Entre a sutileza de alinhar o uso de barulhos incidentais com iluminação ambiente e a minúcia de preservar o caráter dúbio nas gravações transmitidas pelo podcast, o maior acerto do planejamento auditivo e estético de Ian Tuason e equipe está em deixar o suficiente para a imaginação do espectador. Ao invés de se amparar em truques baratos a fim de mascarar resoluções pouco satisfatórias de roteiro apenas para jogar a tarefa de interpretação nas costas de sua audiência, o diretor opta por incorporar mitologias existentes no mundo real em serviço da própria história, e não o contrário. Assim, o longa nunca parece buscar ser mais do que poderia (ou deveria) ser, mantendo o foco na narrativa de sua personagem central e apenas fazendo referência a elementos externos quando estritamente necessário. Mesmo o aprofundamento da história pregressa dos personagens existe, aqui, no que diz respeito diretamente à narrativa que está sendo contada, e ouvida. Tudo isso faz com que seja ainda mais lastimável o não-lançamento de “Undertone” aos cinemas brasileiros: a profundidade de uma produção como esta seria infinitamente mais palpável (e aterrorizante) com uma capacidade maior de som.
A grande carta na manga desta produção, no entanto, é saber lançar mão de elementos técnicos de maneira inventiva sem nunca tirar o foco do aspecto pessoal, quase intimista, da narrativa. Tuason já falou sobre como a experiência de cuidar dos pais, que sofreram de câncer terminal em meados de 2020, acabou influenciando na feitura do roteiro e na caracterização da personagem central. As escolhas e rompantes emocionais de Evy no filme, embora por vezes dolorosos de testemunhar, dificilmente suscitam outra coisa senão a empatia de quem já se viu em posição semelhante: se deparar com uma situação que escapa ao controle, e se ver impotente diante da inegável natureza da mortalidade são, afinal, elementos inerentes à experiência humana, seja agora ou em qualquer outro momento do passado. Não fosse pelos esperados elementos sobrenaturais, “Undertone” poderia facilmente passar como um drama dos mais instigantes.
Não é raro ver, nos dias atuais, o termo “pós-horror” sendo jogado de um lado para o outro – especialmente no que diz respeito às produções lançadas e distribuídas pela A24. Se o estúdio se tornou sinônimo de qualidade e inventividade (embora ocasionalmente divisivo), por outro lado, suas incursões no gênero do cinema “de medo” são, não raro, marcadas por projetos nos quais elementos aterrorizantes, e especialmente sobrenaturais, acabam sendo subvertidos em prol da exploração dos rincões mais inóspitos da psiquê humana. Desde tempos imemoriais, filmes de terror são (re)conhecidos como portais por meio dos quais espectadores podem se deparar com os vislumbres mais horripilantes da imaginação humana. “Undertone” se sobressai, tal qual vários outros lançamentos contemporâneos, ao sublinhar a audição, este instinto tão primitivo, como a principal janela para um tipo diferente de terror – atmosférico, intimista e imprevisível – com resultados ímpares. O cinema de terror, tal qual os filmes que cativaram Geezer Butler e muitos outros, é historicamente apontado como um dos catalisadores para o medo do escuro; o principal legado de “Undertone”, agora e nos anos que se seguirão, é salientar, provocar ou mesmo despertar um outro tipo de medo: o do silêncio.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
